Como escrever uma crônica?

A crônica é um dos gêneros textuais mais conhecidos no nosso dia a dia e volta e meia esse tipo de texto aparece como conteúdo escolar ou até mesmo é cobrado em provas de redação em diferentes vestibulares.

Por isso, nesta aula vamos aprender a escrever uma crônica e analisar quais são suas principais características e elementos essenciais!

O que é uma crônica?

Inicialmente, é preciso entender o contexto de produção e o meio de circulação desse gênero. Pois a crônica é um gênero que acaba circulando em duas esferas distintas: a literária e a jornalística.

Por esse motivo você já pode ter lido crônicas tanto em livros como em jornais ou revistas. Isso é super normal, é parte da essência da crônica e acaba delimitando seu conteúdo e sua forma.

Então, a primeira questão que devemos pontuar para escrever uma crônica é o seu “lugar”, que é entre os textos narrativos (próprios da literatura) e os textos argumentativos, como mostramos no desenho que segue.

roteiro de como escrever uma cronica
Imagem 01: tipologia da crônica

Com que abordamos acima, já é possível entender que a crônica terá dois elementos essenciais, que são a narração e a argumentação.

Adicionamos a isso um terceiro elemento também muito característico da crônica, que é a reflexão, e vejamos, então, como cada um deles deve aparecer no seu texto.

A estrutura para escrever uma crônica:

Narração:

Uma das principais características da crônica é a sua relação com o cotidiano. Ou seja, toda crônica parte de um fato cotidiano e esse aparece como forma de narração, ou seja, você precisa contar esse fato.

Essa narração não precisa ter início, meio e fim, mas deve aparecer como a descrição de uma cena da vida cotidiana. De maneira geral, a narração da crônica é feita em primeira pessoa, pois ela normalmente tem a finalidade de mostrar uma observação que o autor fez da sua realidade para que ele discuta sua própria condição com base nessa observação.

Então lembre-se: você deve narrar uma cena e não uma história inteira, pois a crônica não tem como único objetivo narrar, mas ela parte dessa narração para apresentar uma discussão, o que nos leva a próximo ponto.

Opinião/argumentação:

Como vimos acima, uma boa crônica deve partir da narração de um fato cotidiano para desenvolver um posicionamento, ou seja, argumentar sobre o tema.

Essa argumentação não precisa necessariamente de repertórios ou dados que a comprovem, como estamos acostumados na dissertação. Mas deve defender um ponto de vista com base na própria observação do dia a dia.

É preciso, então, que, durante escrita da sua crônica, você deixe muito explícita a sua opinião sobre o tema, a relacione sempre com o fato narrado e a faça de maneira reflexiva, finalizando o terceiro elemento que constitui esse gênero.

Reflexão:

Por fim, o terceiro elemento, que irá “costurar” a sua argumentação com a narração é a reflexão que deve aparecer durante todo o seu texto. Resumidamente, a ideia da crônica é que você aprecie um fato, narrando-o, reflita sobre ele e, com base nisso, desenvolva sua defesa.

Estruturalmente, não há uma divisão pré-delimitada de como os elementos acima são divididos no texto. Você pode optar por escrever sua narração no primeiro parágrafo e utilizar os outros parágrafos para apresentar a reflexão e argumentação; pode também mesclar esses tipos de escrita ou iniciar com a discussão e mostrar como ela te leva a um fato cotidiano observado anteriormente.

A melhor forma de definir qual a estrutura seguir é com a leitura de diferentes crônicas: quanto mais você ler exemplares desse gênero, mais facilidade terá em escrevê-lo.

Por isso, vejamos como exemplo a crônica abaixo, de autoria de Fernanda Takai, e analisemos como os elementos que citamos nesta aula aparecem no texto. Não deixe de ler para aprender como escrever uma crônica!

Nunca subestime uma mulherzinha

A gente ainda alimenta algumas ideias moldadas por um certo movimento retilíneo uniforme bobo do nosso cérebro. Pra qualquer assunto temos lá nossas considerações a fazer. E um dos seres mais agraciados com opiniões dos outros somos nós, as mulherzinhas. E o pior: também fazemos parte dessa engrenagem e, de certa forma, nos sabotamos sem querer.

“Só podia ser mulher! Ela não consegue.” E infelizes são os comentários que ouvimos sobre as coisas que fazemos ou deixamos de fazer. Puxa vida, esse negócio é tão forte pra gente que até quando vou estacionar o carro eu já fico pensando se tem alguém olhando pra me julgar. Mesmo que eu tenha escolhido a vaga mais difícil em um shopping lotado… Tá, reconheço que às vezes fico muito tempo escolhendo a roupa pra sair e de carona vem o aparte: trocou de roupa de novo? E olha que eu conheço um tanto de homens que gastam mais tempo se arrumando do que a noive da igreja mais próxima.

Ganhei de presente da jornalista Chris Campos, que escreve muito bem sobre as coisas do nosso “lar agridoce lar”, um livro de uma escritora que tem cruzado a minha vida em momentos diferentes. E é um livro de mulherzinha, à primeira vista. Correio feminino vem numa capa rosa com bolinhas num formato quase de revista. Seria apenas mais um livro desse gênero se a autora não fosse Clarice Lispector. É uma compilação de textos que ela escreveu para alguns periódicos em momentos diferentes entre 1952 e 1977. Como era uma escritora consagrada, ela escolheu se esconder atrás de três pseudônimos. Pelo jeito, Clarice também tinha medo de ser confundida com uma escritora para mulherzinhas.

Por mais que os assuntos fossem bem femininos,

como dicas de beleza, etiqueta, tendências da moda, relacionamento com o companheiro, é possível ler a Clarice como ela era. no meio de tudo ela sempre dava um jeito de indicar às mulheres uma atitude mais natural e pessoal. A leitura fica ainda mais divertida se conhecemos a escritora de outros livros e crônicas. Assuntos como insônia, cigarro, solidão, vaidade, saúde, expectativas, vizinhos fazem par com outros por sua obra afora. E ainda há textos incríveis que provavelmente Clarice nem precisaria deixar de assinar seu nome de verdade. E deve até ter pensado: “É mais do que me pedem pra escrever…”.

Eu estava lendo esse livro numa lanchonete. Enquanto esperava o sanduíche, um moço na mesa a lado esticou o olho e provavelmente leu em letras enormes “Você entende de homens?” numa das páginas que eu lia. Ele me jogou de volta um sorrisinho… Aí me deu vontade de mostrar a capa e apontar o nome da Clarice. Acabei não fazendo isso. Sorri amarelo de volta. Mas de alguma forma eu não me senti uma mulherzinha comum. Sabe por quê? Porque alguém como Clarice Lispector também era uma mulherzinha. E das boas!

(Texto retirado de: TAKAI, Fernanda. Nunca subestime uma mulherzinha. In: ______ Nunca subestime uma mulherzinha. São Paulo: Panda Books, 2007)

Análise da crônica

Repare que, mesmo que a autora aborde situações cotidianas durante todo o texto, a narração de fato é apresentada no último parágrafo quando é descrita a cena da lanchonete.

Com essa estratégia, podemos perceber como toda a discussão proposta no decorrer do texto foi, na verdade, desenvolvida a partir daquela cena.

A opinião, argumentação e reflexão da autora, por sua vez, ficam presentes em vários momentos da sua escrita quando ela critica a forma como a sociedade vê as mulheres, como fúteis ou menores.

Esse texto, então, como exemplo de como escrever uma crônica, nos mostra tanto a opinião da autora (nas críticas feitas à visão da mulher pela sociedade), sua argumentação (em que utiliza do livro de Clarice Lispector para defender feitos femininos marcantes) e sua narração (ao descrever a cena da lanchonete).

Para completar, o texto ainda utiliza de linguagem simples, objetiva e com recursos que chamam a atenção do leitor, o que – dada a proximidade com o cotidiano – também é característica desse gênero.

Quer saber mais sobre o gênero crônica ou ainda aprofundar o que vimos nesta aula? Então veja a videoaula abaixo:

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pela professora Daniela Cristina Garcia para o Curso Enem Gratuito. Daniela é formada em Letras (Língua portuguesa e literaturas) pela Universidade Federal de Santa Catarina e é mestre em Linguística (também pela UFSC). Dá aulas de Língua Portuguesa, com ênfase em redação, em escolas e cursos pré-vestibular de Florianópolis e possui experiência em correção de redação de vestibulares e exames.

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