Revoltas regenciais no Brasil: ebulição nos escravos e nas elites

O Brasil está longe de ter uma história que se possa chamar de pacífica. Venha entender um pouco mais sobre o período mais conflituoso do nosso país: o Período Regencial.

As Revoltas Regenciais ocorreram entre 1831 e 1840, quando o país estava sendo governado por regentes até que Pedro de Alcântara atingisse a maioridade, como dizia a Constituição da época. Ele herdou o trono aos cinco anos de idade, e somente aos 18 poderia ser coroado imperador e assumir o governo. Durante a fase de crescimento e de educação especial para o futuro governante o país era tocado pelos regentes.

O Período Regencial no Brasil

Durante o Durante o Período Regencial estava instaurado no país um clima de tensão entre as elites do Rio de Janeiro e das outras províncias, o que já vinha acontecendo desde a Proclamação da Independência em 1822 por Dom Pedro I.

Essa tensão acontecia porque alguns procuravam centralizar a tomada de decisões para o país inteiro na capital, enquanto as elites de regiões mais distantes visavam mais autonomia.

Soma-se a este quadro o fato do Brasil não ter abolido a escravidão e não ter se industrializado, o que mantinha a profunda desigualdade social pautada no duro trabalho rural. Estes fatores formaram a base das revoltas regenciais que eclodiram no Brasil do século XIX.

Introdução ao Período  Regencial

Veja agora no resumo com o professor Felipe Oliveira, do canal do Curso Enem Gratuito,  os principais aspectos do Período Regencial no Brasil.

Veja no resumo do professor Felipe sobre o Período Regencial que ele deveria ter durado doze anos, mas acabou durando só nove anos, encurtado pelo Golpe da Maioridade, que declarou o jovem Pedro de Alcântara apto a tornar-se o Imperador com apenas 14 anos de idade.

A previsão inicial era para ter durante esse período três regentes governando o Brasil e escolhidos pelo Congresso Nacional, mas não foi bem assim! Tivemos, sim, três regentes: a Regência Trina, que começou como uma regência provisória que durou mais ou menos três meses até se eleger aquela que deveria ser a regência permanente.

Mas em 1834, houve uma alteração na Constituição e mudou a regência de trina para una. Vamos ter no período da Regência Una (de 1835 a 1840) dois regentes: Padre Diogo Feijó e Senador Araújo Lima. Eles não tiveram vida fácil com as revoltas durante o período regencial. Confira:

Revoltas populares e elitistas

Observando as diversas revoltas que se iniciaram nas diferentes regiões do Brasil Império durante o período regencial, é possível traçar algumas semelhanças e diferenças entre elas.

As principais revoltas regenciais foram a Cabanagem, a Guerra dos Farrapos, a Sabinada, a Balaiada e a Revolta dos Malês.revoltas regenciaisNos casos como da Guerra dos Farrapos e da Sabinada, os grupos que iniciaram os movimentos de contestação ao governo central lutavam por maior autonomia e controle sobre seu território.

Já em revoltas regenciais como Cabanagem, na Revolta dos Malês e na Balaiada – rebeliões feitas por escravizados, libertos e camponeses –, o caso era outro.As contestações ocorriam por causa de castigos aplicados a trabalhadores, do recrutamento forçado de homens, da exploração comercial, da perda de terras para latifundiários e da própria escravidão.

Era comum que as revoltas mencionadas ocorressem em um contexto de declínio econômico da sua respectiva região.Figura 1: Mapa do Brasil em 1821, dividido em províncias e ainda com a Cisplatina anexada. Imagem retirada de: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2017/03/23/contexto-da-independencia-do-brasil-em-1822/

Veja as Revoltas Regenciais

A Cabanagem

O cenário desta revolta regencial é a província do Grão-Pará, no norte do Brasil, entre 1835 e 1840. Ela foi uma rebelião popular e recebeu este nome por conta do protagonismo dos ribeirinhos do norte do país, conhecidos como cabanos. Esse termo advém do fato de muitos morarem em modestas cabanas às margens dos rios.

Os cabanos viviam, principalmente, da extração e coleta de produtos amazônicos, como o açaí e o guaraná. Tais artigos eram, muitas vezes, utilizados em medicamentos, e por isso ficaram conhecidos como “drogas do sertão”.

Apesar de essas matérias-primas serem valiosas para o preparo de outros produtos, os comerciantes (em especial, os portugueses) da região, que monopolizavam a economia, pagavam muito pouco por elas.

Entretanto, a revolta teve início com o protesto de fazendeiros e comerciantes da região que passaram a contestar as imposições do governo central, sobretudo em relação à indicação dos presidentes de província. Na onda dos protestos, a população cabana acabou aderindo ao movimento.

Porém, eles incorporaram reivindicações específicas de sua realidade  — assim como ocorreu em outras revoltas regenciais.

Isso culminou em três grandes revoltas, chegando ao ponto de os revoltosos tomarem a cidade de Belém. Contudo, em virtude de dissidências, afastamento das elites que passaram a apoiar o governo central, traições e mesmo uma organização problemática, os cabanos acabaram massacrados. Ao final da revolta, o número de mortos foi de cerca de 30 mil.

A Guerra dos Farrapos

No sul do Brasil, também em 1835, as elites latifundiárias da província de São Pedro do Rio Grande do Sul exerceram sua influência para organizar a tomada de Porto Alegre. O motivo desta revolta regencial era bem distinto dos cabanos: eles estavam insatisfeitos com a administração carioca, já que viviam em um período de declínio econômico.

Esses estancieiros (latifundiários) ganharam muito dinheiro produzindo e vendendo charque para o sudeste do país, sobretudo para a região das Minas. Mas em virtude dos impostos sobre o preço do sal, seu produto estava encarecido, fazendo com o que o charque argentino e uruguaio ganhasse proeminência no mercado brasileiro.

A isso se somou a nomeação de Antônio Fernandes Braga para ocupar o cargo de presidente de província, o que não agradava em nada os ricos fazendeiros gaúchos.

A Guerra dos Farrapos (também conhecida no Sul como Revolução Farroupilha) destaca-se por algumas características específicas: foi a mais longa revolta em território brasileiro (durou dez anos) e também pelo fato de ter separado, durante este tempo, o sul do Brasil em relação ao resto do Império. Era, portanto, uma revolta separatista.

Como figuras conhecidas, destacamos Bento Gonçalves, Giuseppe Garibaldi (que também lutou na unificação italiana) e Anita Garibaldi.

Os farrapos chegaram a dominar parte de Santa Catarina (até a cidade de Laguna), onde proclamaram a República Juliana, que recebeu esse nome por ter ocorrido no mês de julho. Porém, com a perda de forças ao longo do tempo, as lideranças aceitaram um acordo com o império. Esse desfecho contrasta com aquele adotado no Pará e em outras revoltas regenciais.

Entre os acertos estavam a incorporação dos combatentes ao Exército Imperial, aumento do imposto sobre o charque uruguaio, poder eleger o próprio presidente de província e perdão aos revoltosos (pelo menos a população livre).

É equivocado acreditar que os revoltosos tinham como pauta o fim da escravidão. A ideia chegou a aparecer na organização do movimento, mas foi descartada por ir contra os interesses econômicos dos proprietários. O que efetivamente houve foi o recrutamento de escravizados em troca de liberdade no fim do conflito.

Essa prática ocorreu em outras situações da história do Brasil, inclusive por parte das próprias forças imperiais. Em relação a isso, historiadores apontam para a Batalha dos Porongos, um “conflito” acertado no fim da guerra que serviu de pretexto para o extermínio dos lanceiros negros, que eram os escravizados recrutados que esperavam liberdade.revoltas regenciaisFigura 2: Representação de um lanceiro negro. Imagem retirada de: https://historiazine.com/lanceiros-negros-revolucao-farroupilha-22f4faf1d9df?gi=779e01907139

Sabinada

O nome desse conflito, ocorrido na Bahia entre 1837 e 1838, teve origem com o líder Francisco Sabino, um médico e jornalista que estava por trás da organização do movimento.

A sabinada também está entre as revoltas regenciais separatistas, mas os participantes desejavam uma independência temporária: até que o príncipe pudesse assumir o trono do Brasil. Os rebeldes estavam ligados às elites. Eram, principalmente, profissionais liberais (advogados, médicos, entre outros) e militares (principalmente de baixa patente).

Mais uma vez, a exigência de maior autonomia em relação ao governo central motivava um conflito. Seu fim ocorreu com a rendição dos revoltosos às investidas das tropas imperiais.

Balaiada

Assim como na Cabanagem, a população pobre do Maranhão entrou em ebulição contra os maus tratos aplicados pelas elites locais. Os revoltosos eram popularmente chamados de balaios por conta da utilização de cestos de palha (chamados de balaios) utilizados na colheita do algodão e outros itens. A revolta ocorreu entre 1838 e 1841.

Entre as lideranças, destacam-se Manoel dos Anjos (artesão conhecido como Balaio) e Raimundo Gomes (um vaqueiro). Os revoltosos chegam a tomar a cidade de Caxias, mas não conseguiram resistir ao ataque de Luís Alves de Lima e Silva (posteriormente conhecido como Duque de Caxias) que os massacrou. Luís Alves tornou-se o presidente de província do Maranhão e foi condecorado com o título de barão.

Revolta dos Malês

Ocorrida em Salvador no ano de 1835, a Revolta dos Malês ganhou notoriedade por ter sido orquestrada por africanos muçulmanos escravizados. Além de todo o processo de desumanização sofrido pela escravidão como sequestro, castigos e apagamento de suas identidades, eles também eram forçados a abandonar sua religião em nome do cristianismo.

No mês de janeiro daquele ano, um grupo de cerca de 1500 malês se organizou para realizar um ataque surpresa contra a guarda e as autoridades. No entanto, o plano tinha sido denunciado por uma mulher negra liberta e os revoltosos foram pegos de surpresa, resultando em diversos mortos e, posteriormente, em muitos castigos.

A Revolta dos Malês tem duas grandes importâncias: ela serve para evidenciar como os negros africanos não podem ser vistos como um grande grupo homogêneo e também como, efetivamente, eles resistiram à escravidão. Muitas vezes, o sujeito escravizado é descaracterizado de sua origem e aparece na condição de passividade, visão que distorce a realidade histórica.

Veja como foi a Independência do Brasil

A independência do Brasil ocorreu no dia 7 de setembro de 1822, e geralmente os estudantes relacionam a independência apenas com o Grito do Ipiranga protagonizado por D. Pedro I. Mas, ele não foi um fato isolado. Ocorreu todo um processo histórico até este momento, e que teve início nas revoltas emancipatórias do final do século XVIII.

Nas últimas décadas no século XVIII temos a crise do Sistema Colonial nas colônias americanas. No Brasil, isso é marcado, principalmente pelas conjurações baiana e mineira.

Ambos movimentos questionavam o Pacto Colonial e o papel do Brasil como colônia, defendiam maior autonomia do povo brasileiro, assim como objetivavam a separação de seu território perante a coroa portuguesa. Importante ressaltar, que apesar, de ter caráter separatista, estes movimentos não pretendiam separar o Brasil inteiro de Portugal, suas ambições se restringiam a sua área de atuação.

Esses movimentos fazem parte de uma conjuntura mundial, engloba as mudanças políticas capitaneadas pelo movimento conhecido como iluminismo que questionava o chamado Antigo Regime e tiveram influência em acontecimentos como a Revolução Francesa e a Independência dos EUA, que marcam um período de transição da História Moderna para a História Contemporânea.

Veja como foi a Proclamação da República

Confira agora no resumo da professora Ana Cristina Peron com foi o processo que levou à queda do Império em 15 de novembro de 1889.

A Proclamação da República no Brasil não aconteceu de uma hora para outra. Desde 1870 existia uma campanha que promovia a troca de regime de uma monarquia para a república. Essas ideias de transformação na política do país eram discutidas em clubes republicanos e divulgadas em jornais criados por eles.

Apesar de cada vez mais setores da sociedade se mobilizarem para a proclamação, não havia unanimidade na forma como eles gostariam que a república se organizasse. Existiam três grupos principais: os moderados, os revolucionários e os positivistas. Confira:

 

Se você ficou interessado em saber mais sobre a Guerra dos Farrapos, assista este vídeo do canal Nerdologia!

 

Gostou do Resumo? Veja agora a Lista de Exercícios no Simulado sobre as Revoltas Regenciais.

Exercícios sobre as Revoltas Regenciais

.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.

Compartilhe: