A Revolta da Vacina, Covid-19 e o movimento antivacinção

No Brasil, cresce a cada dia um movimento contrário às vacinas. Em 1904 aconteceu uma rebelião contraria à vacina da varíola. Um século depois, no Covid-19, a polêmica voltou à cena. No entanto, a vacinação tem eficácia cientificamente comprovada. É a melhor estratégia de saúde pública. Conheça os tipos de vacinas, veja como elas são produzidas e como funcionam na prevenção de doenças:

Em 1904 aconteceu A Revolta da Vacina no Brasil. Era o negacionismo da época, contrário à vacina da varíola. Com a pandemia de Covid-19, mais de um século depois, o movimento antivacina ficou novamente em evidência, inclusive com apoio do presidente Jair Bolsonaro (2019-2022).

No entanto, a vacinação tem eficácia cientificamente comprovada e é muito importante como estratégia de saúde pública. Neste post você vai conhecer os vários tipos de vacinas e aprender mais sobre como elas são produzidas e como funcionam na prevenção de doenças muito sérias.

Além disso, vai saber mais sobre a volta do sarampo e outras doenças por causa da baixa cobertura vacinal como consequência do movimento antivacina e do negacionismo.

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A Revolta da Vacina – 1904

Comece o seu resumo pelo histórico da Revolta da Vacina contra a varíola. Confira com o professor Felipe de Oliveira, do canal do Curso Enem Gratuito.

As vacinas anticovid-19 no Brasil

O tema está na pauta de todo brasileiro: você quer, ou não quer a vacina contra o Novo Coronavírus, para se proteger contra a doença do Covid-19? Na Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Rússia, França e outros países a vacina já chegou, e a vacinação começou.

No Brasil, virou uma briga política. O Ministério da Saúde começou propondo começar a vacina anticovid em março de 2021, e perguntava “por que a pressa?”. Depois da pressão da sociedade o governo disse que começaria a vacinação no final de janeiro. Mas ainda não havia comprado nem as seringas suficientes, e nem tinha nenhuma vacina no estoque.

Em dezembro de 2020, mais de 40 países já estavam vacinando sua população, inclusive a Argentina, o México e o Chile, aqui na América Latina. A vacinação é a única forma cientificamente comprovada de realizar a imunização da sociedade poupando vidas. Enquanto a vacina não chegava, a Covid-19 seguiu provocando mortes todo dia.

Entenda o que é o Negacionismo

Confira com o psicólogo João Vianney, diretor do Curso Enem Gratuito, o que significa o negacionismo e as consequências para as campanhas de vacinação no Brasil.

Em janeiro de 2021, o Brasil concentrava mais de 10% do número global de mortos pela doença, sendo que abriga apenas 2,7% da população mundial. Isso mostrava o fracasso da gestão de saúde pública no país, que estava com 3 vezes mais mortes do que seria uma comparação normal com os demais países.

O mau exemplo vem de cima

No Brasil, o Presidente da República comportava-se de maneira contrária aos protocolos de prevenção. Em diversas ocasiões, ignorou as recomendações da OMS e do Ministério da Saúde, provocando aglomeração de pessoas sem máscara.

O fato concreto é que o Brasil largou atrasado perante o mundo no tema das vacinas contra o Novo Coronavírus. Só em dezembro de 2020 foi que o Ministério da Saúde começou a fazer licitações para comprar seringas e buscar acordos para obter vacinas homologadas em outros país.

Foram mais de 6 meses de atraso em relação ao que outros países fizeram. E, como o Brasil já tem no Sistema Único de Saúde uma longa tradição de campanhas de vacinação, assim que as doses do Instituto Butantan e da Fundação Osvaldo cruz ficaram prontas, e somadas às vacinas importadas, rapidamente a campanha deslanchou em 2021 e derrubou a curva de mortes.

Como surgiram as vacinas

A história das vacinas está diretamente ligada aos males causados pela varíola. Desde a antiguidade, registros mostram que a varíola era um mal que apavorava as pessoas. A doença, com altas taxas de mortalidade, especialmente entre as crianças, causava feridas purulentas e dolorosas em todo o corpo.

Muitos morriam e quem sobrevivia geralmente ficava com inúmeras cicatrizes pelo corpo, resultado das feridas infeccionadas. Alguns sobreviventes até tinham os rostos desfigurados, tamanha a gravidade da doença.

Em meados de 1796, um médico inglês, chamado Edward Jenner (1749 – 1823) observou que pessoas que ordenhavam vacas e haviam pego a varíola bovina dos seus animais apresentavam a doença de forma branda e, posteriormente, não voltavam a se infectar com nenhuma das variedades de varíola.

Jenner então extraiu pus das feridas de uma mulher infectada com a variedade animal da varíola e injetou em um menino saudável de 8 anos.

Como Jenner esperava, o garoto ficou doente, apresentando os sintomas mais brandos da varíola bovina. O menino ficou sadio novamente rapidamente. Então, dois meses depois, Jenner inoculou na criança uma porção de pus de uma pústula de um doente que havia contraído varíola humana.

E, assim como o médico suspeitava, apesar de ter recebido material contaminante, o menino não ficou doente. Estava imunizado.

Veja representação do Dr Edward Jenner (1749-1823) realizando sua primeira vacinação em James Phipps, um menino de 8 anos, em 14 de maio de 1796.

Aplicação da primeira vacina
Pintura de E. Board, atualmente localizada no The Welcome Museum, em Londres.

Jenner publicou os resultados do seu experimento em uma revista científica da época. Mas, sua ideia somente se tornou relevante quando médicos de outros países europeus passaram a realizar experimentos parecidos e obtiveram, assim como Jenner, imunização de seus pacientes.

Chegada das vacinas no Brasil

Pouco tempo depois, a prática já havia se espalhado pelo planeta. Tanto que no Brasil, em 1811, foi criada a Junta Vacínica da Corte e em 1832 surge a primeira legislação sobre a obrigatoriedade da vacina no Brasil.

Anos mais tarde, já em 1904, ocorre uma enorme epidemia de varíola no Rio de Janeiro e o médico Oswaldo Cruz, então Diretor Geral de saúde Pública (como se fosse um atual Ministro da Saúde), trabalha pela obrigatoriedade da vacina, o que culmina com a famosa Revolta da Vacina.

Veja imagem publicada em um jornal da Filadélfia, EUA, em 1984. Como você pode ver, assim como no Brasil, a população de vários países (devido à desinformação) acreditava que a vacina era um meio de envenenamento da população.vacinação e o movimento anti-vacinas

Essa revolta se configura como o primeiro movimento antivacinação do Brasil. Caracterizada por uma série de confrontos violentos entre a população e os militares, o motim popular surgia da desinformação da população que acreditava que a vacinação era uma forma de exterminar a população mais pobre que residia, principalmente, nos cortiços da época.

Falta de vacina e mortalidade infantil

Para você ter uma ideia do quanto a vacinação é importante, no início do século passado, antes de as vacinas se popularizarem, uma em cada cinco crianças morria de uma doença infecciosa antes dos cinco anos. Ou seja, inúmeras crianças morriam de doenças facilmente prevenidas hoje, como o sarampo.

A partir disso, é possível afirmar que se não fossem as vacinas haveria grandes chances de eu não estar escrevendo este texto agora ou você o lendo.

Porém, apesar de suas vantagens comprovadas (tanto através de experimentos científicos, como pelos números de diminuição de mortalidade em todos os países que têm vacinação continuada) há grupos de pessoas que militam de maneira quase religiosa contra a vacinação e se negam veementemente a imunizar seus filhos.

Vacinas e o Movimento Antivacinação atual

Confira agora no resumo feito pelo Curso Enem Gratuito com os diversos ângulos da polêmica atual entre quem é a favor das vacinas e quem é contra, e que faz parte do movimento antivacinação:

Além de ser um tema que pode aparecer nas questões do Enem, a crise da vacinação também é uma ótima opção de tema de redação para você praticar.

Como as vacinas funcionam

O questionamento sobre a eficácia das vacinas acaba provocando muitas dúvidas sobre como ocorre seu funcionamento. Por isso, a partir de agora, vamos ver como elas funcionam.

Como você pôde ver pelo experimento de Jenner, a ideia de uma vacina é sensibilizar o sistema imunológico de uma pessoa de modo que ela identifique o antígeno e passe a produzir proteção contra ele. Essa proteção é realizada por moléculas de glicoproteinas chamadas de anticorpos, também conhecidos como imunoglobulinas.

Quando um antígeno (como uma bactéria, um vírus ou uma toxina) entram em nosso corpo, gera uma cadeia de respostas imunológicas. Os macrófagos (células que “patrulham” nossos tecidos) capturam as substâncias estranhas presentes no nosso corpo e alertam o sistema imunitário sobre os intrusos.

Em seguida, os glóbulos brancos conhecidos como linfócitos T identificam os antígenos capturados e alertam outro grupo de células brancas: os linfócitos B. Essas células irão produzir os anticorpos, que funcionam como um sistema “chave-fechadura”, ou seja, combatem apenas o antígeno para o qual foi produzido. Todo esse processo, que culmina na produção de anticorpos, pode levar até 15 dias.

Nesse meio tempo, um vírus potente já pode ter feito um grande estrago no organismo ou até matado a pessoa, não é mesmo? Por isso as vacinas são importantes: elas apresentam previamente ao organismo um antígeno que pode lhes causar muito mal, fazendo que o corpo já adiante a sua resposta imunológica.

Quais são os tipos de vacinas

É preciso ficar atento a um ponto sobre as vacinas: Jenner usou material de varíola bovina, que não causava grandes danos ao organismo. Era uma doença mais branda, mas que sensibilizava o organismo levando-o a produzir anticorpos que o defenderiam contra a forma grave da varíola humana. Entretanto, a maioria das doenças não têm antígenos mais fracos correspondentes.

Por isso, os cientistas encontraram diferentes maneiras de manipular os antígenos, tornando-os menos mortais e eficazes em causar doenças, mas ainda assim efetivos para sensibilizarem nosso sistema imunológico e fazer com que ele produza anticorpos. Sendo assim, existem vários tipos de vacinas.

Vacinas inativadas

São feitas com microrganismos inativos. Esses microrganismos, anteriormente ativos e causadores de doenças,  são destruídos por calor, radiação, antibióticos ou agentes químicos, perdendo as propriedades que os permitiam nos causar doenças. Eles são, então, colocados em uma solução e podem ser administrados aos pacientes. As vacinas contra cólera, gripe, pólio (Salk) e raiva são assim.

Vacinas atenuadas

São vacinas feitas com microrganismos vivos, porém atenuados. Isso quer dizer que são cultivados de modo que suas características virulentas (aquelas que possibilitam causar a doença e se espalharem) sejam desativadas. São vacinas que, em geral, são mais eficazes na produção de resposta imunológica. Porém, não devem ser utilizadas por pacientes com sistema imunológico deficiente, como pessoas com HIV. As vacinas contra rubéola, sarampo, catapora e febre amarela são exemplos de vacinas atenuadas.

A vacina contra a poliomielite utilizada por um longo tempo no Brasil era uma vacina atenuada (Sabin) dada via oral para as crianças. Atualmente ela vem sendo gradativamente substituída por uma versão mais segura de vacina contra a pólio: a Salk, feita de vírus inativados e administrada via injetável.

Vacinas Toxiode

As vacinas toxiodes são vacinas produzidas a partir de componentes tóxicos inativados que causam as doenças (e não de microrganismos, como as anteriores). As vacinas contra o tétano são feitas dessa maneira, assim como vacinas contra o veneno de cascavéis que são administradas para animais de estimação em regiões onde há a ocorrência de muitas picadas dessa cobra.

Vacinas de subunidade

São vacinas feitas com subunidades proteicas presentes nos microrganismos ou nas toxinas que produzem. Essas subunidades são as estruturas que se ligam às células e facilitam a ação da doença. A vacina contra o HPV, por exemplo, é feita com os capsídeos dos vírus.

Movimentos antivacinas

Desde o ano de 2000, o Brasil não apresentava nenhum caso de sarampo autóctone. Ou seja, ninguém havia se infectado no Brasil por sarampo. Porém, em 2013, houve um decréscimo na taxa de vacinação contra a doença. A queda foi seguida de um surto de sarampo, com 1277 casos somente no Ceará e em Pernambuco.

vacinas e o movimento anti-vacinas

A vacina contra o HPV (vírus apontado como a principal causa do câncer do colo de útero) foi introduzida pelo ministério da saúde no calendário de vacinações em 2014. A procura, no início alta, teve tantas baixas que estoques da vacina venceram e foram jogados fora. Nos países vizinhos, como a Colômbia, menos de 20% da população alvo foi vacinada.

Na América do Norte e na Europa, inúmeros casos de doenças tidas como erradicadas começam a surgir em surtos pelos dois continentes.

Mas, por quê? Por quê as pessoas passaram a não acreditar em um método tão importante de prevenção e erradicação de doenças?

Talvez o principal estopim para essa desconfiança tenha sido um estudo produzido pelo médico britânico Andrew Wakefield, em 1998. Seu estudo contava com 12 crianças autistas e relatava que 8 delas começaram a apresentar os sintomas após terem recebido a vacina tríplice viral.

O estudo foi exaustivamente divulgado pela mídia de todo o mundo, deixando os pais com medo e fazendo com que muitos deixassem de vacinar seus filhos.

vacinas e o movimento anti-vacinas
Imagem do Dr. Andrew Wakefield.

Wakefield foi pouco a pouco desmascarado e, algum tempo depois, descobriu-se que a maior parte de seus pacientes havia sido indicada por um escritório de advocacia que queria processar indústrias farmacêuticas. Wakefield perdeu seu registro médico e foi totalmente desacreditado pela comunidade científica.

Mas, a semente já estava plantada. Vários pais de países europeus e da América do Norte se juntaram em movimentos antivacinas. Seus argumentos vão desde a consideração de que as vacinas são dadas a crianças com sistemas imunológicos imaturos, passando por movimentos de defesas de animais, até a luta contra as grandes corporações farmacêuticas.

Muitos ainda afirmam, com base em estudos duvidosos como o de Wakefield, que as vacinas seriam as causadoras de autismo e outros distúrbios neurológicos em crianças.

vacinas e o movimento anti-vacinaBanner utilizado por movimentos antivacina dos EUA.

No Brasil, correntes propagadas em redes sociais fizeram sua parte no estrago. Em 2016, por exemplo, no auge dos casos de microcefalia causados por zika Vírus, a principal teoria “facebookiana” era que a má formação nas crianças estava associada à vacina contra rubéola dada às gestantes.

Muitos meios jornalísticos, inclusive, endossaram essa ideia. Apenas se esqueceram que gestantes não tomam vacina contra rubéola. O mesmo aconteceu para a vacina contra o HPV, que supostamente causava problemas neurológicos.

Quais as consequências dos movimentos antivacina

A vacinação em uma região visa não somente fazer a prevenção individual, mas também a prevenção de uma população em geral. É muito difícil que se consiga vacinar 100% de uma população. Mas, se a maior parte dela for vacinada, a circulação dos antígenos praticamente zera, o que acaba também protegendo as pessoas que não foram tomaram a vacina.

Veja o exemplo da poliomielite: ela foi considerada erradicada do país em 1994, fruto de uma vacinação intensiva. No entanto, como o vírus ainda circula em algumas partes do mundo, o Brasil continua vacinando suas crianças contra a pólio.

Mas, se um grande grupo de pais passa a se negar a vacinar seus filhos, abre portas para que o vírus volte a circular na população brasileira, como no caso do sarampo que citamos acima.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o movimento antivacina tem crescido tanto que a Associação de Pediatria autorizou que pediatras neguem atendimento de rotina a crianças que não tenham sua caderneta de vacinação completa. E, em muitos estados, as crianças só podem se matricular na escola de tiverem tomados todas as vacinas.

Imagem produzida pela página “Um filme me disse” com cenas da série Dr. House.

Nota do Editor: O texto original deste post foi atualizado e complementado pela editoria do Curso Enem Gratuito em 2 de janeiro de 2021, pelo professor e jornalista João Vianney.

Sobre o(a) autor(a):

Juliana Evelyn dos Santos é bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e cursa o Mestrado em Educação na mesma instituição. Ministra aulas de Ciências e Biologia em escolas da Grande Florianópolis desde 2007 e é coordenadora pedagógica do Blog do Enem e do Curso Enem Gratuito.

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