Tudo sobre a dengue: epidemia, transmissão e prevenção

Além de não deixar a água parada, você sabe o que mais podemos fazer para combater a epidemia de dengue? Para não virar meme na internet, basta acompanhar esta aula para aprender tudo sobre a doença!

Nos últimos anos, uma preocupação crescente tem assolado comunidades ao redor do mundo: a epidemia de dengue. E no Brasil, infelizmente, os números só crescem: em março de 2024, o Brasil já teve mais casos de dengue do que em todo o ano de 2023 (aproximadamente 1,7 milhões de casos).

Esta doença, transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, tem afetado milhões de pessoas em diversos países, colocando em risco a saúde pública e desafiando sistemas de saúde no mundo todo. 

Mas como é que uma doença que, supostamente, já sabemos como evitar pode estar causando uma epidemia? Você já parou para pensar nisso? 

Videoaula sobre a dengue

Nesta aula,  a professora Cláudia de Souza Aguiar aborda os principais aspectos da epidemia de dengue, desde sua origem até as medidas de prevenção e combate que podem ser adotadas pela sociedade. É essencial que cada um de nós compreenda a gravidade desse problema e o papel que podemos desempenhar na sua contenção.

Vamos juntos investigar as causas, os sintomas, as consequências e as estratégias para enfrentar essa epidemia, contribuindo assim para a construção de comunidades mais saudáveis e resilientes.

O que é a dengue?

Segundo o Ministério da Saúde, a dengue faz parte de um grupo de doenças denominadas arboviroses, as quais se caracterizam por serem causadas por vírus transmitidos por vetores artrópodes (grupo de animais invertebrados que inclui insetos, aracnídeos, miriápodes e crustáceos).

No Brasil, o vetor ou também chamado de agente etiológico (ser vivo capaz de transmitir o agente infectante) da dengue é a fêmea do mosquito A. aegypti. Os vírus transmitidos pelo mosquito pertencem ao gênero Flavivirus. Além da dengue, as espécies do gênero Aedes também podem transmitir as seguintes doenças: zika vírus, chikungunya e febre amarela urbana.

É bizarro pensar que um vírus tão pequenino pode fazer um estrago em nós (comparativamente, muito maiores), não é mesmo? Veja a imagem abaixo para ter uma noção do tamanho desse vírus!

Imagem microscópica de uma célula de mosquito infectada com o vírus dengue indicados pelas pequenas setas pretas (Fonte: Monika Barth / IOC / Fiocruz).

Como a dengue surgiu?

Não sabemos ao certo a origem do mosquito, mas evidências sugerem que o mosquito foi introduzido através dos navios que transportavam pessoas escravizadas originárias da África. No Brasil, o primeiro surto documentado da doença foi registrado por volta de 1982, em Roraima. Desde então, a dengue persiste de forma contínua, alternando-se com surtos epidêmicos.

Navio negreiro em que os mais de 4,8 milhões de pessoas africanas escravizadas foram transportadas. Devido à insalubridade a qual foram submetidos diversas doenças se proliferaram e acabaram sendo introduzidas aos países de destino. (Fonte: THE NEW YORK PUBLIC LIBRARY DIGITAL COLLECTIONS)

Fatores como urbanização, crescimento populacional, saneamento básico inadequado e condições climáticas mantêm um ambiente propício para a proliferação do vetor. A dengue exibe um padrão de aumento nos casos e maior risco de epidemias entre os meses de verão.

Quais são os sintomas da doença?

A dengue é uma doença febril aguda e debilitante. Embora a maioria dos pacientes se recupere, uma parcela pode progredir para formas graves, incluindo casos fatais. Vale ressaltar que a grande maioria das mortes por dengue poderia ser evitada, dependendo principalmente da qualidade da assistência médica oferecida e da organização dos serviços de saúde.

No caso de um aumento rápido da temperatura corporal (entre 39°C e 40°C) juntamente com pelo menos outros dois sintomas (tais como dor de cabeça, fraqueza, dores musculares e/ou articulares e dor nos olhos) é preciso buscar imediatamente atendimento médico para um tratamento adequado. 

Além disso, é essencial permanecer vigilante após a fase febril uma vez que entre o terceiro e o sétimo dia do início da doença, podem surgir sinais de alerta que indicam uma possível piora da condição da pessoa. Esses sinais são principalmente:

  • Dor abdominal intensa e persistente;
  • Vômitos persistentes;
  • Hipotensão postural e/ou tontura;
  • Cansaço e/ou irritabilidade;
  • Aumento do tamanho do fígado; e
  • Sangramento de mucosas;

Após a fase crítica da dengue, o paciente entra na fase de recuperação. No entanto, a doença pode se agravar, levando a formas graves com hemorragias graves ou disfunção orgânica grave, resultando na morte do paciente.

Embora todas as faixas etárias sejam igualmente suscetíveis à doença, certos grupos, como mulheres grávidas, lactentes, crianças (com menos de 2 anos) e pessoas com mais de 65 anos, têm um maior risco de desenvolver complicações graves associadas à dengue.

Como ocorre a transmissão da dengue?

A dengue é transmitida pela picada de fêmeas de A. aegypti infectadas. Isso porque os mosquitos machos não têm esse hábito de se alimentar de sangue, nutrindo-se de frutos e seiva. Ademais, nem todas as fêmeas da espécie estão, obrigatoriamente, contaminadas com o vírus da dengue. 

Podem ainda existir casos raros de transmissão por via vertical, isto é, de mãe para filho durante a gestação ou por transfusão de sangue. 

Fotografia de um mosquito Aedes albopictus (mesmo gênero do A. aegypti), também vetor da dengue, se alimentando de frutas. (Fotografia de Solvin Zankl).

Como diferenciar o mosquito da dengue?

Na imagem anterior, vemos que existe outro mosquito do mesmo gênero que o A. aegypti, mas de espécies diferentes. O A. albopictus é outro mosquito também transmissor da dengue, porém menos comum em ambientes urbanos do que o A. aegypti

Mas é possível diferenciar um mosquito ou pernilongo comum dos mosquitos da dengue? Sim, e vou te mostrar como!

Os nossos pernilongos domésticos (comumente da espécie Culex quinquefasciatus), além da coloração marrom possuem hábitos diferentes dos mosquitos da dengue, tais como:

  • Hábitos noturnos, sendo um grande incômodo nas noites quentes de verão; 
  • As picadas causam coceira; 
  • Vôo com zumbido; 
  • Prefere águas naturais e poluídas para colocar seus ovos; e
  • Coloca os ovos no mesmo espaço e de forma agrupada sobre a água.

Fotografia de um pernilongo doméstico tropical C. quinquefasciatus. (Fotografia de Salvador Vitanza)

Por outro lado os mosquitos transmissores da dengue são pretos com manchas e listras brancas bem características, além de hábitos um tanto quanto opostos, veja só:

  • Tem hábitos diurnos, porém pode se alimentar à noite em uma ocasião favorável; 
  • As picadas, geralmente, não provocam coceira; 
  • Vôo silencioso; 
  • Prefere criadouros artificiais, com pouca matéria orgânica; 
  • Deposita pequenos grupos de ovos pelas bordas de diversos criadouros;

Não somente isso, a diferença morfológica entre as duas espécies de Aedes também se dá pelo padrão da coloração branca no tórax do mosquito. O A. aegypti tem em suas “costas” um desenho que lembra uma lira, enquanto que o A. albopictus tem apenas uma linha branca. 

Fotografia de fêmeas do mosquito  A. aegypti e A. albopictus, respectivamente. (Fonte: César Favacho / Windsor-Essex County Health Unit)

E caso queira dar uma olhada mais de perto nesses detalhes, veja a imagem a seguir:

Detalhes do tórax do mosquito  A. aegypti (A) e A. albopictus (B). (Fonte: UFSC contra o Aedes)

Como prevenir criadouros de A. aegypti

O A. aegypti é um mosquito essencialmente urbano, o que significa que ele não sobrevive mais no ambiente silvestre. Como você já deve saber, as suas larvas se criam em acúmulos de água em garrafas, pratos de vasos, caixas d’água, calhas, pneus, pratinhos de plantas, dentre outros recipientes. 

Imagem de larvas de A. aegypti em água parada dentro de um pneu. (Flavio Tavares / O TEMPO)

As fêmeas não depositam seus ovos diretamente na água; em vez disso, os colocam nas paredes de recipientes propensos a inundação. Em ambientes secos, esses ovos podem permanecer viáveis por mais de um ano. Assim que esses recipientes são inundados, as larvas eclodem. 

Os ovos secos têm a capacidade de serem transportados por longas distâncias. Por exemplo, um simples prato de planta seco contendo ovos do mosquito, sendo transportado de uma região onde o mosquito é endêmico para uma área onde ele não existe, pode desencadear o surgimento do A. aegypti. Se esse prato chegar ao destino e ficar exposto à chuva, as larvas eclodirão e, em apenas uma semana, adultos já podem estar presentes no local.

Infelizmente, de acordo com a experiência mundial com esse mosquito, onde há A. aegypti com certeza existe transmissão de dengue. A resistência do ovo em resistir muito tempo em locais secos e de o ciclo de desenvolvimento ser muito rápido faz com que o controle seja muito importante. 

Ah! E aqui cabe uma grande observação: as bromélias não são criadouros de larvas de mosquitos da dengue! Há um tempo atrás as pessoas acreditavam que, por essas lindas plantas armazenarem águas das chuvas, elas eram o ambiente perfeito para que os juvenis do mosquito se desenvolvessem. Mas estudos mostraram justamente o oposto. 

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, revelou que as bromélias não desempenham um papel crucial na proliferação do mosquito. Isso se deve ao fato de que a incidência de larvas nessa espécie é extremamente baixa. Fora que, a presença de outra espécie de mosquito sem riscos epidemiológicos, gera uma competição por recursos dentro da bromélia, dificultando ainda mais a presença do vetor.

Imagem de uma bromélia com o seu pequeno reservatório de água, onde diversas espécies podem habitar. (Fonte: Nara Vasconcellos/Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

Mas será que existem outras formas de controle além de deixar águas paradas? Sim e eu vou te contar quais são elas.

Ovitrampas

Em locais onde não ocorre o mosquito, são colocadas ovitrampas em locais estratégicos do município: portos, aeroportos, rodoviárias, postos de gasolina e paradas de ônibus na entrada do município. Se algum veículo transportar uma fêmea adulta do mosquito, ao chegar ao destino, ela vai procurar um local para pôr os ovos, e é provável que utilize as armadilhas. 

Ao inspecionar rotineiramente e verificar a presença de larvas de mosquitos  de A. aegypti, equipes de vigilância epidemiológica do município ou do estado podem então utilizar inseticidas no bairro e destruir potenciais criadouros, além de instruir a população sobre como se prevenir.

Imagem de uma armadilha “ovitrampa” utilizada pela Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul. (Fonte: Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul).

Fumacê

Em locais onde ocorre o mosquito e circula o vírus da dengue, são utilizados carros especiais para aspergir inseticida nos bairros do município. Isso é o que ocorre em várias cidades do país, onde o carro fumacê, como é conhecido, é utilizado na tentativa de diminuir a quantidade de adultos e reduzir a transmissão da dengue. Entretanto, pesquisas mostram que esse método não é muito eficiente e acaba impactando outros seres vivos que são importantes para os ecossistemas. As visitas domiciliares e a destruição dos criadouros também devem ser feitas.

Registro de um carro fumacê passando pelas ruas da cidade de Teixeira de Freitas, na Bahia. (Fonte: Prefeitura de Teixeira de Freitas – Bahia)

Método Wolbachia

Em 2011, um pesquisador da FioCruz sugeriu iniciar estudos com o mosquito da dengue contaminado por uma bactéria chamada Wolbachia. Isso porque, foi comprovado que, quando presente no mosquito a bactéria impede o desenvolvimento das larvas de Aedes spp. que transmitem a dengue, zika e chikungunya não se desenvolvem bem, reduzindo a sua transmissão. 

Estes mosquitos contaminados foram chamados de “Wolbitos” (Aedes aegypti com Wolbachia) e já foram liberados no ambiente, sendo a primeira vez em 2019.

Vacina

Sem dúvidas uma das melhores notícias deste ano sobre saúde, foi a liberação da vacina contra a dengue (apelidada de “Qdenga”) no Sistema Único de Saúde (SUS). Mas você sabia que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) já havia a liberado em 2015? Porém, infelizmente, a vacina foi disponibilizada somente em clínicas particulares. Isso porque a capacidade de fabricação de doses da vacina é limitada.

Atualmente, em 2024, a Qdenga está sendo destinada às regiões com municípios de grande porte, com alta transmissão nos últimos dez anos e população residente igual ou maior a 100 mil habitantes. 

O público-alvo, são crianças e adolescentes entre 10 a 14 anos – faixa etária que concentra o maior número de hospitalizações por dengue -, seguido de pessoas idosas. O esquema vacinal é composto por duas doses com intervalo de três meses entre elas.

Vacina da dengue “Qdenga” disponibilizada ao SUS em 2024. (Fonte: Takeda)

Como evitar a picada do mosquito da dengue?

Apesar da liberação da vacina, as medidas de controle do vetor A. aegypti é o principal método para a prevenção. Sendo assim, além das ações que agentes de saúde realizam, nós, a população devemos fazer nossa parte (sempre que possível):

  • Uso de telas nas janelas;
  • Repelentes em áreas de reconhecida transmissão;
  • Remoção de recipientes nos domicílios que possam se transformar em criadouros de mosquitos;
  • Vedação dos reservatórios e caixas de água; 
  • Desobstrução de calhas, lajes e ralos; e
  • Participação na fiscalização das ações de prevenção e controle da dengue executadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Antes da aula chegar ao fim, vai ai algumas dicas para facilitar na hora de passar os repelentes. É sempre bom optar por produtos registrados pela ANVISA, adequados para a sua idade e necessidades e dar aquela conferida nas instruções de uso na embalagem do produto.

  1. Aplique o repelente uniformemente na pele exposta, evitando áreas sensíveis, como os olhos e a boca;.
  2. Reaplique o produto conforme indicado na embalagem,  incluindo após nadar ou suar excessivamente;
  3. Não é necessário passar na pele coberta por roupa, ou sobre o próprio tecido;
  4. Lave as mãos após a aplicação;

Em crianças, aplique o produto em suas mãos e depois passe suavemente na pele delas, evitando mãos, olhos e boca. Vale o cuidado para garantir que a criança não acabe ingerindo-o acidentalmente.

EXERCÍCIOS

Questão 1 – (ENEM MEC/2022):

Os resultados de um ensaio clínico randomizado na Indonésia apontaram uma redução de 77% dos casos de dengue nas áreas que receberam o mosquito Aedes aegypti infectado com a bactéria Wolbachia. Trata-se da mesma técnica utilizada no Brasil pelo Método Wolbachia, iniciativa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz — Fiocruz. Essa bactéria induz a redução da carga viral no mosquito e, consequentemente, o número de casos de dengue na área, sendo repassada por meio do cruzamento entre os insetos. Como essa bactéria é um organismo intracelular e o vírus também precisa entrar nas células para se reproduzir, ambos necessitarão de recursos comuns.

COSTA, G. Agência Fiocruz de Notícias. Estudo confirma eficácia do Método Wolbachia para dengue. Disponível em: https://portal.fiocruz.br. Acesso em: 3 jun. 2022 (adaptado).

Essa tecnologia utilizada no combate à dengue consiste na:

  1. predação do vírus pela bactéria.
  2. esterilização de mosquitos infectados.
  3. alteração no genótipo do mosquito pela bactéria.
  4. competição do vírus e da bactéria no hospedeiro.
  5. inserção de material genético do vírus na bactéria.

Questão 2 – (Unicamp SP/2021):

Arbovírus são assim designados porque parte de seu ciclo de replicação ocorre nos insetos; esses vírus podem ser transmitidos aos seres humanos. O Ministério da Saúde alertou para o controle das arboviroses e o risco de epidemias sazonais no Brasil em 2020.

Assinale a alternativa correta.

  1. O vírus da febre amarela e o zika vírus podem ser transmitidos pela picada do mosquito Culex. Para ambos os casos não existe vacina, sendo considerada profilática a erradicação do inseto vetor e de suas larvas.
  2. O vírus da dengue e o zika vírus podem ser transmitidos pela picada do mosquito Aedes aegypti. A eliminação do inseto vetor e a eliminação dos focos de criação das larvas são medidas profiláticas.
  3. O vírus da febre amarela e o da chikungunya podem ser transmitidos pela picada do mosquito Aedes aegypti. Para ambos os casos, foram desenvolvidas vacinas e o controle do inseto vetor não é considerado uma medida profilática.
  4. O vírus da chikungunya e o da dengue podem ser transmitidos pela picada do mosquito Culex. A erradicação do inseto vetor e a eliminação das larvas são consideradas medidas profiláticas.

Questão 3 – (Fatec SP/2022):

A dengue, uma doença negligenciada por anos, se alastra rapidamente pelo globo. 

Considerando as características gerais dessa doença, é correto afirmar que:

  1. a contaminação ocorre por contato direto com a saliva ou o muco de uma pessoa infectada, por meio de gotículas respiratórias produzidas ao tossir ou espirrar.
  2. os agentes causadores são microscópicos e dotados de núcleo organizado capaz de orientar a produção de proteínas prejudiciais ao organismo humano.
  3. a transmissão poderia ser evitada com a eliminação de reservatórios de água parada onde se reproduzem os insetos vetores.
  4. o tratamento é feito por meio de antibióticos, que inibem a proliferação celular dos agentes causadores da doença.
  5. a melhor maneira de prevenção é uma vacina específica produzida a partir de bactérias atenuadas ou mortas.

GABARITO:

Questão 1: D

Questão 2: B

Questão 3: C

Sobre o(a) autor(a):

Eneli Gomes de Lima é graduanda na Universidade Federal de Santa Catarina desde 2018. Atualmente faz parte do laboratório de Biologia de Formigas e também do Programa de Educação Tutorial (PET) - Biologia, no qual atua na extensão Miolhe sobre gênero e sexualidade.

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