Teatro romântico: o que é, principais características e obras

O teatro romântico é fruto da corrente do Romantismo no Brasil, que foi mais do que apenas poesia e prosa. O texto dramático, o teatro, também teve seu lugar.

Romantismo no Brasil foi mais do que poesia e prosa. O texto dramático também teve seu lugar. Vamos entender como esse tipo de texto se caracterizou na segunda metade do século XXI e ficou conhecido como teatro romântico.

O teatro romântico

Para fechar o projeto romântico de formação de uma literatura brasileira, os escritores da época necessitavam, claro, se dedicar à criação de peças teatrais.

Mais uma vez, -sim, ele de novo, estudante – o pioneiro foi Gonçalves de Magalhães, que, em 1837 entregou a peça teatral Antônio José ou O poeta e a inquisição para ser encenado pelo ator João Caetano.

Assim João Caetano será, juntamente com o escritor Martins Pena, responsável pelo enorme sucesso do teatro romântico nacional.

O ator criou, em 1833, uma companhia brasileira com o propósito declarado de acabar com “a dependência artística de atores estrangeiros para o nosso teatro”.

Foi, por essa nobre razão, o grande encenador das peças escritas por vários autores românticos.

A ascensão do teatro brasileiro

Um dos pontos que mais colaboraram com o crescimento do teatro durante a primeira metade do século XIX foi um contrato firmado, em 1842, entre a companhia de João Caetano e o Governo da Província do Rio de Janeiro.

Nesse sentido, o contrato garantia que João Caetano montasse as peças, em Niterói, durante um período de 12 anos.

O público do teatro romântico brasileiro

Primeiramente, o público do teatro romântico, como o dos romances, se concentrava na corte.

E o que explica esse fato é muito simples: a maior parte das apresentações eram realizadas no Rio de Janeiro, principalmente depois que a companhia de teatro de João Caetano começou a receber uma verba do Governo da Província.

Ao contrário da prosa e poesia, sem enfrentar o drama do analfabetismo, que dificultava a leitura dos romances, o teatro romântico conquistou uma plateia entusiasmada e fiel.

Teatro, claro, é diversão garantida. Ainda mais em uma cidade em que a elite não tinha com muitas opções além dos bailes e saraus. Dessa maneira, as peças logo ganharam um lugar de destaque entre as mocinhas da época.

O Drama histórico

Além disso, um ponto que surpreende no estudo do teatro romântico brasileiro é a opção feita, por muitos escritores, de criar temas históricos.

Antônio Gonçalves Dias, por exemplo, foi um dos escritores a optar por essa escolha. O poeta, que se destacou no desenvolvimento de temas indianistas, escreve peças teatrais de caráter mais universal.

Nesse sentido, sua peça mais importante é Leonor de Mendonça, que trata a impossibilidade de o ser humano escapar ao seu destino.

Leonor de Mendonça

De antemão, Leonor de Mendonça conta a tragédia conjugal dos duques de Bragança, Jaime e Leonor, que moravam na corte do rei D. João III, de Portugal.

Apaixonada por um moço da corte, Alcoforado – sim, esse era o nome dele – a moça tem seu final trágico: foi assassinada pelo marido, embora não tenha chegado a traí-lo.

O interesse de Gonçalves Dias, nesse caso, tem por base o estudo da influência do contexto no comportamento do indivíduo. Dessa forma, esse olhar sugere a influência das tragédias de Shakespeare, de quem Gonçalves Dias era grande admirador.

Questões sociais

José de Alencar, firme com seu projeto pessoal de criar uma literatura que ajudasse a construir o sentido da nacionalidade entre os brasileiros, apostou na criação de peças de ambientação urbana que ilustravam aspectos característicos da vida na corte.

Nesse sentido, temos o destaque para Mãe e O demônio familiar. A primeira é a história de uma mulher escravizada, Joana, que faz todo tipo de sacrifício para manter a felicidade de seu senhor.

A explicação para esse comportamento “estranho” está no título da peça: ele era seu filho e, deixando de lado até os laços sanguíneos com a mulher escravizada, chega a vendê-la para quitar dívidas do futuro sogro.

Como lição para os espectadores, Alencar destaca na dedicatória do drama:

“se há diamante inalterado é o coração materno, que mais brilha quanto mais espessa é a treva; sentes que rainha ou escrava, a mãe é sempre mãe”.

Temas de José de Alencar

A escravidão também será tema de sua peça mais conhecida, O demônio familiar. Essa comédia provoca o riso por meio das brigas criadas pelo sujeito escravizado Pedro – já sabe quem é o demônio, né?

Muito ambicioso, sempre se diverte ao criar os problemas à família do seu senhor. Nesse sentido, o teor moralizante que assegura o romantismo da obra aparece quando, no último ato, Pedro é alforriado pelo seu senhor.

[..] Eduardo-[…] (A Pedro.) Toma: é a tua carta de liberdade, ela será a tua punição de hoje em diante, porque as tuas faltas recairão unicamente sobre ti; porque a moral e a lei te pedirão uma conta severa de tuas ações. Livre, sentirás a necessidade do trabalho honesto e apreciarás os nobres sentimentos que hoje não compreendes. (Pedro beija-lhe a mão.) [..]

ALENCAR, José de. O demônio familiar. São Paulo: Martin Claret, 2003. p. 129-130. (Fragmento).

 

A alforria é a maneira encontrada pelo senhor para reformar o caráter de Pedro. Uma vez inserido na sociedade, o jovem terá de prestar contas de seus atos e “apreciará os nobres sentimentos” que, estando na condição de escravo, é incapaz de compreender.

Alvares de Azevedo

Outro poeta romântico a se aventurar pelo teatro foi Alvares de Azevedo. Autor de uma poesia impregnada de pessimismo, Álvares de Azevedo cria uma única peça, Macário.

Mescla de teatro, narração dialogada e diário íntimo, Macário traz a vida das repúblicas de estudantes de uma São Paulo provinciana.

Nessa peça, toda a influência de suas leituras de Byron ganha força em um cenário noturno e fantasmagórico onde Macário e Satã trocam uma ideia.

Assim, a peça a ilustra a vida dos jovens possuídos pelo “mal do século”, nas tavernas em que prostitutas passavam por lá e onde a degradação pessoal se confunde e se mistura com os prazeres físicos.

Nesse inusitado bate-papo com o desconhecido, que mais tarde se revelará como Satã, Macário é porta-voz do tédio existencial. Esse sentimento tomou conta da imaginação de muitos dos jovens leitores ultrarromânticos que viviam em São Paulo.

Martins Pena, o pai da comédia brasileira

Tido como pai da comédia brasileira, Martins Pena também é reconhecido como o primeiro autor teatral a produzir temas nacionais.

Procurou focar naquilo que esses temas têm de mais específico e genuíno, sempre trazendo observações satíricas sobre algum aspecto da realidade brasileira.

De um modo geral, suas peças apresentam uma estrutura simples, muitas vezes um único ato, e trazem caracteres e situações que não chegam a ser aprofundados.

Por fim, o resultado obtido era uma encenação leve, que provocava o riso da plateia ao mesmo tempo que mostrava aspectos reprováveis em diferentes setores da sociedade brasileira.

Martins Pena tratou de assuntos religiosos e políticos, discutindo o funcionamento dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário.

Além disso, destaca-se em sua obra o enfoque sobre as diferenças entre os tipos sertanejos e os metropolitanos, o choque entre as realidades e os valores da capital e da província.

O objetivo do autor é ridicularizar, por meio da apresentação caricata, os tipos roceiros e provincianos, que se transformavam em objeto de riso fácil para o público fluminense.

Em ações cômicas, Martins Pena criticava os comportamentos censuráveis dessas personagens, como é o caso do juiz venal da peça O juiz de paz da roça.

Resumo de Teatro Romântico de Martins Pena

Por fim, resolva os exercícios e teste os seus conhecimentos.

Questão 01 – (UCS RS)

A peça teatral O noviço (1987), de Martins Pena, foi produzida durante o Romantismo Brasileiro. No entanto, o texto aproxima-se do

a) Modernismo, por assemelhar-se ao Romance de 30, na apresentação de temas regionais.

b) Simbolismo, pois explora a composição de personagens como tipos que representam determinada condição humana e social.

c) Naturalismo, pois relaciona o personagem à paisagem bucólica em que está inserido.

d) Barroco, ao preocupar-se em demonstrar a dualidade da relação humana e divina e as contrariedades humanas.

e) Realismo, por retratar cenas e problemáticas da sociedade brasileira, revelando a hipocrisia humana e os jogos de interesse e poder.

Gab: E

Questão 02 – (UEA AM)

JUIZ: Sr. Escrivão, faça o favor de ler.

ESCRIVÃO (lendo): Diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa Joaquina, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande a Gregório degradado1 para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar uma embigada2 em sua mulher, na encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fez abortar, da qual embigada fez cair a dita sua mulher de pernas para o ar. Portanto pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório degradado para Angola. E.R.M.3

JUIZ: É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?

GREGÓRIO: É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.

JOSEFA JOAQUINA: Bruxa é a marafona4 de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.

JUIZ: Nada, nada, não é preciso; eu o creio.

JOSEFA JOAQUINA: Sr. Juiz, não é a primeira embigada que este homem me dá; eu é que não tenho querido contar a meu marido.

JUIZ: Está bom, senhora, sossegue. Sr. Inácio José, deixe-se destas asneiras, dar embigadas não é crime classificado no Código. Sr. Gregório, faça o favor de não dar mais embigadas na senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queiram-se retirar.

INÁCIO JOSÉ (para Gregório): Lá fora me pagarás.

JUIZ: Estão conciliados.

O juiz de paz da roça, Martins Pena (1815-1848). (Comédias (1833-1844), 2007.)

1 degradado: degredado, banido, exilado.

2 embigada: umbigada; pancada de umbigo contra umbigo, ou na região do umbigo.

3 E.R.M.: “Espera receber mercê”.

4 marafona: boneca sem rosto, constituída de uma cruz de madeira recoberta de pano.

 

De acordo com o trecho, muito do efeito cômico desta passagem deve-se

a) ao fato de o próprio juiz desconhecer o código penal vigente.

b) à insistência da mulher em mostrar ao juiz a marca provocada pela umbigada.

c) ao veredito do juiz determinando a prisão do próprio solicitante.

d) à solicitação da pena de exílio por conta de uma simples umbigada.

e) à aceitação subserviente por parte do solicitante da decisão do juiz.

Gab: D
Questão 03 – (ACAFE SC)

Leia o fragmento de texto a seguir, extraído de Juiz de Paz na Roça, de Martins Pena:

     “ESCRIVÃO, lendo – Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher.”

De acordo com o texto é correto afirmar, exceto:

a) Trata-se de uma sátira aos costumes rurais, revelando os hábitos curiosos, a fala simples e a extrema candura que delimitam os seres da roça. Estes são criaturas broncas e rústicas, ainda mais quando comparadas aos homens da capital, requintados e espertos.

b) No romance de cunho realista, o juiz de paz usa a autoridade do cargo para lidar com a inocência dos roceiros, que lhe trazem os mais cômicos casos. O escrivão, que é corrupto, propõe ao juiz as decisões a tomar; o juiz, apesar de se surpreender com as intenções do escrivão, acata as suas sugestões.

c) Nessa obra o autor critica as convenções sociais, o casamento, a família, o governo e satiriza figuras como padres, juízes e políticos.

d) Na peça, Aninha e José amam-se e planejam casar em segredo, mas José é capturado para tornar-se soldado, a favor do governo contra a Revolução Farroupilha.

Gab: B

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.