A corrente literária do Naturalismo

Esta aula tem o objetivo de apresentar os principais aspectos da escola literária naturalista, desde sua fundação na Europa até a publicação dos romances naturalistas brasileiros. Trata-se de uma tendência artística muito próxima do Realismo. Entretanto veremos que há algumas diferenças entre ambas. Poderemos concluir, ao final do texto, que toda prosa naturalista é realista, mas nem toda prosa realista contém traços naturalistas.

Incesto, luta de classes, patologias humanas… Revise o Naturalismo, uma das escolas literárias em que a polêmica era o ingrediente principal.

pintura do naturalismo
Os comedores de batatas (1885), de Van Gogh, é um bom exemplo de uma pintura naturalista

O Naturalismo foi uma tendência artística que surgiu na Europa, mais precisamente na França, em meados do século XIX. Manifestou-se nas esferas artísticas da pintura, do teatro e da literatura. Do mesmo modo que o Realismo, surge como uma reação que se opõe aos ideais românticos.

Na literatura, o francês Émile Zola é o precursor desse movimento com a publicação de O romance experimental, em 1880. Em 1885 publica Germinal, história que o consagrou como um dos principais escritores naturalistas e que inspirou outros tantos.

Características do Naturalismo

A literatura naturalista é parecida com a realista. No entanto, a diferença essencial é que o Naturalismo extrapola os limites do Realismo: os temas são mais polêmicos e os autores buscam ilustrar fielmente os problemas da realidade social e a natureza humana.

Assim, o romance naturalista terá enredos repletos de cenas fortes e polêmicas. Prepare-se! Não são histórias cor-de-rosa como as do Romantismo. Também não são apenas fotografias do real em forma de palavras como fazia o Realismo. Em outras palavras: os romances naturalistas são para leitoras e leitores fortes!

Isso porque eles retratam problemas de ordem social, política e econômica que testam a humanidade de seus personagens. Assim, ao ler uma narrativa pertencente a essa escola literária você certamente se deparará com um dos seguintes temas:

  • Adultério;
  • Estupro;
  • Ambição desmedida;
  • Mau-caratismo;
  • O desequilíbrio que levava à loucura;
  • Crise da produção nos campos;
  • Miséria;
  • Suicídio;
  • As péssimas condições de trabalho às quais os trabalhadores eram submetidos;
  • Sexualidade;
  • Tortura;
  • Preconceitos de diversas ordens;
  • Assassinato;
  • Situações extremas;
  • Pedofilia;
  • Violência;
  • Escatologias;
  • Luta entre diferentes classes sociais;
  • Incesto;
  • Hipocrisia da Igreja;
  • Jogo de interesses pessoais;
  • Marginalização;
  • Patologias humanas;
  • Prostituição;

Como você pôde constatar, são temas fortes, polêmicos e atuais. E se eles nos causam alguma impressão, imagine-os em romances do século XIX. Obviamente que essas narrativas escandalizaram a sociedade daquela época, pois era algo novo, muito diferente daquilo que os leitores estavam acostumados.

No plano da narrativa, esses temas serão os geradores de conflitos, acontecimentos extremos e situações-limite, os quais determinarão a conduta, o caráter e o destino dos personagens.

Portanto, teremos personagens mais complexos e mais suscetíveis que os do Romantismo e do Realismo. Além disso, pela primeira vez a literatura colocava em primeiro plano o pobre, a prostituta, o homossexual, os negros e os mulatos discriminados, os trabalhadores, etc. O herói de olhos verdes e cabelo loiro e a mocinha de longos cabelos negros e pele branca cedem espaço a tipos sociais marginalizados.

Principais referências do Naturalismo

Um ponto importante é que os autores do Naturalismo elaboraram seus romances influenciados por correntes científicas e filosóficas do século XIX. São quatro as principais correntes que influenciaram as narrativas naturalistas. Veremos agora as principais características de cada uma:

a) Evolucionismo/Darwinismo: Em 1859, o cientista britânico Charles Darwin (1809-1882) publica A origem das espécies. Nessa obra, a evolução das espécies é considerada como resultado do mecanismo de seleção natural. A ideia básica de tal mecanismo é a de que o meio ambiente seleciona todos os seres, deixando sobreviver os mais adaptados e eliminando os menos aptos.

A natureza de todos os seres, o homem inclusive, seria determinada por circunstâncias externas. O meio ambiente passa a ter enorme importância, pois condiciona matéria e espírito. Essa concepção biológica de vida, chamada darwinismo, seria responsável por grandes mudanças no campo científico, repercutindo na economia, na filosofia, na política e na literatura.

b) Determinismo: Teoria científica concebida pelo francês Hippolyte Taine (1828-1893). Para Taine, a compreensão do homem deveria se dar à luz de três fatores determinantes: meio ambiente, raça e momento histórico. Taine defendia que tudo é produto do meio, a raça e do momento histórico. Para ele, todo o agir humano é determinado por variáveis biológicas. Isto é, todas as suas vontades e ações não são livres, no sentido de uma determinação racional e espontânea do sujeito, e sim resultado de mecanismos biológicos.

Aplicada aos romances naturalistas, o determinismo é radical e polêmico, pois prega que quem nasceu pobre, vai morrer pobre, empregado jamais será patrão, filha de prostituta será prostituta…

c) Positivismo: Corrente filosófica concebida pelo francês Auguste Comte (1798-1857). Baseada no método das ciências naturais, concentrava-se nos fatos, rejeitando qualquer explicação metafísica para a atuação do homem no mundo, além de propagar a ideia de que somente o progresso material já seria suficiente para neutralizar os desequilíbrios sociais. Segundo os positivistas, todos os fenômenos podem ser explicados pela ciência, o que os reduz, portanto, ao aspecto simplesmente material.

Em outras palavras, a característica essencial do positivismo, tal qual o concebeu Comte, é a devoção à ciência, vista como único guia da vida individual e social, única moral e única religião possível. Desse modo, em última análise, o positivismo é compreendido como a “religião da humanidade”.

d) Materialismo histórico: Tese elaborada por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). O materialismo histórico procura as causas de desenvolvimentos e mudanças na sociedade humana nos meios pelos quais os seres humanos produzem coletivamente as necessidades da vida. As classes sociais e a relação entre elas, além das estruturas políticas e formas de pensar de uma dada sociedade, seriam fundamentadas em sua atividade econômica.

Essa corrente defende a ideia de que a evolução histórica, desde as sociedades mais remotas até a atual, se dá pelos confrontos entre diferentes classes sociais decorrentes da “exploração do homem pelo homem”. A teoria serve também como forma essencial para explicar as relações entre sujeitos.

Os autores naturalistas criavam narradores oniscientes e impassíveis para dar apoio à teoria na qual acreditavam. Exploravam alguns dos temas que você leu anteriormente, criando personagens que eram dominados pelos seus instintos e desejos. Isso porque viam no comportamento do ser humano traços da sua natureza animal. Por isso, os personagens do Naturalismo frequentemente revelavam atitudes e comportamentos animalescos, recurso chamado de zoomorfização.

No Brasil, as primeiras obras naturalistas foram publicadas na década de 1880, sendo influenciadas pelas obras de Émile Zola. O primeiro romance é O Mulato (1881), do maranhense Aluísio Azevedo.

Azevedo é o escritor que melhor representa a corrente literária do Naturalismo brasileiro. Além dessa obra, foi o responsável pela criação de um dos maiores marcos da nossa literatura: O Cortiço, publicado em 1890 e considerado o melhor exemplo do Naturalismo brasileiro.

Outras obras (e autores) naturalistas que merecem destaque no panorama literário nacional: Casa de pensão (1884), de Aluísio Azevedo; A carne (1888), de Júlio Ribeiro; O missionário (1891), de Inglês de Sousa; A normalista (1893) e Bom-Crioulo (1895), ambos de Adolfo Caminha; e Luzia-Homem (1903), de Domingos Olímpio.

Para continuar estudando sobre o Naturalismo, veja a aula do CEG, nosso canal no youtube!

Questões

Questão 1 (Enem-2011)

Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho de Porfírio, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor: música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo.

AZEVEDO, A. O Cortiço. São Paulo: Ática, 1983 (fragmento).

No romance O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, as personagens são observadas como elementos coletivos caracterizados por condicionantes de origem social, sexo e etnia. Na passagem transcrita, o confronto entre brasileiros e portugueses revela prevalência do elemento brasileiro, pois:

a) destaca o nome de personagens brasileiras e omite o de personagens portuguesas.

b) exalta a força do cenário natural brasileiro e considera o do português inexpressivo.

c) mostra o poder envolvente da música brasileira, que cala o fado português.

d) destaca o sentimentalismo brasileiro, contrário à tristeza dos portugueses.

e) atribui aos brasileiros uma habilidade maior com instrumentos musicais.

Resposta: C.

Questão 2 (FUVEST)

“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, e esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, a multiplicar-se como larvas no esterco.”

O fragmento de “O cortiço”, romance de Aluísio Azevedo, apresenta uma característica fundamental do Naturalismo. Qual?

a) Uma compreensão psicológica do Homem.

b) Uma compreensão biológica do Mundo.

c) Uma concepção idealista do Universo.

d) Uma concepção religiosa da Vida.

e) Uma visão sentimental da Natureza.

Resposta: B.

Questão 3(USF-SP)

Pode-se entender o Naturalismo como uma particularização do Realismo que:

a) se volta para a Natureza a fim de analisar-lhe os processos cíclicos de renovação.

b) pretende expressar com naturalidade a vida simples dos homens rústicos nas comunidades primitivas.

c) defende a arte pela arte, isto é, desvinculada de compromissos com a realidade social.

d) analisa as perversões sexuais, condenando-as em nome da moral religiosa.

e) estabelece um nexo de causa e efeito entre alguns fatores sociológicos e biológicos e a conduta das personagens.

Resposta: E.

 

Sobre o(a) autor(a):

Texto produzido pelo Professor João Paulo Prilla para o Curso Enem Gratuito. JP é licenciado em Letras- Português, Inglês e respectivas Literaturas (2010) pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ministra aulas de Literatura, Língua Portuguesa e Redação em escolas da Grande Florianópolis desde 2011.