Casimiro de Abreu: trajetória, características e obras

Casimiro de Abreu foi um poeta da Segunda Fase do Romantismo no Brasil. Viveu somente até os 21 anos e escreveu sobre temas como saudade, natureza e desejo.

O ultrarromantismo se manifesta na literatura brasileira de várias maneiras. Na revisão em seguida, vamos conhecer um pouco mais sobre a vida e obra de Casimiro de Abreu.

Você sabia que no mundo do rock and roll existe o “clube dos 27”? Jimi Hendrix, Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse têm mais do que o talento em comum: morreram aos 27 anos.

Essa triste coincidência também aconteceu na literatura, pois alguns dos nossos escritores morreram cedo em consequência da tuberculose. Casimiro de Abreu foi um deles.

Casimiro de Abreu
Casimiro de Abreu

Quem foi Casimiro de Abreu

“Nestes versos tão singelos / Minha bela, meu amor”

O verso bem que que poderia ter sido escrito por Casimiro de Abreu, mas não foi. Casimiro de Abreu (1839-1860) foi, seguramente, o poeta mais lido e declamado da segunda geração romântica brasileira.

Iniciou sua carreira literária em Lisboa, onde pôde ter contato com poetas de lá. Embora sua trajetória como poeta tenha sido diferente, demonstrava interesse pelos mesmos temas que fascinavam os estudantes de Direito do Largo de São Francisco. A musicalidade presente em seus versos marcava a suavidade e ajudava na memorização dos poemas.

Estudante, dica importante: perceba como Casimiro tratou de temas como a saudade, a natureza e o desejo, mas sem o tom pessimista e de culpa. Esses temas são bem presentes em outros poetas da época, e é justamente isso que explica sua popularidade, principalmente entre o público feminino.

Como já adiantamos aqui, e aconteceu com vários escritores de sua geração, Casimiro de Abreu morreu cedo, aos 21 anos, vítima da tuberculose.

Características da poesia de Casimiro de Abreu

“Leve / Como leve pluma leve pousa / muito leve, leve pousa”

Podemos perceber também um olhar inocente para as questões de amor em sua poesia e isso lhe dá identidade. As figuras femininas, por exemplo, não vêm ligadas a imagens de morte.

Seus poemas tratam de situações comuns da vida: a moça que vende as flores colhidas no jardim é comparada, por exemplo, aos pássaros que voam entre as rosas. Alguns estudiosos apontam que, nessa evocação sentimental de pequenos objetos e cenas, há uma valorização das situações prosaicas e um uso da linguagem coloquial.

Ai, que saudades que eu tenho / dos meus doze anos / que saudade ingrata

Assim como outros elementos românticos, o sentimento amoroso também está presente e simbolizado pelo saudosismo de uma infância pura, inocente e perfeita.

Entre os nossos ultrarromânticos, Casimiro de Abreu é quem vai explorar o tema do saudosismo. Seus versos simples caíram no gosto popular e, assim, ele se tornou um dos mais conhecidos poetas de sua geração.

A infância, momento de felicidade ímpar, foi imortalizada nos conhecidos versos de Casimiro de Abreu. Veja no poema em seguida:

Meus oitos anos
Oh! que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

 

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

– Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é – lago sereno,

O céu – um manto azulado,

O mundo – um sonho dourado,

A vida – um hino d’amor!

 

Que auroras, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d’estrelas,

A terra de aromas cheia,

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

 

Oh! dias de minha infância!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Naquele ingênuo folgar!

O céu bordado d’estrelas,

A terra de aromas cheia,

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

 

Oh! dias de minha infância!

Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã!

Em vez de mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minha irmã!

 

Livre filho das montanhas,

Eu ia bem satisfeito,

De camisa aberto o peito,

– Pés descalços, braços nus

– Correndo pelas campinas

À roda das cachoeiras,

E despertava a cantar!

 

Oh! que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais

– Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais

Análise do poema

Uma linguagem muito simples, não concorda? Posso até arriscar, estudante, que você conhece todas as palavras do poema. Dessa maneira, a escolha por um vocabulário simples e adjetivado mescla-se a um cenário raro por conta da aproximação do progresso. Esse cenário natural – com árvores frutíferas e pássaros cantando – constrói a cena das pequenas cidades de interior.

Em alguns momentos, o poema traz um “que de nostalgia. No entanto, o que realmente quer evidenciar de fato é a aurora da vida, rodeada de amor, sonhos, flores, bananeiras, laranjais. O eu-lírico tem noção de que essa realidade nunca voltará. Contudo, é relembrando essa infância querida que ele procura esquecer as mágoas de agora.

Analisando a sua estrutura, podemos notar que temos redondilhas maiores, sete sílabas. A primeira e a última são idênticas no que diz respeito à forma e conteúdo. As rimas são misturadas, ou seja, não trazem um esquema fixo, como exige, por exemplo, a norma clássica. Já a posição na estrofe, são assonantes: vida/querida, fagueiras/bananeiras, o que deixa bem evidente a musicalidade no poema.

Perceba que todas as imagens ligadas à infância são muito positivas. A natureza é descrita com árvores de sombra acolhedora, enquanto o mar é como um lago sereno, e o céu é estrelado. Portanto, é nesse cenário paradisíaco do passado que surge a linha principal que faz da infância um momento tão saudoso para o ultrarromântico: tempo da inocência.

Por fim, Casimiro de Abreu fala com todas as letras quando afirma que “respira a alma inocência” e cita “o ingênuo folgar”. A inocência da criança é perdida lá na idade adulta. Por isso o poema traz uma possibilidade de reviver, de forma idealizada, esse tempo perdido.

A idealização da pátria

Juntamente com um olhar mais positivo para a vida, Casimiro também idealizou a pátria, cantando o tema das saudades dos exilados inaugurado por Gonçalves Dias na primeira fase.

Veja um dos poemas mais conhecidos de Casimiro de Abreu, que também é um canto de louvor ao Brasil.

Minha terra

Todos cantam sua terra

Também vou cantar a minha

Nas débeis cordas da lira

Hei de fazê-la rainha.

— Hei de dar-lhe a realeza

Nesse trono de beleza

Em que a mão da natureza

Esmerou-se em quanto tinha.

 

Correi pras bandas do sul:

Debaixo de um céu de anil

Encontrareis o gigante

Santa Cruz, hoje Brasil.

— É uma terra de amores,

Alcatifada de flores,

Onde a brisa fala amores

Nas belas tardes de abril.

 

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha o poeta

E nem as canta um mortal!

— É uma terra encantada

— Mimoso jardim de fada –

Do mundo todo invejada,

Que o mundo não tem igual.

Mais um poema com uma linguagem bem próxima do coloquial, certo? Podemos notar que a pátria é a rainha a ser homenageada. As joias da sua coroa são os elementos da natureza sem igual com que foi agraciada por Deus.

Para finalizar, assista à esta videoaula sobre o assunto e, em seguida, resolva as questões sobre o tema.

Exercícios:
1- (IFPE)    

MEUS OITO ANOS

Oh que saudades que eu tenho

Da aurora de minha vida

Das horas

De minha infância

Que os anos não trazem mais

Naquele quintal de terra

Da Rua de Santo Antônio

Debaixo da bananeira

Sem nenhum laranjais

 

Eu tinha doces visões

Da cocaína da infância

Nos banhos de astro-rei

Do quintal de minha ânsia

A cidade progredia

Em roda de minha casa

Que os anos não trazem mais

 

Debaixo da bananeira

Sem nenhum laranjais

ANDRADE. Oswald de. Meus oito anos.
Disponível em <https://www.mensagenscomamor.com/poemas-oswaldde- andrade>.
Acesso: 28 set. 2016.

O Modernismo brasileiro é compreendido como um movimento que teve início no século XX e representou uma revolução nas artes em geral. O texto é um poema pertencente ao movimento literário em questão. A respeito do referido texto, analise as proposições.

I. O texto faz parte da terceira geração do Modernismo. Isso se nota porque, por meio da linguagem utilizada, dialoga com a proposta regionalista da referida geração.

II. Através do uso do verso “Sem nenhum laranjais”, filia-se à proposta do Manifesto da Poesia Pau- Brasil que valoriza “A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.”.

III. Apesar da inovação proposta na linguagem artística, o poema, como se pode observar, mantém o rigor formal adotado por movimentos literários que antecederam o Modernismo.

IV. O texto de Oswald intertextualiza com “Meus Oito Anos”, poema escrito pelo poeta romântico Casimiro de Abreu, exemplificando a perspectiva antropofágica que caracterizou a fase modernista da qual faz parte.

V. Como se pode perceber, por pertencer a momento inicial do Modernismo, o texto ainda mantém uma perspectiva saudosista em relação à infância e mesmo ufanista em relação ao local e, consequentemente, à pátria.

Estão CORRETAS apenas

a) I, II, III e IV.

b) II e IV.

c) II, III, IV e V.

d) II, IV e V.

e) I, III e V.

2- (UERGS RS)     

Em relação à poesia romântica, são feitas as seguintes afirmações:

I. Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias pertencem à geração denominada Indianista ou Nacionalista.

II. As poesias de Álvares de Azevedo falam principalmente de amor e de morte, entre outros temas, e o autor sofreu forte influência do inglês Lorde Byron.

III. Castro Alves, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu pertencem à geração chamada Condoreira.

A opção que apresenta a resposta correta é

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas I e II.

d) Apenas I e III.

e) I, II e III.

3- (Mackenzie SP)    

I

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

— Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mundo – um sonho dourado,

A vida – um hino d’amor!

Casimiro de Abreu

II

Lembramo-nos (…), com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de muito longe a enfiada de decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas.

Raul Pompéia

Assinale a alternativa correta.

a) O texto II, posicionando-se criticamente com relação ao ponto de vista expresso no texto I, exemplifica aspecto do estilo realistanaturalista.

b) O texto I ironiza o tom pessimista da visão de mundo romântica, exemplificada em II.

c) Os dois textos pertencem ao mesmo estilo de época, apesar de divergirem quanto ao tema.

d) Os dois textos exemplificam tendência lírica que se caracteriza pela argumentação lógica.

e) O texto II, embora pertença a estilo de época do século XX, confirma o tom emotivo e idealizador que caracteriza o texto I.

Gabarito:
  1. B
  2. C
  3. A

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.