Coesão e Coerência Textual


Neste artigo, você vai aprender de forma simples e didática o que é coesão, o que é coerência, as diferenças entre os dois conceitos e dicas práticas para aplicar em seus textos, seja em redações, trabalhos acadêmicos ou até mesmo no dia a dia. Vamos lá?

Ferramentas fundamentais da escrita

Você já começou a escrever um texto e, no final, percebeu que as ideias não estavam claras, ou que as frases pareciam “soltas”, sem ligação entre si? Isso acontece quando faltam dois elementos essenciais da escrita: coesão e coerência textual. Mais do que termos técnicos da língua portuguesa, eles são ferramentas fundamentais para quem deseja comunicar ideias com clareza e eficiência.

O que é Coesão Textual?

A coesão textual está relacionada aos mecanismos linguísticos que ligam palavras, frases e parágrafos, garantindo fluidez e continuidade. Pense nela como a “cola” que une as partes do texto.

Exemplo simples:

Texto sem coesão:

  • Paula gosta de viajar. Paula gosta de praia. Paula gosta de montanha. Paula gosta de cidade.

Texto com coesão:

  • Paula gosta de viajar, seja para a praia, para a montanha ou até para a cidade.

O que mudou do primeiro para o segundo texto?

  1. Eliminação da repetição: o sujeito “Paula” e o verbo “gosta” aparecem apenas uma vez.

  2. Uso de conectivos: a expressão “seja para… ou até para…” funciona como elemento de ligação entre as opções.

  3. Fluidez: o leitor entende que Paula gosta de diferentes destinos de viagem sem precisar reler várias frases quase idênticas.

Tipos de coesão

1. Coesão referencial

 Substitui um termo já citado por pronomes, sinônimos ou expressões equivalentes.

Exemplo sem coesão:

  • Maria comprou um vestido. Maria gostou muito do vestido. O vestido era azul e Maria queria usar o vestido na festa.

Exemplo com coesão referencial:

  • Maria comprou um vestido. Ela gostou muito da peça. A roupa era azul e Maria queria usá-la na festa.

Aqui, usamos pronomes (ela, -la), sinônimos  (peça, roupa) e repetição moderada para evitar redundância.

  2. Coesão sequencial

Uso de conectivos e advérbios que estabelecem relação lógica entre frases e parágrafos.

Exemplo sem coesão:

  • Estava chovendo. Saí de casa. Me molhei.

Exemplo com coesão sequencial:

  • Estava chovendo, por isso me molhei quando saí de casa.

  • Estava chovendo, porém precisei sair de casa e acabei me molhando.

O conectivo muda até o sentido da relação entre as frases.

 3. Coesão lexical

 Escolha adequada de palavras e uso de variação vocabular para evitar repetições.

Exemplo sem coesão:

  • O cachorro latiu muito alto. O cachorro parecia bravo. O cachorro não parava de latir.

Exemplo com coesão lexical:

  • O cachorro latiu muito alto. O animal parecia bravo e não parava de latir.

Aqui, usamos sinônimo (animal) para variar o vocabulário e dar fluidez.

Exemplo:

Na tirinha acima, leões é substituído por animal e homens por vítima inocente.

 4. Coesão elíptica

 Omissão de palavras que podem ser facilmente recuperadas pelo contexto.

Exemplo sem coesão:

  • João gosta de futebol. Maria gosta de futebol.

Exemplo com coesão elíptica:

  • João gosta de futebol. Maria, também.

  • João gosta de futebol. Maria, de vôlei.

Perceba que o verbo “gosta” foi omitido na segunda frase, mas o leitor entende pelo contexto.

O que é Coerência Textual?

A coerência textual é a responsável por dar sentido lógico ao texto. É o princípio que faz com que as ideias transmitidas façam sentido para o leitor, mesmo que a coesão esteja presente.

Características da coerência textual:

  1. Unidade temática – o texto deve girar em torno de um mesmo tema, evitando informações desconexas.

  2. Progressão das ideias – as informações precisam avançar, trazendo novidades a cada trecho, sem ser repetitivo ou contraditório.

  3. Não contradição – o texto não pode apresentar ideias que se anulam ou que confundam o leitor.

  4. Relação com o contexto – deve haver conexão com o conhecimento prévio do leitor e com a situação de comunicação (quem escreve, para quem escreve, com qual objetivo).

  5. Organização lógica – os fatos e argumentos devem seguir uma ordem compreensível (cronológica, causal, comparativa etc.).

Exemplo simples:

Texto coerente:
 “Maria acordou cedo, tomou café e saiu para o trabalho. No caminho, pegou um ônibus que estava lotado.”
 – Aqui há sequência lógica: acordar → tomar café → sair → pegar o ônibus.

Texto incoerente:
 “Maria acordou cedo, tomou café e saiu para o trabalho. No caminho, pegou um ônibus vazio que estava lotado.”
 – Aqui há contradição: não é possível o ônibus estar vazio e lotado ao mesmo tempo.

A coerência, portanto, não depende apenas de conectivos ou pronomes, mas da lógica das informações apresentadas. Na verdade, é o que faz o texto ser compreendido como um todo com sentido, permitindo que o leitor entenda a mensagem sem se perder ou se confundir. Ela depende tanto da forma como o autor organiza suas ideias quanto do conhecimento de mundo compartilhado entre autor e leitor.

Diferença entre Coesão e Coerência

  • Coesão = forma → recursos linguísticos usados para ligar frases e ideias.

  • Coerência = conteúdo → lógica e clareza das ideias transmitidas.

É possível ter um texto coeso, mas incoerente, se as frases estiverem bem ligadas mas não fizerem sentido. O contrário também é verdadeiro: pode haver coerência sem coesão, mas o texto ficará confuso e mal estruturado. O ideal é que os dois andem juntos.

Como aplicar coesão no seu texto

  1. Use conectivos adequados: entretanto, portanto, além disso, logo, mas…

  2. Evite repetições: use pronomes ou sinônimos.

  3. Mantenha a uniformidade verbal: não troque de tempos verbais sem necessidade.

  4. Atenção à pontuação: vírgulas e pontos organizam a leitura.

Para que você compreenda um pouco melhor, vamos assistir ao vídeo da professora Mercedes, no qual ela explica o uso da coesão e suas respectivas ferramentas:

Como aplicar coerência no seu texto

  1. Planeje antes de escrever: defina começo, meio e fim.

  2. Evite contradições: revise para verificar se as ideias estão consistentes.

  3. Respeite o contexto: escreva de acordo com a realidade apresentada.

  4. Mantenha foco no tema: não fuja do assunto principal.

Exemplos práticos de Coesão e Coerência

Exemplo 1 – Texto sem coesão e coerência:

“Pedro gosta de nadar. A piscina estava fechada. Ele comprou um carro novo. Estava chovendo. Portanto, Maria estudou bastante.”

Exemplo 2 – Texto com coesão e coerência:

“Pedro gosta de nadar, mas como a piscina estava fechada, decidiu ficar em casa. Enquanto isso, Maria aproveitou o tempo livre para estudar bastante.”

Erros comuns relacionados à Coesão e Coerência

  • Uso excessivo de conectivos, deixando o texto pesado.

  • Repetição de palavras sem necessidade.

  • Falta de lógica entre frases e parágrafos.

  • Troca de assunto repentina, sem transição.

Dicas práticas para melhorar seus textos

  • Leia bastante: bons leitores tendem a escrever com mais clareza.

  • Faça resumos de textos: ajuda a entender a lógica das ideias.

  • Revise sempre: releia em voz alta para perceber se o texto faz sentido.

  • Peça feedback: outras pessoas podem identificar falhas de clareza.

A coesão e a coerência textual são elementos fundamentais para a construção de textos claros, objetivos e agradáveis de ler. Enquanto a coesão garante a ligação entre frases e parágrafos, a coerência assegura que as ideias transmitidas tenham sentido e estejam organizadas de forma lógica.

Dominar esses conceitos é indispensável não só para estudantes que enfrentam provas e concursos, mas também para profissionais e criadores de conteúdo digital.

Para finalizar, vamos praticar um pouco o conteúdo que você acabou de aprender!

Questão-01 – (IFCE/2015)

Autopsicografia

1       O poeta é um fingidor.

2       Finge tão completamente

3       Que chega a fingir que é dor

4       A dor que deveras sente.

5       E os que leem o que escreve,

6       Na dor lida sentem bem,

7       Não as duas que ele teve,

8       Mas só a que eles não têm.

9       E assim nas calhas de roda

10     Gira, a entreter a razão,

11     Esse comboio de corda

12     Que se chama coração.

(PESSOA, Fernando. Cancioneiro, p. 23. Disponível em http://www3.universia.com.br/conteudo/literatura/Cancioneiro_de_fernando_pessoa.pdf. Acessado em 02/07/2015)

Quanto à coesão textual, é certo afirmar-se que

a)      O termo duas (Ref. 7) se refere às duas pessoas: o poeta e o leitor.

b)      O termo a (Ref. 8) remete à dor real do poeta.

c)      Os termos ele (Ref. 7) e eles (Ref. 8) se referem, respectivamente, ao poeta e aos leitores.

d)      O termo a (Ref. 8) se refere à dor que o poeta finge sentir.

e)      O termo ele (Ref. 7) se refere ao leitor.


Questão-02 – (UCB DF/2016)

Governar

1 Os garotos da rua resolveram brincar de governo, 2 escolheram o presidente e pediram-lhe que governasse para 3 o bem de todos.

4 – Pois não – aceitou Martim. – Daqui por diante vocês 5 farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais 6 dois de vocês formarão a minha segurança.

7 Januário será meu ministro da Fazenda e pagará o meu 8 lanche.

9 – Com que dinheiro? – atalhou Januário.

10 – Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por 11 dia para a caixinha do governo.

12 – E que é que nós lucramos com isso? – perguntaram 13 em coro.

14 – Lucram a certeza de que têm um bom presidente. Eu 15 separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual 16 com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.

17 – Assim não vale. O presidente deve ser nosso 18 servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. 19 Queremos vantagens.

20 – Eu sou o presidente e não posso ser igual a vocês, 21 que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão 22 multados e perderão o direito de participar da minha 23 comitiva nas festas. Pensam que ser presidente é moleza? Já 24 estou sentindo como esse cargo é cheio de espinhos.

25 Foi deposto, e dissolvida a República.

ANDRADE, C. D. de. Contos plausíveis.
 Rio de Janeiro. Record, 1994, com adaptações.

No que se refere aos elementos responsáveis pela coesão textual e à norma culta da língua portuguesa, assinale a alternativa correta.

a)      O pronome sublinhado no trecho “pediram-lhe que governasse para o bem de todos.” (linhas 2 e 3) evita a repetição desnecessária ao retomar o termo “o presidente” (Ref. 2). O mesmo recurso poderia ser utilizado no período “– Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino.” (Refs. 4 e 5), caso o autor decidisse utilizar o pronome os para retomar o termo “meus exercícios escolares” (Ref. 5) como complemento do verbo destacado.

b)      A substituição da forma tem pelo verbo sublinhado no período “– Lucram a certeza de que têm um bom presidente.” (Ref. 14) não comprometeria a relação das sequências do texto.

c)      A exclusão da vírgula do período “– Eu sou o presidente e não posso ser igual a vocês, que são presididos.” (Refs. 20 e 21) preservaria a relação de sentido entre o pronome relativo “que” e o seu antecedente.

d)      O autor, para retomar corretamente o termo sublinhado no trecho “Pensam que ser presidente é moleza? Já estou sentindo como esse cargo é cheio de espinhos.” (Refs. 23 e 24), deveria ter empregado a construção este cargo no lugar da expressão “esse cargo”.

e)      A conjunção “e”, no período “Foi deposto, e dissolvida a República.” (Ref. 25), foi utilizada para relacionar duas orações pela ideia de adversidade.

GABARITO:

1 – C

2 – A

Rafaela Tavares é formada em Letras – Português e Inglês pela UNICESUMAR e atua como professora de inglês, revisora de texto e redatora em agência publicitária.

Autor(a) Jaqueline Padilha

Sobre o(a) autor(a):

Jaqueline Padilha -

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