Entenda o gênero literário narrativo

O gênero narrativo é um dos que mais aparece no Enem e nos vestibulares. Revise-o nessa aula gratuita de Literatura.

Você deve se deparar com diversas manifestações artísticas no dia a dia. E muitas delas se apresentam ou se manifestam através da palavra, seja ela falada ou escrita. Assim se constituem os gêneros literários que são divididos em lírico, dramático ou épico. Neste post, vamos abordar o gênero narrativo.

Ele se apresenta na forma de prosa (estrutura textual por parágrafos) e suas principais manifestações narrativas são o romance, a novela e o conto. Todos podem ser textos bases para o teatro, as novelas televisivas, etc. Vamos revisar o gênero narrativo literário?

Tipos do gênero narrativo

Romance

O romance é constituído como uma narração de fato imaginário, mas verossímil, que pode representar qualquer aspecto da vida familiar e social do homem. O romance apresenta um corte mais amplo da vida, com situações densas e complexas em relação aos personagens. Podemos ter romance de costumes, romance psicológico, romance policial, romance regionalista, romance histórico ou de cavalaria.

No âmbito literário, há diversos exemplos de romances. Podemos citar: Machado de Assis, com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”; Raul Pompeia, com “O Ateneu”; Mário de Andrade, com “Macunaíma”, etc.

capa do livro macunaima genero narrativo
Capa do livro Macunaíma, de Mário de Andrade

Dica: Confira uma lista com dez principais romances literários na Revista Bula

Novela

A novela é um gênero narrativo um pouco mais curto (em páginas) que o romance. Nela há a valorização de um evento, um corte mais limitado da vida. A passagem do tempo é mais rápida e, é importante observar que o narrador tem mais destaque como contador de um fato passado.

São exemplos de novelas literárias: Jorge Amado, “A morte e a morte de Quincas Berro D´Água”, Bernardo de Guimarães, “A escrava Isaura”, Jorge Amado, “Gabriela”, etc.

capa do livro gabriela genero narrativo
Capa do livro Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado.

 

Conto

O conto é a mais breve e simples das narrativas, centrada num episódio da vida. É uma narrativa curta que condensa e potencializa todas as possibilidades de ficção.

Um dos maiores contistas brasileiros foi Machado de Assis que escreveu mais de 200 contos. Hoje todos esses contos pertencem ao domínio público. Muitos foram teatralizados ou viraram obras televisivas.

Dica: Confira os contos machadianos. Um dos contos mais famosos de Machado de Assis é o conto “A cartomante”. Você pode ler na íntegra no site da Academia Brasileira de Letras.

Veja também uma animação da “A Cartomante”:

Estrutura do texto e gênero narrativo

Estrutura narrativa literária é composta por:

  • Narrador que pode ser:

– Narrador (primeira pessoa)- participa dos acontecimentos chamado personagem narrador;

– Narrador (terceira pessoa)- está fora dos acontecimentos, mas tem ciência de tudo que acontece. Chamado de narrador onisciente.

  • Enredo

É a própria estrutura narrativa, ou seja, o desenrolar dos acontecimentos que vai culminar no clímax (problemática do enredo) a ser resolvido no desfecho (final da narrativa).

  • Espaço

Cenário onde circulam os personagens e se desenrola o enredo.

  • Tempo

O tempo pode ser narrado de diversas formas: linear ou não linear. Linear consiste na narração de maneira sequencial (dias, horas, meses, anos). E não linear pode ser em flashback. Ex: romance Dom Casmurro, de Machado de Assis ou ainda Memórias Póstumas de Brás-Cubas (do mesmo autor) ou ainda o tempo pode se apresentar de forma subjetiva (memórias) do narrador.

A grande maioria das produções literárias se apresentam no gênero narrativo. Quanto mais leituras você fizer, mais preparado (a) vai ficar para as provas do Enem e para a vida no sentido geral. J

á que a arte “imita” a vida, ela pode te fornecer subsídios para você tomar melhores decisões bem como melhorar sua performance escrita (redação, etc). Então, “bora” correr para a biblioteca, sebos ou mesmo acessar a biblioteca virtual que indiquei para conhecer novas narrativas!

Agora, para finalizar sua revisão, que tal testar seus conhecimentos?

TEXTO: 1 – Comum à questão: 1    

UM DOADOR UNIVERSAL

Tomo um táxi e mando tocar para o hospital do Ipase. Vou visitar um amigo que foi operado. O motorista volta-se para mim:

– O senhor não está doente e agora não é hora de visita. Por acaso é médico? Ultimamente ando sentindo um negócio esquisito aqui no lombo…

– Não sou médico.

Ele deu uma risadinha.

– Ou não quer dar uma consulta de graça, hein, doutor? É isso mesmo, deixa para lá. Para dizer a verdade, não tem cara de médico. Vai doar sangue.

– Quem, eu?

– O senhor mesmo, quem havia de ser? Não tem mais ninguém aqui.

– Tenho cara de quem vai doar sangue?

– Para doar sangue não precisa ter cara, basta ter sangue. O senhor veja o meu caso, por exemplo. Sempre tive vontade de doar sangue. E doar mesmo de graça, ali no duro. Deus me livre de vender meu próprio sangue: não paguei nada por ele. Escuta aqui uma coisa, quer saber o que mais, vou doar meu sangue e é já.

Deteve o táxi à porta do hospital, saltou ao mesmo tempo que eu, foi entrando:

– E é já. Esse negócio tem de ser assim: a gente sente vontade de fazer uma coisa, pois então faz e acabou-se. Antes que seja tarde: acabo desperdiçando esse sangue meu por aí, em algum desastre. Ou então morro e ninguém aproveita. Já imaginou quanto sangue desperdiçado por aí nos que morrem?

– E nos que não morrem? – limitei-me a acrescentar.

– Isso mesmo. E nos que não morrem! Essa eu gostei. Está se vendo que o senhor é moço distinto. Olhe aqui uma coisa, não precisa pagar a corrida.

Deixei-me ficar, perplexo, na portaria (e ele tinha razão, não era hora de visitas) enquanto uma senhora reclamava seus serviços:

– Meu marido está saindo do hospital, não pode andar direito…

– Que é que tem seu marido, minha senhora?

– Quebrou a perna.

– Então como é que a senhora queria que ele andasse direito?

– Eu não queria. Isto é, queria… Por isso é que estou dizendo – confundiu- se a mulher. – O seu táxi não está livre?

– O táxi está livre, eu é que não estou. A senhora vai me desculpar, mas vou doar sangue. Ou hoje ou nunca.

E gritou para um enfermeiro que ia passando e que nem o ouviu:

– Você aí, ô, branquinho, onde é que se doa sangue?

Procurei intervir:

– Atenda a freguesa… O marido dela…

– Já sei: quebrou a perna e não pode andar direito.

– Teve alta hoje. – acudiu a mulher, pressentindo simpatia.

– Não custa nada – insisti. – Ele precisa de táxi. A esta hora…

– Eu queria doar sangue – vacilou ele. – A gente não pode nem fazer uma caridade, poxa!

– Deixa de fazer uma e faz outra, dá na mesma.

Pensou um pouco, acabou concordando:

– Está bem. Mas então faço o serviço completo: vai de graça. Vamos embora. Cadê o capenga?

Afastou-se com a mulher, e em pouco passava de novo por mim, ajudando- a a amparar o marido, que se arrastava, capengando.

– Vamos, velhinho: te aguenta aí. Cada uma!

Ainda acenou para mim, de longe, se despedindo.

SABINO, Fernando. Um doador universal.
Disponível em: <<http://www.otempo.com.br/opini%C3%A3o/fernando-sabino/fernando-
sabino-um-doador-universal-1.538>>. Acesso: 08 maio 2017.

Questão 01 – (IFPE/2017)    

Assinale a alternativa CORRETA quanto ao gênero e ao tipo textuais.

a) Por se tratar de um conto, o texto é argumentativo e expõe a insistência de uma personagem em convencer outra, com argumentos, a fazer o que ela quer.

b) Por se tratar de uma crônica, o texto é predominantemente dialogal e narrativo, com segmentos estruturados em turnos de fala e relato de situações.

c) Por se tratar de uma crônica, o texto é injuntivo e incentiva o leitor a praticar a doação de sangue, instruindo sobre como realizar esta ação solidária.

d) Por se tratar de uma fábula, o texto é predominantemente dialogal e narrativo, com personagens que dialogam entre si e vivenciam situações imaginárias.

e) Por se tratar de um conto, o texto é predominantemente dialogal e descritivo, com segmentos estruturados em turnos de fala e exposição das propriedades e qualidades de pessoas e ambientes.

Gab: B

TEXTO: 2 – Comum à questão: 2    

O May be man

(Mia Couto*)

1 Existe o Yes man. Todos sabem quem é e o mal que 2 causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem 3 é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida 4 nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no 5 final, reconhecerão como familiar.

6 O May be man vive do “talvez”. Em português, 7 dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar 8 decisões. Não toma. Simplesmente, toma indecisões. A 9 decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não 10 tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o 11 vazio.

12 A diferença entre o Yes man e o May be man não 13 está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo 14 tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na 15 bajulação de um chefe, o May be man não aposta em 16 nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a 17 língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota 18 superior.

19 Sem chegar a ser chave para nada, o May be man 20 ocupa lugares-chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do 21 partido. Ele aceitou por conveniência. Mas o May be 22 man não é exatamente do partido no Poder. O seu 23 partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores 24 políticas conforme as marés. Porque o que ele é não 25 vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que 26 hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E 27 venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a 28 sua ideologia tem um só nome: o negócio. Como não 29 tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, 30 ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada 31 parcela chama-se “comissão”. (…)

32 Governar não é, como muitos pensam, tomar conta 33 dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be 34 man, uma oportunidade de negócios. De “business”, 35 como convém hoje dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é 36 um veemente crítico da corrupção. Mas apenas quando 37 beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, 38 patriótica e enquadra-se no combate contra a pobreza.

39 Mas a corrupção tem uma dificuldade: o corruptor 40 não sabe exatamente a quem subornar. Devia haver um 41 manual, com organograma orientador. Ou como se diz 42 em workshopês: os guidelines. Para evitar que o 43 suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais 44 cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela 45 opinião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do 46 chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem 47 verde para ninguém.

48 O May be man entendeu mal a máxima cristã de 49 “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, 50 ama o governo e o governante que vêm a seguir. (…) É 51 por isso que, para a lógica do “talvezeiro”, é trágico que 52 surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno 53 adiamento onde prospera o nosso indecidido 54 personagem.

55 O May be man descobriu uma área mais rentável 56 que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. 57 (…). Há investimento à vista? Ele complica até deixar de 58 haver. Há projeto no fundo do túnel? Ele escurece o 59 final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta 60 que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man 61 atua como polícia de trânsito corrupto: em nome da lei, 62 assalta o cidadão.

63 Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer 64 política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser 65 político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a 66 sua competência: ele sai dos princípios, esquece o que 67 disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o 68 plano servem, quando confirmam os seus interesses. E 69 os do chefe. E, à cautela, os do chefe do chefe.

70 O May be man aprendeu a prudência de não dizer 71 nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os 72 poderosos. Agradar ao dirigente: esse é o principal 73 currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre 74 nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do 75 discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto 76 para tudo. Podem nomeá-lo para qualquer área: 77 agricultura, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, 78 com esse conforto que apenas a ignorância absoluta 79 pode conferir.

80 Apresentei, sem necessidade, o May be man. 81 Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está 82 cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma 83 elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa 84 densidade não existe. Porque dentro do May be man não 85 há ninguém. O que significa que estamos pagando 86 salários a fantasmas. Uma fortuna bem real paga 87 mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, 88 jogaria assim tanto dinheiro para o vazio.

89 O May be man é utilíssimo no país do talvez e na 90 economia do faz de conta. Para um país sério não serve.

(Texto adaptado do original e disponível em http://www.opais.sapo. mz/index.php/opiniao/126-mia-couto/10549-o-may-be-man.html. Publicado em 01.11.2010. Acesso em 17 de abril de 2017)

Vocabulário

Comissão: no texto, esse termo é empregado com o sentido de propina.

* Escritor moçambicano com uma extensa produção literária, incluindo poemas, contos, romances e crônicas. Suas obras se encontram traduzidas em mais de vinte países.

Questão 02 – (UEM PR/2017)    

Em relação à organização e ao funcionamento sociodiscursivo do texto de Mia Couto, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).

01) No texto, há o predomínio da estrutura narrativa básica, apresentando as partes do desequilíbrio e do clímax, as quais são introduzidas pelo conector “Mas” (linha 21).

02) No primeiro parágrafo, o autor parte de uma constatação a respeito da existência de duas categorias de pessoas para contextualizar o tema selecionado.

04) As repetições de palavras e de enunciados, por exemplo o uso dos termos “existe” (linhas 1 e 2) e “sabem” (linhas 2 e 3), imprimem ao texto um estilo reiterativo.

08) O texto, embora escrito por um autor estrangeiro, tem a finalidade de levar seu leitor a refletir criticamente sobre o quanto a existência do May be man é maléfica ao desenvolvimento de qualquer país.

16) Os dois últimos parágrafos, por meio de retomadas de reflexões e de enunciados de efeitos enfático e sarcástico, reforçam o ponto de vista do autor de que o May be man é maléfico à estrutura social de qualquer país.

Gab: 14

Questão 03 – (UNIRG TO/2017)    

Sobre o livro “A Emparedada e outros contos” de Olivia Sarmento, analise as afirmativas e marque V para as verdadeiras e F, para as falsas

(   ) O conto “Mater Dolorosa” enquadra-se no conto fantástico, pois é um gênero textual de cunho literário que mostra uma realidade não lógica dentro de uma lógica e liga-se à ficção e à realidade.

(   ) No conto “Mater Dolorosa”, o narrador em 3ª pessoa onisciente relata a fantasia de uma jovem que decide investigar a história de Celeste, que vivia emparedada com seu filho, há anos, no porão do sobrado de seus pais.

(   ) A velha portuguesa, personagem do conto “Mater Dolorosa”, ficou muito feliz ao ver a filha regressar ao lar, pois Celeste havia desaparecido há muito tempo e nunca dera notícias de seu paradeiro.

(   ) O conto “A Partir de um olhar”, empregando um foco narrativo em 3ª pessoa, narra a história de uma família de judeus que vivia em Avignon, na França, sob a proteção do Papado, muda para Paris e lá vive os terrores da perseguição nazista.

A alternativa que apresenta a sequência correta é:

a) V F F V.

b) V V F F.

c) F F V V.

d) V F V F.

 

Gab: A