A crônica de Fernando Sabino

Versátil e prodigiosa foi a vida do escritor Fernando Sabino. Autor de contos, romances e crônicas, obtendo êxito em todos eles.

Nascido em Minas Gerais, em 12 de outubro de 1926, Fernando Sabino foi um dos mais reconhecidos cronistas brasileiros. Além de crônicas, Sabino também foi autor de contos, novelas, romances e dicionário. Ingressou no jornalismo aos 13 anos, com um conto policial.

Depois disso ganhou prêmios e fundou um jornalzinho no Ginásio Mineiro, iniciando assim a sua produção de artigos, crônicas e contos em revistas como a Alterosas e a Belo Horizonte. De colaborador, passou a redator de jornais e periódicos como a Folha de Minas, O Diário, o jornal literário do Rio Dom Casmurro, Anuário Brasileiro de Literatura, revista Mensagem e revista Alterosa.

Fernando Sabino
Fonte: https://bit.ly/2PdSpfh

Começou a publicar em livro com os contos de “Os grilos não cantam mais”, em 1941, aos dezoito anos. Em 1946, depois de se formar em Direito na Faculdade Nacional de Direito, viajou com Vinicius de Moraes aos Estados Unidos. O escritor morou por dois anos em Nova Iorque, onde exercia função burocrática no consulado brasileiro. Nesse período, colaborou com crônicas para o Diário Carioca e O Jornal. As crônicas reunidas do período foram publicadas na obra A Cidade Vazia (1950).

Nos anos 1960, inicia um período de viagens e até de empreendedor no mercado das editoras. Publica diversas obras durante o período, como O Homem nu (1961), A mulher do vizinho (1962). Funda a Editora o Autor, depois a editora Sabiá. Em 1964, muda-se para Londres, onde passa a exercer função de adido cultural junto à embaixada brasileira. Torna-se correspondente do Jornal do Brasil. Colabora na BBC e com as revistas Manchete e Claudia.

Nos anos 70, com a Bem-te-vi Filmes, viaja promovendo, para a TV Globo e para o Itamaraty, uma série de documentários cinematográficos denominados Literatura Nacional Contemporânea, sobre escritores brasileiros. Publicou “O grande mentecapto” em 1979, iniciado mais de trinta anos antes. Nos anos 80 e 90 continuaria a colaborar em jornais e revistas, além de publicar novas obras como O menino no espelho (1982), A faca de dois gumes (1985), O tabuleiro de damas (1989) e Zélia, uma paixão (1991). Fernando Sabino faleceu no dia 11 de outubro de 2004, na cidade do Rio de Janeiro, um dia antes de completar 81 anos.

Veja esta resenha de “O grande Mentecapto” feita pelo canal “Ler antes de morrer”:

A crônica e a leitura no cotidiano

Sabino escreveu crônicas sobre diversas situações e circunstâncias ocorridas em sua vida, transpondo para o leitor sua percepção através de um olhar sensível e peculiar. Contudo, suas preocupações transcendiam às questões simples da vida, pois Sabino demonstrava suas inquietações e apreensões com os absurdos da vida. Razão pela qual muitas vezes sua crônica caminha da manifestação social mais imediata, como flagrante do descaso com a vida, para o momento poético, transfigurador da realidade. Veja isto na crônica a seguir:

A ÚLTIMA CRÔNICA

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico.

Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.

A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.)

Em A última Crônica, o relato acontece a partir de um botequim, onde o narrador observa à sua volta os fatos corriqueiros destacando um em especial a chegada de uma pequena e modesta família negra – pai, mãe e filha – que se acomodam numa mesa ao fundo para comemorar o aniversário da menina. O pai conta dinheiro e pede ao garçom uma fatia de bolo do balcão. O narrador passa a observar essa família e a partir dos posicionamentos e atitudes de cada personagem – que parecem obedecer a um “discreto ritual”.

Desde o primeiro momento, notamos a presença de um narrador-autor que está cogitando o momento da escrita, pois quer de terminar o ano com uma crônica especial, mas não se sente inspirado. O trecho inicial se constrói, portanto, a partir da metalinguagem, o autor pretende exibir o momento de sua criação, para o qual se inspira num jogo intertextual com o poema “o último poema”, de Manuel Bandeira. Por meio do diálogo com o leitor, recurso muito utilizado pelo autor, o narrador-autor justifica sua motivação e objetivo. Sabino esboça seu próprio conceito de crônica, uma vez que, para ele, são vários os assuntos que mereceriam ser crônicas: “quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico”. Afinal, uma crônica nada mais é do que uma construção de elementos ficcionais a partir de acontecimentos reais. Remetendo à ideia do circunstancial, do efêmero, do corriqueiro, faz uso de uma linguagem simples e breve, que conduz o leitor rapidamente à visualização da cena descrita.

Confira agora outra crônica de Sabino:

O MELHOR AMIGO

A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio ressabiado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a distância. Como a mãe não se voltasse para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.

– Meu filho? – gritou ela.
– O que é – respondeu, com o ar mais natural que lhe foi possível.
– Que é que você está carregando aí?
Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido, tentou ainda ganhar tempo.
– Eu? Nada…
– Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
Pronto: estava descoberto. Não adiantava negar – o jeito era procurar comovê-la.Veio caminhando desconsolado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
– Olha aí, mamãe: é um filhote…
Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
– Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
– Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
Sabia que não adiantava: ela já chamava o filhote de isso. Insistiu ainda:
– Deve estar com fome, olha só a carinha que ele faz.
– Trate de levar embora esse cachorro agora mesmo!
– Ah, mamãe… – já compondo uma cara de choro.
– Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero animais aqui em casa. Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado:
A gente também não tem nenhum direito nesta casa – pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado desta maneira!
– Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! – gritou, lá do quarto, e ficou esperando a reação da mãe.
– Dez minutos – repetiu ela, com firmeza.
– Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
– Você não é todo mundo.
– Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não faço mais nada.
– Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
– A senhora é ruim mesmo, não tem coração!
– Sua alma, sua palma.
Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
– Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
– Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais ninguém nesta vida.
– E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
– Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
– Deixa de conversa: obedece sua mãe.
Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa.
– Pronto, mamãe!
E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros.
– Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava, murmurou pensativo.

Fonte: http://www.contioutra.com/o-melhor-amigo-cronica-de-fernando-sabino/

Como você pode ver, a crônica se ocupa do cotidiano em seu fato corriqueiro e banal. O texto parte de um acontecimento assim e o desfecho óbvio é que é subvertido. A ideia: mostrar com algum sarcasmo a perversão da criança, que é um pouco da perversão humana, comum, e cotidiana como a ação dessa crônica. O tema da infância perdida, da recuperação da inocência, da busca do olhar sem vícios, será recorrente e crucial na obra de Sabino. O autor faleceu aos 81 anos de idade, em outubro de 2004. Por último, leia agora outra crônica que aborda de Sabino que confirma essa sua predileção ao tema pueril:

Dez minutos de idade

A enfermeira surgida de uma porta me impôs silêncio com o dedo junto aos lábios e mandou-me entrar.

Estava nascendo! Era um menino.

Nem bonito, nem feio; tem boca, orelhas, sexo e nariz no devido lugar, cinco dedos em cada mão e em cada pé. Realizou a grande temeridade de nascer, e saiu-se bem da empreitada. Já enfrentou dez minutos de vida. Ainda traz consigo, nos olhinhos esgazeados, um resto de eternidade.

Portanto alegremo-nos. A vida também não é bonita nem feia. Tem bocas que murmuram preces, orelhas sábias no escutar, sexos que se contentam, perfumes vários para o nariz, mãos que se apertam, dedos que se acariciam, múltiplos caminhos para os pés. É verdade que algumas palavras, melhor fora nunca dizê-las, outras nunca escutá-las. Olhos há que procuram ver o que não podem, alguns narizes que se metem onde não devem. Há muito prazer insatisfeito, muito desejo vão. Mãos que se fecham. Pés que se atropelam. Mas o simples ato de nascer já pressupõe tudo isso, o primeiro ar que se respira já contém as impurezas do mundo. O primeiro vagido é um desafio. A vida aceitou o novo corpo e o batismo vai traçar-lhe um destino. A luta se inicia: mais um que será alvo. Portanto alegremo-nos.

Menino sem nome ainda, não te prometo nada. Não sei se terás infância: brinquedo, quintal, monte de areia, fruta verde, casca de árvore, passarinho, porão fantasma, formigas em fila, pão com manteiga, beira de rio, galinha no choco, caco de vidro, pé machucado. O mundo hoje, tal como estou vendo da janela do meu apartamento, desconfio que te reserva para a infância um miraculoso aparelho eletrocos mogônico de brincar ou apenas uma eterna garrafa de coca-cola e um delicioso chica-bom.

Aceita, menino, esses inofensivos divertimentos. Leva-os a sério, com aquela seriedade da infância; chupa o chica-bom, bebe a coca-cola, desmonta e torna a montar a miraculosa máquina de brincar de nosso século, que a imaginação de teu pai jamais poderia sequer conceber. Impõe a essas coisas e a essa vida que te oferecerão como infância a sofreguidão de tua boca, a ousadia de teus olhos e a força de tuas mãos. Imprime a tudo que tocares a alegria que me destes por nasceres. Qualquer que seja a tua infância, conquista-a, que te abençoo. Dela te nascerá uma convicção. Conquista-a também – e vai viver, em meu nome. Nada te posso dar senão um nome.

Nada te posso dar. No teu primeiro instante de vida a minha estrela não se apagou. Partiu-se em duas e lá no alto uma delas te espera, será tua. Nada te posso dar senão um nome e esta estrela. Se acreditares em estrela, vai buscá-la…

Fonte:
SABINO, Fernando. As melhores crônicas de Fernando Sabino. 2.ed. RJ: Bestbolso, 2008.

Fernando Sabino e a escritora Clarice Lispector
Fernando Sabino e a escritora Clarice Lispector. Fonte: https://bit.ly/2wngrxy
Para finalizar sua revisão, veja um trecho do documentário sobre Fernando Sabino, do canal Diverso:

Experimente agora fazer alguns exercícios sobre Fernando Sabino:

1) São características da crônica de Fernando Sabino:

I. Gênero narrativo marcado pela brevidade, narra fatos históricos em ordem cronológica.
II. Trata de acontecimentos cotidianos, valoriza a infância e inocência perdidas.
III. Obra de ficção do gênero argumentativo, apresenta narrador, personagens, ponto de vista e enredo.
IV. Gênero que se define por sua pequena extensão, é mais curto que a novela ou o romance, apresentando uma estrutura fechada.
V. Tipo de texto que se caracteriza por envolver um remetente e um destinatário, geralmente é escrito em primeira pessoa.

a) I e II.
b) I e III.
c) IV e V.
d) I e V.
e) III e IV.

2) Com base nas crônicas de Fernando Sabino analisadas no post leia e assinale a alternativa que contra as afirmações VERDADEIRAS:

I. O texto de Fernando Sabino apresenta características do gênero textual crônica.

II. Situada entre o jornalismo e a literatura, a crônica alimenta-se de acontecimentos diários, como sugere o diálogo entre os personagens do texto de Sabino.

III. Além dos acontecimentos diários, também constam na crônica elementos como ficção, fantasia e criticismo.

a) I e II.
b) I, II e III.
c) I e III.
d) II e III.
e) NDA

Gabarito:

1) a
2) b

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.