Arte africana: conheça sua história e herança cultural

A arte africana jã influenciou artistas como Picasso e hoje ela é símbolo de resistência e uma das maiores heranças culturais e históricas para o mundo!

A arte africana como conhecemos hoje é multicultural. Em resumo, o continente da África é composto por diversos povos e apresenta diferentes etnias. Dessa forma, no continente todos falam diferentes línguas entre si.

Por causa disso acreditam também em distintas vertentes religiosas e valores diversificados. Dessa forma podemos ver que um lugar tão plural não poderia deixar de ter um lado artístico igualmente rico. E por isso vamos falar nessa aula das características e da importância cultura da arte africana.

O continente africano e sua arte

Em resumo, vamos lembrar que o continente africano é dividido em duas grandes porções:  a África do Norte, que possui forte influência islâmica, e a África Subsaariana, que está localizada ao sul do deserto do Saara.

Apesar dessa tradicional divisão em duas grandes regiões e da forte influência da religião sobre as artes, não é possível falar de maneira homogênea das expressões artísticas nesses grandes territórios.

Sendo assim, ao longo dessa aula você vai conhecer algumas as inúmeras formas de Arte encontradas no Continente Africano.

A arte africana das danças e suas vestimentas

Uma das civilizações da região Subsaariana é a dos Dogons, povo que vive entre os países Mali e Burkina Faso. Igualmente eles são muito conhecidos pelas suas danças que, tradicionalmente, são realizadas pelos homens das comunidades e ocorrem em ocasiões como rituais de iniciação e funerais.

Apresentação de dança Dogon. Mali. Fonte: Geledes arte africanaApresentação de dança Dogon. Mali. Fonte: Geledes

Portanto as vestimentas, feitas com fibras vegetais tingidas, apresentam cores fortes. Além disso as pessoas usam máscaras, que funciona como um adorno. Essa peça é muito recorrente e importante na cultura africana.

Outra característica relevante referente às danças e rituais africanos, é a presença dos tambores.  Da mesma forma como outros instrumentos como o corá (composto por 21 cordas), o mbira (à base de placas de metal e madeira) e o agogô (duas estruturas metálicas unidas) marcam o ritmo e dão o tom à rica musicalidade africana.

Produção visual presente na arte africana

Além das danças e da musicalidade, a produção visual é diversificada e igualmente rica. A propósito, a mais antiga escultura encontrada na África subsaariana pertence à cultura Nok (500 a.C-200 d.C). Em suma, o vilarejo Nok corresponde à atual Nigéria que em sua maioria confecciona cerâmicas, onde a temática preferida é a da figura humana.

Figura humana em terracota que data do século VI a.C. arte africanaFigura humana em terracota que data do século VI a.C.

Assim como na imagem acima é possível observar que as peças de cerâmica sempre trazem grande riqueza de detalhes, traços minuciosos, penteados elaborados e com adornos de contas. Em sua maioria as esculturas correspondem a quase 75% do tamanho de um ser humano.

Um detalhe interessante do povo Nok é que não se conhece a autoria e a utilidade da arte africana que realizam, porém há evidências de que provavelmente eram feitas por mulheres. A cultura Nok, além do legado das esculturas, deixou fortes evidências sobre o conhecimento da metalurgia, ainda que bastante primitiva.

A utilização de metais

Quanto à utilização de metais no período da cultura Nok, o bronze e o latão apareceram depois do ferro e eram usados para confecção de esculturas e também como decoração. Outro fato importante é que na região de Níger (século IX-X), foi encontrada a evidência mais antiga da utilização do cobre e do bronze.

Consistindo em uma câmara mortuária de um homem, vestido com tecidos feitos de fibras e ornamentos em cobre, bronze fundido e contas de vidro importadas. Além desse detalhe perto do corpo, foi encontrado entalhes em marfim e madeira nas esculturas de bronze.

Outro detalhe foram os potes de bronze fundido foram localizados em regiões muito próximas, porém, sua função é desconhecida. Os objetos de bronze retratam figuras humanas e insetos.

As marcas da colonização na África

Por volta do início do século XVI, o comércio entre Portugal e os diversos povos do litoral da África já estava bem consolidado. Entretanto, diante do contato constante entre eles, os portugueses desenvolveram interesse no trabalho dos artistas litorâneos, especialmente em Serra Leoa, Benin e no reino do Congo.

Foi assim que passaram a encomendar destes artistas recipientes ricos em detalhes entalhados em marfim, como potes para tempero, colheres e garfos. Dentre tantos itens, destaca-se um saleiro, que apresenta uma pessoa sentada na tampa e outros indivíduos sentados com cachorros e serpentes.

Saleiro altamente adornado com diferentes figuras. Saleiro altamente adornado com diferentes figuras.

A arte africana do povo Ashanti

Outro povo africano que teve sua produção artística marcante foi o dos Ashanti. Em resumo, eles controlavam a região que se estendia desde o litoral de Elmira até a savana. Então por serem muito ricos e terem seu território em constante expansão, criou-se um contexto favorável para o desenvolvimento das artes visuais. Dessa forma o Estado dava apoio a classe nobre que predominava na região.

Assim, o ouro fundido era largamente utilizado para a fabricação de oferendas reais. Dessa maneira recipientes eram feitos a partir do cobre. Então grande parte das artes visuais dos ashanti era elaborada para interpretar as práticas da elite dominante. O sucesso dessa arte africana favoreceu a demanda por tecidos estampados.

A região do Congo e sua contribuição para a arte

Nesse mesmo período, outra região africana que foi fortemente influenciada pela colonização foi o reino do Congo. Primordialmente localizado ao sul de Gana, foi “descoberto” pelos portugueses em 1483.

Dessa forma, o rei e sua corte foram convertidos ao catolicismo europeu e branco. Entretanto, o mercado de escravos acabou por destruir a cristandade, a realeza e o próprio reino do Congo.

Em consequência desse ato a resistência política rendeu uma produção artística muito característica da região. Sendo assim essa arte se consolidava como um grito de sobrevivência do Congo.

Fotografia de dois nkisi feitos de madeira com detalhes em metal.Fotografia de dois nkisi feitos de madeira com detalhes em metal. Os minkisi (ou no singular, nkisi), são talismãs com imagens em madeira e utilizados para garantir a intervenção dos espíritos em assuntos terrenos. Poções mágicas eram colocadas dentro dos minkisi, como forma de garantir sucesso, proteção e saúde.

As máscaras africanas

Outra forma de expressão que acompanha a história dos povos africanos é a utilização das máscaras. Em resumo, no reino de Kuba, onde hoje localiza-se a República Democrática do Congo, os ancestrais são homenageados em rituais com pessoas mascaradas.

Máscara Ngady Mwaash aMbooy confeccionada em madeira, contas, conchas e tecido. fonte: Artic Eu. arte africanaMáscara Ngady Mwaash aMbooy confeccionada em madeira, contas, conchas e tecido. fonte: Artic Eu.

As máscaras como a que vimos acima, são datadas do final do século XIX ou início do século XX. Em suma a figura representa Mweel, irmã-esposa de Woot, ancestral fundador da dinastia Bushoong. Geralmente é usada em uma peça teatral que trata sobre a origem dos Bushoong, além de ser apresentada em cerimônias reais.

Na peça da imagem acima, a utilização da madeira, juntamente com conchas e contas, bem como com a pintura rica em detalhes, reflete com nitidez os padrões de bordado da região de Kuba.

A função das máscaras africanas

A função de uma máscara como essa, ainda nos dias atuais, acontece em cerimônias ou espetáculos. Em resumo sua principal contribuição é a de incorporar a energia associada aos espíritos invisíveis da natureza, sejam eles da floresta, do mar ou mesmo dos animais.

Em outros casos, a máscara denota uma força perigosa: geralmente uma presença ancestral que tem o poder de curar ou de prejudicar. Importante lembrar que ela nunca deve ser vista por pessoas comuns. Assim, o impacto dramático da encenação depende da negação da ação da atividade humana; a energia não está na máscara, mas no que está escondido por detrás dela.

A arte africana como inspiração para grandes pintores

As máscaras e a arte africana de forma geral chamaram a atenção do mundo inteiro. Um dos artistas que aprofundou seus estudos e produziu obras fundamentadas na cultura africana foi Pablo Picasso.

A obra “As senhoritas de Avignon”, de 1907, revela a inspiração de Picasso nas máscaras da tradição africana. Por exemplo, nessa obra vemos traços fundamentais do Cubismo (idealizado e desenvolvido por ele), como a geometrização das formas. Assim, Picasso une a riqueza da cultura africana com a irreverência e ousadia do Cubismo.

Pintura As senhoritas de Avignon inspirada na arte africana, de 1907, de Pablo PicassoPintura As senhoritas de Avignon inspirada na arte africana, de 1907, de Pablo Picasso

Podemos, portanto, constatar que um território tão vasto quanto a África, possui uma cultura tão grandiosa quanto. Apesar de cada povo ter suas particularidades, é possível notarmos um fio condutor que acaba por unir todos eles: a espiritualidade, a reverência à ancestralidade e à natureza.

Video-aula sobre Arte Africana

Para saber mais sobre a Arte tradicional africana, assista ao vídeo do canal Vivieuvi:

Exercícios

1. O motivo pelo qual o Reino do Congo se tornou católico foi:

A) a influência dos portugueses

B) a pedido dos Orixás

C) através de uma revelação divina

D) a influência de outras nações africanas

E) N.D.A

2 – (Concurso – Prefeitura de São Luís – MA, 2017)
A arte africana baseia-se na representação dos usos e costumes das tribos africanas, com objetos funcionais e simbólicos. Uma forma de arte muito utilizada pelos artistas africanos é a escultura, com destaque para as máscaras, meio de expressão mais popular da arte africana. O material mais utilizado na feitura das máscaras africanas, que representam um canalizador para, por exemplo, a incorporação de espíritos e forças mágicas, é

A) o barro

B) o bronze

C) o marfim

D) a madeira

E) o ouro

3- (ENEM 2013)

“A recuperação da herança cultural africana deve levar em conta o que é próprio do processo cultural: seu movimento, pluralidade e complexidade. Não se trata, portanto, do resgate ingênuo do passado nem do seu cultivo nostálgico, mas de procurar perceber o próprio rosto cultural brasileiro. O que se quer é captar seu movimento para melhor compreendê-lo historicamente.”

MINAS GERAIS: Cadernos do Arquivo 1: Escravidão em

Minas Gerais. Belo Horizonte: Arquivo Público Mineiro, 1988.

Com base no texto, a análise de manifestações culturais de origem africana, como a capoeira ou o candomblé, deve considerar que elas

A) permanecem como reprodução dos valores e costumes africanos.

B) perderam a relação com o seu passado histórico.

C) derivam da interação entre valores africanos e a experiência histórica brasileira.

D) contribuem para o distanciamento cultural entre negros e brancos no Brasil atual.

E) demonstram a maior complexidade cultural dos africanos em relação aos europeus.

GABARITO:

1-A, 2-D, 3-C

Sobre o(a) autor(a):

Renata Gambagorte é formada em Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Estadual do Paraná com pós graduação em Cenografia pela Universidade Federal do Paraná. Atualmente atua na rede de ensino em Curitiba. Facebook: https://www.facebook.com/renatagmbgrt

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