Mário de Andrade e Oswald de Andrade

Conheça dois dos principais escritores da Primeira Fase do Modernismo Brasileiro que, ao lado de Manuel Bandeira, constituem o famoso trio do referido período literário. São autores de suma importância na literatura brasileira e tematizados quase que anualmente nas questões de Linguagens do Enem

Nesta aula de Literatura você vai conhecer os aspectos da vida e o legado literário de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade.  Ambos foram atuantes nos primórdios do Modernismo Brasileiro, participando ativamente da Semana de Arte Moderna. Para tanto, serão apresentados aspectos de suas vidas pessoais, o contexto histórico da produção de suas obras e suas respectivas características, além de um breve apanhado de seus conteúdos temáticos.

Trata-se de dois escritores que mudaram os rumos da arte literária brasileira, influenciando novos escritores e estabelecendo uma ruptura com a tradição literária vigente até a referida época histórica. Ao lado de Manuel Bandeira, Mário e Oswald constituem o famoso trio da Primeira Fase do Modernismo Brasileiro.

Mário de Andrade

Mário de Andrade viveu de 1893 a 1945. Artista e estudioso bastante plural, iniciou sua carreira pela dedicação à música, mas logo aderiu a outras modalidades artísticas. Em 1917, publicou sob o pseudônimo de Mário Sobral seu primeiro livro: Há uma gota de sangue em cada poema.

mário de andrade

Participante extremamente versátil da Semana de Arte Moderna, Mário atuou frontalmente tanto na estruturação teórica do movimento quanto na produção artística. Destacou-se como músico, poeta, prosador, folclorista e jornalista. No ano de eclosão do Modernismo Brasileiro, em 1922, publicou o livro de poemas Pauliceia Desvairada, cujo tema central era a vida da urbe paulista.

Ao longo de sua vida, exerceu inúmeros e variados cargos, sempre vinculados à esfera cultural. Faleceu em 1945, não resistindo um ataque cardíaco.

A obra de Mário de Andrade é de fundamental importância na composição do cenário de todo o movimento modernista brasileiro. Mário de Andrade adere completamente aos ideais modernistas da Semana de 22.

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Retrato de Mário de Andrade (1935), por Candido Portinari

Em livros como Pauliceia Desvairada (1922) e Losango Cáqui (1926), seus poemas foram compostos em versos livres, empregando linguagem coloquial e exaltando paixões contemporâneas ao seu momento histórico, como fica claro na exaltação da metrópole São Paulo. Tudo isso, contudo, mesclado com o espírito combativo e crítico do Modernismo da primeira fase.

Outras obras, entre as quais O clã do jabuti (1927), já denotarão maior nacionalismo por parte do escritor. Procurando alcançar uma identidade nacional, distinta da imagem ufana da pátria difundida durante o Romantismo https://cursoenemgratuito.com.br/terceira-geracao-do-romantismo/, o poeta faz uso do folclore brasileiro: resgata e concilia em suas obras ficcionais as tradições africanas, indígenas e sertanejas.

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Retrato de Mário de Andrade (1922), por Tarsila do Amaral

A prosa foi a forma literária que deu visibilidade à escrita de Mário de Andrade. Suas principais obras são os romances Amar, verbo intransitivo e Macunaíma. Veja agora as principais características desses romances:

Amar, verbo intransitivo

Conta a passagem de uma suposta professora de Língua Alemã à casa da família Sousa – uma família católica, mas cheia de mistérios e contradições. O enredo começa quando Sousa Costa contrata Elza para ficar em sua casa para ser professora do seu filho. Elza muda-se, então, para a casa, se fazendo passar por professora de alemão. Porém, a sua verdadeira missão é ensinar a arte de amar para Carlos, filho mais velho de Sousa e ainda inexperiente.

Publicado em 1927, esse romance recebeu muitas críticas por tratar de um assunto polêmico que era vivido pela sociedade em geral, mas não era discutido claramente. Com críticas sociais e comportamentais, a obra narra o envolvimento de um jovem de família de posição social com uma alemã mais velha contratada, chocando a sociedade e transformando Mário de Andrade em um alvo para críticas. Anos depois e até os dias atuais, o livro é lido tanto pela sua qualidade como pela sua irreverência e pioneirismo.

Macunaíma

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter foi publicado em 1928. É considerado a obra-prima de Mário de Andrade. O livro é fruto das pesquisas que o autor fazia sobre as origens e as especificidades da cultura e do povo brasileiro. O romance narra a história do “herói” indígena Macunaíma, desde seu nascimento na selva até sua morte e transfiguração.

O protagonista experimenta uma trajetória movimentada e aventuresca em busca de uma pedra mágica, o muiraquitã, que havia recebido de seu grande amor, Ci, a Mãe do Mato. Entretanto, esse talismã fora perdido e acabara em posse de Piaimã, um gigante comedor de gente que vivia em São Paulo.

Na narrativa de Macunaíma, o mítico e o mágico fluem livremente ao lado da realidade concreta e, muitas vezes, a transfiguram, impregnando-a de novos significados. A obra foi e continua sendo muito elogiada pelos críticos e estudiosos da Literatura. Isso porque o autor imprimiu ao longo da narrativa um vigoroso, original e muito bem-sucedido experimento linguístico, integrando organicamente modos de falar de todo o Brasil.

O livro também é admirado como um penetrante reflexo da cultura e sociedade brasileiras, a ponto de o protagonista ter se tornado um ícone popular e uma projeção da autoimagem dos brasileiros. No entanto, há muita controvérsia sobre a questão da fidelidade dessa autoimagem à realidade.

A controvérsia, de fato, cercou a obra desde seu lançamento em 1928, surgindo em um momento em que os intelectuais modernistas procuravam tanto descobrir como redesenhar a “verdadeira” identidade nacional. Isso porque os primeiros modernistas trabalhavam num contexto conservador, enfrentando a herança ainda muito viva do passado monárquico e colonial; e, ao mesmo tempo, lutavam para abrir um caminho legítimo e novo para um futuro que não discerniam com clareza.

Macunaíma é um dos livros brasileiros mais estudados de todos os tempos. A volumosa bibliografia crítica que a obra produziu e produz é repleta de polêmicas sobre o seu significado, seus aspectos estéticos e suas implicações morais, culturais, políticas, históricas e sociais.

Mesmo assim, a crítica o reconhece consensualmente como uma obra-prima e como um dos maiores marcos do Modernismo literário brasileiro. É um romance muito estudado também por pesquisadores estrangeiros e foi traduzido para várias línguas. Já foi adaptado para o cinema, para os quadrinhos e para o teatro, e serve como frequente referência em vários domínios artísticos e culturais.

Aprenda mais sobre a vida e a obra de Mário de Andrade assistindo ao documentário produzido pela TV Escola

Oswald de Andrade

José Oswald de Sousa Andrade (1880-1954) nasceu em São Paulo, vindo de uma família de ricos comerciantes de imóveis. Por conta de suas facilidades financeiras, ainda jovem lançou O pirralho, jornal humorístico de grande repercussão.

Em 1912, fez a sua primeira viagem à Europa, onde entrou em contato com várias teorias vanguardistas. Assim, foi fortemente influenciado pelo caráter anarquista dessas ideias, em especial o Futurismo, cuja proposta introduziu no Brasil.

Concluiu a faculdade de Direito e engajou-se na Semana de Arte Moderna, sendo um de seus principais responsáveis. Depois desenvolveu as ideias modernistas por meio de revistas e periódicos, entre eles o Manifesto Pau-Brasil e a Revista Antropofagia.

No âmbito político, Oswald foi um dos raros escritores modernistas da primeira fase que assumiu posição esquerdista. Inclusive filiou-se ao Partido Comunista.

Oswald foi casado com a pintora Tarsila do Amaral, uma das fundadoras do Modernismo Brasileiro. E, mais tarde, com outra personalidade da cultura brasileira, Patrícia Galvão, a Pagu.

Retrato de Oswald de Andrade (1922), por Tarsila do Amaral

De todos os artistas modernistas, ficou conhecido por sua instabilidade e pelo espírito irreverente, polêmico, irônico e combativo. No final da vida, sofreu muito com a falta de reconhecimento, as doenças e as dificuldades financeiras que assolaram a sua família depois da Crise de 1929.

A produção poética de Oswald de Andrade não é muito homogênea. Isso significa que dificilmente encontraremos uma temática predominante ou abordagem filosófica. Sua preocupação se confunde com os próprios ideais modernistas, muito bem apresentados na Semana de Arte Moderna e nos manifestos e revistas.

Retrato de Oswald de Andrade (1925), por Anita Malfatti

De modo geral, pode-se dizer que o radicalismo e o empenho em atualizar as letras brasileiras foram as suas maiores pesquisas literárias. Do ponto de vista formal, seus poemas se caracterizam pela busca de uma linguagem cada vez mais próxima do linguajar cotidiano, marcado por expressões informais, pela síntese (os textos são quase “poemas-pílulas”), pela linguagem telegráfica, pela sintaxe quebrada, fragmentada e subliminar. Do ponto de vista temático, havia uma investigação do passado nacional; a revisão de fatos consagrados pela história; o humor e a dessacralização.

Confira alguns de seus poemas:

Pronominais

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro.

 

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados.

 

O gramático

Os negros discutiam

Que o cavalo sipantou

Mas o que mais sabia

Disse que era

Sipantarrou.

 

O capoeira

— Qué apanhá sordado?

— O quê?

— Qué apanhá?

Pernas e cabeças na calçada.

 

Erro de português

Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido.

 

O medroso

A assombração apagou a candeia

Depois no escuro veio com a mão

Pertinho dele

Ver se o coração ainda batia.

 

3 de maio

Aprendi com meu filho de dez anos

Que a poesia é a descoberta

Das coisas que eu nunca vi.

 

Faça uma revisão da aula com este vídeo do Descomplica!

Assista à reportagem produzida pela Globo News e aprenda mais sobre a vida e o legado literário de Oswald de Andrade.

Você sabia que Mário e Oswald romperam suas relações de amizade? Saiba detalhes sobre como isso aconteceu acessando as matérias produzidas pelas Veja São Paulo.

Exercícios:

 

Questão 1 (PUC-Campinas)

I

Pedro apenas trabalhou.

Ganhou mais, foi subindinho,

Um pão de terra comprou.

Um pão apenas, três quartos

E cozinha num subúrbio

Que tudo dificultou.

II

A cidade progredia

Em roda de minha casa

que os anos não trazem mais

Debaixo da bananeira

Sem nenhum laranjais.

Tanto no texto I, de Mário de Andrade, quanto no texto II, de Oswald de Andrade, encontram-se exemplos de uma das propostas dos modernistas de 1922. Assinale a alternativa em que essa proposta se explicita:

a) “Os nossos poetas de hoje, possuindo um sentimento igual, e às vezes superior ao dos poetas antigos, sobre eles excelem pelo cuidado que dão à pureza da linguagem e pela habilidade com que variam e aperfeiçoam a métrica.”

b) “A língua sem arcaísmos. Sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros”.

c) “Os tempos que vivemos são outros, tempos de técnica e comunicação maciça, tempos em que outra é a percepção da realidade (…); logo, tempos em que já não faria sentido o uso da unidade versolinear nem o da frase.”

d) “A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.”

e) “O filho dos trópicos deve escrever numa linguagem propriamente sua, lânguida como ele, quente como o sol que a abrasa, grande e misteriosa como as suas matas seculares.”

 

Questão 2 (Unifesp-SP)

Senhor feudal

Se Pedro Segundo

Vier aqui

Com história

Eu boto ele na cadeia.

(Oswald de Andrade)

O título do poema de Oswald remete o leitor à Idade Média. Nele, assim como nas cantigas de amor, a ideia de poder retoma o conceito de:

a) fé religiosa.

b) relação de vassalagem.

c) idealização do amor.

d) saudade de um ente distante.

e) igualdade entre as pessoas.

 

Questão 3 (Enem-2015)

O peru de Natal

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

ANDRADE, M. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. São Paulo: Objetiva, 2000 (fragmento)

No fragmento do conto de Mário de Andrade, o tom confessional do narrador em primeira pessoa revela uma concepção das relações humanas marcada por:

a) distanciamento de estados de espírito acentuado pelo papel das gerações.

b) relevância dos festejos religiosos em família na sociedade moderna.

c) preocupação econômica em uma sociedade urbana em crise

d) consumo de bens materiais por parte de jovens, adultos e idosos.

e) pesar e reação de luto diante da morte de um familiar querido.

 

GABARITO:

1 – B

2 – B

3 – A

Sobre o(a) autor(a):

Texto produzido pelo Professor João Paulo Prilla para o Curso Enem Gratuito. JP é licenciado em Letras- Português, Inglês e respectivas Literaturas (2010) pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ministra aulas de Literatura, Língua Portuguesa e Redação em escolas da Grande Florianópolis desde 2011.