Denotação, Conotação e Tropos

Conheça os recursos estilísticos básicos da língua portuguesa, e saiba distinguir a linguagem figurada da literal.

Nesta aula você saberá o que é linguagem denotativa e conotativa. Também vai revisar sobre Figuras de Linguagem ou Tropos, que são recursos estilísticos muito comuns na fala cotidiana e também na linguagem escrita. Vem com a gente e revise denotação, conotação e Tropos para mandar bem em Línguas no Enem e nos vestibulares!

Denotação

Também chamada de linguagem denotativa ou literal, a denotação significa o emprego da palavra em seu sentido original, próprio ou preciso, ou seja, livre seu sentido metafórico. Veja alguns exemplos:

> Vamos jogar futebol.

> Eu quero almoçar agora.

> O viaduto estava congestionado.  

A denotação é meramente informativa e, por isso, não explora os sentidos colaterais das palavras. Essa linguagem também não visa gerar no leitor nenhum tipo de emoção.

Conotação

A linguagem conotativa, ao contrário da denotação, busca produzir no leitor algum tipo de emoção: riso, paixão, surpresa etc. Na conotação, as palavras vêm investidas de seu sentido metafórico, exemplos:

> Vamos bater uma bolinha (para “vamos jogar futebol”).

> Ela é um anjo (para “ela é uma ótima pessoa”).

> Está chovendo canivetes (para “está chovendo muito”).

Sendo assim, podemos dizer que a conotação explora o valor semântico das palavras – ou seja, os seus diversos sentidos possíveis – e o faz também por meio de técnicas, em especial as figuras de linguagem.

o que é denotação e conotação
“Cortar as asinhas”, metáfora, aqui expressa em seu sentido literal. No sentido conotativo, significa algo como “impor limites”.
Figuras de Linguagem ou Tropos

Um tropo (do grego “trópos”, ‘direção’, ‘giro’, do verbo “trépo”, ‘girar’) é uma figura de linguagem na qual há uma mudança de significado, seja por meio de comparações, associação de ideias ou palavras. Tais alterações seguem estilo e técnicas distintas, veja agora as principais delas.

METÁFORA: é uma das principais figuras de linguagem. Consiste em relacionar um termo real com um imaginário, entre os quais existe uma relação de semelhança ou analogia. Existem diferentes técnicas no uso da metáfora, perceba como uma mesma metáfora pode ter efeitos diferentes seguindo cada uma delas:

  • Metáfora impura (ou simples): ocorre quando o elemento metafórico e o elemento real estão presentes, o que possibilita a associação direta entre os dois planos (o evocado e o real), exemplo:

“Amor é fogo que arde sem se ver,” (Luís de Camões)  =>  amor = fogo

“Seus olhos são estrelas.” (olhos=estrelas)

  • Metáfora Pura: é a metáfora em que o termo real é omitido:

“As estrelas de sua face.” (Repare como “seus olhos”, termo comparativo real, foi omitido.)

  • Metáfora Aposicional: é a metáfora ligada pela vírgula:

“Seus olhos, estrelas de sua face.”

  • Metáfora de Complemento Preposicional do Nome: é a metáfora relacionada por uma preposição:

“Olhos de estrelas.”

  • Metáfora Negativa: é a metáfora baseada no uso de expressões negativas:

“Não são olhos, são estrelas.”

  • Metáfora Descritiva: é a metáfora apoiada na descrição do elemento real com outros, imaginários:

Seus olhos (elemento real), estrelas (Imaginário), luzes (Imaginário), distantes (Imaginário) …

  • Metáfora Continuada ou Superposta: é a metáfora que acumula e segmenta os elementos imaginários:

Há fontes intermináveis em seus olhos, seus olhos são estrelas, as estrelas são águas cristalinas, as águas jorram das fontes.

CATACRESE: etimologicamente, catacrese (do grego catáchresis), significa erro. A catacrese consiste na mudança de um nome, fazendo-o representar, com base na analogia, um objeto, ou uma parte do objeto, para os quais não existem nomes ou adjetivos próprios. A catacrese aproxima-se da metáfora, e chega mesmo a confundir-se com ela. Exemplos:

“mão de pilão”;
“perna de mesa”;
“costas da cadeira”

HIPÉRBOLE: é uma das figuras de linguagem caracterizadas como figura de pensamento. Consiste em utilizar superlativos e termos exagerados, seja por excesso ou defeito, tais como: “genial”, “fantástico”, “sublime”, “amabilíssimo”, “paupérrimo”, “ignóbil”, etc.; ou mesmo fazer comparações desproporcionais: “Forte como um touro”; “veloz como um foguete”.  A Hipérbole costuma ser associada à metáfora e a comparação:

“vontade de ferro” => vontade inabalável

Utilizando a Hipérbole, é possível gerar efeito irônico, exagerando de maneira provocativa e crítica em relação a alguém. Ex:

“Choro rios de lágrimas pelo azar dos inimigos.”

“Estou morrendo de medo de sua ameaça.”

METONÍMIA: junto da metáfora, é uma das figuras de linguagem que mais aparecem nas provas. Na metáfora, o transporte de sentido opera-se por meio de uma semelhança ou analogia. Na metonímia (do grego metonymía = mudança de nome), por sua vez, a transposição de sentido realiza-se através de uma relação de contiguidade. Ou seja, é feita por vincular coisas que não são parecidas, mas que podem relacionar-se por algum outro tipo de relação – causalidade, procedência, interdependência, coexistência, implicação ou sucessão – como:

O autor pela sua obra:

metonimia figuras de linguagem
http://carlosaraujoilustrador.blogspot.com/2016/06/metonimia.html

“ler Camões” => os livros de Luís de Camões.
“assistir Kubrick” => os filmes de Stanley Kubrick.

O símbolo ou sinal pela coisa simbolizada:
“a espada, a cruz, os louros” => o exército, a religião cristã.

“o altar e o trono” => a religião e o poder do rei.

A divindade em vez do domínio em que exerce as suas funções:

“amigo de Baco” => ‘amigo do vinho’

“gritos de Marte” => ‘gritos da Guerra’

O lugar de origem pelo produto, ou vice-versa:

“fumar um Havana” => ‘fumar um charuto’.
“Beba um Porto!” => ‘beba um vinho’

O específico pelo genérico e/ou o objetivo pelos meios:

“Não consegue ganhar o pão” => ‘não consegue arranjar um trabalho.’

“ganhar a vida” => ‘conseguir um meios de subsistência’.

O abstrato pelo concreto:

“o amor é egoísta” => ‘a pessoa que ama é egoísta’.
“A juventude é sonhadora” => ‘os jovens são sonhadores’.

A matéria pela coisa:

“o aço” => ‘a espada’
“os bronzes” => ‘os sinos’.

O instrumento por aquele que o maneja:

“o baixo acompanhou a banda ” => ‘aquele que toca o contrabaixo’
“O melhor pincel da antiguidade” => ‘o melhor pintor da antiguidade’

O continente pelo conteúdo, ou vice-versa:

“o teatro aplaudiu o artista” => os espectadores aplaudiram o artista;
“beber um copo” => beber o líquido contido num copo

O físico pelo moral:

“Ela é um grande coração.” => ‘é uma pessoa bondosa. ’

“Aquele homem é uma grande cabeça” => ‘ é muito inteligente. ‘

O invento pelo inventor:

“Encontrava-se num dédalo” => (a Dédalo se atribui a invenção do labirinto) =>encontrava-se num labirinto.

Causa pelo efeito:

Sou alérgico a cigarro => o cigarro é a causa: a fumaça, o efeito. É possível ter alergia à fumaça, mas não ao cigarro apagado.

SINÉDOQUE: é uma figura de linguagem que consiste em tomar a parte pelo todo ou o todo pela parte. Exemplo:

“Não tinha um teto” => o teto então representa a casa inteira.

Seguindo esse princípio, a Sinédoque também pode designar:

A capital pelo governo do país: “Washington só está interessada no petróleo do Iraque” => Washington= EUA

A vestimenta pela pessoa que o usa: “Um vestido vermelho atravessou o salão ”

Marca pelo produto: Eu adoro um danone. =>Danone é a marca de um iogurte, tão popular que é chega a nomear o próprio produto. O mesmo acontece, por exemplo, com o cotonete, o Bombril e o Nescau.

A sinédoque é similar à metonímia (de certo modo, uma parte dela) e, às vezes, considerada apenas uma variação desta.

PERÍFRASE: consiste em exprimir por meio de expressões ou frases completas o que seria possível dizer-se numa só palavra, às vezes é tida como uma variante da metonímia ou da metáfora, podendo surtir também o mesmo efeito do eufemismo:

“Espero a benção do salvador” => como é popularmente conhecido Jesus Cristo.

“O Rei do Pop veio ao Brasil para gravar um videoclip.”

ANTONOMÁSIA: é uma figura compreendida como um tipo de metonímia, em que há substituição do nome de um objeto, entidade, pessoa et., por outro nome, perífrase, ou adjetivo, que faça alusão a uma característica conhecida e capaz de identificar uma qualidade essencial ou conhecida do que ou de quem nomeia: Exemplos:

Filho de Deus => Jesus Cristo

Dama de Ferro => Margareth Tatcher

Rei do Futebol => Pelé

IRONIA: figura que cuja finalidade é dar a entender o contrário do que se diz. Costuma ser utilizada para zombar de alguém ou de alguma coisa, tecer uma crítica, denúncia ou censura, muitas vezes agressiva. Costuma atrair marcas da oralidade como ponto de exclamação e reticências. Exemplos:

“Meu marido é um santo. Só me traiu três vezes!”

“Ah claro, ele é muito sincero…”

EUFEMISMO: o eufemismo é uma figura que surge como forma de atenuar e suavizar o caráter desagradável, horrível, penoso, grosseiro ou indecoroso, de um julgamento, de uma notícia, opinião, etc. Poderá conter traços de ironia. Exemplos:

“Entregar a alma ao criador.” (por ‘morrer’)

“Ele não roubou… Digamos que fez um pequeno desvio!”

DISFEMISMO: O Disfemismo é precisamente o contrário de eufemismo: em vez de se atenuar uma dura realidade, opta-se por torná-la real ou mesmo cruel:

“Deixa em paz a criatura. Está começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos.” (Eça de Queirós)

“Comer capim pela raiz.”

“Bater as botas.”

ALEGORIA: Forma de representação indireta em que se emprega uma coisa (ou pessoa, animal, objeto, etc) ou mesmo uma pequena história como signo de outra coisa ou situação exemplar. Produz assim uma virtualização do significado, ou seja, sua expressão procura transmitir sentidos além do literal. Na literatura clássica, o mito da caverna (narrado na República de Platão, Livro VII) é um bom exemplo de alegoria.

O uso dos recursos que vimos nesta aula é bastante comum não apenas em obras literárias, como também na linguagem corrente. A sua presença enriquece a língua com formas diferentes de observar as coisas. O seu uso pode também agir sobre a argumentação e exposição de temas e assuntos diversos.

Agora, para fixar melhor este conteúdo, que tal ver videoaulas sobre denotação, conotação, e outras figuras de linguagem?

Para praticar, tente fazer esses exercícios sobre figuras de linguagem, denotação e conotação:

(FUVEST) Identifique a figura de linguagem empregada nos versos destacados:

“No tempo de meu Pai, sob estes galhos,

Como uma vela fúnebre de cera,

Chorei bilhões de vezes com a canseira

De inexorabilíssimos trabalhos!”

A) antítese

B) anacoluto

C) hipérbole

D) eufemismo

E) metáfora

(FGV-2006) Leia o texto abaixo.

4 Graus

Céu de vidro azul fumaça

Quatro Graus de latitude

Rua estreita, praia e praça

Minha arena e ataúde

Não permita Deus que eu morra

Sem sair desse lugar

Sem que um dia eu vá embora

Pra depois poder voltar

Quero um dia ter saudade

Desse canto que eu cantei

E chorar se der vontade

De voltar pra quem deixei

De voltar pra quem deixei.

Fonte: http://fagner.letras.terra.com.br/letras/253766/, em 10 de maio de 2006

No primeiro verso da canção, um recurso de estilo se destaca. Trata-se da:

A) Metáfora.

B) Metonímia.

C) Sinédoque.

D) Catacrese.

E) Antonomásia.

(ITA-2002) Assinale a figura de linguagem predominante no seguinte trecho: “A engenharia brasileira está agindo rápido para combater a crise de energia.”

a) Metáfora.

b) Metonímia.

c) Eufemismo.

d) Hipérbole.

e) Pleonasmo.

(UNESP-2014) […] fica reduzida aos pouquíssimos: dentes acatólicos da população. Na expressão dentes acatólicos, a palavra “dentes” é empregada em lugar de “pessoas”, segundo uma relação semântica de:

a) símbolo pela coisa significada.

b) parte pelo todo.

c) continente pelo conteúdo.

d) causa pelo efeito.

e) todo pela parte.

Gabarito

1) c.

2) a.

3) b.

4) b.

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.