Congresso de Viena e o Governo de Cem dias: contexto e objetivos

O Congresso de Viena (setembro de 1814 a junho de 1815) visava reorganizar o mapa político da Europa e restaurar as monarquias cristãs.

Sabia que para pôr fim de vez ao Império de Napoleão foi necessário prendê-lo duas vezes? Não? Então entenda melhor essa e outras curiosidades sobre o Governo dos Cem dias e sobre o Congresso de Viena que o procedeu.

Napoleão e o culto à sua imagem

Que Napoleão Bonaparte foi uma das figuras históricas mais estudadas que já existiu, disso não resta dúvidas. A relevância de sua pessoa para a história ocidental é uma das maiores que conhecemos.

Justamente por tudo isso seus inimigos buscaram impedir, sem muito sucesso, o surgimento de um culto em torno de sua personalidade. No Brasil, mesmo a milhares de quilômetros de distância da Europa, muitos pais decidiram batizar seus filhos com o nome do general francês.

Além disso, ainda em 1817, quando Napoleão estava preso na Ilha de Santa Helena, o Brasil e os brasileiros estavam envolvidos em um plano para libertá-lo. Tratava-se do contexto da Revolução Pernambucana, que pretendia criar uma república no nordeste brasileiro.

Simultaneamente, apoiadores de Bonaparte aqui e nos EUA buscaram tirar vantagem da situação para resgata-lo. O plano foi descoberto pelas autoridades portuguesas, que contribuíram para desarticula-lo. Assim, Napoleão continuou exilado na Ilha de Santa Helena, onde faleceu em 5 de maio de 1821.

retrato de napoleao
Figura 1: Detalhe do retrato “O imperador Napoleão em seu estudo escritório em Tuileries” de Jacques-Louis David. Na imagem Napoleão aparece nas vestes de Imperador nas cores azul, branca e vermelha (cores da bandeira da França), com a mão direita escondida em seu casaco e cercado por itens de escritório como folhas, abajur, caneta e móveis ornados. Imagem retirada de: https://bityli.com/zWkmI, acessada em 19 de maio de 2020.

A fuga da ilha de Elba e o Governo dos Cem Dias

Anteriormente ao seu banimento para a Ilha de Santa Helena, na costa Ocidental da África banhada pelo Atlântico sul, Napoleão já havia estado exilado na Ilha de Elba, no Mediterrâneo. Derrotado pela Sexta Coligação em 1814, seus apoiadores o resgataram de Elba em 26 de fevereiro de 1815.

Apesar de o exílio ser sua punição pela derrota sofrida contra as monarquias europeias e a Inglaterra, as condições de Napoleão na ilha não eram muito modestas. Por exemplo, ele tinha direito a uma pensão de 2 milhões de francos ao ano, além disso, podia contar com funcionários e quatrocentos soldados franceses a sua disposição.

A abdicação do trono francês, a mudança para Elba e as condições negociadas foram estipuladas pelo Tratado de Fontainebleau, em 1814.

Assim como todos os benefícios já citados, a própria ilha de Elba tornou-se propriedade de Napoleão e sua família. Além disso, Napoleão e sua família puderam conservar os títulos que obtiveram antes da derrota.

Dessa maneira, Napoleão ainda pode continuar com o título de Imperador, mesmo sem um império.

Fuga de Napoleão

Todavia, houve reclamações devido ao descumprimento do pagamento de pensões à família de Napoleão. Alguns autores acreditam que o declínio da trajetória de Napoleão também o impulsionaram a tentar retomar o poder na França. Com o apoio de mais de mil soldados ele foge de Elba no navio L’Inconstant e aporta no Golfo Juan, já em solo francês, dois dias depois.

A proeza de Napoleão devia muito a popularidade de sua imagem. Temendo um ataque à Paris, Luís XVIII resolve fugir da capital francesa no dia 20 de março de 1815. Mas, após a derrota na batalha de Waterloo para os ingleses, Napoleão retorna à Paris, onde então abdicou mais uma vez do trono. Desta vez acabaria exilado na Ilha de Santa Helena, onde morreu em 1821. A causa de sua morte ainda é motivo de debates entre pesquisadores.

Entenda mais sobre a Era Napoleônica com o vídeo:

O Congresso de Viena

Iniciado ainda durante o exílio de Napoleão em Elba, o Congresso de Viena (setembro de 1814 a junho de 1815) visava reorganizar o mapa político da Europa e restaurar as monarquias cristãs.

As guerras napoleônicas haviam transformado amplamente as fronteiras das nações europeias e fazia-se necessário redefinir os territórios afetados por elas. As principais nações europeias a tomarem decisões no congresso foram Grã Bretanha, Áustria, Prússia, Rússia e França.

george cruikshank congresso de viena
Figura 2: Caricatura de George Cruikshank, de 6 de abril de 1815, intitulada “O Congresso dissolvido antes do bolo ser cortado”. No desenho os congressistas são surpreendidos pela figura de Napoleão em seus trajes militares icônicos e erguendo uma espada. Imagem disponível em https://bityli.com/HrVkK, acessada em 19 de maio de 2020.

Em relação a questão fronteiriça, merece destaque Charles Maurice de Talleyrand, político francês desde os tempos da Revolução Francesa. Ele se esforçou para defender no Congresso de Viena a restauração das fronteiras e das monarquias existentes antes revolução, opção esta que acabou sendo adotada.

Além disso, também criou-se a Confederação Germânica, unidade política formada por trinta e quatro estados soberanos, mas controlada pela Áustria.

Objetivos do Congresso de Viena

Todavia, tão importante quanto redefinir as fronteiras era garantir a combater os ideais iluministas e revolucionários, evitando qualquer possibilidade de uma nova insurreição contra as coroas. Nesse sentido, tratava-se de uma tentativa de retomada ao Antigo Regime, colocando os Bourbon de volta no trono francês com Luís XVIII.

Para isso, o Czar Alexandre I propôs no Congresso de Viena a criação da Santa Aliança. Tratava-se de um exército financiado pelos países signatários (Rússia, Áustria e Prússia) para intervir em qualquer um destes territórios a fim de evitar focos de insurreição.

Apesar do Congresso de Viena ter tido importância fundamental na restauração das monarquias no início do século XIX, ele não foi encerrou todas as questões. Pelos anos seguintes, entre 1818 e 1822, foram realizados outros congressos para dar continuidade ao “concerto da Europa” pelas “grandes potências”, como afirmou o historiador Eric Hobsbawm.

Resumo de Congresso de Viena

Exercícios sobre Congresso de Viena
Questão 01 – (ESPM SP)

Após a derrota de Napoleão, os representantes dos países vencedores reuniram-se em um congresso na cidade de Viena para solucionar os problemas surgidos em consequência da Revolução Francesa.

Esse congresso contou com a participação de quase todos os estados europeus afetados pelas conquistas napoleônicas. Aproveitando-se das rivalidades entre os quatro grandes, Talleyrand, representante da França, invocou o princípio de legitimidade.

(Rubim Santos Leão de Aquino. História das Sociedades Modernas às Sociedades Atuais)

De acordo com o texto, aponte a alternativa que apresenta os quatro grandes países vencedores e a definição do que foi o princípio da legitimidade:

a) Inglaterra, Áustria, França e Espanha – aliança militar para defender o conservadorismo e combater o liberalismo;

b) Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia – modificação do mapa da Europa em benefício da Inglaterra;

c) Inglaterra, Áustria, Rússia e França – organização da chamada Confederação Germânica;

d) Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia – restauração das dinastias reinantes antes da Revolução Francesa e remanejamento das fronteiras dos países europeus ao que eram antes de 1789;

e) Inglaterra, Prússia, Rússia e Espanha – princípio das intervenções que autorizou os quatro grandes a imporem seus interesses pela força.

Gab: D

Questão 02 – (FGV)

Os soberanos do Antigo Regime venceram Napoleão, em que eles viam o herdeiro da Revolução, e a escolha de Viena para a realização do Congresso, para a sede dos representantes de todos os Estados europeus, é simbólica, pois Viena era uma das únicas cidades que não haviam sido sacudidas pela Revolução e a dinastia dos Habsburgos era o símbolo da ordem tradicional, da Contra-Reforma, do Antigo Regime.

(René Remond, O século XIX: introdução à história do nosso tempo)

De acordo com o Congresso de Viena (1815), é correto afirmar que

a) tornou-se a mais importante referência da vitória do liberalismo na Europa, na medida em que defendia a legitimidade de todas as dinastias que aceitavam a limitação dos seus poderes por meio de cartas constitucionais.

b) países como a Inglaterra, Portugal e a Espanha, os mais prejudicados com o expansionismo napoleônico, defendiam que a França deveria tornar-se republicana, com o intuito de evitar novos surtos revolucionários.

c) foi orientado, entre outros, pelo princípio da legitimidade – que determinava a volta ao poder das antigas dinastias reinantes no período pré-revolucionário, além do recebimento de volta dos territórios que possuíam em 1789.

d) presidido pelo chanceler austríaco Metternich, mas controlado pelo chanceler francês Talleyrand, decidiu-se por uma solução conciliatória após o caos napoleônico: haveria a restauração das dinastias, mas não a volta das antigas fronteiras.

e) criou, a partir da sugestão do representante da Prússia, um organismo multinacional, a Santa Aliança, que detinha a tarefa de incentivar regimes absolutistas a se modernizarem com o objetivo de sufocar as lutas populares.

Gab: C

Questão 03 – (UERJ)

A derrota de Napoleão Bonaparte, em 1814-1815, foi registrada de diversas formas nas sociedades europeias. Na imagem, o imperador francês tenta devorar o globo terrestre, sendo atacado por uma águia, um dos símbolos do Império Russo.

Dois impactos que as guerras napoleônicas exerceram sobre as relações internacionais na Europa da época foram:

a) crise agrária e consolidação dos Estados republicanos

b) concorrência industrial e retomada de domínios coloniais

c) integração comercial e declínio de monarquias absolutistas

d) expansionismo territorial e reorganização das fronteiras políticas

Gab: D

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.

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