Sistema Gramatical: aspectos fonológicos, morfológicos e sintáticos
Quando o assunto é interpretação de textos e domínio da norma culta da língua portuguesa, o ENEM não deixa passar nada. Entre os temas mais importantes para mandar bem na prova, está o sistema gramatical, que abrange três grandes áreas: os aspectos fonológico, morfológico e sintático.
Entender cada uma dessas partes não é apenas requisito para acertar questões de gramática: também ajuda a melhorar sua leitura, escrita e argumentação, habilidades cobradas em todas as áreas do exame. Neste artigo, vamos explicar de forma simples e didática como funcionam esses aspectos, dar exemplos claros e mostrar como esse conhecimento pode aparecer na prova.
O que é o sistema gramatical?
O sistema gramatical é o conjunto de regras e padrões que organizam a língua. Ele funciona como um “manual invisível” que nos permite compreender e produzir mensagens.
Esse sistema pode ser observado em diferentes níveis:
- Fonológico – relacionado aos sons da língua.
- Morfológico – ligado à formação e estrutura das palavras.
- Sintático – responsável pela forma como organizamos as palavras em frases e orações.
Esses três níveis estão interligados: o som forma a palavra, a palavra ganha significado e a sintaxe organiza as ideias em frases coerentes.
Aspecto fonológico
A fonologia é a área da gramática que estuda os sons da língua do ponto de vista funcional, ou seja, analisa como esses sons atuam na diferenciação de palavras e significados. A unidade básica da fonologia é o fonema.
Fonema: menor unidade sonora capaz de distinguir palavras.
- Exemplo: “pato” e “gato” → a troca do fonema /p/ por /g/ altera o significado.
É importante diferenciar fonema de letra:
- Letra → é a representação gráfica do som.
- Fonema → é o som em si.
Exemplo: a palavra “exame” tem 5 letras, mas 4 fonemas: /e-za-me/.
Principais conteúdos de fonologia
1. Vogais, semivogais e consoantes
- Vogais: sons que saem livres, sem obstáculos (a, e, i, o, u).
- Semivogais: sons mais fracos que acompanham a vogal (i, u em palavras como pai e saiu).
- Consoantes: sons produzidos com algum tipo de barreira na boca (p, b, t, d, f, v…).
2. Encontros vocálicos
- Ditongo: vogal + semivogal na mesma sílaba → pai, caixa.
- Tritongo: semivogal + vogal + semivogal → Uruguai.
- Hiato: duas vogais em sílabas diferentes → saída, país.
3. Encontros consonantais
Quando duas ou mais consoantes aparecem juntas na mesma palavra.
- Exemplo: plano, prato, clube.
4. Dígrafo
Quando duas letras representam um único som.
- Exemplo: chave (/ʃa-ve/), carro (/ka-ʀo/).
5. Prosódia e ortoépia
- Prosódia: estuda a correta acentuação tônica das palavras.
- Exemplo: “rúbrica” (substantivo) x “rubrica” (verbo).
- Exemplo: “rúbrica” (substantivo) x “rubrica” (verbo).
- Ortoépia: refere-se à pronúncia correta.
- Exemplo: pronunciar recorde (récorde, e não ricórdi).
Principais conteúdos fonológicos cobrados no ENEM:
- Fonema x letra: nem sempre há correspondência direta.
- Exemplo: a palavra “táxi” tem 4 letras e 5 fonemas (/tá-ksi/).
- Exemplo: a palavra “táxi” tem 4 letras e 5 fonemas (/tá-ksi/).
- Encontros vocálicos: ditongo (pai), tritongo (Uruguai) e hiato (saída).
- Encontros consonantais: grupo de consoantes na mesma sílaba (plano, prato).
- Divisão silábica: importante em questões de ortografia.
- Prosódia e ortoépia: pronúncia correta das palavras.
- Exemplo: rúbrica (acento na primeira sílaba) x rubrica (verbo).
- Exemplo: rúbrica (acento na primeira sílaba) x rubrica (verbo).
Exemplo prático (questão estilo ENEM):
“Assinale a alternativa em que a palavra possui número diferente de letras e fonemas.”
(A) gato
(B) chuva
(C) pato
(D) mesa
(E) rato
Resposta: chuva (5 letras, mas 4 fonemas: /ʃu-va/).
Abaixo, na tirinha do famoso personagem, Chico Bento, temos um exemplo de rotacismo, que, no português brasileiro, sobretudo em variedades rurais da fala, observa-se com frequência a substituição do som /l/ pelo som /r/ em grupos consonantais. Um exemplo típico é o uso de “prantando” no lugar de “plantando”. Esse processo é um caso evidente de alteração de natureza fonético-fonológica.

Aspecto morfológico
A morfologia é a parte da gramática que estuda a estrutura, a formação e a classificação das palavras.
Ou seja, é ela que responde perguntas como:
- Qual a classe gramatical dessa palavra?
- Como ela foi formada?
- Quais são suas flexões de gênero, número, tempo, pessoa, grau…?
Em resumo: a morfologia analisa a palavra isolada, antes de ela ser organizada em frases (isso já é função da sintaxe).
Classes de palavras
No português, temos 10 classes gramaticais. Algumas são variáveis (podem sofrer flexões de gênero, número, pessoa etc.), e outras são invariáveis.
Classes variáveis
- Substantivo → nomeia seres, coisas, sentimentos.
Ex: casa, flor, amizade.
- Adjetivo → caracteriza o substantivo.
Ex: bonita, forte, feliz.
- Artigo → acompanha o substantivo, indicando gênero e número.
Ex: o, a, os, as.
- Pronome → substitui ou acompanha o substantivo.
Ex: ele, aquele, meu.
- Numeral → expressa quantidade, ordem ou multiplicação.
Ex: um, primeiro, dobro.
- Verbo → indica ação, estado ou fenômeno.
Ex: correr, estar, chover.
Classes invariáveis
- Advérbio → modifica verbo, adjetivo ou outro advérbio.
Ex: rapidamente, muito, ontem.
- Preposição → liga palavras, estabelecendo relação.
Ex: de, com, para.
- Conjunção → liga orações ou termos.
Ex: e, mas, porque.
- Interjeição → exprime emoção ou reação.
Ex: ah!, oba!, socorro!.
Flexões
As palavras variáveis podem sofrer flexões.
- Substantivos e adjetivos:
Gênero → menino / menina.
Número → livro / livros.
Grau → casa / casarão.
Pessoa → eu falo / nós falamos.
- Verbos:
Tempo → eu falo / eu falei / eu falarei.
Modo → se eu falar / que eu fale.
Agora vamos ver um vídeo com a professora Fernanda sobre Morfologia do Verbo para irmos mais a fundo nesse assunto:
Formação de palavras
Outro ponto central da morfologia é entender como as palavras surgem.
Processos principais:
- Derivação: acréscimo de prefixo ou sufixo.
Ex: feliz → infeliz (prefixal); livre → livraria (sufixal).
- Composição: união de duas palavras.
Ex: guarda-chuva, segunda-feira.
- Hibridismo: junção de elementos de línguas diferentes.
Ex: sociologia (latim + grego).
- Onomatopeia: imitação de sons.
Ex: tic-tac, zum-zum.
Exemplo prático (questão estilo ENEM):
“Na frase ‘A felicidade é contagiante’, a palavra felicidade é formada por…”
Resposta: derivação sufixal (feliz + sufixo “-dade”).
Aspecto sintático
A sintaxe trata da organização das palavras em frases e orações, para que tenham sentido completo.
Antes de continuarmos, preste bastante atenção nesta explicação super detalhada da professora Mercedes:
Estrutura básica:
- Frase: enunciado com sentido completo. Ex: “Silêncio!”
- Oração: frase que contém verbo. Ex: “Ela correu.”
- Período: pode ser simples (uma oração) ou composto (duas ou mais orações).
Funções sintáticas mais cobradas:
- Sujeito: termo de quem se fala na oração.
- Ex: “O estudante acertou a questão.” → sujeito = “O estudante”.
- Predicado: aquilo que se declara do sujeito.
- Ex: “O estudante acertou a questão.”
- Complementos verbais:
- Objeto direto (sem preposição): “Ele comprou um livro.”
- Objeto indireto (com preposição): “Ele gosta de música.”
- Adjunto adverbial: indica circunstância.
- Ex: “Ele chegou cedo ontem.”
- Orações subordinadas:
- Substantivas → “Quero que você estude.”
- Adjetivas → “O aluno que estuda passa no ENEM.”
- Adverbiais → “Estude, para que passe no exame.”
Exemplo prático (questão estilo ENEM):
Na oração: “O professor explicou a matéria com paciência”, o termo com paciência exerce a função de:
Resposta: adjunto adverbial de modo.
Como esses aspectos caem no ENEM?
- Interpretação de texto: entender o sentido de uma palavra (morfologia) ou de uma frase (sintaxe).
- Questões objetivas: identificar classes gramaticais, processos de formação de palavras, funções sintáticas.
- Redação: aplicar esses conhecimentos para escrever com clareza, coerência e coesão.
Em uma questão de interpretação, o ENEM pode pedir para identificar o efeito de sentido criado pela troca de uma palavra, exigindo noções de fonologia e morfologia ao mesmo tempo.
Dicas para estudar
- Leia bastante: notícias, crônicas e artigos. Isso ajuda a reconhecer estruturas gramaticais no contexto.
- Resolva provas anteriores: questões mostram como o ENEM cobra gramática de forma aplicada.
- Faça resumos de classes gramaticais: principalmente substantivo, verbo, pronome e conjunção.
- Treine análise sintática: comece por frases simples e vá evoluindo para períodos compostos.
- Atenção aos exemplos práticos: o ENEM raramente cobra teoria pura, sempre contextualiza.
O sistema gramatical, com seus aspectos fonológico, morfológico e sintático, é fundamental para quem está se preparando para o ENEM. Ele não deve ser visto como decoreba, mas como ferramenta para compreender e produzir textos.
Saber identificar sons, reconhecer classes de palavras e organizar frases corretamente é um passo essencial não apenas para as questões de Linguagens, mas também para mandar bem na redação, onde a clareza e a norma culta são indispensáveis.
Portanto, se você estava em dúvida sobre a importância desse conteúdo, lembre-se: a gramática é a chave para interpretar melhor, escrever melhor e conquistar aquela nota dos sonhos no ENEM. Vamos colocar a mão na massa?
Questão-01 – (ENEM MEC/2010)
Quando vou a São Paulo, ando na rua ou vou ao mercado, apuro o ouvido; não espero só o sotaque geral dos nordestinos, onipresentes, mas para conferir a pronúncia de cada um; os paulistas pensam que todo nordestino fala igual; contudo as variações são mais numerosas que as notas de uma escala musical. Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí têm no falar de seus nativos muito mais variantes do que se imagina. E a gente se goza uns dos outros, imita o vizinho, e todo mundo ri, porque parece impossível que um praiano de beira-mar não chegue sequer perto de um sertanejo de Quixeramobim. O pessoal do Cariri, então, até se orgulha do falar deles. Têm uns tês doces, quase um the; já nós, ásperos sertanejos, fazemos um duro au ou eu de todos os terminais em al ou el – carnavau, Raqueu… Já os paraibanos trocam o l pelo r. José Américo só me chamava, afetuosamente, de Raquer.
Queiroz, R. O Estado de São Paulo. 09 maio 1998 (fragmento adaptado).
Raquel de Queiroz comenta, em seu texto, um tipo de variação linguística que se percebe no falar de pessoas de diferentes regiões. As características regionais exploradas no texto manifestam-se
a) na fonologia.
b) no uso do léxico.
c) no grau de formalidade.
d) na organização sintática.
e) na estruturação morfológica.
TEXTO: 1 – Comum à questão: 2
Os anos seguintes à proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1822, foram marcados por agitações políticas e intensas negociações sobre a criação da nação brasileira e a definição de um perfil de Estado nacional. Era preciso investir na formação de uma elite intelectual capaz de gerir a pátria recém-emancipada, instituindo-lhe uma identidade própria, em oposição à portuguesa. Mais do que novas leis, o país precisava de uma consciência jurídica, que deveria emanar de cursos estabelecidos em território nacional. Foram esses, entre outros, os argumentos que deram o tom das discussões políticas que culminaram nas duas primeiras faculdades de direito do Brasil, em agosto de 1827, em São Paulo e Recife. “A criação de escolas de direito nas regiões Sul e Norte, como se dizia à época, pretendia integrar as diferentes regiões do país, fortalecendo a unidade territorial”, explica a advogada e historiadora Ana Paula Araújo de Holanda, da Universidade de Fortaleza, Ceará.
A proposta de criação de um curso de direito foi apresentada em 1823. Tratava-se de um pedido de brasileiros matriculados na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde a maioria dos que pretendiam seguir nas profissões jurídicas estudava. O projeto, apresentado pelo advogado Fernandes Pinheiro, foi encaminhado para debate na Assembleia, e logo iniciaram-se as divergências sobre a localização dos cursos. Os debates transcorreram de forma apaixonada. “Os parlamentares advogavam em favor de suas províncias de origem, já que desses cursos sairia a elite política do país”, comenta a advogada e historiadora Bistra Stefanova Apostolova, da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília. O projeto aprovado na Assembleia Geral, no entanto, não rompeu totalmente com a tradição jurídica portuguesa. Houve desencontros entre as intenções dos parlamentares e a prática, segundo Bistra. Adotaram-se provisoriamente os Estatutos da Universidade de Coimbra.
Ambas as faculdades tornaram-se importantes polos inspiradores das artes literárias e poéticas nacionais, contribuindo para a construção da identidade nacional. As instituições também foram importantes para os principais movimentos cívicos, literários e políticos que se seguiram ao longo das décadas no país, como os que levaram à proclamação da República, em 1889, e à Abolição, um ano antes.
(Adaptado de ANDRADE, Rodrigo de Oliveira. “Para formar homens de lei”.
Revista Pesquisa Fapesp, out/2017)
Questão-02 – (PUC Campinas SP/2022)
No contexto em que se insere, o verbo que pode ser corretamente flexionado em uma forma do plural está sublinhado em:
a) Houve desencontros entre as intenções dos parlamentares e a prática.
b) Tratava-se de um pedido de brasileiros matriculados na Universidade de Coimbra.
c) Mais do que novas leis, o país precisava de uma consciência jurídica.
d) onde a maioria dos que pretendiam seguir nas profissões jurídicas estudava.
e) desses cursos sairia a elite política do país.
TEXTO: 1 – Comum à questão: 3
Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu? Houve um tempo em que o planeta que chamamos Terra juntava os continentes todos numa grande Pangeia. Se olhássemos lá de cima do céu, tiraríamos uma fotografia completamente diferente do globo. Quem sabe se, quando o astronauta Iúri Gagarin disse “a Terra é azul”, ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver. Existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? O Antropoceno tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, a ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno.
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 57-58.
Antropoceno: considerado uma nova época geológica em que, pela primeira vez na história do planeta, as mudanças ambientais são resultado da intervenção humana.
Questão-03 – (UFPR/2024)
Considerando o período “Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo” (sublinhado no texto), assinale a alternativa que indica, respectivamente, as relações lógico-sintáticas aí expressas.
a) Hipótese, suposição, comparação.
b) Condição, inferência, suposição.
c) Causa, consequência, conclusão.
d) Causa, oposição, analogia.
e) Hipótese, consequência, conformidade.
GABARITO:
1 – A
2 – D
3 – A
Rafaela Tavares é formada em Letras – Português e Inglês pela UNICESUMAR e atua como professora de inglês, revisora de texto e redatora em agência publicitária.
