Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa

Conheça Álvaro de Campos, um dos principais heterônimos criado por Fernando Pessoa e autor de textos célebres como “O Opiário” e “Tabacaria”. Veja as principais obras de sua trajetória.

Fernando Pessoa ficou consagrado por manter diversos heterônimos como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e o tema desse post, Álvaro de Campos. Só para relembrar, diferente de um pseudônimo (outro nome do autor), o Heterônimo trata-se de um autor-personagem, pois tem biografia própria, estilo e obras distintas.

Segundo Pessoa, o escocês Álvaro de Campos estudou engenharia em Glasgow, e depois trabalhou em Londres, tendo antes realizado viagens ao Oriente, citadas no poema Opiário. Desempregado, teria voltado para Lisboa em 1926, mergulhando então numa depressão e espírito decadentista que inspirariam o poema Tabacaria, de 1928.

Fase Decadentista

A produção poética de Álvaro de Campos vai de junho de 1914 até o mesmo junho de 1931, destacando-se três fases distintas em sua obra. Na fase inicial, que vai até 1917, publicou em revistas como Invenção e a revista Orfeu. Logo na estréia, demonstrou com o poema “Opiário”, a influência da poesia decadentista, ou seja, um texto com tendência à morbidez e pessimismo. Veja um fragmento do início:

“Opiário

Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro
É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.
Esta vida de bordo há-de matar-me.”

(Trecho de Opiário, Álvaro de Campos, Domínio Público.)

Desde já, vemos como o poema assume um tom duro, mórbido e pessimista. O relato do sujeito ébrio, inspirado pelo ópio, produz uma confissão não somente de um viciado, mas de alguém que paga por uma expiação:

“Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.[…]”

(idem.)

E ainda, diante de um mundo que o autor revela conhecer, o poeta entende que a ele só resta o tédio profundo e a desejo autodestrutivo e alheamento do ópio.

“A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.
Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
[..]
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.
Não tenho personalidade alguma.”

(idem.)

O desespero do viciado converte se em delírio de doente, isso muito faz lembrar o eu lírico Decadentista. Em sua conclusão, mais uma comparação, a de ter tido com a vida a mesma relação de consumo que tem com o ópio. Ao final, a nota sugerindo o local onde o poema fora escrito (na ficção de Pessoa) o Canal de Suez, no Egito, algo mais que revela o estilo de vida errante de Álvaro de Campos:

Nunca fiz mais do que fumar a vida.
E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

(No Canal de Suez, a bordo)

(idem.)

Fase Sensacionista

Ainda em Orfeu 1, Campos assina a “Ode Triunfal”, onde apresenta sua face Sensacionista, aderindo também à características do Futurismo, como a linguagem eufórica em que abundam as onomatopeias, a exaltação do mundo moderno, do progresso técnico e científico, da industrialização e da evolução da humanidade. Como se vê no poema:

“Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!”

(Trecho de Ode Triunfal)

Nas edições seguintes da revista Orfeu, Fernando Pessoa continuou publicando pelo heterônimo Álvaro de Campos, (Chuva Oblíqua e Ode Marítima, ambos em 1915) e a produção assinada por Álvaro de Campos em nome de seu criador estendeu-se a outras revistas como O Ultimatum, na revista Portugal Futurista, em 1917. Por volta de 1922 publica manifestos na revista Contemporânea, em forma de carta a José Pacheco.
Em 1923 Em nome de Pessoa, Campos assina um manifesto, distribuído como panfleto nas ruas intitulado Aviso por Causa da Moral, que é um texto contra a censura do governador de Lisboa, que havia apreendido livros considerados “imorais”, entre os quais um de Raul Leal, autor que integrou a revista Invenção de Orfeu junto com Pessoa. No mesmo ano, publica a primeira parte do poema 1923 – Lisbon Revisited – Contemporânea. Nesse texto, temos as interseções entre a obra de Fernando Pessoa e Àlvaro de Campos, concluído e publicado a segunda parte só em 1926.

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos,
não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

(Trecho de Lisbon Revsited (1923) – Álvaro de Campos – Poemas – Domínio Público)

Em texto de 1924, na revista Athena, Álvaro de Campos publica um texto em que discorda de Fernando Pessoa, intitulado “O Que é a Metafísica?”. Ainda em Athena, publica Apontamentos para uma estética não-aristotélica onde defende o equilíbrio entre as estéticas.

Em 1928, na revista Presença, escreve “Ambiente” e “Escrito num livro abandonado em viagem”. Ainda nesse ano, publica também Apostila, em O Notícias Ilustrada. Segue publicando, em 1929, na revista Presença. “Gazilha” em “Apontamento”.

Na Revista da solução Editora, do Cancioneiro do I Salão dos Independentes de Lisboa, publica “Adiamento”. Em 1930 surge o texto “Toda arte é uma forma de literatura”, no Catálogo do I Salão dos Independentes. Em junho de 1930 publica em Presença, o poema “Aniversário”, dedicado à Fernando Pessoa.

Anda em Presença, no mesmo ano, publica “Recordações do Mestre Caeiro”. Em 1931 publica na revista Descobrimento o poema “Quero acabar entre rosas, porque as amarei na infância”.

Fase Intimista

Em 1933 publica o poema Tabacaria, na revista Presença, seu último poema em vida. Nessa fase, Campos se mostra um autor que descobre, após uma série de desilusões e crises existenciais, a expressão niilista ou intimista de sua escrita. Esta é conhecida também como sua “fase bucólica”. Uma fase caracterizada pelo desgaste e pelo sono que se denota bastante no poema Datilografia da obra Poemas:

“Que náusea de vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!”

(Trecho de Datilografia – Álvaro de Campos – Domínio Público)

Esse estilo assemelha Campos, nas temáticas abordadas, à obra do próprio Fernando Pessoa. Em Tabacaria, o poeta começa fazendo uma análise irônica e pessimista da própria existência e dos seus anseios diante da vida. Observando o seu caráter negativo, que ele olha com indiferença, Campos compara o ambiente da tabacaria, aonde vai para aplacar o vício, e a buscar da fuga de sua realidade de fracassado:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
[…]
“estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.”

(Trechos de Tabacaria. Fonte: Domínio público)

Nota-se em Tabacaria que o poeta sente a falta de perspectiva, de um propósito para a vida, que quando são colocados em sua grandeza na existência do mundo e dos seres deixam o eu-lírico perplexo, pequeno em presença da realidade.

“Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu[…]”

(Trechos de Tabacaria. Fonte: Domínio público)

Como viciado, divide a atenção o desejo de uma realidade com as visões mais banais da Tabacaria, os desejos profundos com os seus sinais superficiais, o sonho e a realidade psicológica do eu-lírico da poesia de Campos. “Como um cão tolerado pela gerência/ Por ser inofensivo / E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

O eu-lirico reflete a sua posição defronte da Tabacaria, e a tomada de consciência de sua existência é depreciada em sua deficiente inação: “Como um tapete em que um bêbado tropeça/ Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.”

“Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
[…]
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
[…]
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”

(Trechos de Tabacaria. Fonte: Domínio público)

Para finalizar sua revisão sobre Álvaro de Campos, veja nossas aulas:

Faça agora alguns exercícios sobre a poesia de Álvaro de Campos:

1) (UFRGS – 2012) Considere as seguintes afirmações sobre a poesia de
Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

I – Em Todas as Cartas de Amor São, o eu-lírico recusa-se a escrever porque prefere sonhar a viver.

II – No Poema em Linha Reta, a trajetória do indivíduo é descrita como sendo vinculada a fracassos e vilezas, o que provoca seu cansaço e sua revolta.

III – Em Aniversário, o eu-lírico, acreditando ter recuperado a perfeição do passado, renega os familiares mortos.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e II.
d) Apenas I e III.
e) I, II e III.

2) (UFMA) Universidade Federal do Maranhão – Leia o texto a seguir e, considerando a predominância e o poeta, escolha a alternativa correta:

Três sonetos
I
[A Raul de Campos]

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto.
Eu Serei tal qual pareço em mim?
Serei Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

PESSOA, Fernando. Poesia de Álvaro de Campos, 2006, p. 37.

a) trata-se de pleonasmo, portugueses, apoteose
b) trata-se de paráfrase, inquietude, decadentismo
c) trata-se de hipérbole, paganismo, múltiplos eus
d) trata-se de sinestesia, sensacionismo, inquietude
e) trata-se de sinestesia, sensacionismo, inquietude

3) Ainda sobre o soneto à Raul Campos (acima) , é INCORRETO afirmar que:

a) O poema é sensacionista, pois antepara razão e sensação.
b) O eu-lírico realiza uma auto análise de sua consciência.
c) O eu lírico pensa no “eu”, de sua sensibilidade.
d) O poema é surrealista.
e) A sensação das coisas está sempre distante de sua concepção sobre elas.

Gabarito:

1) e
2) d
3) d

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.