Eça de Queirós: quem foi, obras, características e o Primo Basílio

Eça de Queirós foi um escritor português, considerado um dos maiores da história. É autor de O Primo Basílio, Os Maias, entre outros.

Primeiramente, precisamos saber que o grande nome do Realismo Português é Eça de Queirós. Autor de obras consagradas como O crime do padre Amaro e O primo Basílio, o autor curtia uma polêmica. Então vamos conhecer um pouco mais sobre essa figura ímpar.

Quem foi Eça de Queirós?

Embora nunca tenha vindo ao Brasil, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) teve muitas ligações com o país. Seu avô e seu pai nasceram no Brasil e ele teve uma ama brasileira.

Formado em Direito, foi nomeado cônsul, tendo trabalhado em Havana, Londres, Paris e outras grandes cidades. Na capital francesa, sua casa era frequentada por intelectuais brasileiros, como Olavo Bilac e o Barão do Rio Branco.

Colaborou durante 16 anos com o jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Além de O primo Basílio (1878), destacam-se em sua obra os romances O crime do padre Amaro (1875), Os Maias (1888), A ilustre casa de Ramires (1900) e A cidade e as serras (1901).

O terror dos românticos

Dos autores da sua geração, Eça de Queirós foi aquele que formulou de modo mais claro o seu projeto literário.

Em conhecida carta que escreveu ao amigo Teófilo Braga, confessou o desejo de escrever um conjunto de romances – as Cenas da vida portuguesa – que teriam uma importante função social.

[…] A minha ambição seria pintar a sociedade portuguesa […] e mostrar-lhe como num espelho, que triste país eles formam, – eles e elas. É o meu fim nas Cenas da vida portuguesa. É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas interpretações e falsas realizações, que lhe dá uma sociedade podre. [..]

QUEIRÓS, Eça de. \O primo Basílio (carta a Teófilo Braga). O primo Basílio. 21. ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 328. (Fragmento).

Como escritor, Eça dedicou boa parte de sua vida à realização desse projeto. E, até hoje, os romances e contos que escreveu são tidos como exemplos de um olhar impiedoso sobre os homens e mulheres que formavam a sociedade portuguesa de seu tempo.

A pintura cruel de uma sociedade hipócrita

Assim, para tornar real seu ambicioso projeto literário, Eça de Queirós inspirou-se na Comédia humana, de Honoré de Balzac.

Como o autor francês, o escritor português começou a moldar o perfil literário de Portugal, armado das ácidas tintas do Realismo.

Dessa forma, três romances formam o conjunto As cenas da vida portuguesa: O crime do padre Amaro, O primo Basílio e Os Maias.

Sagrada corrupção – “O crime do padre Amaro”

Publicado em 1875, O crime do padre Amaro (cenas da vida devota) já traz no subtítulo, de modo bem escancarado, o alvo das críticas do autor: em seu romance inaugural, Eça de Queirós elege a Igreja como alvo de sua crítica.

Educado por padres, Amaro Vieira torna-se sacerdote por comodismo e, nomeado para a paróquia de Leiria, em Portugal, conhece Amélia, moça educada por padres amorais e velhas carolas.

Logo depois, com o passar da narrativa, Amélia e Amaro mostram-se almas gêmeas e não demora muito para se tornarem amantes. Posteriormente, a gravidez de Amélia é resolvida por Amaro com a contratação de uma “tecedeira de anjos”. Amélia morre logo depois de Ihe tirarem a criança.

A criança, levada pela mulher, também morre. Livre das evidências do “crime” que lhe poderia custar a carreira clerical, Amaro continua com a sua vida sem grande peso na consciência, como se nada tivesse acontecido.

Assim, no romance, além do celibato clerical é criticada, há ainda a hipocrisia da vida devota da província.

A tediosa vida da burguesia lisboeta em “O primo Basílio”

Em seu romance mais conhecido, Eça de Queirós espalha sua acidez crítica para o casamento como instituição representativa da hipocrisia burguesa.

O primo Basílio (episódio doméstico) foi originalmente publicado em 1878.

Narra a história de Luísa, moça educada de acordo com os princípios românticos que, estando casada com o engenheiro Jorge, deixa-se seduzir pelo primo, Basílio de Brito, que volta a Portugal durante uma viagem de Jorge.

Na apresentação da personagem, fica evidente como a desocupação e o ócio marcam sua vida, por exemplo:

Apresentação de Luísa

[…] Luísa espreguiçou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria estar numa banheira de mármore cor-de-rosa, em água tépida, perfumada, e adormecer! Ou numa rede de seda, com as janelas cerradas, embalar-se, ouvindo música! Sacudiu a chinelinha; esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azuis, pensando numa infinidade de coisinhas: -em meias de seda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em três guardanapos que a lavadeira perdera…

Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar ao aparador por detrás de uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio a estender-se na voltaire, quase deitada, e, com o gesto acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a ler, toda interessada. […]

QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. 21. ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 20. (Fragmento).

Nesse sentido, esse fragmento evidencia aquela que era a maior paixão de Luísa: os romances românticos.

Assim, a intenção de Eça é mostrar, por meio da história dessa personagem, como uma educação sob os princípios românticos pode levar à busca de uma vida marcada pelo desejo da aventura, sem qualquer preocupação com as instituições sociais.

Assim, é em Luísa que o autor ilustrará essa tese: a personagem, casada com o engenheiro Jorge, deixa-se seduzir pelo primo, Basílio de Brito, porque deseja viver uma aventura semelhante às dos romances que costumava ler.

A condição social

Além disso, o romance se projeta com a presença de Juliana, empregada na casa de Jorge e Luísa.

Revoltada com sua condição social, Juliana espera sua chance de ouro para mudar de vida.

Nas cenas em que apresenta a personagem, Eça traz à luz toda a sua habilidade de romancista, tornando quase palpável para o leitor o ódio social que movia o comportamento de Juliana.

[…] Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saúde!… Era demais! Tinha agora dias em que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se Ihe embrulhava o estômago.

Nunca se acostumara a servir. […]

A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar; odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril. Tivera-as ricas, com palacetes; e pobre, mulheres de empregados, velhas e raparigas, coléricas e pacientes; – odiava-as a todas, sem diferença. É patroa e basta! […]

QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. 21. ed. São Paulo: Ática, 1998. p. 61-63. (Fragmento).

Chantageada pela empregada Juliana, que tem acesso às cartas trocadas pelos amantes, Luísa vê seus sonhos ruírem.

Portanto, o principal objeto de crítica nesse romance é a pequena burguesia lisboeta, representada de modo ímpar por tipos como o Conselheiro Acácio e Dona Felicidade de Noronha. Nesse sentido, o lado moralizador do Realismo aparece no arrependimento final da mulher adúltera.

Sem piedade para a aristocracia em “Os Maias”

O ano de 1888 viu surgir aquele que é considerado o mais bem acabado romance escrito por Eça de Queirós: Os Maias (episódios da vida romântica).

Assim, o ponto de partida são dois núcleos diferentes.

  • o envolvimento incestuoso entre os irmãos Maria Eduarda e Carlos da Maia e a vida da alta burguesia de Lisboa);
  • o romance expõe de modo cruel uma aristocracia que se comporta de modo irresponsável.

É importante ter em mente que os três romances que constituem as Cenas da vida portuguesa são, de fato, um retrato da burguesia portuguesa como uma classe que tem a hipocrisia como um traço que a define.

Por fim, veja a videoaula e resolva os exercícios para continuar estudando sobre Eça de Queirós!

Resumo de Eça de Queirós

Exercícios
TEXTO: 1 – Comum à questão: 1

Quando se conversa, deve-se evitar as frases feitas que são verdadeiras chapas. Exemplos: em um enterro, dizer “que não se morre senão uma vez”, que “basta estar vivo para morrer”, que “o morto é feliz porque deixou de sofrer”, que “Deus sabe o que faz e escreve certo por linhas tortas” ou que “as grandes dores são mudas”. Quando se visita um doente, não há necessidade de levar no bolso sentenças desse jaez: “a saúde é a maior das fortunas”, “somos nós que pagamos pelos excessos de nossos pais” ou “a ciência, que tudo pode, ainda não encontrou remédio para os pequenos males”. Em todos os setores das atividades sociais, há frases no mesmo estilo e que convém deixar ao cuidado do Conselheiro Acácio que nelas se esmerou.

(Marcelino de Carvalho, Guia de Boas Maneiras)

Questão 01 – (ESPM SP)

Personagem da obra O Primo Basílio, a figura fictícia Conselheiro Acácio, citada no texto, tornou-se célebre como:

a) o herói sem nenhum caráter, nem moral nem psicológico, é individualista, preguiçoso, faz o que deseja sem se preocupar com nada. Além disso, mente com a maior facilidade, é vaidoso, malandro e malicioso.

b) o herói quixotesco, idealista, patriota exacerbado, a ponto de fazer um ofício para o ministro, escrito em tupi, defendendo que a língua oficial deveria ser então essa.

c) representação da convencionalidade e mediocridades dos políticos e burocratas dos finais do século XIX, denunciando a pompa balofa e a postura de pseudo-intelectualidade utilizada por figuras públicas.

d) representante da literatura conformista, alienada e vazia, indiferente às desigualdades sociais, preocupada que está somente com os efeitos estéticos e de adorno do texto literário.

e) primeiro anti-herói da Literatura, representa o malandro em seu esforço de sobreviver à margem das instituições sociais por meio do “jeitinho brasileiro”.

Gab: C

Questão 02 – (PUC RS)

Leia o trecho da obra de Eça de Queirós.

Daí a pouco as pessoas que estavam nas lojas viram atravessar a Praça, entre a corpulência vagarosa do cônego Dias e a figura esguia do coadjutor, um homem um pouco curvado, com um capote de padre. Soube- se que era o pároco novo; e disse-se logo na botica que era uma ‘boa figura de homem’. (…) Eram quase nove horas, a noite cerrara. Em redor da Praça as casas estavam já adormecidas: das lojas debaixo da arcada saía a luz triste dos candeeiros de petróleo, entreviam-se dentro figuras sonolentas, caturrando em cavaqueira, ao balcão. As ruas que vinham dar à Praça, tortuosas, tenebrosas, com um lampião mortiço, pareciam desabitadas. E no silêncio o sino da Sé dava vagarosamente o toque das almas.

De acordo com o trecho e em seu contexto, assinale a única afirmativa INCORRETA.

a) O trecho pertence à obra O crime do Padre Amaro, cujo enredo traz uma relação amorosa entre um padre e uma mulher.

b) Eça de Queirós, autor da obra Os Maias, pertenceu à escola realista do século XIX e é considerado um dos maiores escritores portugueses.

c) O excerto apresenta uma característica do estilo de Eça de Queirós: a capacidade descritiva, que se evidencia quando o autor procura fotografar a realidade.

d) O trecho apresenta uma primeira repercussão da chegada do novo pároco, já reforçando uma ima­gem mais ‘carnal’ do que ‘espiritual’.

e) A obra à qual este trecho pertence apresenta um olhar benevolente para a igreja católica.

Gab: E

Questão 03 – (FFFCMPA RS)

No romance O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, o filho recém-nascido de Amélia é entregue aos cuidados de certa mulher, conhecida pelo fato de que todas as crianças pelas quais deveria zelar acabavam morrendo. Amaro soubera de sua existência através de

a) uma advertência de Dionísia para que não procurasse aquela mulher de tão má fama.

b) uma sugestão do Cônego Dias, que já utilizara os serviços criminosos da “tecedeira de anjos”.

c) uma confissão de uma paroquiana que se arrependera de sacrificar o filho bastardo.

d) uma ordem expressa do insensível Bispo de Leiria, preocupado com a repercussão do caso.

e) uma denúncia anônima de um paroquiano que imaginava que assim daria um fim ao ofício da “tecedeira”.

Gab: A

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.

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