Barroco

O estilo barroco está intimamente ligado a fatos históricos que marcaram a Europa durante o século XVI. Entre eles estão, por exemplo, o término do ciclo das grandes navegações e, principalmente, conflito gerado entre a Reforma protestante e a Contrarreforma católica. Para compreender esse contexto histórico e descobrir os principais autores do Barroco no Brasil e em Portugal, leia esta aula.

Primeiramente, vamos entender o contexto histórico do Barroco. A questão religiosa, fundamental para a formação do espírito barroco, inicia com o pensamento de Martinho Lutero (1483-1546), na Alemanha. Tratava-se de um teólogo que se opôs a diversos preceitos do catolicismo romano. Dentre esses preceitos estava a doutrina de que era possível conseguir o perdão divino pelo comércio das indulgências. Por isso, ele foi excomungado da Igreja Romana.

Para Lutero, a salvação não poderia ser alcançada pelas boas obras ou por atitudes materiais. De acordo com ele, ela só poderia ser alcançada pela fé em Cristo Jesus. Posteriormente, essas e outras ideias ganharão o requinte de João Calvino.

Além disso, começa o estabelecimento, a partir dessa revolução, das bases para a separação entre a Igreja e o Estado. Essa ação implicaria, entre outras coisas, em questões de ordem material. Por falar nisto, é interessante lembrar que o protestantismo chamava justo o capitalismo.

Dessa forma, o catolicismo começa a perder sua liderança. Na verdade, já vinha perdendo desde o final do século XV, com o Renascimento. Este foi um fenômeno artístico que traz uma nova maneira de enxergar o mundo: o antropocentrismo (o homem é o centro). Tal fenômeno é diferentemente do teocentrismo (Deus é o centro) medieval. Isso porque ele vê o homem não apenas como uma imagem de Deus, mas como ser humano, ligado à sua natureza física.

Assim, o espiritualismo e a religiosidade medievais cedem lugar à valorização dos aspectos materiais da existência.

A relação entre Barroco e Contrarreforma

Portanto, tendo diante de si os avanços das concepções antropocêntricas de mundo, turbinadas pelo Luteranismo, acontece uma reação da Igreja: a Contrarreforma. Este fato histórico queria a volta ao medievalismo e fé total na autoridade da Igreja e do rei.

Retornar ao pensamento medieval de mundo acarretaria na perda da humanidade adquirida pela renascença. Enfrentam-se, dessa forma, duas forças divergentes: antropocentrismo e teocentrismo.

Como resultado desse confronto, para o homem da época, tem-se uma tentativa de conciliação entre razão e fé, espiritualismo e materialismo. Por isso, as concepções sociais, políticas e artísticas do período barroco serão marcadas pela tensão.

E de onde vem o nome barroco?

Não se sabe ao certo. Alguns etimologistas acreditam que tenha vindo do grego baros, que significa “pesado”. Já outros defendem a ideia da origem italiana barocchio, que quer dizer “engano”. Por outro lado, há uma hipótese de que a palavra barroco era usada para designar uma pérola de formato irregular.

De qualquer forma “peso”, “engano” e “irregularidade” são termos que parecem combinar a essência dessa escola. Por conta de sua complexidade, o Barroco surge das transformações que o ocidente passou com o fim da Idade Média.

Origem europeias do Barroco: cultismo X conceptismo

Antes de falarmos de como o Barroco chegou ao Brasil, é interessante pensar na sua passagem pela Península Ibérica. Sobretudo na Espanha, país que se destacava cultural e economicamente, tendo, a partir de 1580, estendido seu domínio sobre Portugal.

Destacam-se na literatura barroca espanhola Luis de Góngora y Lopes, poeta e dramaturgo, e Francisco de Quevedo, político e poeta. São eles os responsáveis por dois estilos de escrita que aparecerão no Brasil, durante o século XVII.

No caso de Góngora, estamos falando do Cultismo, que tem a ver com linguagem culta. Trata-se do jogo de palavras, a forte utilização de figuras de estilo. Exemplo: antítese (a cara do Barroco, por ter ideias opostas em um mesmo pensamento), metáfora e hipérbole.

Em se tratando de Quevedo, o estilo é o Conceptismo, o qual consiste no jogo de ideias. A organização da frase obedece a uma ordem rigorosa com o intuito de convencer e ensinar. Ocorre especialmente na prosa.

A Espanha é berço ainda de outras manifestações artísticas barrocas, como a pintura. É onde está Diego Velásquez, um dos artistas plásticos mais prestigiados de seu tempo. Justo à corte do rei Filipe IV de Espanha, foi o principal pintor. Em suas obras é possível observar a tensão barroca, na pintura, pelo contraste entre claro e escuro, luz e sombra. É o que se vê em Velha fritando ovos (1618):

barroco pintura literatura luz e sombra
Disponível em: https://virusdaarte.net. Acesso 09 abr. 2020.

Barroco no Brasil

Antes de mais nada, é importante saber que falar de Barroco no Brasil é falar da região nordeste. Ou melhor: falar de arte no Brasil do século XVII é falar de nordeste. Isto porque as manifestações culturais desse tempo refletem a estrutura socioeconômica da colônia. Dessa forma, em um país ainda bastante desestruturado socialmente, apenas na Bahia e em Pernambuco era possível observar atividades culturais. Isso porque eram lugares onde a cana-de-açúcar prosperava.

Afunilando ainda mais, diríamos que a Bahia merece atenção especial pois duas figuras barrocas de destaque vêm de lá.

Gregório de Matos Guerra: Boca do Inferno

A princípio, vamos falar de Gregório de Matos Guerra, conhecido como “Boca do Inferno”. Sua poesia satírica era uma espécie de “metralhadora” que disparava críticas a diversos níveis da sociedade baiana. Atingia nobres, Igreja, governantes. Foi, inclusive, sua crítica aos políticos, que ocasionou seu exílio em Angola, por muitos anos.

Contudo, sua obra, de estilo cultista, além de poemas satíricos, contém poesia lírica (que trata de amor, sensualidade) e religiosa. Tal embate faz recordar as divergências barrocas, às voltas com o material e o espiritual.

Padre Antônio Vieira e seus sermões

Sob o mesmo ponto de vista, devemos nos lembrar do Padre Antônio Vieira. Muito embora tenha nascido em Portugal, veio para o Brasil ainda criança, formando-se sacerdote na Bahia.

O Conceptismo pode ser encontrado em seus vários sermões (estima-se que tenha produzido em torno de duzentos). Entre os mais famosos está o Sermão da sexagésima (sobre a arte de pregar). Podemos citar também o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda (sobre a invasão holandesa de 1640). Por fim, merece destaque o Sermão de Santo Antônio ou Sermão aos peixes (sobre o indígena escravizado pelos colonos europeus).

A partir deste último sermão, percebe-se que o padre preocupava-se com mais excluídos: índios, escravos e mulheres. Isso, a propósito, lhe causou problemas, tanto em relação aos poderosos fazendeiros quando em relação à sua própria instituição, a Igreja. Chegou a ser perseguido até mesmo pela Inquisição.

Por fim, assista ao vídeo abaixo para aprofundar seus conhecimentos sobre Barroco:

Resolva os seguintes exercícios sobre Barroco:

1. (UFV) Leia o texto:

(…)

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

(…)

(Gregório de Matos)

Os tercetos acima ilustram:

a) caráter de jogo verbal próprio da poesia lírica do séc. XVI, sustentando uma crítica à preocupação feminina com a beleza.

b) jogo metafórico do Barroco, a respeito da fugacidade da vida, exaltando gozo do momento.

c) estilo pedagógico da poesia neoclássica, ratificando as reflexões do poeta sobre as mulheres maduras.

d) as características de um romântico, porque fala de flores, terra, sombras.

e) uma poesia que fala de uma existência mais materialista do que espiritual, própria da visão de mundo nostálgico-cultista.

2. (UFRS) Considere as seguintes afirmações sobre o Barroco brasileiro:

I. A arte barroca caracteriza-se por apresentar dualidades, conflitos, paradoxos e contrastes, que convivem tensamente na unidade da obra.

II. O conceptismo e o cultismo, expressões da poesia barroca, apresentam um imaginário bucólico, sempre povoado de pastoras e ninfas.

III. A oposição entre Reforma e Contrarreforma expressa, no plano religioso, os mesmos dilemas de que o Barroco se ocupa.

Quais estão corretas:

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas III.

d) Apenas I e III.

e) I, II e III.

3. (FATEC) “Quando jovem, Antônio Vieira acreditava nas palavras, especialmente nas que eram ditas com fé. No entanto, todas as palavras que ele dissera, nos púlpitos, na salas de aula, nas reuniões, nas catequeses, nos corredores, nos ouvidos dos reis, clérigos, inquisidores, duques, marqueses, ouvidores, governadores, ministros, presidentes, rainhas, príncipes, indígenas, desses milhões de palavras ditas com esforço de pensamento, poucas – ou nenhuma delas – havia surtido efeito. O mundo continuava exatamente o de sempre. O homem, igual a si mesmo.”

(Ana Miranda, Boca do Inferno)

Essa passagem do texto faz referência a um traço da linguagem barroca presente na obra de Vieira; trata-se do:

a) gongorismo, caracterizado pelo jogo de ideias.

b) cultismo, caracterizado pela exploração da sonoridade das palavras.

c) cultismo, caracterizado pelo conflito entre fé e razão.

d) conceptismo, caracterizado pelo vocabulário preciosista e pela exploração de aliterações.

e) conceptismo, caracterizado pela exploração das relações lógicas, da argumentação.

GABARITO: 01) B; 02) D; 03) E.