Técnica de bilateralidade: uma ótima estratégia argumentativa

Para mandar bem na Redação do Enem é importante conhecer diferentes técnicas argumentativas. A bilateralidade pode facilitar a sua produção textual. Veja esta revisão e aprenda como aplicar esta técnica na sua Redação Enem!

Bilateralidade: ponderar sobre posições opostas de um mesmo tema não significa estar indeciso, ainda mais quando o tema é polêmico.

Analisar posições antagônicas é, muitas vezes, prova de maturidade, de racionalidade. Assim, discutir posições antagônicas pode, na verdade, reforçar uma terceira posição, mais equilibrada e original. E isso é essencial para “convencer” o(a) corretor(a) da sua redação Enem e conquistar uma boa nota. Veja nesta aula como usar essa técnica sem cair nas armadilhas do sendo comum! Aprenda a construir uma boa argumentação na sua Redação Enem!

Uma boa maneira de aplicar a bilateralidade na sua Redação é apresentar, na introdução, o tema que está em discussão, apontando as duas posições que pretende enfocar. Em seguida, você pode montar o desenvolvimento extraindo argumentos tanto do “lado A” para um parágrafo, quanto do B para outro parágrafo. Isso te ajudará a ponderar ao longo do seu texto sobre qual é a melhor posição a tomar.

Dessa maneira, você consegue engajar argumentos para encaminhar sua proposta de intervenção para o tema. Na conclusão, para fechar sua redação, você pode preparar uma síntese dos prós de ambas possibilidades e tecer críticas aos pontos negativos, sugerindo medidas de intervenção.

Para resumir essa técnica, poderíamos pensar no seguinte esquema:

-Introdução: Contextualize o tema polêmico, explicando que existem dois posicionamentos centrais mais comuns em relação a ele.

– Parágrafo 1 do desenvolvimento: Escreva sobre o posicionamento central A (prós e / ou contras).

– Parágrafo 2 do desenvolvimento: Escreva sobre posicionamento central B, pontuando de maneira clara e objetiva os principais prós e / ou contras.

– Conclusão: resumo dos prós e / ou contras de cada posicionamento e medidas de intervenção que os tornem complementares e eficientes.

Para exemplificar a aplicação dessa técnica argumentativa, vou dar um exemplo que dificilmente cairia numa dissertação por ser muito polêmico, mas que ilustra a bilateralidade perfeitamente: a legalização do aborto.

Podemos expor prós e / ou contras tanto da realização quanto da não realização do aborto. Por exemplo: Caso o aborto seja aprovado como medida de saúde pública, há sensível diminuição de morte materna em clínicas clandestinas, maior fiscalização e autonomia da mulher sobre o próprio corpo.

Contudo, a opção pela não realização do aborto por parte da mulher também pode ser benéfica se incentivar políticas mais coerentes de incentivo à adoção e punição rápida e efetiva de abandono paternal da criança. Você percebe que trabalhar a realização ou não realização do aborto como opção da mulher não são medidas excludentes? Elas podem ser complementares se expostas de forma organizada.

Já no caso de um tema mais simples, como “A televisão”, podemos ter inclusive uma outra abordagem da mesma técnica. É fácil pensar em pontos negativos do uso do aparelho, como a manipulação de massas e positivos e, ao mesmo tempo, a democratização de acesso à informação e entretenimento. Esses aspectos não precisam ser necessariamente excludentes, assumindo ora uma relação de amor com a tecnologia, ora de ódio. É uma postura mais sensata trabalhá-los de forma complementar, assumindo benefícios e efeitos negativos que serão alvo de medidas de intervenção.

Vamos ver como um vestibulando usou a técnica na prática?

Exemplo de Redação

Adão E Eva

Acostumados à tecnologia como estamos dificilmente paramos para analisar os impactos na vida a partir da Revolução Industrial. A velocidade, as mudanças, as descobertas, tudo isso levou a sociedade ao êxtase e a uma profusão de inseguranças. Séculos depois, sentimo-nos, entretanto, confortáveis e, de certa forma, dependentes da era digital. Porém, no centro dessas águas tranquilas que se tornaram nossa existência, um turbilhão se forma ao redor da televisão. Afinal, como esse furacão de contradições, ela é a vilã ou heroína?

Sendo vista constantemente como grande responsável pela desgraça mundial, nossa querida caixa mágica se esconde mediante tantas acusações, das quais nem todas são procedentes. O aparelho de TV, apesar de odiado por muitos, é uma grande forma de se levar diversão, cultura e política para população, uma maneira eficaz e rápida de aproximar os continentes, deixando o mundo à mão, logo, possibilitando uma viagem através do controle remoto. A televisão acabou, enfim, por democratizar os meios de comunicação, através do acesso a informação por todos.

É inquestionável que nesse grande jardim que é a televisão haja bons frutos. Entretanto, a raça humana em geral, desde Adão e Eva, tem uma atração irresistível pelos proibidos. Usamos, apreciamos e muitas vezes nos influenciamos por programas infames, com exposições ridículas e apelativas. Mordemos a maçã proibida, hipnotizados por seu néctar, com sabor de pecado. Assim, esse prazer clandestino nos incita a seguir pecadores.

Este é, portanto, o grande problema das programações televisivas, entre o útil e o inútil, ficamos com o perigoso e implacável talento para culpar alguém que não seja nós mesmos. A televisão transmite os mais diversos programas, entre literários e “reality show”, para que possamos escolher aquele que mais nos agrada e quando optamos pelo fruto proibido ativamos a responsabilidade de nossos escolhas na “serpente” que ofereceu, esquecendo as alternativas que tivemos.

Quando no Éden foram colocadas infinitas árvores frutíferas, entre boas e detentoras do pecado, Adão e Eva poderiam escolher as que quisessem, mas optaram pelo ”diabo”, assumindo assim as consequências de tal atitude. Nós fazemos a televisão a que assistimos; somos, portanto, os responsáveis por nossos atos, capazes o suficiente de resistir à tentação, para assimilar o melhor da pequena tela.

Análise da Redação:

Como você pode ver, na introdução, há a contextualização geral de pontos positivos e negativos aliados ao uso da tecnologia. Poderia haver a seleção de fatos mais específicos para evitar uma abordagem vaga. Ainda assim, o uso do questionamento ao final do parágrafo foi eficiente para demonstrar a ideia de bilateralidade.

No segundo parágrafo, há a ideia dos meios de comunicação como forma de entretenimento e democratização de informação, o que seria o ponto positivo. Contudo, não foi apresentado nenhum argumento (fato, dado, notícia, aspecto histórico) que comprovasse esse aspecto. Além disso, também não foi questionado um ponto importante: a liberdade de informação é total? Não há manipulação de massas?

No terceiro parágrafo, existe a analogia com Adão e Eva para demonstrar a escolha por futilidades nas mídias, questionando o seu papel educativo. Contudo, a abordagem apontava apenas a escolha pessoal, ignorando instituições importantes como a mídia em si, o Estado, a Política e a Educação. Trazer ao menos um desses aspecto à discussão poderia tornar a análise mais crítica e a analogia mais valorizada.

Na conclusão, em vez de reunir os prós do entretenimento e informação, mesmo em meio a futilidades e analisar os contras por meio de medida de intervenção, há apenas a responsabilização do sujeito, o que não tem apelo como medida de intervenção social e prática. Caso houvesse mais fatos no desenvolvimento, também seria mais fácil propor medidas de intervenção concretas. De qualquer forma, houve êxito ao reunir prós e contras de um mesmo elemento sem cair em contradição, apenas fazendo uma crítica final que equilibrava pontos positivos e negativos na manutenção da existência da tecnologia e dos meios de comunicação.

Agora é a sua vez. Que tal tentar aplicar a técnica da bilateralidade em uma redação? Você pode usar os temas citados aqui em cima ou ainda escolher um dos seis temas que sugerimos.

Bora colocar a mão na massa?

Para finalizar, veja essa videoaula:

E também essa outra videoaula documentário do canal com o professor:

https://www.youtube.com/watch?v=gEY9IOESQTU

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.