Trovadorismo

Conheça mais sobre o Trovadorismo, um movimento literário que está na origem da literatura medieval portuguesa. Revise Literatura para o Enem!

O Trovadorismo foi um movimento literário surgido em meados do século XI na região da Occitânia – onde hoje se localizam França, Itália, Mônaco e Espanha – especialmente na antiga Provença, hoje o sul da França. Posteriormente o Trovadorismo espalhou-se por toda Europa.

O período seria marcado pela Reconquista Cristã, momento em que as nações cristãs da Península Ibérica começaram o seu processo de independência. Assim sendo, o controle progressivo da península – que vinha sendo dominada pelos muçulmanos – ganhou destaque por ter possibilitado a fundação de novos reinos cristãos como o Reino de Portugal e o Reino de Castela, precursores de Portugal e da Espanha.

A Igreja Católica, portanto, passaria a dominar inteiramente a Europa, e sua influência sentida na vida cotidiana e política dos novos reinos. Sendo uma religião baseada no teocentrismo – que é uma doutrina que coloca Deus no centro de todas as coisas – a igreja justificava a posição do homem no Universo, posto à mercê dos valores ditados pela Igreja.

O sistema político-econômico da época, chamado de Feudalismo, estava baseado numa sociedade rural e autossuficiente. A igreja defendia a ideia de que Deus definia a condição em que a pessoa veio ao mundo, cabendo a esta aceitar a sua sorte e nível social sem questionar. A posição e o status social, portanto, eram determinados pelo nascimento e pela posse de terras e propriedades.

Além do clero (pessoas ligadas à igreja), havia também os nobres (cavaleiros, donos de terras e recursos bélicos) e os servos (camponeses e escravos). O senhor feudal, também chamado suserano, transferia a posse de parte de suas terras a um vassalo, que por sua vez tinha a obrigação de cultivá-las e repassar parte da produção de volta ao senhor. Em troca, recebiam proteção militar e judicial no caso de possíveis ataques e invasões.

Bom lembrar que quase não havia comércio ou moeda e o escambo era o responsável pela maioria das transações de bens e produtos. Essa relação de subordinação ficou conhecida como vassalagem.

A maioria da população, os camponeses, que ficaram conhecidos como servos, viviam miseravelmente em propriedades de terra que pertenciam aos nobres. Estavam presos às terras dos senhores feudais por meio de obrigações, como prestações de serviços e pagamentos de impostos e taxas – eram os únicos que pagavam impostos e que efetivamente trabalhavam. A seguir, perceba como essas relações entre servos, nobres e a igreja desempenharam um papel essencial na concepção do Trovadorismo.

Bardos e Trovadores

Na época do Trovadorismo, somente as pessoas da Igreja sabiam ler e tinham acesso à educação. Mesmo a nobreza não tinha essa tradição, sendo comum e até um sinal de status o emprego de membros do clero para realizar a leitura oral dos manuscritos.

As apresentações das Cantigas dos Trovadores eram performáticas, os poemas eram feitos para serem cantados, muitas vezes com o acompanhamento de instrumentos, especialmente o alaúde. Os artistas eram divididos entre Trovadores (compositores de origem nobre) e Jograis (servos, poderiam ser distintos também pela condição de profissionais da música).

Estilo das Cantigas Medievais

A primeira coisa que se nota, claro, é o português medieval, bem diferente do nosso. É comum encontrar textos acompanhados de notas ou glossários – como nesse post – mas é preciso ter imaginação e persistência para perceber o significado de algumas frases. A dica principal é conhecer as cantigas, de modo que as diferenças fiquem mais perceptíveis. Hoje em dia é fácil encontrar traduções de trovas para o português contemporâneo na internet, e fazer exercícios também ajudará muito, claro!

As canções podiam ter refrão ou não (cantiga de mestria: sem refrão). Os versos eram rimados, reunidos normalmente em até duas ou três estrofes, medidos em variantes de 5 (redondilha menor) a até 10 (decassílabo) sílabas poéticas (como a cantiga acima), o uso de paralelismo (repetição de versos) e anáforas (repetição de grupo de palavras), reforça a importância da musicalidade no Trovadorismo.

Lembre-se de que a maioria das pessoas não era alfabetizada, e a musicalidade dos versos, além do motivo estético, servia também para facilitar a sua memorização. As cantigas envolviam diversas situações cotidianas e diálogos, além disso, eram muitas as referências e descrições da natureza, inclusive dando voz a ela (prosopopeia). Dividem-se as cantigas entre:

Cantigas de Amor: a obra do Trovador (um nobre, portanto) Paio Soares Taveirós, a cantiga de amor “A Ribeirinha”, é considerada a primeira obra em língua galaico-portuguesa, escrita da primeira metade do século XIII:

No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me vai,
ca ja moiro por vós – e ai!
mia senhor branca e vermelha,
Queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia!
Mao dia me levantei,
que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, des aquelha
me foi a mí mui mal di’ai!,
E vós, filha de don Paai
Moniz, e ben vos semelha
d’haver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d’alfaia
nunca de vós houve nen hei
valía dũa correa.

Glossário:

non me sei parelha: não sei de ninguém igual a mim.
branca e vermelha: a cor branca da pele, contrastando com o rosado do rosto.
retraia: pinte, retrate, descreva.
en saia: sem manto.
que: pois
dês: desde
semelha: parece
mentre: caso
guarvaia: manto luxuoso usado pela nobreza.
alfaia: presente
valia d’un correa: objeto de pequeno valor.

O eu lírico relata o dia que descobriu o amor e o início de sua desventura:

“Maldito seja o dia em que me levantei/
E então não vos vi feia!/ E minha senhora, desde aquele dia, ai!/
Tudo me ocorreu muito mal!.”

Vê-se aqui um exemplo da coita, que é sofrimento gerado pelo amor. Dotada de eu lírico masculino, a cantiga de amor também é caracterizada pela vassalagem amorosa (lembre-se do vassalo, do feudalismo) ocorria quando o poeta, na posição de fiel vassalo, se colocava a serviço de sua amada (mia senhor), colocando-se – ainda que desejoso – na posição de indigno dele.

Por esses serviços o poeta rende–lhe homenagens e canta as qualidades e o valor de seu amor. Sendo este amor apenas platônico, ou seja, idealizado, retratado como um sonho impossível de acontecer, ele recebe o nome de amor cortês. O ideal cavalheiresco instaura a figura amada num pedestal, elevada (sugerindo uma relação entre indivíduos de classes sócias distintas) por um eu-lírico puro e gentil. Por essa distância, canta também o trovador sobre a dor de sua coita, que é o “sofrimento amoroso”, que é a principal característica das cantigas de amor.

Cantigas de Amigo: possuem eu-lírico feminino, eram endereçadas a seus amados, nomeados como “amigos”, pois considerava-se à época inadequado uma mulher dirigir-se à um homem dessa maneira publicamente. A mentalidade da época baseada no teocentrismo dava base estrutural à cantiga de amigo, em que o amor espiritual e inatingível é retratado.

Interessante notar também que à época era comum a presença de homens representando eu-lírico feminino, baseando-se – esse fato – na tradição de negar voz efetiva às mulheres em apresentações públicas, sendo substituídas por homens fazendo papéis femininos, como no teatro grego. Dom Diniz, rei de Portugal, autor de destacadas cantigas, além de grande apoiador do Trovadorismo, também foi autor de algumas cantigas de amigo, veja uma célebre:

Ai Flores do Verde Pino

__ Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?

__ Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do qui mi á jurado!
Ai Deus, e u é?

__ Vós me perguntardes polo voss’amigo,
e eu bem vos digo que é san’vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me perguntardes polo voss’amado,
e eu bem vos digo que é viv’e sano.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san’vivo
e seera vosc’ant’o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv’ e sano
e seera vosc’ant’o prazo passado
Ai Deus, e u é?

(D. Dinis, in. MOISÈS M. A literatura portuguesa através dos textos. Cultrix. 29 ed. ,1968 p. 29)

Glossário:

pino: pinheiro
novas: notícias
e u é?: e onde ele está?
do que pôs comigo: aquilo que combinou comigo.
preguntades: perguntais
polo: pelo
que é san’e vivo: vivo e com saúde
ant’o prazo saído: antes de terminar o prazo.

Esta é, seguramente, a mais conhecida cantiga de D. Dinis, e uma das mais célebres da Lírica Galego-Portuguesa. O ambiente é idílico, ou seja, bucólico e pastoril. A cantiga está estruturada num canto responsorial, em que dialogam o eu-lírico feminino que ouve a resposta das “flores do verde pino”. O eu lírico canta a falta de seu amigo. O tempo passa, e a sua ausência a inquieta e enche de dúvidas, no que tem os ânimos acalentados pela resposta das flores.

Contudo, ainda que expressivamente menos numerosas – e conhecidas – existiram, claro, as chamadas trobairitz e jogralesas, como é o caso de Alamanda de Castelnau, Almucs de Castelnòu, Iseut de Capio, Azalaís de Porcairagues, Maria de Ventadorn, Tibors de Sarenom, Na Castelloza, Garsenda de Proença, Gormonda de Monpeslier e a Condessa de Diá. Essa última, Condessa de Dia, trata-se de uma das mais célebres trobairitz, e é a única cantiga cuja melodia foi também conservada.

A chantar m’er de so qu’ieu non volvria,
Tan me rancur de lui cui sui amia,
Car ieu l’am mais que nuilla ren que sia:
Vas lui no .m val merces ni cortesía
Ni ma beltatz ni mos pret ni mos sens,
C’atressi .m sui enganad’e trahïa
Com degr’ esser, s’ieu fos desavinenz.

(Tradução)

Ponho-me a cantar o que não queria,
Queixo-me tanto de quem sou a ‘amiga’
Pois amo-o mais que tudo nesta vida:
Mas nada o toca: dó, nem cortesia,
Nem m´alma, beleza e valores tantos
Por ele sou enganada e traída,
Assim como se me faltassem encantos.***

Vemos nessa cantiga o termo ”amiga”, para cantigas de eu-lírico feminino. Também o distanciamento do objeto amado, a coita d’amigo da cantiga, fundada sobre hipótese melancólica e sobre a razão de sua ausência, a sua falta de “encantos”.

Cantigas de Escárnio ou Maldizer: correspondia a sátira e tinha o intuito de ofender ou menosprezar alguém, que poderia ser outro compositor, uma mulher a quem não se quis bem, ou também alguém de classe social igual ou diferente.

Ai dona fea! Fostes-vos queixar
porque vos nunca louv’ en meu trobar:
mais ora quero fazer un cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia !
Ai dona fea! Se Deus mi perdon!
e pois havedes tan gran coraçon
que vos eu loe en esta razon,
vos quero já loar toda via;
e vedes qual sera’a loaçon:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bom cantar farei
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!

CANTIGA Nº 203 (CBN. 1486; CV. 1097),

Glossário

1 – trovar
2 – mas agora
3 – louvarei sempre,
inteiramente
4 – louca
5 – louvor

Essa trova, de autoria de Joan Garcia De Guilhade é um trova direcionada à uma dama que desejava ser louvada pelo Trovador que, não acreditando que seja ela digna de sua arte, escreve essa cantiga escarnecendo dessa situação e da senhora em questão. Vejamos mais outra cantiga de escárnio:

Roi Queimado morreu con amor
en seus cantares, par Santa Maria,
por ua dona que gran ben queria;
e, por se meter por mais trobador,
por que lh’ ela non quis[o] ben fazer,
feze-s ‘el en seus cantares morrer;
mais ressurgiu depois ao tercer dia.
(Pero Garcia Burgalês, CV 988)

Esto fez el por ũa sa senhor
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i maestria,
enos cantares que faz, á sabor
de morrer i e des i d’ar viver;
esto faz el que x’o pode fazer,
mais outr’omem per ren’ nono faria.

E non á já de sa morte pavor,
senon sa morte mais la temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s’] en seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.

E, se mi Deus a mim desse poder
qual oj’el á, pois morrer, de viver,
já mais morte nunca temeria.

(Cancioneiro da Vaticana, 988)

(Tradução para o português moderno de Deane Barroqueiro )

Rui Queimado morreu de amor
nos seus cantares, por Santa Maria,
por uma dona a quem muito queria:
e, para se mostrar melhor trovador,
porque ela não lhe quis bem fazer,
fez-s’ele em seus cantares morrer,
mas ressuscitou ao terceiro dia!

Isto fez ele pela sua senhora
a que quer grande bem, e mais vos diria:
como cuida que é mestre em trovar,
e nos cantares que faz, tem prazer
em morrer e logo voltar a viver;
isto faz ele que o pode fazer,
mas outro homem por nada o faria.

E não tem já de sua morte pavor,
senão a sua morte mais temeria,
mas sabe bem, por sua sabedoria,
que viverá, depois que morto for,
e faz em seu cantar prender a morte,
voltando logo à vida: vedes que poder
Deus lhe deu, mais do que se podia crer.
E, se me Deus a mim desse o poder
que ele hoje tem, de viver após morrer,
jamais a morte eu temeria.

Essa trova é de autoria de Pero Garcia Burgalês, e foi dirigida a outro Trovador, Rui Queimado. Trata-se de uma paródia que envolve a relação amor e morte – comum nas cantigas de amor do trovadorismo – ao mesmo tempo em que deprecia o talento poético de Rui Queimado.

Tenções

As tensões ou tenções, tinham por característica o enfrentamento entre dois trovadores. Numa tradição mais próxima, temos os “rojões” e “desafios” dos cordelistas nordestinos e – mais próxima ainda – temos as batalhas de rap como exemplos bem claros do que ocorria nessas competições.

Dois versejadores, que poderiam estar disputando uma donzela, ressaltam suas qualidades e depreciam as características e o talento do rival, e vice-versa. Também podiam retratar conflitos políticos e sociais. Ao poeta que iniciasse o pleito, caberia a escolha da forma poética que deveria ser adotada pelo adversário.

Cancioneiros

As cantigas, depois de apresentadas, foram manuscritas e postas em grandes coletâneas chamadas Cancioneiros. Existiram diversos Cancioneiros como: os galego-portugueses “Cancioneiro da Ajuda”, “Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa” (Colocci-Brancutti) e o “Cancioneiro da Vaticana”.

A mais antiga manifestação literária galaico-portuguesa é a cantiga “Ora faz host’o senhor de Navarra”, do trovador português João Soares de Paiva ou João Soares de Pávia, composta por volta do ano 1200. O Trovadorismo foi a primeira escola literária portuguesa, e duraria até por volta do século XV, época do início do Quinhentismo em Portugal.

Para fixar o conteúdo, veja a super aula da prof. Camila:

Dica: Para entender melhor o assunto das mulheres trovadoras, recomendo a leitura do artigo “Vozes femininas da Idade Média: Auto-representação, corpo e relações de gênero”, de Luciana Calado Deplagne. (DELAPLANE, Luciana Calado. Vozes femininas da Idade Média: Auto-representação, corpo e relações de gênero. Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008.)
Experimente agora fazer alguns exercícios sobre o Trovadorismo e as cantigas medievais:

01. (ESPCEX) É correto afirmar sobre o Trovadorismo que

a) os poemas são produzidos para ser encenados.

b) as cantigas de escárnio e maldizer têm temáticas amorosas.

c) nas cantigas de amigo, o eu lírico é sempre feminino.

d) as cantigas de amigo têm estrutura poética complicada.

e) as cantigas de amor são de origem nitidamente popular.

Gabarito:

01 – C

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.