Vacinas e o movimento anti-vacinação

No Brasil, cresce a cada dia um movimento contrário às vacinas. No entanto, a vacinação tem eficácia cientificamente comprovada e é muito importante como estratégia de saúde pública. Conheça os vários tipos de vacinas e aprenda mais sobre como elas são produzidas e como funcionam na prevenção de doenças muito sérias.

É certo que o começo das vacinas não foi nada ético: injetar pus de feridas de uma pessoa com varíola em uma criança saudável seria um experimento inaceitável no meio científico atual. Porém, o experimento de Jenner abriu portas para um dos mais importantes instrumentos médicos de prevenção de todos os tempos – a estimulação da imunidade pelas vacinas.

Para você ter uma ideia do quanto a vacinação é importante, no início do século passado, antes de as vacinas se popularizarem, uma em cada cinco crianças morria de uma doença infecciosa antes dos cinco anos. Ou seja, inúmeras crianças morriam de doenças facilmente prevenidas hoje, como o sarampo. A partir disso, é possível afirmar que se não fossem as vacinas haveria grandes chances de eu não estar escrevendo este texto agora ou você o lendo.

Porém, apesar de suas vantagens comprovadas (tanto através de experimentos científicos, como pelos números de diminuição de mortalidade em todos os países que têm vacinação continuada) há grupos de pessoas que militam de maneira quase religiosa contra a vacinação e se negam veementemente a imunizar seus filhos.

Quais seus argumentos? Quais as consequências da adesão da população a este movimento? Como funcionam as vacinas? Como são produzidas? Saiba disso e muito mais neste post para você arrebentar na elaboração de uma Redação e nas questões de Ciências da Natureza e de Atualidades do Enem e dos vestibulares!

Como surgiram as vacinas?

A história das vacinas está diretamente ligada aos males causados pela varíola. Desde a antiguidade, registros mostram que a varíola era um mal que apavorava as pessoas. A doença, com altas taxas de mortalidade, especialmente entre as crianças, causava feridas purulentas e dolorosas em todo o corpo. Muitos morriam e quem sobrevivia geralmente ficava com inúmeras cicatrizes pelo corpo, resultado das feridas infeccionadas. Alguns sobreviventes até tinham os rostos desfigurados, tamanha a gravidade da doença.

Em meados de 1796, um médico inglês, chamado Edward Jenner (1749 – 1823) observou que pessoas que ordenhavam vacas e haviam pego a varíola bovina dos seus animais apresentavam a doença de forma branda e, posteriormente, não voltavam a se infectar com nenhuma das variedades de varíola. Jenner então extraiu pus das feridas de uma mulher infectada com a variedade animal da varíola e injetou em um menino saudável de 8 anos.

Como Jenner esperava, o garoto ficou doente, apresentando os sintomas mais brandos da varíola bovina. O menino ficou sadio novamente rapidamente e então, dois meses depois, Jenner inoculou na criança uma porção de pus de uma pústula de um doente que havia contraído varíola humana. E, assim como o médico suspeitava, apesar de ter recebido material contaminante, o menino não ficou doente. Estava imunizado.

Veja representação do Dr Edward Jenner (1749-1823) realizando sua primeira vacinação em James Phipps, um menino de oito anos, em 14 de maio de 1796. Pintura de E. Board, atualmente localizada no The Welcome Museum, em Londres.

Jenner publicou os resultados do seu experimento em uma revista científica da época. Mas, sua ideia somente se tornou relevante quando médicos de outros países europeus passaram a realizar experimentos parecidos e obtiveram, assim como Jenner, imunização de seus pacientes.

Pouco tempo depois, a prática já havia se espalhado pelo planeta. Tanto que no Brasil, em 1811, foi criada a Junta Vacínica da Corte e em 1832 surge a primeira legislação sobre a obrigatoriedade da vacina no Brasil.

Anos mais tarde, já em 1904, ocorre uma enorme epidemia de varíola no Rio de Janeiro e o médico Oswaldo Cruz, então Diretor Geral de saúde Pública (como se fosse um atual Ministro da Saúde), trabalha pela obrigatoriedade da vacina, o que culmina com a famosa Revolta da Vacina.

Essa revolta se configura como o primeiro movimento anti-vacinação do Brasil. Caracterizada por uma série de confrontos violentos entre a população e os militares, o motim popular surgia da desinformação da população que acreditava que a vacinação era uma forma de exterminar a população mais pobre que residia, principalmente, nos cortiços da época.

Veja imagem publicada em um jornal da Filadélfia, EUA, em 1984. Como você pode ver, assim como no Brasil, a população de vários países (devido à desinformação) acreditava que a vacina era um meio de envenenamento da população.vacinação e o movimento anti-vacinas

Como as vacinas funcionam?

Como você pôde ver pelo experimento de Jenner, a ideia de uma vacina é sensibilizar o sistema imunológico de uma pessoa de modo que ela identifique o antígeno e passe a produzir proteção contra ele. Essa proteção é realizada por moléculas de glicoproteinas chamadas de anticorpos, também conhecidos como imunoglobulinas.

Quando um antígeno (como uma bactéria, um vírus ou uma toxina) entram em nosso corpo, gera uma cadeia de respostas imunológicas. Os macrófagos (células que “patrulham” nossos tecidos) capturam as substâncias estranhas presentes no nosso corpo e alertam o sistema imunitário sobre os intrusos.

Em seguida, os glóbulos brancos conhecidos como linfócitos T identificam os antígenos capturados e alertam outro grupo de células brancas: os linfócitos B. Essas células irão produzir os anticorpos, que funcionam como um sistema “chave-fechadura”, ou seja, combatem apenas o antígeno para o qual foi produzido. Todo esse processo, que culmina na produção de anticorpos, pode levar até 15 dias.

Nesse meio tempo, um vírus potente já pode ter feito um grande estrago no organismo ou até matado a pessoa, não é mesmo? Por isso as vacinas são importantes: elas apresentam previamente ao organismo um antígeno que pode lhes causar muito mal, fazendo que o corpo já adiante a sua resposta imunológica.

Mas, fique atento(a) a um ponto sobre as vacinas: Jenner usou material de varíola bovina, que não causava grandes danos ao organismo. Era uma doença mais branda, mas que sensibilizava o organismo levando-o a produzir anticorpos que o defenderiam contra a forma grave da varíola humana. Porém, a maioria das doenças não têm antígenos mais fracos correspondentes. Por isso, os cientistas encontraram diferentes maneiras de manipular os antígenos, tornando-os menos mortais e eficazes em causar doenças, mas ainda assim efetivos para sensibilizarem nosso sistema imunológico e fazer com que ele produza anticorpos. Sendo assim, existem vários tipos de vacinas:

Vacinas inativadas:

São feitas com microrganismos inativos. Esses microrganismos, anteriormente ativos e causadores de doenças,  são destruídos por calor, radiação, antibióticos ou agentes químicos, perdendo as propriedades que os permitiam nos causar doenças. Eles são, então, colocados em uma solução e podem ser administrados aos pacientes. As vacinas contra cólera, gripe, pólio (Salk) e raiva são assim.

Vacinas atenuadas:

São vacinas feitas com microrganismos vivos, porém atenuados. Isso quer dizer que são cultivados de modo que suas características virulentas (aquelas que possibilitam causar a doença e se espalharem) sejam desativadas. São vacinas que, em geral, são mais eficazes na produção de resposta imunológica. Porém, não devem ser utilizadas por pacientes com sistema imunológico deficiente, como pessoas com HIV. As vacinas contra rubéola, sarampo, catapora e febre amarela são exemplos de vacinas atenuadas.

Fique ligado (a)! A vacina contra a poliomielite utilizada por um longo tempo no Brasil era uma vacina atenuada (Sabin) dada via oral para as crianças (lembra do Zé Gotinha)? Atualmente ela vem sendo gradativamente substituída por uma versão mais segura de vacina contra a pólio: a Salk, feita de vírus inativados e administrada via injetável.

Vacinas Toxiode:

As vacinas toxiodes são vacinas produzidas a partir de componentes tóxicos inativados que causam as doenças (e não de microrganismos, como as anteriores). As vacinas contra o tétano são feitas dessa maneira, assim como vacinas contra o veneno de cascavéis que são administradas para animais de estimação em regiões onde há a ocorrência de muitas picadas dessa cobra.

Vacinas de subunidade:

São vacinas feitas com subunidades proteicas presentes nos microrganismos ou nas toxinas que produzem. Essas subunidades são as estruturas que se ligam às células e facilitam a ação da doença. A vacina contra o HPV, por exemplo, é feita com os capsídeos dos vírus.

Movimentos anti-vacinas:

Desde o ano de 2000, o Brasil não apresentava nenhum caso de sarampo autóctone. Ou seja, ninguém havia se infectado no Brasil por sarampo. Porém, em 2013, houve um decréscimo na taxa de vacinação contra a doença. A queda foi seguida de um surto de sarampo, com 1277 casos somente no Ceará e em Pernambuco.

vacinas e o movimento anti-vacinas

A vacina contra o HPV (vírus apontado como a principal causa do câncer do colo de útero) foi introduzida pelo ministério da saúde no calendário de vacinações em 2014. A procura, no início alta, teve tantas baixas que estoques da vacina venceram e foram jogados fora. Nos países vizinhos, como a Colômbia, menos de 20% da população alvo foi vacinada.

Na América do Norte e na Europa, inúmeros casos de doenças tidas como erradicadas começam a surgir em surtos pelos dois continentes.

Mas, por quê? Por quê as pessoas passaram a não acreditar em um método tão importante de prevenção e erradicação de doenças?

Talvez o principal estopim para essa desconfiança tenha sido um estudo produzido pelo médico britânico Andrew Wakefield em 1998. Seu estudo contava com 12 crianças autistas e relatava que oito delas começaram a apresentar os sintomas após terem recebido a vacina tríplice viral. O estudo foi exaustivamente divulgado pela mídia de todo o mundo, deixando os pais com medo e fazendo com que muitos deixassem de vacinar seus filhos.

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Imagem do Dr. Andrew Wakefield.

Wakefield foi pouco a pouco desmascarado e, algum tempo depois, descobriu-se que a maior parte de seus pacientes havia sido indicada por um escritório de advocacia que queria processar indústrias farmacêuticas. Wakefiels perdeu seu registro médico e foi totalmente desacreditado pela comunidade científica.

Mas, a semente já estava plantada. Vários pais de países europeus e da América do Norte se juntaram em movimentos anti-vacinas. Seus argumentos vão desde a consideração de que as vacinas são dadas a crianças com sistemas imunológicos imaturos, passando por movimentos de defesas de animais, até a luta contra as grandes corporações farmacêuticas. Muitos ainda afirmam, com base em estudos duvidosos como o de Wakefiels, que as vacinas seriam as causadoras de autismo e outros distúrbios neurológicos em crianças.

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Banner utilizado por movimentos anti-vacina dos EUA.

No Brasil, correntes propagadas em redes sociais fizeram sua parte no estrago. Em 2016, por exemplo, no auge dos casos de microcefalia causados por zika Vírus, a principal teoria “facebookiana” era que a má formação nas crianças estava associada à vacina contra rubéola dada às gestantes. Muitos meios jornalísticos, inclusive, endossaram essa ideia. Apenas se esqueceram que gestantes não tomam vacina contra rubéola. O mesmo aconteceu para a vacina contra o HPV, que supostamente causava problemas neurológicos.

Mas, quais as consequências dos movimentos anti-vacina?

A vacinação em uma região visa não somente fazer a prevenção individual, mas também a prevenção de uma população em geral. É muito difícil que se consiga vacinar 100% de uma população. Mas, se a maior parte dela for vacinada, a circulação dos antígenos praticamente zera, o que acaba também protegendo as pessoas que não foram tomaram a vacina.

Veja o exemplo da poliomielite: ela foi considerada erradicada do país em 1994, fruto de uma vacinação intensiva. Porém, como o vírus ainda circula em algumas partes do mundo, o Brasil continua vacinando suas crianças contra a pólio.

Mas, se um grande grupo de pais passa a se negar a vacinar seus filhos, abre portas para que o vírus volte a circular na população brasileira, como no caso do sarampo que citamos acima.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o movimento anti-vacina tem crescido tanto que a Associação de Pediatria autorizou que pediatras neguem atendimento de rotina a crianças que não tenham sua caderneta de vacinação completa. E, em muitos estados, as crianças só podem se matricular na escola de tiverem tomados todas as vacinas.

Imagem produzida pela página “Um filme me disse” com cenas da série Dr. House.
Agora, para finalizar sua revisão, veja este webdocumentário sobre a vacinação no Brasil:

 

Sobre o(a) autor(a):

Juliana é bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, ministra aulas de Ciências e Biologia em escolas da Grande Florianópolis desde 2007 e é coordenadora pedagógica do Blog do Enem.