Conto: o que é, características e exemplos

As narrativas ficcionais sempre tiverem seu lugar na preferência dos leitores em todas as épocas. Geralmente curtas, um único conflito e trazem a solução em um breve espaço de tempo. Que tal revisarmos sobre o gênero conto?

Definição de conto

Assim como o romance, o conto é uma narrativa curta com os mesmos elementos: personagem, enredo, tempo e espaço. A diferença principal está na sua concisão, na sua linearidade e unidade.

O conto traz uma história com o foco em apenas um conflito básico e caminha para o desenvolvimento e resolução desse conflito.

Uma das características do conto é o fato de não admitir muitas complicações de enredo, ou seja, por ser uma narrativa curta, o conto precisa – ou tende a – se desenvolver de maneira mais rápida.

Comparando com o romance ou a novela, percebe-se que no conto a estrutura narrativa é mais simples, porque, justamente, o princípio do conto está na sua concisão – poucos elementos estruturais – e apenas um núcleo narrativo.

Um conto de uma grande mestra

Mesmo sempre escondendo a idade – perdão, diva -, em 2020, comemora-se o centenário de Clarice Lispector. Além de romances, a escritora também foi uma grande autora de contos.

clarice lispector - conto
Clarice Lispector. Fonte: Google Imagens

Para ilustrar essa revisão, deixamos aqui um dos contos mais intrigantes de Clarice. Chama-se “A quinta história.” Leia-o agora na íntegra:

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”.

Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”.

Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te… Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de…” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar.

Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas.

E aí? Curtiu esse maravilhoso conto de Clarice Lispector? Beleza! Agora vamos pensar um pouco sobre ele. Como você talvez tenha notado, esse texto exemplifica bem a concisão e a unidade – núcleo narrativo – características do conto. Temos ali uma única personagem com um problema bem específico: precisa se livrar das baratas.

A interpretação do conto ficará para um outro momento, dedicado aos autores da 3ª geração modernista, em que está Clarice Lispector, junto com outro grande contista chamado Guimarães Rosa.

Por onde andam os contos

Geralmente, os contos são publicados em livros, mas existem casos que circulam em revistas.

Quando a opção gira em torno dos livros, que são o principal espaço para publicação, isso traz uma variedade enorme de tipos de livros em que os contos aparecem.

Podem surgir como o resultado de um concurso de contos, em que os melhores são publicados. Pode ser idealizado por um autor que seleciona os contos obedecendo a um critério pessoal.

Podem ser publicados de acordo com uma temática: policial, pecados capitais, amor e etc. Enfim, as possibilidades são muitas, já que é possível escrever contos sobre qualquer tema.

É comum autores de conto relatarem que esse gênero discursivo, quando publicado em livros, dá uma liberdade para quem escreve. Isso porque o prazo não é tão “apertado” como o dos quem escreve para revista ou jornais.

E agora, pense comigo, meu amigo leitor, minha amiga leitora: já que o autor tem mais tempo para escrever, ele pode se dedicar ainda mais nessa tarefa, não acha?

Pode dar mais atenção quando for determinar sua estrutura, a construção das personagens e a solução do conflito. Por isso, é muito comum reescrever o conto mais de uma vez até considerá-lo “pronto”.

Público leitor

O conto é para todo mundo, mas nem todo mundo é para o conto. Leitores de conto, antes de tudo, gostam de narrativa. Pessoas que gostam de ficção, que querem um espaço para reflexão e análise da realidade.

Também são pessoas que buscam escapar da realidade e fogem para esse mundo criado pelo autor a fim de se esquecer um pouco da vida estressante.

Estudar para o Enem é cansativo às vezes? Seus problemas acabaram, oras! Você pode ler um conto para se desligar um pouco. E veja só que paradoxo: lendo o conto para relaxar estará, ao mesmo tempo, estudando esse tipo de narrativa “sem querer”.

O contrário também funciona: ler um conto para entender sua estrutura durante o estudo para o Enem e, ao mesmo tempo, relaxar. Anota aí: é bem comum cair fragmento de conto no Enem.

E por que conto cai como uma luva na vida dos amantes literários contemporâneos? E na vida dos que estudam para o Enem e vestibulares? Porque essas pessoas apresentam uma característica em comum: falta de tempo.

No século XIX, as narrativas longas foram as queridinhas da galera. Os romances e novelas se estendiam por vários capítulos e eram publicados em folhetins, como você bem sabe.

Mas no século XXI, na era da informação em um mundo no qual a imagem aparece com mais força, as narrativas longas perdem seu público para o conto.

Com uma estrutura mais concisa e a possibilidade da resolução do conflito de modo mais rápido, ficou fácil ganhar o gosto desse “leitor sem tempo” da contemporaneidade.

A estrutura do conto

Como diz a música: “Eu já falei / vou repetir”, o conto é uma narrativa curta, e isso faz com que seu planejamento seja bem cuidadoso. Sabe a história do “menos é mais”? Cai como uma luva aqui.

Estamos falando de uma narrativa ficcional, certo? Então, os elementos da narrativa devem estar todos presentes aqui, ou seja, personagens com espaço e tempo bem delimitados.

Um narrador em primeira ou terceira pessoa que, como se sabe, será o responsável por nos contar a história. No caso do conto que escolhemos para ilustrar esta revisão, “A quinta história”, temo um narrador em primeira pessoa.

Depois, o contista precisa decidir qual foco narrativo, personagens, tempo e espaço terão na sua história.

Uma das características principais do conto é que o enredo, que é o resultado da harmonia entre os elementos da narrativa, precisa ser linear, porque o conto “não tem tempo” para um longo desenrolar de história.

Sendo assim, ao começar, o conto já deve apontar para o final. Voltemos ao “A quinta história”. Ele tem uma narradora que se queixa de baratas, então, já somos levados a querer saber se as mata ou não, como fará isso.

Numa maneira mais ampla, podemos notar que o conto tem um certo equilíbrio até que tudo comece a desabar quando aparece o conflito. A solução desse conflito trará a ordem na vida das personagens.

Então, estudante, tente sempre perceber que o contista vai nos apresentar uma situação ficcional em que essa “paz” é quebrada por um conflito cujo o desenrolar dessa narrativa deve nos levar à solução do problema.

Para entender melhor o que são contos, veja esta aula do nosso canal:

Um último toque

A estrutura do conto pode ser entendida como um espaço narrativo entre dois lados. Um que está antes do conflito e o outro que corre para o conflito. Por isso, esse tipo de narrativa começa bem, todo mundo feliz, mas “logo em seguida”, já temos conhecimento do problema.

Não se sabe muito sobre os personagens de um conto, e isso se deve ao fato de que não nos importa muito uma apresentação mais detalhada sobre eles.

O que nos interessa é o conflito e a resolução dele.

Por falar em “resolver” que tal começar a resolver esses exercícios sobre esta aula? Bom trabalho!

1- (UNICAMP/2019)    

“Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.”

(Clarice Lispector, “Amor”, em Laços  de família. 20ª ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1990, p. 39.)

Ao caracterizar a personagem Ana, a expressão “piedade de leão” reúne valores opostos, remetendo simultaneamente à compaixão e à ferocidade. É correto afirmar que, no conto “Amor”, essa formulação

a) revela um embate de natureza social, já que a pobreza do cego causa náuseas na personagem.

b) expressa o dilema cristão da alma pecadora diante de sua incapacidade de fazer o bem.

c) indica um conflito psicológico, uma vez que a personagem não se sente capaz de amar.

d) alude a um contraste moral e existencial que provoca na personagem um sentimento de angústia.

2- (UNICAMP/2019) 

“Picado pelo ciúme, abriu o ourives seu peito à órfã, ofereceu-lhe a mão, e uma pulseira de brilhantes nela, com a condição de me esquecer.

Leontina disse que sim, cuidando que mentia; mas passados oito dias admirou-se de ter dito a verdade. Nunca mais soube de mim, nem eu dela; até que, um ano depois, a criada, que a servia, me contou que a menina casara com o padrinho e que as enteadas, coagidas pelo pai, se tinham ido para o recolhimento do Grilo com uma pequena mesada e a esperança de ficarem pobres. Não sei mais nada a respeito da primeira das sete mulheres que amei, em Lisboa.”

(Camilo Castelo Branco, Coração, cabeça e estômago, p. 4. Disponí-
vel em www.dominiopublico.gov.br. Acessado em 20/05/2018.)

O excerto anterior apresenta uma síntese acerca do primeiro dos setes amores da personagem Silvestre da Silva. Considere essa experiência amorosa no contexto da primeira parte da narrativa e assinale a alternativa correta.

a) A mulher é idealizada em cada caso relatado, não havendo espaço para uma ótica realista.

b) A experiência amorosa recebe tratamento solene e sublime por parte das personagens.

c) A personagem masculina se caracteriza pelo interesse sexual; a feminina, pela devoção ao marido.

d) O protagonista da narrativa se frustra em sua crença amorosa a cada vez que se apaixona.

3- (PUC-GO/2019)

Leia com atenção o fragmento do conto O padre surdo, de Mia Couto:

Escrevo como Deus: direito mas sem pauta. Quem me ler que desentorte as palavras. Alinhada só a morte. O resto tem as duas margens da dúvida. Como eu, feito de raças cruzadas. Meu pai, português, cabelos e olhos loiros. Minha mãe era negra, retintinha. Nasci, assim, com pouco tom na pele, muita cor na alma.

Falo de Deus com respeito mas sem crença. Em menino, não entrei em igreja nem sequer para banho de batismo. Culpa de meu pai. Reza, dizia ele, só serve para estragar calças. Em sua suspeita a igreja devia ser lugar pouco saudável.

— Pois mal se entra nela, dois passos dados e já se cai de joelhos!? Na escola, o padre me ponteirava: esse deve ser filho das chuvas. Não comparece em catequese, nem há doutrina que se lhe conheça. E aconselhava os restantes miúdos a me guardar afastamento:

— Fruto estragado deve sair do saco.

O conselho era seguido. Me evitavam. Hoje sei que não era por obediência ao padre. Eu estava só por razão de minha raça. Como escrito de Deus que a chuva manchara. Sim, o professor tinha razão: eu era filho da chuva.

(COUTO, Mia. O padre surdo. Estórias abensonhadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 131.)

Assinale a alternativa correta em relação ao modo como o narrador se apresenta nesse fragmento:

a) O narrador confirma que Deus escreve certo por linhas tortas ao enunciar a sua bem sucedida vida de escritor.

b) O narrador coloca em Deus a culpa por viver só e em dificuldade para estabelecer relações com os colegas.

c) O narrador apresenta como escreve e como suas características étnicas interferiram no modo como era visto pelas pessoas.

d) O narrador mostra-se indiferente ao fato de a sua ascendência familiar influenciar a sua relação com a religiosidade.

1- Gab: D

2- Gab: D

3- Gab: C

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.