Filósofos da natureza, buscando a Arché

Venha descobrir como os pensadores da antiguidade se confrontavam utilizando os elementos da natureza pelo domínio supremo da arché. Revise os Filósofos da natureza para mandar bem em Filosofia no Enem!

Desde o início de nossa história fazemos perguntas acerca do mundo e sobre nosso lugar nele. Assim como você, as primeiras civilizações buscavam respostas para entender a realidade a sua volta.

Como não podiam recorrer ao nosso Curso (ou melhor, às tecnologias que temos hoje), acabavam buscando respostas na religião. Ora, as ações dos deuses explicavam o funcionamento do mundo oferecendo uma maneira de estruturar as sociedades daquela época.

Mas, assim como você tem aquele amigo “do contra”, aquela pessoa chata que discorda de tudo… as sociedades de outrora tiveram os filósofos da natureza. Estes filósofos marcaram presença lá na Grécia do século VI a.c. e foram os responsáveis pelo surgimento da filosofia.

filósofos da natureza - 1

Essa galera “diferentona” contraria o pensamento predominante da época e passa a entender o mundo com base na razão e na observação e não mais na religião e fabulação. Com isso, eles concluem que: os acontecimentos no mundo têm causas naturais (filósofos da natureza, sacou?). O que é uma linha de pensamento bem diferente da que se tinha antes.

Como disse anteriormente, antes desses filósofos os acontecimentos do mundo eram atribuídos aos caprichos volúveis dos deuses e não aos fenômenos naturais.

Essa mudança marcou o nascimento da filosofia, e como seu pioneiro, temos ele, o queridinho de Mileto – cidade grega situada na atual Turquia – criador do teorema que leva o seu nome, o sempre hidratado, Tales! Este pioneiro, fazendo uso da razão para investigar a natureza do universo, impulsionou outros a fazerem o mesmo.

filósofos da natureza - O teorema de Tales
O teorema de Tales
O teorema de Tales foi criado pelo filósofo quando ele tentou calcular a altura de uma pirâmide com base na sua sombra. Saiba mais sobre esse teorema!

Com o passar do tempo, a principal preocupação dos filósofos da natureza – os primeiros filósofos – era encontrar a arché. Isto é, o principal questionamento desses pensadores convergia na pergunta formulada por Tales: “do que é feito o mundo? ”

A esse elemento, que deveria estar presente em todos os momentos da existência de todas as coisas do mundo, damos o nome de arché.

A resposta obtida por Tales de Mileto dá origem a toda uma complexa linha de raciocínio que parte dos filósofos da natureza até os cientistas de hoje! Mas afinal, o que concluiu Tales ao se questionar sobre a matéria prima básica do universo? Para ele, o universo deveria ser composto de:

Algo a partir do qual tudo possa ser formado;
Essencial à vida;
Capaz de se mover;
Capaz de mudar.

Então, se a substância fundamental do universo é algo a partir do qual tudo possa ser formado, essencial à vida, capaz de se mover, capaz de mudar…. Logo, Tales concluiu que tudo é feito de ÁGUA! Isso mesmo, a fantástica conclusão de Tales é que o mundo é feito de água.

Embora, essa concepção possa parecer ridícula atualmente, ao enunciarem que tudo é feito de água os filósofos da natureza estavam dizendo algo sobre a origem das coisas e fazendo isso sem a ajuda de fabulações ou religião. E ainda nesta ideia, mesmo que de maneira rudimentar, eles construíram um famoso pensamento que perdura até hoje em algumas concepções de mundo: “tudo é um”.

filósofos da natureza - Arché
Arché: elemento primordial que serviria de ponto de partida para todo o processo de criação dos seres naturai

Assim sendo, tudo aquilo que existe vai ter uma causa anterior, de tal maneira que exista um vínculo originador entre os “paranauês” naturais. Melhor dizendo, todos os acontecimentos do mundo vêm de uma causa, que vêm de outra causa, que têm origem em uma nova causa, que é efeito de uma causa anterior… e por aí vai. Infinitamente!

Todavia, não podemos explicar o mundo assim. Afinal, essa sequência que acabei de explicar poderia ser usada como explicação racional e acadêmica? Claro que não.

Dessa maneira, para impedir que a explicação seja tão sem sentido ou embasamento quanto as explicações religiosas de antes, os filósofos da natureza vão tentar constituir uma causa primeira. Essa causa primeira seria um primeiro princípio ou conjunto de princípios que servissem como ponto de partida para todo o processo racional.

É aí que encontramos a arché. Por essas razões, é que consideramos Tales o primeiro filósofo.

Bom, agora que você viu como é que surgiram esses filósofos, vamos analisar seus principais expoentes mais de perto:

– Anaxímenes (588-524 a.c.) vai afirmar que tudo vem do ar e que tudo volta ao ar. Ele concluiu que as substâncias, por rarefação e condensação, vão se alterando de maneira tal que se transfiguram em fogo, depois vento, depois nuvem para assim se tornam água.

A água, por sua vez irá se transformar em terra e pedras que por fim se tornarão as coisas que emanam destas. Percebeu que ele busca uma causa fundamental (arché), um elemento essencial que constitui todas as coisas para assim explicar racionalmente o mistério da causalidade?

filósofos da natureza - Anaxímenes de Mileto
Anaxímenes de Mileto

– Heráclito (435-475 a.c.) por sua vez irá postular que tudo é movimento. Pois, afinal, nada pode permanecer estático, certo? A isso ele chamou de Panta Rei, isto é, “tudo flui”. Contrariando Tales que afirma que a arché é imutável, a mudança que Heráclito afirma incide em tudo.

Suas ideias vão ficando mais interessantes à medida que essas mudanças invariavelmente incidem em uma oscilação entre opostos. O mundo é bem antagônico para ele, veja: o dia anoitece e a noite amanhece, assim sendo, não existiria dia sem noite, nem claro sem escuro, nem Sonic sem mola ou Ash sem pokébola. Sacou? O mundo ocorre na mudança, ou seja, nos opostos se alternando!

filósofos da natureza - Heráclito de Éfeso
Heráclito de Éfeso

– Pitágoras (580 – 500 a.c.), que você provavelmente deve conhecer por conta do teorema, vai falar o seguinte: o princípio fundamental que forma todas as coisas é o número. Ah! Essa galera das exatas! Eles consideram o número como o elo entre os elementos. Enxergam as ligações numéricas entre as formas, as leis da natureza e as substâncias. A partir daí, para Pitágoras, tudo que existe pode ser concebido como números. Você acredita?

Números! Tanta coisa mais legal para explicar os eventos do mundo e os pitagóricos definem sua arché como números! (A galera “de humanas” entende esse sentimento, não é mesmo?)

Veja como calcular as relações trigonométricas originadas na Grécia!

– Parmênides (510-470 a.c.) alegava que o mundo poderia ser entendido a partir da imutabilidade do ser, ou seja, a arché de Parmênides está apoiada na ideia de que as coisas são eternas e imutáveis, além de não serem geradas.

Você já deve ter sacado que isso vai de encontro com o que o Heráclito dizia, né? Então! Vai ter aí uma “treta” entre os dois filósofos da natureza a respeito de tomar banho! Hábitos de higiene à parte, a história de “se banhar duas vezes no mesmo rio” é um dos dilemas da filosofia pré-socrática.

Não conhece Sócrates? Saiba mais sobre este famoso filósofo nesta aula do Curso Enem Gratuito!

Em conclusão, a origem do universo ainda permanece um mistério para nós mortais. Não sabemos quase nada a respeito de onde viemos, contudo, a ideia de buscar um elemento fundamental ainda se faz presente na filosofia e nas ciências.

A arché que é a bola da vez é o Bóson de Higgs, uma partícula que supõem os físicos ser o elemento que justificaria a composição de toda a matéria no universo. E aí, qual a sua ideia de arché?

Para finalizar sua revisão sobre os filósofos da natureza com esta aula sensacional do professor Alan para o nosso canal no YouTube, o Curso Enem Gratuito!

Exercícios:

1. (UEL 2003) “Tales foi o iniciador da filosofia da physis, pois foi o primeiro a afirmar a existência de um princípio originário único, causa de todas as coisas que existem, sustentando que esse princípio é a água. Essa proposta é importantíssima… podendo com boa dose de razão ser qualificada como a primeira proposta filosófica daquilo que se costuma chamar civilização ocidental.”

(REALE, Giovanni. História da filosofia: Antigüidade e Idade Média. São Paulo: Paulus, 1990. p. 29.)

A filosofia surgiu na Grécia, no século VI a.C. Seus primeiros filósofos foram os chamados pré-socráticos. De acordo com o texto, assinale a alternativa que expressa o principal problema por eles investigado.

a) A ética, enquanto investigação racional do agir humano.
b) A estética, enquanto estudo sobre o belo na arte.
c) A epistemologia, como avaliação dos procedimentos científicos.
d) A cosmologia, como investigação acerca da origem e da ordem do mundo.
e) A filosofia política, enquanto análise do Estado e sua legislação.

2. (Enem 2015) A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e leva-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.

NIETZSCHE. F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural. 1999

O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos?

a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.
b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.
c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes.
d) A ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.
e) A tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.

3. (Uff 2010) Como uma onda

“Nada do que foi será/ De novo do jeito que já foi um dia/ Tudo passa/ Tudo sempre passará/
A vida vem em ondas/ Como um mar/ Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é/ Igual ao que a gente/ Viu há um segundo/ Tudo muda o tempo todo/ No mundo
Não adianta fugir/ Nem mentir/ Pra si mesmo agora/ Há tanta vida lá fora/ Aqui dentro sempre/ Como uma onda no mar/ Como uma onda no mar/ Como uma onda no mar”

(Lulu Santos e Nelson Motta)

A letra dessa canção de Lulu Santos lembra ideias do filósofo grego Heráclito, que viveu no século VI a.C. e que usava uma linguagem poética para exprimir seu pensamento. Ele é o autor de uma frase famosa: “Não se entra duas vezes no mesmo rio”.

Dentre as sentenças de Heráclito a seguir citadas, marque aquela em que o sentido da canção de Lulu Santos mais se aproxima

a) Morte é tudo que vemos despertos, e tudo que vemos dormindo é sono.
b) O homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra.
c) Ao se entrar num mesmo rio, as águas que fluem são outras.
d) Muita instrução não ensina a ter inteligência.
e) O povo deve lutar pela lei como defende as muralhas da sua cidade.

Gabarito:

1.E

2.C

3.C

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva