Características do Realismo e contexto histórico no Brasil

O Realismo foi uma escola literária que rompeu com as características do Romantismo. Tinha como características a objetividade, o fim das idealizações, a valorização da razão e denúncias sociais.

Riqueza, miséria, um crescimento acelerado e desordenado dos centros urbanos. Algumas mudanças bem radicais nos meios de comunicação e transporte. Avanços científicos. Esse é o pano de fundo para o Realismo e suas características.

Você deve lembrar das aulas de História sobre Revolução Industrial, certo? Além de mudar a cara da Europa, trouxe consigo a urgência de uma nova estética que fosse capaz de refletir sobre esse processo. O Realismo e suas características respondem a essa necessidade!

obra do realismo
Imagem 1: obra com características do Realismo, mostrando o trabalho de 3 homens na área urbana. CAILLEBOTTE, Gustave. Os raspadores de assoalho. 1875. Óleo sobre tela, 102 x 146 cm. Fonte: Google imagens.

A obra acima, “Os raspadores de Assoalho”, pintado por Gustave Caillebotte em 1875, é certamente um dos quadros mais visitados no Museu D’Orsay, em Paris.

Foi uma das primeiras obras que trouxe o registro de trabalhadores urbanos. Até então, era mais comum o registro de trabalhadores rurais nas pinturas.

A tela foi apresentada originalmente em um salão de pinturas em 1875, todavia não foi aceita pelos jurados que consideraram o tema vulgar. Caillebotte tentou mais uma vez no ano seguinte, e os críticos ficaram impressionados com seu trabalho.

A Revolução Industrial transforma a Europa

A Revolução Industrial trouxe mudanças tão profundas no modo de produção que se tornou responsável pela reordenação da economia mundial no século XIX.

A multiplicação das máquinas e o avanço do comércio contribuíram para disseminar um sentimento de otimismo ligado às mudanças nos modos de produção e à possibilidade de importantes reformas sociais. Esse contexto prometia tempos de prosperidade econômica e o desenvolvimento técnico e científico.

A industrialização, contudo, trouxe um efeito social contrário ao esperado:

  • tornou mais evidente a distinção entre a burguesia e a classe trabalhadora (proletariado).
  • os trabalhadores, agora assalariados, foram empurrados em direção à pobreza.

Contexto das características do Realismo

Em 1800, a população da Europa atingia seus 190 milhões de pessoas. Cem anos depois, 460 milhões. Portanto, esses números são a constatação de uma evidente expansão do mercado e do trabalho.

Com o declínio dos tipos tradicionais de lavoura e o uso das máquinas, os camponeses se viram obrigados a deixar o interior em busca de emprego nas indústrias e fábricas nas grandes cidades.

Mesmo os grandes centros, como Londres e Paris, não contavam com uma infraestrutura ideal para suprir um crescimento populacional daquele jeito.

Nesse contexto de pobreza crescente, a mendicância e a prostituição tornaram-se subprodutos indesejáveis e vergonhosos da sociedade.

Nesse sentido, as mudanças trazidas pelo avanço tecnológico tiveram um efeito imediato na vida dos europeus: o mundo ficou menor.

A invenção do telégrafo – uma espécie de Whatsapp da época – possibilitou comunicações extremamente rápidas. Assim como a substituição dos cavalos pelas máquinas movidas a vapor revolucionou o sistema de estradas de ferro.

Novos pensamentos sociais e políticos

Juntamente com as mudanças populacionais, tivemos as mudanças sociais e políticas. Diferentes doutrinas vieram para explicar a organização capitalista. O inglês Adam Smith (1723-1790) é considerado o pai da economia moderna.

Nesse sentido, Adam pregava uma política liberalista, na qual a economia deveria ser exercida pela livre iniciativa. Logo, a função do Estado seria somente de preservar a lei, a ordem e defender a nação.

A proposta do liberalismo de não intervenção estatal na economia foi associada a uma expressão francesa, laissez-faire, que pode ser traduzida como “deixar fazer”.

Além disso, para o economista Thomas Malthus o descompasso entre o crescimento populacional e a produção de alimentos criava um estado de pobreza permanente e inevitável – Esse era o Thanos da época.

Logo, sua ideia serviria de resposta para que alguns setores da sociedade condenassem ações governamentais de ajuda aos pobres.

O filósofo e economista alemão Karl Marx (1818-1883) revolucionou o pensamento de seu tempo ao trazer as bases teóricas para uma nova organização social.

De acordo com o Marx, as relações de produção e de trabalho da sociedade é que determinavam a estrutura social.

Em 1848, juntamente com Friedrich Engels (1820-1895), lançou O manifesto comunista chamando as classes trabalhadoras a serem contra o sistema capitalista que as oprimia e condenava à miséria.

Como isso influenciou as características do Realismo

Quem bom que perguntou, estudante. Nesse contexto, a Literatura tomará um papel de denúncia. Como a realidade das máquinas, dos transportes e das novas teorias sociais, tornava-se inviável a visão de mundo romântica.

Os artistas, como pessoas de seu tempo, buscavam um novo olhar de interpretação da realidade. Dessa maneira a objetividade tomou o lugar do subjetivismo romântico e a valorização desmedida da emoção foi deixada de lado.

Então, no lugar de chorar as pitangas dos dramas particulares, o viés realista terá como foco a sociedade e os comportamentos coletivos.

Portanto, o Realismo procura analisar essa nova organização social e econômica que pintou aí. Além disso, também deseja apontar suas causas e denunciar suas consequências.

eça de queirós e características do realismo
Imagem 2: retrato em preto e branco de Eça de Queirós. Fonte: Google imagens.

Eça de Queirós

Eça de Queirós, importante escritor realista, definiu o Realismo sendo como a anatomia do caráter. Ele defendeu – ou apresentou mesmo, como queria, estudante – essa definição em uma conferência.

É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.

Assim, Eça resume o que seriam os objetivos que servem para toda a literatura realista: uma representação da realidade que a ajude a compreender a origem de atitudes e comportamentos sociais negativos.

Estudante, para fazer essa leitura, os escritores realistas se servirão da razão e a objetividade como lentes através das quais observam a realidade.

Dessa maneira, o que trazem à tona é uma burguesia hipócrita e fútil, que explora o proletariado enquanto propaga o “amor à justiça e à igualdade”.

Uma crítica ao Romantismo

Uma das principais características do Realismo é a crítica ao Romantismo. Você já leu Madame Bovary, de Gustave Flaubert? Foi a primeira narrativa realista a surgir na Europa.

O romance narra a história de Emma Bovary, mulher educada de acordo com os ideais burgueses românticos. Entediada com o próprio casamento, se torna presa fácil para o primeiro conquistador que lhe aparece pelo caminho. O destino de Emma é a morte.

Dessa maneira, Flaubert traz a morte da visão romântica, ao mesmo tempo que critica, sem nenhuma misericórdia ou piedade, a falsidade da sociedade burguesa.

Em sua narrativa, toda a trama melodramática, aventurosa e sensacional é substituída pelas descrições de uma vida cotidiana monótona e quase sempre vulgar.

Toda essa mediocridade da vida burguesa surge das páginas de Madame Bovary com um objetivo muito claro.

Sob a óptica realista, denunciar a hipocrisia da classe dominante é o que dá ao escritor uma importante função na educação da sociedade.

Principais características do Realismo

Vamos listar as principais características do Realismo em ordem aleatória, não necessariamente em ordem de importância:

  1. Objetividade
  2. Crítica ao Romantismo
  3. Cientificismo
  4. Denúncias sociais
  5. Fim das idealizações

Uma obra racional, objetiva e, por vezes, cruel

Nas características do Realismo, o autor busca analisar a realidade que o cerca tendo a razão como sua principal ferramenta. Assim, o subjetivismo é substituído por um olhar mais objetivo.

Dessa maneira, o interesse pelo funcionamento e organização da sociedade faz com que os escritores realistas abordem as necessidades materiais humanas.

Além disso, vemos também como características do Realismo a discussão das condições econômicas. Temos, por exemplo, a discussão sobre aspectos referentes ao mundo do trabalho, necessárias para suprir tais necessidades.

Nesse sentido, esse interesse pela realidade tangível, material, afasta o romance realista da perspectiva idealizada que caracterizou o Romantismo. A objetividade “absoluta” da prosa realista precisa, todavia, ser questionada.

Portanto, o olhar do leitor é guiado pelo narrador realista, sem que isso seja feito de modo grosseiro ou explícito, como era comum nos romances românticos.

Exemplo de objetividade

Veja só como o narrador de O primo Basílio descreve D. Felicidade de Noronha.

[…] Às nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado Tinha cinquenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam lá se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pelos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina. […]

QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. 15. ed. São Paulo: Atica, 1994. p. 33. (Fragmento).

O narrador não revela sua opinião sobre D. Felicidade, apenas a descreve.

Mas, as observações que faz sobre a dispepsia e os gases que acometem a senhora e outras minúcias que destaca em sua aparência – a cara “de uma alvura baça e mole de freira” e os “olhos papudos” – servem para Ihe dar um aspecto caricato.

Dessa maneira, ao ler descrições como essa, o leitor pode se convencer de que formou, sozinho, uma imagem sobre as personagens, mas na verdade chega às conclusões previstas pelo narrador.

Interesse pelas coisas do seu tempo

Para os autores realistas, coisas como o passado ou as origens não são mais o foco de atenção. Integrados à sociedade em que vive, mostram interesse pela realidade presente.

Algumas ferramentas narrativas colaboram para trazer ao texto realista a marca da contemporaneidade. Dessa maneira, o mais comum é a referência, por meio das personagens, a acontecimentos da vida social ou política.

Esse recurso, estudante, também era utilizado nos romances românticos. A diferença é que, nos textos realistas, a inclusão de fatos da época costuma vir sempre sob um olhar crítico. Isso é, parece manifestar a insatisfação dos leitores em relação a espaços e serviços públicos.

Verdade concreta

Também temos como características do Realismo uma postura mais materialista. Isso é resultado natural da oposição ao sentimentalismo romântico. Essa postura busca a verdade na realidade concreta, material, e não nos sentimentos e na imaginação.

Então, para os escritores realistas, a sociedade é o objeto de interesse imediato e sua análise e compreensão dependem da capacidade de se aterem aos fatos verdadeiros e comportamentos observáveis.

Uma autópsia do caráter

Condição para compreender a sociedade era notar como se comportavam as pessoas e se existia alguma relação entre esse comportamento e problemas sociais.

Por esse motivo, os realistas quase que ignoram o particular, o exótico, e procuram evidenciar o que é típico, sistemático, recorrente.

Dessa maneira, vem daí o interesse pela análise das motivações psicológicas que poderiam explicar certos comportamentos.

Machado de Assis mostra-se um mestre na construção de personagens, colocando em evidência as motivações psicológicas do comportamento de cada uma delas.

Comportam-se de forma coerente com uma classe dominante que não via nada de errado em explorar os outros e não tinha escrúpulos em fazer valer a própria vontade.

Machado de Assis

No mês de junho de 2020, uma edição traduzida para o inglês de Memórias Póstumas de Brás Cubas se esgotou em um dia no Estados Unidos.

Entre os leitores das obras de Machado de Assis podemos citar Woody Allen, Susan Sontag e Philip Roth.

Aliás, em um interessante ensaio sobre Machado de Assis, a escritora americana Susan Sontag (1933 – 2004) comentou sobre a importância da relação entre narrador e público nas Memórias Póstumas de Brás Cubas.

[…] O esplêndido achado do romance, serem memórias escritas por um morto, acrescenta um efeito adicional a esses cuidados reguladores com aquilo que o leitor pensa.]

[…] Pedir ao leitor que tenha paciência com a tendência do narrador para a frivolidade é também uma manobra de sedução, tal como prometer ao leitor emoções fortes e conhecimentos novos.

SONTAG, Susan. Questão de ênfase. Tradução de Rubens Figueiredo, São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p, 50-51. (Fragmento).

Por fim, veja a videoaula e resolva os exercícios para continuar estudando sobre as características do Realismo!

Resumo
Exercícios
Questão 01 – (FUVEST SP)

Considere os seguintes trechos:

(I)    Era um pedreiro de Naim (…). O açoite dos intendentes rasgara-lhe a carne; depois a doença levara-lhe a força, como a geada seca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes – e gravava nelas nomes santos, sítios santos, para as vender no Templo aos fiéis. Em véspera de Páscoa, porém, viera um Rabi de Galileia cheio de cólera que lhe arrancara o seu pão!…

(II)   (…) E nós tivemos de fugir, apupados¹ pelos mercadores ricos, que, bem encruzados nos seus tapetes de Babilônia, e com o seu lajedo bem pago, batiam palmas ao Rabi… Ah! Contra esses o Rabi nada podia dizer, eram ricos, tinham pago! (…) Mas eu fui expulso pelo Rabi, somente porque sou pobre!

(III)  (…) Bati no peito, desesperado. E a minha angústia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violência do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente criado, como a chuva benéfica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flor isolada.

1.Vaiados.

Eça de Queirós, A relíquia.

“Se quiséssemos recolher tudo o que já foi encontrado [da cruz de Cristo], daria para lotar um navio. O Evangelho conta que a cruz podia ser levada por um homem. Encher a Terra com tamanha quantidade de fragmentos de madeira que nem 300 homens aguentariam levar é uma desfaçatez”, já afirmava o teólogo francês Jean Calvino, profundamente cristão, em seu Tratado das Relíquias, publicado em 1543. A observação de Calvino continua viva cinco séculos depois. Os pedaços da chamada Vera Cruz, a cruz em que Jesus de Nazaré foi executado segundo a tradição cristã, são considerados relíquias de primeira categoria pela Igreja Católica, mas aparentemente são tão numerosos que dão a impressão de que Cristo foi um gigante crucificado em dois troncos de sequoias.

Manuel Ansede, “Fragmentos da cruz de Cristo dariam para lotar um navio inteiro”. In: El país, Caderno “Ciência”. Março de 2016. Adaptado.

a) Identifique as personagens que atuam como narradoras em cada um dos excertos de Eça de Queirós.

b) É possível afirmar que o romance A Relíquia endossa a perspectiva adotada por Manuel Ansede a respeito de elementos pertinentes à tradição cristã? Justifique.

Resposta:

a) Os textos I e III são narrados por Teodorico Raposo. O texto II é narrado pelo velho pedreiro de Naim. A palavra Rabi é a denominação dada a Jesus Cristo.

b) Tanto Calvino quanto seu comentarista, Ansede, destacam a impostura que é a forma como pessoas católicas são enganadas e por isso consideram pedaços de madeira como relíquias da cruz de Cristo. Apesar de o Evangelho relatar que a cruz poderia ser levada apenas por um homem, houve tamanha quantidade de pretensas relíquias que daria para “lotar um navio”, de acordo com Calvino, ou para imaginar “que Cristo foi um gigante crucificado em dois troncos de sequoias”, de acordo com Ansede. Esse raciocínio, que beira o absurdo cômico-irônico, permite veicular uma crítica ao fetichismo com que transforma quaisquer pedaços de madeira em algo pretensamente sagrado.

Tal procedimento crítico também pode ser encontrado em A relíquia, de Eça de Queirós. Basta lembrar, por exemplo, que Teodorico, após ser expulso da casa da tia rica, Maria do Patrocínio, vende como algo de valor místico mais de setenta e cinco pregos, apregoando fraudulentamente que eram da cruz de Cristo.

Questão 02 – (PUC SP)

Leia o excerto a seguir, extraído do primeiro capítulo de A cidade e as serras

– Aqui tens tu, Zé Fernandes – começou Jacinto, encostado à janela do mirante -, a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples dum binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia.

Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os do meu telescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia dum astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado pela

Civilização à sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do Universo que ele não suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os órgãos e compreenderás o meu princípio.

(Queirós, Eça de. A cidade  e as serras. São Paulo:  Ateliê, 2007, p. 63-64)

De acordo com o fragmento em questão, ao apresentar para o amigo Zé Fernandes sua teoria a respeito da felicidade, Jacinto revela:

a) a vontade de aproximar-se da natureza, pois a vida na cidade afasta o ser humano da realidade concreta.

b) uma visão mística do mundo, explicitada pelo desejo de enxergar mais do que os olhos humanos permitem.

c) um olhar pessimista sobre a realidade urbana, caracterizado pela submissão do homem civilizado à ciência.

d) a superioridade da civilização sobre a natureza, pois só a ciência permite ao ser humano transpor seus limites.

Gab: D

TEXTO: 1 – Comum à questão: 3

Tinham passado três anos quando conheceu Jorge. Ao princípio não lhe agradou. Não gostava dos homens barbados; depois percebeu que era a primeira barba, fina, rente, muito macia decerto; começou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar sentia ao pé dele como uma fraqueza, uma dependência e uma quebreira, uma vontade de adormecer encostada ao seu ombro, e de ficar assim muitos anos, confortável, sem receio de nada. Que sensação quando ele lhe disse: ‘Vamos casar, hein!’ Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge tinha-lhe tomado a mão; ela sentia o calor daquela palma larga penetrá-la, tomar posse dela; disse que sim; ficou como idiota, e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se docemente os seus seios. Estava noiva, enfim! Que alegria, que descanso para a mamã!

(QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/ texto/ua00087a.pdf>. Acesso em: 01 jul. 2014).

Questão 03 – (PUC MG)

Eça de Queirós é um dos principais nomes do Realismo na literatura portuguesa. De acordo com o trecho citado, destaca-se na caracterização da personagem feminina:

a) a descrição do amor idealizado.

b) a ênfase sobre a sensualidade.

c) o interesse por bens materiais.

d) o relacionamento por conveniência social.

Gab: D

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.

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