A Lógica de Aristóteles: a arte de argumentar

É lógico que você quer saber sobre a Lógica aristotélica, porque logicamente a Lógica é assunto do Enem. Então, vem comigo nessa jornada descobrir o que é Lógica! Revise Filosofia para o Enem!

Afinal o que é Lógica? Usamos essa palavra em nosso cotidiano, as vezes até demasiadamente. Mas será que sabemos o que ela representa? Vamos entender isso antes de ver a Lógica de Aristóteles.

A Lógica foi um conceito estudado por várias civilizações da antiguidade. Embora nesta aula revisaremos a concepção grega pensada por Aristóteles, existiram reflexões sobre a Lógica na China e na Índia também em épocas passadas.

O primeiro registro escrito sobre Lógica é um conjunto de textos de Aristóteles (considerado o pai da Lógica). Suas ideias sobre o assunto tiveram grande aceitação em todo o mundo. Tanto é que durante a Idade Média teve gente usando Aristóteles para explicar a fé cristã.

lógica de aristóteles (significado de lógica)
Figura 1. Lógica, tem origem no termo grego logiké. Em uma tradução aproximada seria algo como logos, razão, palavra ou linguagem.

 

Você provavelmente já deve ter ouvido alguém empregar a palavra Lógica em várias situações. Ela é uma palavra bem difundida em nosso vocabulário. Aliás, passamos muito tempo supondo que tudo o que havia para ser descoberto nessa área já havia sido dito pelo meu camarada Aristóteles.

Mas como diria Heráclito: “tudo flui” e atualmente há mais a saber sobre Lógica do que somente a Lógica de Aristóteles.

kant
FIGURA 2. Meu parceiro Kant uma vez comentou que nada de significante havia sido adicionado à Lógica nos dois milênios entre seu tempo e o de Aristóteles. Isso porque tudo o que havia para saber sobre o estudo formal do raciocínio já estaria no trabalho de Aristóteles.

 

A lógica moderna

Existe hoje outros sistemas lógicos que não o de Aristóteles. O nascimento da chamada Lógica moderna, faz surgir à tona algumas limitações da Lógica aristotélica e com isso gerou uma variedade de outros modelos Lógicos inspirados em Aristóteles.

Um tipo bem conhecido é a Lógica matemática, que consiste em um sistema dedutivo de enunciados que tem como objetivo criar um grupo de leis e regras para determinar a validade dos raciocínios.

Você já deve ter se deparado com um problema de Lógica matemática como: Em um certo verão, uma fábrica de sorvetes realizou uma promoção que previa a troca de dez palitos de sorvete por um sorvete de palito. Nessa promoção, um palito de sorvete corresponde a que fração do preço de um sorvete? Para resolver este problema, você usa a “lógica”.

Há também a Lógica de programação, uma linguagem usada para criar um programa. É daí que vamos partir, da linguagem, ou mais especificamente de como organizamos as palavras para dar sentido a linguagem.

lógica moderna
Figura 3. A Lógica moderna expressa argumentos complexos por meio de uma linguagem própria, princípio fundamental para criação de uma linguagem de programação.

 

A Lógica em Aristóteles

A Lógica aristotélica usa a linguagem para expressar os juízos que são formulados pelo pensamento. Ela estuda os formatos que um argumento pode tomar para assim sabermos quais desses formatos podem ser considerados plausíveis ou não. Em suma, é um esforço para desvendar qual é a melhor maneira de se elaborar o nosso raciocínio.

Em outras palavras, a Lógica aristotélica tem como objetivo estudar as relações do pensamento com a verdade. Ela vai prenunciar a possibilidade de alcançarmos determinadas conclusões partindo de certas noções a respeito do assunto. Funciona como uma ferramenta para alcançarmos um argumento válido.

a lógica de aristóteles
FIGURA 4. Para Aristóteles, a Lógica não é ciência, mas uma ferramenta (órganon) para chegarmos a verdade.

Dentro dessa Lógica, Aristóteles vai “pirar o cabeção” numa “parada” que ele chamou de Silogismo. O Silogismo é um tipo de raciocínio dedutivo. Ele parte de uma generalização para chegar em algo particular. Por isso tem sua conclusão (particular) derivada das premissas (geral).

Todavia, o Silogismo não está preocupado em atribuir o valor de verdade ou falsidade às proposições (premissas) nem à conclusão. Ele é apenas a forma de construção do argumento.

Os princípios da Lógica Aristotélica

De acordo com Aristóteles, para que nosso argumento tenha uma Lógica consistente, precisamos respeitar algumas “paradas” definidas por ele (Aristóteles) incluindo três princípios básicos que são:

  • O Princípio da Identidade: Declara que uma coisa só é igual a ela mesma. (A=A). Isso quer dizer que você é especial igual a todo mundo! Isto é, só existe um de você. Ainda que você tenha um clone ele será apenas semelhante, mas não igual a você.

Imagina que você “tá de boas” na rua e avista aquela moto dos seus sonhos (a minha é a Ducati Panigale V4) logo atrás vem outra moto do mesmo modelo. Você poderia dizer que elas são iguais certo? Mas, segundo nos postulou Aristóteles, nesse tal princípio da identidade, você estaria errado em afirmar que elas são iguais.

O que ocorre é a semelhança entre as motos, mas não igualdade. Assim, nunca existirá duas coisas exatamente idênticas ao mesmo tempo.

  • O Princípio da não contradição: Declara que dois enunciados contraditórios não podem ser verdadeiros ao mesmo tempo, isto é, eu não posso surfar e não surfar ao mesmo tempo. (A é A e não -A).
  • O Princípio do Terceiro Excluído: Declara que toda afirmação ou é verdadeira ou é falsa, e não há um terceiro caso possível. Ou seja, se um vestido é (inteiro) branco ele não pode ser azul. (A é x ou não-x, não há terceira possibilidade).

É assim que Aristóteles conseguiu montar esse sistema de Lógica, simplificando as afirmações de um argumento para atribuir aos enunciados o valor de verdade ou falsidade. Com isso ele deu seguimento ao que chamou de Silogismo, um tipo de argumento lógico que extrai uma conclusão de dois ou mais enunciados, que se supõe verdadeiros.

Veja, então, que a forma básica do Silogismo é composta por no mínimo três termos que, por sua vez, nos proporcionam três proposições distintas: uma premissa maior, uma menor e uma conclusão que deriva dessas premissas. Exemplo:

Premissa Maior: Se, todo filósofo (A) é fanfarrão (B) [A implica B]

Premissa Menor: Ora, Aristóteles (C) é fanfarrão (B) [C implica B]

Conclusão: Logo, Aristóteles (C) é filósofo (A) [C implica A]

tabela de símbolos
Figura 5. Símbolos fundamentais no uso da linguagem Lógica.

 

Podemos complicar um pouco mais e adicionar mais premissas a nossos argumentos, por exemplo:

Premissa: Se Zeus ajuda (A) quem cedo madruga (B) … [A→B]

Premissa: Ora, quem cedo madruga (B), dorme à tarde (C) … [B→C]

Premissa: Se, quem dorme à tarde (C), não dorme à noite (D) … [C→D]

Premissa: Ora, quem não dorme à noite (D), sai na balada! (E) … [D→E]

Conclusão: Logo. Zeus ajuda (A) quem sai na balada! (E) [A→E]

Os enunciados apresentados nas premissas servem de evidência para a conclusão. Assim sendo, precisamos ter como ponto de partida uma verdade geral, ou seja, já estabelecida.

o formato de aristóteles
Figura 6. O formato de apresentado por Aristóteles é ainda hoje muito utilizado por nós nos mais diversos tipos de argumentos.

 

A falácia

Retomando o que esbocei há pouco, nem sempre o argumento com esse formato é verdadeiro. Às vezes partimos de premissas erradas ou chegamos a conclusões absurdas.

Podemos também elaborar uma premissa partindo de uma conclusão, isto é, a conclusão de uma coisa pode ser a premissa de outra. Assim se a conclusão for falsa a premissa também será. Quer ver só:

Premissa: Se Deus é amor.

Premissa: Ora, o amor é cego.

Premissa: Se Steve Wonder é cego.

Conclusão: Logo, Steve Wonder é Deus.

Outro exemplo:

Premissa: Se eu sou Ernani;

Premissa: Ora, Ernani não é ninguém na fila do Pão.

Conclusão: Logo, eu não sou ninguém na fila do pão.

Premissa: Ninguém é perfeito.

Conclusão: Então, eu sou perfeito.

Premissa: Todavia, só Deus é perfeito.

Conclusão: Portanto, Eu sou Deus.

Premissa: Se Steve Wonder é Deus,

Conclusão: Eu sou Steve Wonder!!

Conclusão: Meu Zeus, eu sou cego!!!

Bom, se você me conhecesse perceberia de cara que eu não sou cego. Então embora o argumento acima seja válido ele não é verdadeiro. Portando, quando o Silogismo não é valido ocorre então uma Falácia.

A falácia consiste no ato de chegar a uma determinada conclusão errada a partir de proposições que são falsas. Isto é, um raciocínio errado que tenta passar como verdadeiro, normalmente com o intuito de ludibriar outras pessoas. A isso Aristóteles chamou de Falácia Formal.

Além dela temos também a Falácia informal que diferente da formal, usa de raciocínios válidos, a princípio, para chegar a resultados que sejam inconsistentes e com premissas falsas.

Ao contrário das falácias formais, que são mais fáceis de identificar, as falácias informais, por apresentar uma forma lógica válida, podem ser de difícil identificação.

Retórica

Cara, dá para usar esse tipo de Silogismo para convencermos a galera sobre várias coisas absurdas. Embora isso aí não seja algo “bacana” de se fazer, pois foge da verdade. Entretanto, esse tipo de argumentação (convencer o outro) também foi explorado por Aristóteles, ele se refere a isso em sua Retórica.

Para o filósofo grego, a retórica não consiste meramente numa arte da persuasão, mas numa faculdade de descobrir especulativamente os recursos que podem servir para persuadir.

Dica: Saiba mais sobre retórica nesse vídeo que selecionei especialmente para você

Ora, é necessário que saibamos reconhecer as falácias (às vezes não é tão simples). Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica, mas não validade Lógica. Existem diversos tipos de falácias lógicas, sendo que cada uma é focada num método ou técnica diferente de tentar convencer a partir de um argumento falso.

Uma Falácia que ficou muito famosa com a eleição de Donald Trump foi o Whataboutism, que é um nome “chique” da Falácia do “Tu Quoque”. Quando se responde a uma acusação virando-se contra o acusador, evitando que se dê efetivamente uma resposta a ela. Aqui no Brasil ela foi muito utilizada como mecanismo de evasão nas discussões políticas.

Dica: Você pode ver exemplos práticos disso nesse programa da HBO

Como você pode ver, a utilização da Lógica aristotélica vai além de Silogismos e Falácias. Ela continua sendo fundamental para a Filosofia e a Ciência. Sem ela muitas das descobertas e dos avanços científicos e tecnológicos que desfrutamos hoje não seriam possíveis.

Ademais, agora que você já está craque na Lógica de Aristóteles, é só praticar com os exercícios a seguir para assim mandar super no ENEM e continuar, assim como a Lógica, a contribuir com os avanços da humanidade.

1) (UFFS) Com relação à lógica dita clássica, é incorreto afirmar:

(A) O objeto da lógica é a proposição, que é a expressão dos juízos formulados pela razão humana
(B) A lógica estuda e define as regras do raciocínio correto, porém não é de sua competência estabelecer os princípios que as proposições devem seguir.
(C) Quando se atribui um predicado a um sujeito, temos uma proposição.
(D) O raciocínio lógico se expressa através de proposições conectadas, e essa conexão chama-se silogismo.
(E) Existem determinados princípios que toda proposição e todo silogismo devem seguir para serem considerados verdadeiros.

2) Leia o argumento abaixo.
– Todos os animais são mortais.
– Alguns répteis são animais.
– Alguns répteis são mortais.
Assinale a alternativa que indica se o argumento é um silogismo válido ou inválido e, se for este o caso, qual regra violou.

(A) Este é um silogismo que atendeu às regras da validade silogística.
(B) O argumento anterior é um silogismo inválido porque o termo “mortais” está distribuído na conclusão, mas não na premissa.
(C) Este silogismo é inválido porque tem duas premissas particulares.
(D) Este silogismo é inválido, porque o termo médio nunca está distribuído, pois em ambas as premissas é predicado.
(E) Este silogismo é inválido porque a conclusão é particular, mas uma das premissas é universal.

3) Teste a validade do argumento seguinte, utilizando tabelas de verdade.
– O livre-arbítrio é possível ou somos joguetes dos Deuses.
– Se o livre-arbítrio for possível, não somos joguetes dos Deuses.
– Logo, não somos joguetes dos Deuses.
Seja:
P = O livre arbítrio é possível e
Q = Somos joguetes dos Deuses
Assinale a alternativa correta.

(A) A forma dada é inválida porque tanto na circunstância em que P é falsa e Q verdadeira como na circunstância em que tanto P como Q são falsas, a premissa é verdadeira e a conclusão, falsa.
(B) A forma dada é válida, tendo em vista que não há circunstância alguma na qual as premissas sejam verdadeiras e a conclusão, falsa.
(C) O argumento dado é inválido porque na circunstância em que P é falsa e Q verdadeira, as premissas são verdadeiras e a conclusão, falsa.
(D) O argumento dado é inválido porque na circunstância em que Q é falsa e P é verdadeira, as premissas são verdadeiras e a conclusão, falsa.
(E) O argumento dado é inválido porque na circunstância em que Q e P são ambas falsas, as premissas são verdadeiras e a conclusão, falsa.

Gabarito 1. B, 2. A, 3. C.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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