Condoreirismo brasileiro e a campanha abolicionista

O Condoreirismo integra uma das principais escolas literárias brasileiras, a Terceira Geração do Romantismo. Caracteriza-se pela temática social, principalmente a questão abolicionista.

A humanidade não pode suportar a submissão de todo um povo. Essa é a resposta que alguns poetas da terceira geração romântica brasileira tiveram como conclusão de uma importante pergunta. Assim, nasce um dos eixos mais importantes dessa geração: o Condoreirismo.

A Terceira Geração Romântica Brasileira pertence a grandes poetas que foram conscientes da sociedade em que viveram.

Tais poetas se interessavam muito mais pelo conflito entre liberdade e escravidão do que ficar “chorando as pitangas” numa idealização amorosa. Bora ver como essa mudança aconteceu?

Contexto do Condoreirismo

Na primeira metade do século XIX, o país era governado pelo imperador D. Pedro I. Com 14 anos, Pedro II herdara do pai muito mais do que uma coroa: um país afundado em uma de suas maiores crises econômicas.

Lutas sangrentas e revoltas se espalhavam pelo Brasil daquela época. Elas ficaram conhecidas como Revoltas Regenciais e são as: Balaiada no Maranhão, a Revolta dos Liberais em São Paulo e em Minas Gerais, os Farroupilhas no Rio Grande do Sul.

Na primeira década do reinado de Pedro II, a influência do Duque de Caxias, foi necessária para segurar os pontos de revolta e minimizar os gritos de república e abolição.

Já na década de 1850, com a cultura do café a todo vapor, a situação econômica do Brasil começou a se transformar lentamente.

Ares de uma prosperidade econômica animavam a classe latifundiária. Entre eles, estavam os mais inflamados defensores do sistema escravagista.

Lei Eusébio de Queirós

É sabido que o número de pessoas africanas escravizadas vindos para cá, desde a colonização do Brasil, ultrapassava – e em muito – o de portugueses.

No período de 1500 a 1822, a relação entre esses dois povos seria na faixa de três africanos para um português.

Uma lei chamada Eusébio de Queirós, de 1850, previa punições para aqueles que fossem pegos fazendo tráfico de escravos.

Todavia, estudante, nem preciso dizer que de nada adiantou: sempre havia aqueles que, claro, achavam maneiras de driblar tal proibição.

Uma sociedade que se dividiu

Ao mesmo tempo em que a crise em volta da questão dos escravos se agravava, três “posições”, por assim dizer, ganhavam força na política brasileira.

Emancipacionistas

Essa era uma galerinha que defendia a extinção lenta e gradual da escravidão. A ideia era permitir que os latifundiários pudessem se organizar para substituir a mão de obra africana. Sem prejuízo, obviamente, às lavouras.

Abolicionistas

Um pensamento mais duro era o dos abolicionistas. Como o nome sugere, eles propunham a libertação imediata de todos os sujeitos escravizados.

Escravagistas

E tinha também uma galerinha contra essas duas facções que defendia a manutenção do sistema ou exigiam o pagamento de indenizações aos proprietários, caso a escravidão fosse abolida.

E é bem nesse cenário político, estudante, que surgirá a poesia da terceira geração romântica e o Condoreirismo.

O que é o Condoreirismo?

As exportações de café, além de um avanço econômico, fizeram de São Paulo uma cidade muito melhor para se viver: luz elétrica, rede de água e esgoto estradas novas para levar o café até os portos de exportação.

Como muitas festas e saraus aconteciam com muita frequência, tinha-se a sensação de morar numa cidade europeia.

A mancha da escravidão, contudo, era muito visível no solo brasileiro. Nos engenhos, as senzalas horríveis e insalubres eram testemunha da desgraça de um povo.

Sendo assim, inspirados pelo viés de liberdade defendido por Victor Hugo, poetas como Castro Alves, Pedro Luís e Sousândrade escreveram sobre o horror da escravidão e outros temas sociais.

O condor com o céu por detrás

Os poetas que tratam de temas ligados a questões sociais receberam a alcunha de condoreiros, e essa linha social da poesia romântica levou o nome de Condoreirismo.

Victor Hugo, autor de Os Miseráveis, sugeria que: “a arte de hoje não deve buscar apenas o belo, mas sobretudo o bem”.

E qual é um dos pilares do bem? A liberdade.

Para seguir o conselho do mestre francês, os condoreiros apontam o obstáculo para a liberdade pousar em solo americano: um sistema econômico baseado na escravização de um povo.

É, claro, contra esse sistema que devem se manifestar. A literatura ganha a função de denunciar.

O condor, ave da Cordilheira dos Andes capaz de voar em altitudes muito altas, é escolhido como símbolo da liberdade, daí a origem da denominação Condoreirismo.

ave inspiradora do condoreirismo
Imagem 1: foto de um Condor, ave que foi inspiração para o nome Condoreirismo.

Para ilustrar nossa revisão, leia um fragmento poema de Castro Alves:

América, de Castro Alves

Acorda a pátria e vê que é pesadelo
O sonho da ignomínia que ela sonha!
Tomás Ribeiro
À Tépida sombra das matas gigantes,
Da América ardente nos pampas do Sul,
Ao canto dos ventos nas palmas brilhantes,
À luz transparente de um céu todo azul,

A filha das matas — cabocla morena —
Se inclina indolente sonhando talvez!
A fronte nos Andes reclina serena.
E o Atlântico humilde se estende a seus pés. […]

Ó pátria, desperta… Não curves a fronte
Que enxuga-te os prantos o Sol do Equador.
Não miras na fímbria do vasto horizonte
A luz da alvorada de um dia melhor?

Já falta bem pouco. Sacode a cadeia
Que chamam riquezas… que nódoas te são!
Não manches a folha de tua epopeia
No sangue do escravo, no imundo balcão.

Sê pobre, que importa? Sê livre… és gigante,
Bem como os condores dos píncaros teus!
Arranca este peso das costas do Atlante,
Levanta o madeiro dos ombros de Deus.

A poesia da Terceira Geração Romântica Brasileira

A poesia, que era uma maneira de “chorar as pitangas”, de expressão subjetiva daquele “sentimento exagerado” muda de foco.

Com Castro Alves e os condoreiros, a poesia se torna uma arma de combate. Ou seja, vem para uma causa social: a libertação dos sujeitos escravizados.

Por isso, a principal característica da Terceira Geração Romântica Brasileira é a denúncia das injustiças sociais.

A produção e circulação dos textos

A condição de produção dos textos literários muda um pouco em relação à da segunda geração romântica.

Se os ultrarromânticos eram jovens que se afastavam da sociedade e procuravam dar vazão à força dos sentimentos, os condoreiros participavam intensamente dos debates sociais.

Seu desejo pelas questões políticas os leva a criar uma literatura mais engajada, mais consciente do contexto brasileiro em que viviam.

As condições de circulação dos textos literários não se alteram muito em relação àquelas descritas para a segunda geração romântica: saraus, bailes, associações estudantis, ou seja, os rolezinhos da época.

Além desses espaços, os jornais eram fortes aliados como instrumentos de divulgação das obras literárias.

O público dessa poesia engajada

Os poetas do Condoreirismo procuram atingir o maior número de pessoas possível. Para isso, vão aos teatros, às sacadas dos jornais e às praças públicas declamar seus versos. É o poeta-orador.

No intervalo das peças teatrais, principal fonte de diversão para jovens da época, os poetas subiam ao palco para disputar quem era o melhor glosador de motes.

O público, formado em grande parte pelos alunos da faculdade de Direito de São Paulo, escolhia e admirava um ou outro improvisador.

Uma linguagem carregada de emoção

Esse engajamento todo do Condoreirismo não quer dizer que não existia emoção na hora de criar e declamar uma poesia na terceira geração.

A poesia condoreira, tem sim, umas características bem marcantes. Tenha sempre em mente, estudante, que era uma poesia para ser declamada, fazia muito uso de vocativos e exclamações.

Você deve perceber como esses poetas faziam uso das pontuações em seus versos e estrofes. Por meio desse recurso – não é único, claro – que o poeta conseguia dar ao seu texto um tom de oratória.

Outra dica importante sobre o Condoreirismo é a predileção por cenas “exageradas”, o uso da hipérbole, por exemplo, provoca no leitor sensações impactantes, fortes emoções.

Pra finalizar vamos de música.

Deixo aqui, uma música para você ouvir, relaxar e refletir.

Disponível no YouTube, a música Diáspora, dos Tribalistas traz um fragmento do poema Os escravos, de Castro Alves. Em negrito, um exemplo de hipérbole.

“Deus! Ó, Deus, onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

dois mil anos te mandei meu grito

Que embalde desde então corre o infinito

Onde estás, senhor Deus?…”

Mas sobre Castro Alves, o poeta dos escravos, falaremos em outro momento. Agora, sugiro que assista a esta videoaula sobre o tema e faça os exercícios sobre Condoreirismo.

Até mais.

Questão 01 – (PUCCamp SP)

Além de Castro Alves, que se destacou no período romântico

a) por seu lirismo confessional de tímido, o poeta Casimiro de Abreu marcou presença por sua poesia épica de alto teor combativo.

b) por um estilo que já foi identificado como bucólico, o talento de Álvares de Azevedo foi responsável pela renovação da forma do romance no Brasil.

c) pelas teses libertárias de sua poesia condoreira, avulta a figura de Gonçalves Dias, como um poeta altamente representativo das tendências indianistas.

d) pela força de seu teatro trágico de moldes clássicos, há que se destacar a obra de Machado de Assis, em que é insuperável o idealismo de cunho nacionalista.

e) pela qualidade de sua poesia voltada para o cotidiano, é preciso destacar a força com que Tomás Antonio Gonzaga empolgou as ideias republicanas ao final do século XIX.

Gab: C

TEXTO: 1 – Comum à questão: 2

Teoricamente, o nacionalismo independe do Romantismo, embora tenha encontrado nele o aliado decisivo. Há na literatura do período uma aspiração nacional, definida claramente a partir da Independência e precedendo o movimento romântico. (…) Nem é de espantar que assim fosse, pois além da busca das tradições nacionais e o culto da história, o que se chamou em toda a Europa “despertar das nacionalidades”, em seguida ao empuxe napoleônico, encontrou expressão no Romantismo. Sobretudo nos países novos como o nosso o nacionalismo foi manifestação de vida, exaltação afetiva, tomada de consciência, afirmação do próprio contra o imposto.

(Adaptado de: CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins, 1971. 2 v. pp. 14-15)

Questão 02 – (PUCCamp SP)

Consolidada a Independência, e abraçando novas causas libertárias, escritores brasileiros trilharam o caminho

a) das teses abolicionistas republicanas, como bem o ilustra a poesia condoreira de Castro Alves.

b) da condenação crítica da nossa formação religiosa, tal como fez Gonçalves de Magalhães.

c) da restauração de um regime monárquico mais justo e flexível, como propôs Gonçalves Dias.

d) da valorização da iniciativa privada e do liberalismo, empreendida por Manuel Antônio de Almeida.

e) da estética naturalista mais radical, tal como nos romances de tese de Machado de Assis.

Gab: A

TEXTO: 2 – Comum à questão: 3

O Livro e a América

Talhado para as grandezas,

P’ra crescer, criar, subir,

O Novo Mundo nos músculos

Sente a seiva do porvir.

– Estatuário de colossos –

Cansado doutros esboços

Disse um dia Jeová:

“Vai, Colombo, abre a cortina

“Da minha eterna oficina…

“Tira a América de lá.”

Molhado inda do dilúvio,

Qual Tritão descomunal,

O continente desperta

No concerto universal.

Dos oceanos em tropa

Um – traz-lhe as artes da Europa,

Outro – as bagas de Ceilão…

E os Andes petrificados,

Como braços levantados,

Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:

“Tudo marcha!… Ó grande Deus!

As cataratas – p’ra terra,

As estrelas – para os céus

Lá, do pólo sobre as plagas,

O seu rebanho de vagas

Vai o mar apascentar…

Eu quero marchar com os ventos,

Com os mundos… co’os firmamentos!!!”

E Deus responde – “Marchar!”

[…]

(ALVES, Castro. Melhores poemas de Castro Alves. São Paulo: Global, 2003. p. 15-16.)

Questão 03 – (PUC GO)

Castro Alves, o poeta condoreiro e da liberdade, abraçou a abolição da escravatura e a crença num futuro progressista da América; buscou inspiração e foi influenciado pelo poeta francês Victor Hugo (que dedicou sua poesia às causas sociais); tornou-se o poeta dos escravos e, sem o subjetivismo dos ultra-românticos, construiu uma poesia com traços realistas, vigorosa, retumbante, de voos altos e expressiva. Sobre o texto, fragmento do poema “ O livro e a América”, de Castro Alves, marque a alternativa falsa:

a) No poema, o eu lírico convoca a sua poesia, sua musa “libérrima e audaz” para que ela fale da liber­dade e do novo mundo que desponta. A lírica musa faz uma síntese dos novos tempos e das perspecti­vas para o futuro da humanidade.

b) O poema “O livro e a América” é um exemplo da poesia condoreira de Castro Alves e revela a desco­berta da América e suas vitórias.

c) O texto exalta o progresso, a liberdade e as ideias mais recentes do século das descobertas e cita vul­tos bíblicos e históricos como Jeová e Colombo, numa alusão à força, à coragem e à construção de mundos.

d) Castro Alves realiza com esse texto um poema dis­curso que chama, convoca, brada, para atingir sua revolução e defender os novos tempos e as desco­bertas que provocaram novas configurações socio­econômicas e impactos globais para o mundo.

Gab: C

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.

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