Simone de Beauvoir e o Feminismo Existencialista

A filósofa francesa Simone de Beauvoir é autora da célebre frase: “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Entenda o que essa frase significa e a contribuição de Beauvoir para o feminismo existencialista!

 

O que é o homem? Essa pergunta acompanha a filosofia desde os tempos mitológicos e provavelmente inquieta a humanidade desde os tempos imemoriáveis. Pensando nisso, diversos filósofos se dedicaram-se a estudar o tema ao longo da história.

Quem foi Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir foi uma filósofa feminista, ativista política, escritora e teórica social francesa. Aos 21 anos, ela foi a pessoa mais jovem a fazer o exame de filosofia na Sorbonne.

Beauvoir surgiu como uma figura bastante interessante no cenário filosófico do século XX ao perguntar: o que é a mulher?

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre

Durante seus estudos na Sorbonne, Simone de Beauvoir conheceu o filósofo Jean-Paul Sartre, que se tornou seu companheiro. Contudo, Sartre não era um simples amante, mas um parceiro intelectual de Beauvoir. O filósofo francês foi um dos marcos da corrente existencialista na Filosofia.

O existencialismo entende a vida como algo sem sentido e considera que tentar dar sentido a uma coisa sem sentido (vida) é absurdo.

Como existencialista, Sartre teorizava que nós humanos nascemos sem qualquer propósito. Isto é, não somos imbuídos de um sentido pelo qual viver e por isso não há razão nenhuma para não sermos quem quisermos ser.

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre compartilhavam aquela ideia acerca da existência preceder a essência – l’existentialisme à l’essentialisme. Ou seja, ela entendia que o ser humano é algo que existe sem um propósito predeterminado na vida além daquele que ele vier a escolher.

A partir dessa reflexão, ela percebeu que algumas coisas que aconteciam na sociedade eram completamente descabidas. Uma delas é a misoginia, a qual ela pôde experienciar em primeira mão durante sua vida.

Simone de Beauvoir entendia o machismo como algo retrógrado e equivocado. Ao analisarmos as investigações sobre o que é o ser humano, boa parte das explicações são fundamentadas ou influenciadas pelas histórias infundadas das religiões abraâmicas, como aquela história da mulher vir de uma das costelas do homem.

Indo além, na criação do mundo descrita em Gênesis, há trechos completamente destoantes do que prega um estado democrático de direito. Por exemplo, na passagem de Gênesis 3:16: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”.

A ideia de que a mulher deve ser algo semelhante ao que foi narrado pelas religiões é algo infortúnio para o desenvolvimento de uma sociedade justa, já que nas religiões judaico cristãs elas tem um papel servil e inferior ao homem. Esse tipo de pensamento demostra como a ideia de superioridade masculina é algo entendido como predeterminado e, portanto, avesso ao existencialismo.

O que é ser mulher para Simone de Beauvoir

Aquela pergunta fundamental ao existencialismo sobre o que é ser humano, a qual os filósofos existencialistas vinham desde o século XIX se indagando, também foi feita por Beauvoir. Entretanto, a filósofa vai além e passa a trilhar um caminho inédito até então.

Simone de Beauvoir se indagou sobre o que é ser mulher. Em seu prestigiado livro “O segundo sexo”, a filósofa definiu muito assertivamente que a mulher não é o homem, ela é o outro.

Ela diz isso, pois enxergou que o homem é definido como ser humano, mas a mulher é apenas o outro. Ora, quando os filósofos ponderavam acerca do que é o ser humano, na realidade eles estavam pensando sobre o que é o homem.

Ao longo das eras, a figura masculina tem definido historicamente o que é ser humano, visto que a maioria dos grandes nomes da filosofia é composta por homens e foram eles que escreveram sobre a natureza humana. Assim, eles adotaram o gênero masculino como o padrão com o qual julgamos a natureza humana.

Concomitante a isso, eles definiram a mulher como algo que difere do homem e, portanto, algo que difere do padrão. Por isso, Beauvoir diz que o homem é definido como ser humano e a mulher como o outro, ou seja, algo que não é o homem e, por extensão, diverge das indagações sobre o que é ser humano.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”

Embora as ideias de Simone de Beauvoir ultrapassem as discussões sobre o gênero, já que ela faz uma brilhante análise da autonomia indivíduo, é indiscutível que suas contribuições para autonomia feminina sejam indispensáveis.

Essa ideia de um feminismo existencialista que ela inaugura trouxe uma distinção entre o feminino e feminilidade, que avançou muito a discussão sobre a autonomia feminina. Para Beauvoir, o ente biológico não tem nada a ver com a maneira com a qual a mulher exprime seu ser.

Do ponto de vista existencialista, nós temos a capacidade de nos estruturarmos enquanto sujeitos sociais. Ou seja, a construção da maneira que podemos nos manifestar socialmente é aberta as mudanças do indivíduo e, portanto, existem várias maneiras de ser. Mais especificamente, existem várias maneiras de ser mulher.

Uma das citações mais famosas de Simone de Beauvoir é esta: “ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”

Essa afirmação contém justamente essa ideia da construção do ente como algo social e não predeterminado. O interessante é que Beauvoir vai além do feminismo e da busca por direitos equânimes. Ela defendia a ideia de uma mulher livre, só que mais do que a liberdade modelo feminino predeterminado, ela queria que a mulher fosse livre da ideia de ser igual ao homem.

A opressão do ser humano sobre o outro

Ao comparar as noções fornecidas pelo existencialismo, que dizem não sermos nada além de nossas ações, isto é, nós somos definidos pelas escolhas que fazemos ao longo da vida, com a ideia de mulher, é possível notar que a mulher possui sua identidade já predeterminada.

Pensando no cotidiano, não é preciso se esforçar muito para perceber como a mulher é definida a partir do que lhe impõe o mundo, mundo este que é também definido pelos homens. É o caso dos estereótipos como: mãe, esposa, donzela em perigo etc. Pense nas histórias da Disney e em quantas princesas são resgatadas por seus príncipes encantados.

Simone de Beauvoir
Trecho do filme Wi-Fi Ralph que faz piada com os estereótipos femininos perpetuados pelas animações da Disney durante muitos anos.

Na maioria dessas histórias infantis, o papel da mulher é meramente existir até que um homem a encontre e ela se torne alguém em função dele. Se você acha exagero, vamos pegar a Branca de Neve como estudo de caso. No conto alemão, uma mulher é definida como bela (Branca de Neve), o que causa inveja em uma outra mulher (sua madrasta), que tenta matá-la.

Perceba que o valor associado à mulher é a beleza. O fato de ela ser bonita é basicamente o que a define enquanto ser. Isso ajuda a criar aquela ideia de objetificação da mulher, visto que, para a Filosofia, historicamente falando, ela não é nada além do outro. Nesse caso, ou outro (a mulher) é entendido como um objeto, pois quem reflete sobre o ser é o homem e ela não é homem.

A ideia desse exemplo é mostrar uma noção, ainda que vaga, sobre a diferença entre o homem e a mulher. Saindo dos contos infantis, podemos também analisar a inserção da mulher na sociedade, mais especificamente no mercado de trabalho.

Essa análise é de extrema importância, já que trabalhar é um aspecto importante da autonomia do sujeito e como a mulher é o outro sujeito, ela não está bem inserida no mercado de trabalho. Por exemplo, isso fica evidente na pesquisa feito pelo Instituto Ethos em 2010 que mostrou que as mulheres ocupavam apenas 13% dos cargos de nível executivo e sênior nas 500 maiores empresas do Brasil.

O que é o feminismo

Foi contra toda essa opressão masculina que surgiu um movimento preocupado com as mazelas sofridas pelo outro sexo. O feminismo é um movimento que teve origem ainda no século XIX e se consolidou no século XX com a ajuda de ativistas notórias como Simone de Beauvoir, responsável por proporcionar uma solução marxista sobre várias questões feministas.

As pensadoras feministas visavam direitos equânimes. Embora isso pareça algo simples, é importante ressaltar essa demanda, já que há muita desinformação e demasiada selvageria dentro do senso comum, no que tange as pautas feministas.

Ora, que fique bem entendido que o feminismo não é o contrário do machismo. Não há um discurso de ódio, tampouco uma valorização da mulher sobre o homem dentro da teoria feminista. Como dito, o feminismo é a busca por direitos equânimes, ou seja, por uma sociedade na qual as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens.

Não parece nada demais querer que as pessoas do mundo desfrutem dos mesmos direitos. Platão já falava isso há mais de dois mil anos quando escreveu “A República”, obra que defendia a valorização do ser humano por suas virtudes e não por seu gênero.

Todavia, existe uma imensa misoginia quando as pautas feministas ganham visibilidade. A coisa é tão baixa que as alegações não se estruturam na filosofia, quiçá na ciência. Em geral, o que se passa por argumento é apenas um discurso de ódio moldado em um Argumentum ad Hominem.

Nesse caso específico, o chamado Argumentum ad Hominem é quando se ataca a pessoa que apresentou um argumento e não o argumento apresentado. Recomendamos a leitura do texto sobre A Lógica de Aristóteles, no qual há uma explicação mais detalhada acerca da lógica e seus usos.

Agora, você reparou que o nome dessa parada é ad Hominem? Numa tradução livre, é algo como contra o homem. Isso exemplifica bem como a linguagem é um outro instrumento de desigualdade entre os sexos, reforçando a teoria de Beauvoir de como a mulher é enxergada como o outro.

Por fim, Simone de Beauvoir buscou uma vida autêntica, defendeu os ideais existencialistas e incorporou a eles sua visão feminista. Ela se tornou um ícone da autonomia das mulheres, bem como da sua liberdade de ser quem elas quiserem ser. Suas ideias ainda hoje permanecem atuais e extremamente necessárias na busca pela liberdade e pela igualdade.

Para finalizar, assista ao vídeo sobre Simone de Beauvoir

Exercícios sobre a filosofia de Simone de Beauvoir

1) (ENEM 2015) Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.

BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980

Na década de 1960, a proposição de Simone de Beauvoir contribuiu para estruturar um movimento social que teve como marca o(a):

(A) Ação do Poder Judiciário para criminalizar a violência sexual.

(B) Pressão do Poder Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho.

(C) Organização de protestos púbicos para garantir a igualdade de gênero.

(D) Oposição de grupos religiosos para impedir os casamentos homoafetivos.

(E) Estabelecimento de políticas governamentais para promover ações afirmativas.

 

2.

Simone de Beauvoir

Na imagem, da década de 1930, há uma crítica à conquista de um direito pelas mulheres, relacionado com a:

(A) redivisão do trabalho doméstico

(B) liberdade de orientação sexual

(C) garantia da equiparação salarial

(D) aprovação do direito ao divórcio

(E) obtenção da participação eleitoral

 

3. (UERJ 2020)

APÓS 70 ANOS, SIMONE DE BEAUVOIR AINDA MOSTRA CAMINHO DA LIBERDADE FEMININA

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. A célebre frase que abre o segundo volume de O segundo sexo, de 1949, sintetiza as teses apresentadas por Simone de Beauvoir nas mais de 900 páginas de um estudo fascinante sobre a condição feminina. Beauvoir admite que as diferenças biológicas desempenham algum papel na construção da inferioridade feminina, mas defende que a importância social dada a essas diferenças é muito mais determinante para a opressão. Ser mulher não é nascer com determinado sexo, mas, principalmente, ser classificada de uma forma negativa pela sociedade. É ser educada, desde o nascimento, a ser frágil, passiva, dependente, apagada, delicada, discreta, submissa e invisível.

MIRIAN GOLDENBERG
Adaptado de www1.folha.uol.com.br, 10/03/2019.

As reflexões de Simone de Beauvoir na obra O segundo sexo continuam presentes nos debates atuais referentes ao feminismo e às condições de vida das mulheres, em diversas sociedades.

De acordo com o texto de Mirian Goldenberg, a abordagem realizada por Simone de Beauvoir valoriza princípios do seguinte tipo:

(A) étnico-raciais

(B) político-religiosos

(C) histórico-culturais

(D) econômico-científicos

 

GABARITO

  1. C
  2. E
  3. C

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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