Gil Vicente: autos e farsas

Gil Vicente foi um escritor do Humanismo bastante famoso por conta de suas peças teatrais. Nessa aula, você aprenderá sobre as principais obras do autor, para mandar bem em Literatura no Enem e no Vestibular!

Falar de teatro em língua portuguesa é de falar de Gil Vicente (1465-1536). Ele é considerado o pai do teatro em nosso idioma, pois, antes dele, não há indícios de dramaturgia em Portugal. Aliás, entre o Trovadorismo e o Humanismo, movimento em que o dramaturgo está inserido, não há informação sobre manifestações literárias.

Dizem que Portugal, durante esse período que durou em torno de dois séculos, voltou-se mais aos esportes. Com a tomada de poder pela dinastia de Avis, as coisas mudam em relação à cultura e à economia. Isso ocorre por causa das grandes navegações.

A história do Teatro

Claro que o teatro, ao redor do mundo, iniciou sua trajetória de maneiras diferentes. Se pensarmos na Grécia, podemos nos reportar a um tempo bem mais remoto: cerca de quatro séculos antes de Cristo. A propósito, aí está o berço dessa manifestação artística, com nomes como Sófocles, Ésquilo e Aristófanes.

No teatro grego, que começou com festivais em honra aos seus deuses, havia tragédias e comédias. As tragédias eram formas de drama que se caracterizavam pela seriedade e dignidade, tendo final infeliz. Já as comédias satirizavam diversos comportamentos da sociedade grega.

Interessante pensar também na arquitetura dos teatros, com seus formatos em meia lua. Apesar das grandes arquibancadas, eles conseguiam fazer as vozes dos atores serem ouvidas por todos. Isto por causa da boa acústica. Além disso, auxiliava na projeção das vozes, máscaras que serviam de caixa de ressonância, chamadas de personas. Talvez daí venha a palavra “personagem”.

O teatro de Gil Vicente

Em comparação com a estrutura das peças gregas, as de Gil Vicente eram mais simples. Principalmente no que tange a parte física, os palcos onde o teatro vicentino acontecia. Apesar de serem feitos em meio à nobreza, eram construídos de modo improvisado, de madeira. Aliás, tudo o mais seguia o mesmo padrão: cenário, figurino, organização da peça, linguagem.

E por que o dramaturgo português montava sua arte junto aos nobres? Para responder a isso, precisamos saber um pouco de sua vida. Na verdade, acerca disso, muita coisa é incerta. Por exemplo, suas datas de nascimento e morte são aproximadas, além de que não se sabe direito onde nasceu. Entretanto, temos a informação de que sempre foi um homem ligado à corte.

Usufruiu de certo prestígio junto aos reis de Avis, tendo exercido a função de organizador de festas palacianas e ourives. Este era uma espécie de ministro da fazenda, se pensarmos em um governo republicano e não monarquista. Por isso, tinha liberdade para apresentar seus espetáculos em ambiente palaciano. E por ter as “costas quentes”, como se diz popularmente, podia até mesmo ridicularizar os poderosos que não era punido.

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Estátua de Gil Vicente no Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa. Disponível em https://statues.vanderkrogt.net. Acesso: 02 abr. 2020.

A projeção de Gil Vicente na corte portuguesa do início do século XVI era grande. Sua primeira peça, Monólogo do Vaqueiro (ou Auto da Visitação), foi encenada em 1502, na antecâmara do quarto da rainha D. Maria. Foi uma homenagem ao nascimento de D. João III, futuro rei.

Estrutura das peças de Gil Vicente

Entretanto, como estávamos dizendo, o lugar chique das apresentações se opunham à singeleza das montagens. Primeiramente, o cenário (assim como o figurino) era econômico, feito em palanques, com mobiliário reduzido. Além disso, os personagens não tinham profundidade psicológica, por representarem tipos diversos da sociedade. Sem contar que a estrutura das peças era feita em blocos, sem unidade dramática. Por fim, a língua é um mix popular de português e castelhano, fazendo uso até mesmo de palavrões.

Por falar em linguagem, é bom lembrar que Gil Vicente fazia suas peças em forma de poesia. Ele preferia versos curtos, mais ágeis e fáceis de serem acompanhados pelos expectadores.

Em relação aos gêneros do teatro vincentino, é possível listar os seguintes:

  • Farsas: trata do cotidiano, do mundo dos pequenos burgueses, dos nobres, dos religiosos, dos judeus.
  • Écloga ou Teatro pastoril: comédia envolvendo pastores ibéricos, disfarçados de apóstolos. Isso porque a atividade pastoril é considerada pura, por isso, pode ser associada à religiosidade.
  • Moralidade religiosa: baseados em passagens bíblicas ou na tradição católica, tinham um clima mais sério do que as comédias e farsas.
  • Alegoria: autos em que os personagens representam conceitos ou personificam instituições. Auto da Feira é um caso. Nele há um imenso mercado em que os bens religiosos, as virtudes e os pecados são sucessivamente vendidos e registrados.

A Farsa de Inês Pereira

Forma 46 peças feitas por Gil Vicente. Dentre as farsas que fez, destaca-se a Farsa de Inês Pereira, de 1523. O enredo, cômico, é sobre uma moça que, em idade propícia para se casar, não consegue escolher o marido ideal. Inicialmente, levada pela fantasia, rejeita um homem que a ama (Pero Marques) e escolhe um que a despreza (Brás da Mata).

Depois do fracasso conjugal, Inês é reconduzida à realidade. Refazendo seus critérios, acaba por construir uma vida relativamente feliz ao lado do antigo pretendente. Este, apesar de mais simples, era bondoso para com ela. Daí a frase, dita pela moça: “Mais vale um burro que me carregue do que um cavalo que me derrube”.

Por meio dessa peça é possível conhecer o fascinante universo poético de Gil Vicente. Tal universo é composto por soberbo domínio das técnicas da linguagem alusiva. Nesta, predominam a paródia, a ironia, insinuações picantes e trocadilhos bem-humorados.

O Auto da Barca do Inferno

Em relação aos autos, o mais conhecido parece ser o Auto da Barca do Inferno (1517). Trata-se de uma peça moralizante, toda construída sobre a noção de pecado e do destino das almas pecadoras. Na história, há um braço de mar onde estão duas barcas, a do Céu e a do Inferno. As almas que lá chegam são julgadas de acordo com as posturas que tiveram na vida terrena.

Para mostrar os vícios humanos, Gil Vicente coloca quase todos na barca do Inferno. São estes o Fidalgo (arrogância), o Onzeneiro (ganancioso), o Sapateiro (ladrão). Também são o Frade (mundano), a Alcoviteira (agenciadora de moças), o Corregedor e o Procurador (corruptos), o Enforcado (ladrão grosseiro). Somente Joane, um homem pobre e inocente e os quatro Cavaleiros das Cruzadas merecem a barca do Céu.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula:

Resolva exercícios sobre o Teatro de Gil Vicente:
01) (IFSP/2016) Leia o texto abaixo, um trecho do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, para assinalar a alternativa correta no que se refere à obra desse autor e ao Humanismo em Portugal.

Nota: foram feitas pequenas alterações no trecho para facilitar a leitura.

Vem um Frade com uma Moça pela mão, e um 1broquel e uma espada na outra, e um 1casco debaixo do 2capelo; e, ele mesmo fazendo a baixa, começou de dançar, dizendo:

FRADE Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;

ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã: tã-tã;

ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!

DIABO Que é isso, padre?! Que vai lá?
FRADE Deo gratias! Sou cortesão.
DIABO Sabes também o tordião?
FRADE Por que não? Como ora sei!
DIABO Pois entrai! Eu tangerei

e faremos um serão.

Essa dama é ela vossa?

FRADE Por minha a tenho eu,

e sempre a tive de meu

DIABO Fizestes bem, que é formosa!

E não vos punham lá 3grosa

no vosso convento santo?

FRADE E eles fazem outro tanto!
DIABO Que cousa tão preciosa…

Entrai, padre reverendo!

FRADE Para onde levais gente?
DIABO Pera aquele fogo ardente

que não temestes vivendo.

FRADE Juro a Deus que não te entendo!

E este hábito não me vale?

DIABO Gentil padre mundanal,

a Belzebu vos encomendo!

1broquel e casco – respectivamente, escudo e armadura para cabeça – são elementos por meio dos quais o autor descreve o frade.
2capelo – chapéu ou capuz usado pelos religiosos.
3pôr grosa – censurar.

a) O destino do frade é exemplar no que se refere à principal característica da obra de Gil Vicente: a crítica severa, de sabor renascentista, à Igreja Católica, de cuja moral se distancia a obra do dramaturgo.

b) A proposta do teatro vicentino alegórico – especialmente a Trilogia das Barcas – era a montagem de peças complexas, de linguagem rebuscada, distante do falar popular, para criticar, nos termos da moral medieval, os homens do povo.

c) A imagem cômica, mas condenável, de um frade que canta, dança e namora, trazendo consigo uma dama, é exemplo cabal do pressuposto das peças de Gil Vicente de que, rindo, é possível corrigir os costumes.

d) O frade terá como destino o inferno porque é homem “mundanal”, ligado aos gozos do mundo material, em cujo pano de fundo percebe-se o sistema de valores do homem medieval, para o qual não há salvação após a morte.

e) O sistema de valores que pode ser entrevisto nas peças de Gil Vicente, e especialmente no Auto da Barca do Inferno, revela uma mentalidade avessa aos valores da Idade Média.

02) (Pucsp/2008) Gil Vicente, criador do teatro português, realizou uma obra eminentemente popular. Seu Auto da Barca do Inferno, encenado em 1517, apresenta, entre outras características, a de pertencer ao teatro religioso alegórico. Tal classificação justifica-se por

a) ser um teatro de louvor e litúrgico em que o sagrado é plenamente respeitado.

b) não se identificar com a postura anticlerical, já que considera a igreja uma instituição modelar e virtuosa.

c) apresentar estrutura baseada no maniqueísmo cristão, que divide o mundo entre o Bem e o Mal, e na correlação entre a recompensa e o castigo.

d) apresentar temas profanos e sagrados e revelar-se radicalmente contra o catolicismo e a instituição religiosa.

e) aceitar a hipocrisia do clero e, criticamente, justificá-la em nome da fé cristã.

3) (UFPA/2012) O monólogo dramático O Pranto de Maria Parda, de Gil Vicente, é um desses textos emblemáticos da produção de um dos mais respeitáveis autores portugueses. A peça dispõe de um conteúdo pelo qual perpassam variados sentidos, ligados a problemas sociais, a preconceito, à paródia, ao grotesco, enfim, nela se encontra uma espécie de mosaico de informações de toda ordem. A riqueza de questões suscitadas no monólogo ainda hoje pode ser considerada, como é da natureza do texto vicentino, de atualidade indiscutível.

Com base no comentário acima, é correto afirmar, relativamente à linguagem e ao conteúdo da peça de Gil Vicente, que

a) a linguagem da peça é rica de lamentos, pragas, pedidos, promessas e muitas exclamações apelativas.

b) os taberneiros de Lisboa constituem uma espécie de coro, na peça, com a função de comentar os lamentos expressos nas falas de Maria Parda.

c) Gil Vicente cria um personagem com as características referidas aqui: doente, envelhecida, “sem gota de sangue nas veias”, de corpo “tão seco”.

d) Maria Parda – mestiça, atrevida e sexualmente livre – é um personagem que representa a base da pirâmide social lisboeta da época.

e) há, na peça, uma enfática oposição ao uso de vinho, manifesta no discurso de sacerdotes, escudeiros e barqueiros.

GABARITO: 01) C; 02) C; 03) E.

Sobre o(a) autor(a):

Alencar Schueroff é doutor em Literatura pela UFSC e professor em pré-concursos há 20 anos.