Narrativa de ficção – Foco narrativo

A narrativa de ficção possui estilos diferenciados, que implicam na visão geral da história. Para melhor interpretar uma obra literária, conheça alguns desses estilos e saiba diferenciá-los.

Toda história – seja um romance, um conto, uma novela, etc. – é obviamente contada por alguém, certo? Pois bem, esse “alguém” é conhecido na Literatura como narrador, que exerce essa função normalmente na 1ª, 2ª ou 3ª Pessoa do Singular.

A opção por uma dessas “pessoas” acontece em razão da necessidade do autor em escolher “quem” ou “o quê” contará a história, ou seja, qual é a perspectiva principal da história. Em outras palavras, qual é o Foco Narrativo dessa história. Tal conceito aponta, portanto, para diferentes tipos de narração. Neste post iremos revisar alguns desses tipos de narrativa. Vem com a gente para arrebentar em Literatura no Enem e nos vestibulares!

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Fonte: https://bit.ly/2Sjt0lJ

Ao exibir uma história, os acontecimentos podem ser mostrados diretamente pelos personagens (Discurso Direto), no ato em que se dão, e sem grande intervenção de um Narrador (como no teatro); ou podem ser Narrados (Discurso Indireto), com os seus detalhes reduzidos ou realçados, podendo mesmo se resumir longos períodos do tempo da história em poucas páginas.

A combinação dos dois resulta no chamado estilo indireto livre, muito presente no romance Moderno. Veja um exemplo desse estilo no trecho a seguir:

“Quincas Borba calou-se de exausto, e sentou-se ofegante. Rubião acudiu, levando-lhe água e pedindo que se deitasse para descansar; mas o enfermo após alguns minutos, respondeu que não era nada. Perdera o costume de fazer discursos é o que era.”

(Machado de Assis, Quincas Borba )

Deu pra Perceber? Há casos, por exemplo, do autor que se assume o personagem da obra, como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, também de Machado de Assis:

“(…) evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”

(Brás Cubas, Ao Leitor. Texto-fonte: Obra Completa, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.)

Nesse caso, por exemplo, a história é contada na Primeira Pessoa do Singular. Desse modo, temos um narrador-personagem, que representa uma espécie de “refletor”, por meio do qual sabemos da história, do seu aspecto visual, seus acontecimentos e falas.

Algumas vezes essa é a maneira como o autor ou o narrador podem expor as suas ideias, mascaradas nesse personagem. Entenda que a Voz que Narra uma história é um papel a ser desempenhado.

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Fonte: https://bit.ly/2TULnz3

Perceba também que o autor sugere ainda que já esteja morto! Ampliando ainda mais a profundidade do recurso narrativo, e distanciando da história a presença de um narrador “neutro” ou isento dos acontecimentos, uma vez que fez parte dos fatos narrados.

Além disso, ele não é um personagem qualquer da história, mas o seu protagonista, o seu personagem central. Perceba que o personagem que narra possui o seu próprio ângulo de visão. Machado de Assis é um especialista nesse tipo de Narrador, quem conhece o romance “Dom Casmurro”, por exemplo, sabe que é justamente o fato de não termos a opinião de um segundo ou terceiro o que sustenta a imprecisão quanto à traição de Capitu.

Há ainda o caso do narrador-testemunha, quando o narrador é uma das personagens que vivem a história contada, mas não é a personagem principal. Ele também capta e relata os acontecimentos sob sua própria perspectiva individual, mas como é personagem secundário da trama, o seu envolvimento é impessoal e imparcial, e o narrador é menos “suspeito” a falar sobre a trama dos personagens centrais.

Exemplos deste tipo de narrador estão presentes em obras como o “Memorial de Aires”, de Machado de Assis, e a obra Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle. Veja:

“Uma das características mais notáveis de Sherlock Holmes era a capacidade de afastar as preocupações de sua frente fixando-se em coisas de menor importância, quando se convencia não lhe ser possível continuar a trabalhar com proveito.”

(O último Adeus de Sherlock Holes, Sir Arthur Conan Doyle)

Em outro caso, temos um Narrador na Terceira Pessoa do Singular, que manterá ainda um distanciamento dos personagens, mas se parecerá mais com a figura de um mediador. Hora poderá ser um narrador onisciente neutro, caracterizando os personagens descrevendo e explicando as situações para o leitor, mas sem instruções, comentários morais ou sobre o comportamento das personagens.

Embora a sua presença seja muito evidente, ele não tenta influenciar o leitor com observações ou opiniões, suas colocações são diretas e se referem à história. O livro “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert e os contos dos irmãos Grimm mostram esse tipo de narrador. Veja alguns trechos dessa última obra:

“Era uma vez uma menina muito querida por todo o mundo que a conhecia, por sua bondade e simpatia, mas acima de tudo querida por sua avó, que seria capaz de se privar de tudo para favorecer a neta. Certa vez, deu -lhe um chapeuzinho de veludo vermelho, e a menina gostou tanto dele, que nunca mais usou outro chapéu. E acabou sendo apelidada de Chapeuzinho Vermelho e praticamente ninguém a chamava por seu verdadeiro nome.
(…)

A avó da menina morava no l imiar da floresta, a meia légua da aldeia e logo que Chapeuzinho Vermelho entrou na floresta, um lobo a viu. A menina ignorava que perigosa criatura ele era, e não teve medo.”

[GRIMM, Jacob (178 5-1863) & GRIMM, Wilhelm (1786 -185 9). Chapeuzinho Vermelho. In: -. Contos de Grimm: obra completa. Tradução de David Jardim Júnior. Belo Horizonte: Itatiaia, 20 08, p. 327 -328.]

No caso do narrador onisciente seletivo, aí sim há um narrador empenhado em apresentar as opiniões, emoções e pensamentos de um ou mais personagens, de modo a influenciar o leitor negativa ou positivamente sobre eles.

A obra “Vidas Secas”, do escritor Graciliano Ramos, contém um exemplo deste tipo de narrador, que também é comum nas obras de Clarice Lispector e Virgínia Woolf. Leia o trecho abaixo da obra de Graciliano Ramos e identifique esse tipo de narrativa:

“Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande – e marchavam, meio confiados, meio inquietos. Olharam os meninos, que olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que estariam pensando? zumbiu Sinha Vitória.

Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas Sinha Vitória renovou a pergunta – e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.”

(Vidas Secas, Graciliano Ramos)

O narrador pode ser do tipo onisciente intruso, quando ocupar posições privilegiadas em relação aos personagens: comentando, analisando e avaliando as suas ações e, quando é o caso, os seus pensamentos. Além disso, poderá também dar detalhes da cena e das circunstâncias da história, que nenhum outro ator da situação seria capaz de conceber.

A visão por trás, segundo a teoria de Jean Pouillon, adota um ponto de vista que vai além dos limites de tempo e espaço, podendo contrastar com a história narrada. Há um exemplo desse tipo de narrador no livro “Quincas Borba”, de Machado de Assis:

Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas que o fosse animando.

(Quincas Borba, capítulo IV)

Há de ressaltar que nada impede uma obra de combinar diferentes tipos de narradores, e que por vezes ocorrem variações sutis entre um e outro. Existem também, é claro, outras teorias e classificações quanto ao narrador, sendo essas citadas algumas das mais básicas e conhecidas.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula do canal ProEnem:

Experimente agora fazer alguns exercícios sobre a Narrativa de Ficção:

1) (FUVEST)

“(…) Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume. Todas essas ações eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro.

O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios, não se notará aqui, por ser tão miúdo e repetido, e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. Mas o principal irá. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. Antes de descoberta aquela má terra da verdade, tivemos outros de pouca dura; não tardava que o céu se fizesse azul, o sol claro e o mar chão, por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo, até que outro pé de vento desbaratava tudo, e nós, postos à capa, esperávamos outra bonança, que não era tardia nem dúbia, antes total, próxima e firme (…)”.

(Fragmento do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis)

A narração dos acontecimentos com que o leitor se defronta no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, se faz em primeira pessoa, portanto, do ponto de vista da personagem Bentinho. Seria, pois, correto dizer que ela apresenta-se:

a) fiel aos fatos e perfeitamente adequada à realidade;

b) viciada pela perspectiva unilateral assumida pelo narrador;

c) perturbada pela interferência de Capitu que acaba por guiar o narrador;

d) isenta de quaisquer formas de interferência, pois visa à verdade;

e) indecisa entre o relato dos fatos e a impossibilidade de ordená-los.

2) (UFV) Considere o texto:

“O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia. (…) Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma ideia mais clara do palco, do cenário e principalmente dos personagens principais, bem como da comparsaria, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana.”

(Fragmento do livro Incidente em Antares, de Érico Veríssimo)

Assinale a alternativa que evidencia o papel do narrador no fragmento acima:

a) O narrador tem senso prático, utilitário e quer transmitir uma experiência pessoal.

b) É um narrador introspectivo, que relata experiências que aconteceram no passado, em 1963.

c) Em atitude semelhante à de um jornalista ou de um espectador, escreve para narrar o que aconteceu com x ou y em tal lugar ou tal hora.

d) Fala de maneira exemplar ao leitor porque considera sua visão a mais correta.

e) É um narrador neutro, que não deixa o leitor perceber sua presença.

3) (Enem)

A partida

Acordei pela madrugada. A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restava-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar mais nem uma hora naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.

Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras…Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?

LINS, O. A partida. Melhores contos. Seleção e prefácio de Sandra Nitrini. São Paulo: Global, 2003.

No texto, o personagem narrador, na iminência da partida, descreve a sua hesitação em separar-se da avó. Esse sentimento contraditório fica claramente expresso no trecho:

a) “A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir”

b) “Restava-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco”

c) “Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama”

d) “Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e amor”

e) “Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras…”

Gabarito:

1) b
2) c
3) e

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.