Foco Narrativo

Relembre o que é foco narrativo e quais são os diferentes tipos de narrador nesta aula de Literatura para o Enem! E não esqueça de resolver os exercícios no final para testar o que você aprendeu!

É bem provável que a narração seja o mais antigo de todos os tipos de texto. Difícil encontrar alguém que não goste de ouvir ou contar uma boa história. Nesta aula, vamos discutir um pouco sobre foco narrativo, tema bem importante dentro do Enem.

Em textos narrativos em prosa, quem nos conta a história é o narrador. Chamamos de narrador-protagonista o personagem principal que nos conta a história que gira em torno dele e, por isso, é narrada em primeira pessoa.

Porém, não precisa ser assim. Um exemplo clássico são as histórias de “Sherlock Holmes”, pois, como você bem sabe, quem narra é o querido Dr. Watson. Apesar de ser em primeira pessoa, Watson não é o protagonista.

Sherlock é o personagem principal e tem seus casos narrados, mesmo em primeira pessoa, pelo personagem secundário Dr. Watson. Vamos nos aprofundar um pouco nesse assunto que é o foco narrativo.

Fluxo de consciência

Segue o fluxo. O fluxo de consciência é um curioso recurso narrativo que pode ser explorado quando há a presença de um narrador em primeira pessoa.

É uma técnica, por assim dizer, utilizada para expressar, por meio de um monólogo interior, os vários estados de espírito e de humor particulares de um personagem.

Para que esse recurso ocorra, o autor – lembrando que autor não é narrador – traz os pensamentos de um personagem sem se preocupar se as ideias estão interligadas entre si.

Quando um monólogo interior surge, o autor tenta mostrar para quem lê o que se passa “na cabeça” do personagem. Ou seja, as sensações do personagem ganham evidência.

Durante o monólogo interior, não importa para onde caminha a narrativa, somente o que pensa o personagem naquele momento é abordado. O livro “Ulisses”, do irlandês James Joyce, é muito famoso por esse motivo.

Elementos da narrativa

Toda narrativa em prosa precisa ter um conjunto básico de elementos para que a história aconteça. Quem decide como usá-las é o autor.

Uma narrativa deve apresentar uma história na qual os personagens vivem em um espaço e tempo delimitados. O narrador – em 1ª ou 3ª pessoa – é quem tem a responsabilidade de contar o que acontece.

Enredo, personagem, tempo, espaço e foco narrativo são os elementos que fazem parte da estrutura narrativa. Ao autor, fica a responsabilidade de decidir que função cada item terá na história.

O enredo nada mais é do que o início, meio e fim da história. Pode ser linear ou não, e deve haver um conflito e um clímax já apontando para o fim.

O tempo pode ser cronológico – marcado por dias, horas, meses etc. – ou psicológico, que não pode ser medido de maneira linear, pois é subjetivo, acontece conforme as experiências vividas pelo narrador.

Já o espaço é o local físico onde ocorrem as aventuras dos personagens, seja ele verossímil ou não.

Agora que já relembramos o que é a estrutura narrativa, vamos focar no foco narrativo. Gostou da piadinha, né?

Foco narrativo é a perspectiva, é o olhar a partir do qual a história passará a ser narrada. E, como já vimos, pode ser em primeira pessoa ou em terceira pessoa.

Ponto de vista

ponto de vista - foco narrativo
Fonte: Google Imagens

Armandinho, personagem criado por Alexandre Beck, nessa tirinha mostra a importância de reconhecer o ponto de vista do outro. No texto narrativo, o ponto de vista é muito importante para o desenrolar da história.

Ponto de vista ou perspectiva aparece nos textos narrativos como o olhar escolhido pelo narrador para contar aos leitores a história. Essa escolha pode afetar o modo como tudo é relatado e a interpretação dos leitores.

Tipos de foco narrativo

Vamos observar como o narrador se comporta em alguns tipos de ponto de vista. Saca só.

Narrador-protagonista

O narrador-protagonista é um dos focos narrativos mais frequentes. É o protagonista, ou seja, vive ou viveu a história que narra. Temos um exemplo famosíssimo.

[…] “Ezequiel morreu de uma febre tifoide, e foi enterrado nas imediações de Jerusalém, onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição, tirada do profeta Ezequiel, em grego: “Tu eras perfeito nos teus caminhos”. Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava; pagaria o triplo para não tornar a vê-lo.

Como quisesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, e achei que era exato, mas tinha ainda um complemento: “Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia da tua criação”. Parei e perguntei calado: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” Ninguém me respondeu. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.”

Os verbos em primeira pessoa estão sublinhados para mostrar que quem está falando é o narrador da obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis.

Depois de uma pequena descrição de como morreu o filho, podemos notar o rancor do protagonista, pois somente um pai muito rancoroso pagaria o triplo para não rever o próprio filho.

Narrador-testemunha

Sobre o narrador-testemunha já vimos um exemplo anteriormente quando nos referimos ao detetive “Sherlock Holmes”.

[…] “a convivência com Holmes não era difícil. Tinha hábitos tranquilos e regulares. Era raro vê-lo em pé depois das dez horas da noite, e invariavelmente já preparara o seu café da manhã e saíra quando eu me levantava da cama.” […]

Neste fragmento, temos algumas características do famoso detetive Sherlock Holmes, mas ditas sob o olhar de Dr. Watson. Mesmo sendo narrador em primeira pessoa, ainda, sim, se trata de um narrador-testemunha.

Narrador onisciente

Quando um escritor pretende que seus leitores saibam o que sentem e pensam seus personagens durante o desenrolar do enredo, entra em cena o narrador-onisciente.

Pelo nome, ficou fácil saber que nesse foco narrativo, o narrador tem total conhecimento dos fatos, sabe todos os desejos de cada personagem e revela ao leitor até os sentimentos mais íntimos dos personagens.

Narração em terceira pessoa

Nosso último narrador é aquele que, por meio de uma narração em terceira pessoa, nos apresenta as cenas e o desenrolar da história. Coisas como tempo, espaço e personagens são apresentadas por ele a nós.

Este tipo de foco narrativo não nos permite – pelo menos por meio do narrador – saber o que pensam ou o que sente os personagens, porque este narrador apenas observa as cenas e nos relata durante a história.

Para finalizar sua revisão e aprender um pouco mais sobre o foco narrativo, que tal ver esta videoaula de Literatura que a Professora Camila preparou para o nosso canal? 

Agora que já revisamos o que é foco narrativo, que tal uns exercícios para testar os seus conhecimentos sobre este assunto? Bora lá!

Exercícios

Questão 01    

(…)Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final. Acontece porém que eu mesmo ainda não sei bem como esse isto terminará. E também porque entendo que devo caminhar passo a passo de acordo com um prazo determinado por horas: até um bicho lida com o tempo. E esta também é minha mais primeira condição: a de caminhar paulatinamente apesar da impaciência que tenho em relação a essa moça.

(Clarice Lispector, A Hora da Estrela)

O comentário acima, sobre a história de Macabéa, pertence ao narrador Rodrigo S.M. Assinale a afirmação correta. O narrador:

a) relata seu problema em lidar com a temporalidade da narrativa, daí a intensidade com que anseia iniciar a história da moça.

b) identifica-se com um bicho e sugere acompanhar voluntariamente a personagem.

c) afirma acompanhar temporariamente a personagem Macabéa, embora não demonstre nenhuma empatia com ela.

d) usa as expressões “caminhar passo a passo” e “caminhar paulatinamente” com valores de antonímia.

e) não vê obrigação em contar a história da personagem, sobretudo por haver estranheza entre ambos.

Questão 02

TEXTO: 1 – Comum à questão: 2    

Crítica: ‘O crime do Cais do Valongo’ é literatura da melhor qualidade

Segundo romance de Eliana Alves Cruz reafirma autora como voz poderosa e contundente

1 O início de “O crime do Cais do Valongo”, 2 segundo romance de Eliana Alves Cruz, autora do 3 premiado “Água de barrela”, é um clássico das tramas 4 policiais. Nos tempos de Dom João VI, o corpo de um 5 próspero negociante da região do Valongo é achado 6 em uma ruela carioca. A partir daí, a história se 7 desenvolve, pistas vão sendo deixadas e a narrativa, 8 habilmente construída, circula naquela encruzilhada 9 entre a História e a ficção que pode nos fazer cair 10 na tentação de enquadrar o livro como um romance 11 histórico-policial. Acontece que “O crime do Cais do 12 Valongo” é muito mais do que isso.

13 Narrado a partir das vozes de dois personagens, 14 o livreiro mestiço Nuno Alcântara Moutinho e a 15 moçambicana escravizada Muana Lomué, o romance 16 apresenta um relato poderoso, cheio de sutilezas. 17 É o cotidiano de um Rio marcado pelo horror da 18 escravidão e, ao mesmo tempo, pela potência da 19 cultura das ruas e da incessante reconstrução de 20 sociabilidades produzidas pelas descendentes de 21 africanas e africanos sequestrados do lado de lá do 22 Atlântico.

23 Há quem possa ver no romance influência do 24 realismo fantástico. Parece-me limitado ler o livro a 25 partir dessa referência. O que a autora faz é dominar 26 com maestria os códigos de percepção de mundo 27 dos subalternizados, entendendo a ancestralidade, 28 o corpo mítico como modelador de condutas e os  29 procedimentos de ligação entre o visível e o invisível, 30 expressos em toda a sorte de mandingas, como 31 componentes da sofisticada cosmogonia e dos 32 modos de invenção da vida dos povos saídos das 33 Áfricas. A tragédia da diáspora, afinal, também é um 34 empreendimento inventivo de rara potência.

35 Outro mérito poderoso do livro reside na 36 apresentação de uma África pouquíssimo vista nas 37 nossas letras: aquela da parte oriental do continente. 38 A unidade portuguesa já é uma ficção. Minhotos, 39 trasmontanos, beirões, alentejanos, algarvios, 40 estremenhos, ribatejanos, açorianos e madeirenses 41 — que normalmente não se encontrariam nem 42 em Portugal — aqui se encontram e redefinem 43 dinamicamente suas culturas, entre violências tantas 44 e afetos vários, no contato conflituoso e/ou negociado 45 com negros que não se viam como africanos, mas 46 como membros de sua aldeia: mandingas, bijagós, 47 fantes, achantis, gãs, jalofos, fons, guns, baribas, 48 gurúnsis, quetos, ondos, ijebus, oiós, ibadãs, benins, 49 hauçás ibos, ijós, calabaris, teques, bamuns, ijexás, 50 anzicos, congos, andongos, songos, pendes, lenjes, 51 ovimbundos, nupês, ovambos, macuas, mangajas, e 52 outros tantos.

53 Não se imagine, todavia, que o livro caia no 54 didatismo rasteiro que prende a narrativa com âncoras 55 pesadas. A história é fluente, extremamente bem 56 contada, mescla figuras reais — como o Intendente 57 Geral e a cantora lírica Joaquina Lapinha — com 58 inventadas, mergulha nas notícias da “Gazeta do Rio 59 de Janeiro” e transforma a cidade em personagem 60 fundamental da trama.

61 A cidade cindida pela Pedra do Sal, que tentou 62 afastar da Corte o horror do comércio negreiro feito 63 pelas bandas do Valongo, é também a cidade cerzida 64 por aqueles que tiveram a sua humanidade negada 65 pela coisificação e o sequestro.

66 Um livro escrito por uma autora negra, com 67 protagonistas negros e contado a partir dos saberes 68 afro-cariocas, já seria importante em um país em que 69 o mercado editorial reproduz nossa desigualdade 70 gritante. Além disso, “O crime do Cais do Valongo” 71 é literatura da melhor qualidade e firma Eliana 72 Alves Cruz como uma voz poderosa e contundente 73 da literatura brasileira. Como diz em certo trecho a 74 protagonista Muana, “uma mulher do meu povoado 75 jamais poderia deixar seus antepassados de lado”. A 76 literatura de Eliana faz exatamente isso.

SIMAS, L.A. Crítica: ‘O crime do Cais do Valongo’ é literatura da melhor qualidade. O Globo, Rio
de Janeiro, 2 jun. 2018. Disponível em: <https://oglobo.com/cultura/livros/critica-crime-do- -cais-do-
valongo-literatura-da-melhor-qualidade-22739683>. Acesso em: 23 jul. 2018. Adaptado.

O romance, como obra literária, enquadra-se no gênero narrativo, cujos elementos são conhecidos: personagens, tempo, espaço, enredo, narrador.

O trecho que está corretamente relacionado ao elemento da narrativa entre colchetes, posto em evidência pelo autor da crítica, é:

a) “A partir daí, a história se desenvolve, pistas vão sendo deixadas e a narrativa, habilmente construída, circula naquela encruzilhada entre a História e a ficção que pode nos fazer cair na tentação de enquadrar o livro como um romance histórico-policial.” (Refs. 6-11) – [espaço]

b) “Narrado a partir das vozes de dois personagens, o livreiro mestiço Nuno Alcântara Moutinho e a moçambicana escravizada Muana Lomué, o romance apresenta um relato poderoso, cheio de sutilezas.” (Refs. 13-16) – [tempo]

c) “É o cotidiano de um Rio marcado pelo horror da escravidão e, ao mesmo tempo, pela potência da cultura das ruas e da incessante reconstrução de sociabilidades produzidas pelas descendentes de africanas e africanos sequestrados do lado de lá do Atlântico.” (Refs. 17-22) – [narrador]

d) “Outro mérito poderoso do livro reside na apresentação de uma África pouquíssimo vista nas nossas letras: aquela da parte oriental do continente.” (Refs. 35-37) – [enredo]

e) “A história é fluente, extremamente bem contada, mescla figuras reais — como o Intendente Geral e a cantora lírica Joaquina Lapinha — com inventadas, mergulha nas notícias da ‘Gazeta do Rio de Janeiro’ ” (Refs. 55-59) – [personagens]

Questão 03

TEXTO: 2 – Comum à questão: 3    

Leia o fragmento, a seguir, retirado do livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto.

Cassi Jones, sem mais percalços, se viu lançado em pleno Campo de Sant’Ana, no meio da multidão que jorrava das portas da Catedral, cheia da honesta pressa de quem vai trabalhar. A sua sensação era que estava numa cidade estranha. No subúrbio tinha os seus ódios e os seus amores; no subúrbio, tinha os seus companheiros, e a sua fama de violeiro percorria todo ele, e, em qualquer parte, era apontado; no subúrbio, enfim, ele tinha personalidade, era bem Cassi Jones de Azevedo; mas, ali, sobretudo do Campo de Sant’Ana para baixo, o que era ele? Não era nada. Onde acabavam os trilhos da Central, acabava a sua fama e o seu valimento; a sua fanfarronice evaporava-se, e representava-se a si mesmo como esmagado por aqueles “caras” todos, que nem o olhavam. […]

Na “cidade”, como se diz, ele percebia toda a sua inferioridade de inteligência, de educação; a sua rusticidade, diante daqueles rapazes a conversar sobre cousas de que ele não entendia e a trocar pilhérias; em face da sofreguidão com que liam os placards dos jornais, tratando de assuntos cuja importância ele não avaliava, Cassi vexava-se de não suportar a leitura; comparando o desembaraço com que os fregueses pediam bebidas variadas e esquisitas, lembrava-se que nem mesmo o nome delas sabia pronunciar; olhando aquelas senhoras e moças que lhe pareciam rainhas e princesas, tal e qual o bárbaro que viu, no Senado de Roma, só reis, sentia-se humilde; enfim, todo aquele conjunto de coisas finas, de atitudes apuradas, de hábitos de polidez e urbanidade, de franqueza no gastar, reduziam-lhe a personalidade de medíocre suburbano, de vagabundo doméstico, a quase cousa alguma.

BARRETO, Lima. Clara dos
Anjos. Rio de Janeiro: Gar-
nier, 1990. p. 130-131.

Assinale a alternativa correta quanto à posição do narrador.

a) O narrador mostra-se compadecido da situação de Cassi Jones, que é focalizado, tal qual Clara dos Anjos, como uma vítima indefesa das perversidades sociais que deixam de reconhecer os talentos dos suburbanos.

b) O narrador ressalta como Cassi Jones estava também sujeito às hostilidades sociais suficientemente fortes para submetê-lo a conflitos íntimos, arrependimentos e remorsos tão próximos da infâmia sentida por Clara ao final do romance.

c) O narrador antecipa, nessa passagem, o processo de redenção de Cassi Jones, que, ao se aperceber do desdém que o rebaixava, inicia uma nova trajetória em busca do perdão de Clara dos Anjos e da correção de seus deslizes morais.

d) O narrador demonstra-se solidário com o sentimento de Cassi Jones, por ser o violeiro objeto de exclusão naquela área mais sofisticada da cidade, o que conduz à identificação de afinidades entre narrador e personagem seja no plano artístico seja no plano moral.

e) O narrador flagra Cassi Jones no momento em que constata o sentimento de se ver deslocado naquela região da cidade, tão contrastante com o prestígio, com o reconhecimento e com as vantagens usufruídas pela personagem no subúrbio.

01- Gab: C

02- Gab: E

03- Gab: E

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.