Kant e o criticismo – A razão crítica a si mesma

Você enxerga o mundo de maneira diferente? Consegue resolver tretas milenares? Confira aqui como Kant, um cidadão de uma pacata cidade, mudou os paradigmas da sociedade e ainda inspirou o movimento Iluminista mundo!

Se você é uma pessoa que implica com tudo, gosta das coisas feitas nos mínimos detalhes (~ou é virginiano~), essa aula é a sua cara! Vem comigo trocar uma ideia sobre um dos maiores pensadores da modernidade: Immanuel Kant!

retrato de Immanuel Kant
Figura 1. Immanuel Kant, 22 de abril de 1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804.

Immanuel Kant, um prussiano arretado nascido em 1724 em Königsberg, indagou sobre a origem do conhecimento – como podemos conhecer o mundo? –  e suas indagações contribuíram para quebra de paradigmas de sua época.

Essas contribuições são de extrema importância para as discussões contemporâneas, influenciando na ciência e na política do século XXI. Você duvida? Imagine aquele seu tio meio sem noção, se ele tivesse lido Kant certamente não iria compartilhar fakenews no grupo da família no Whatsapp! Acompanha meu raciocínio que você vai entender o porquê. Vem comigo nesta aula sobre Kant e o criticismo para mandar bem no Enem e nos vestibulares!

O criticismo de Kant, como o próprio nome sugere, é a ideia de criticar as coisas. Simples assim? Então sair falando mal de tudo te faz um filosofo “boladão”? Não! É um pouco mais complicado que isso. Mas se liga aí: A crítica kantiana coloca a própria razão e as possibilidades do conhecimento em debate. Ou seja, ao contrário de questionar a maneira que você conhece as coisas, Kant vai investigar se o próprio conhecimento é plausível. Isso é a chamada filosofia transcendental.

Segundo Kant, todo conhecimento (tanto o especulativo quanto o prático) concentra-se nas três seguintes perguntas:

  1. Que posso saber?
  2. Que devo fazer?
  3. Que me é dado esperar?

Você provavelmente deve saber que a discussão sobre a origem do conhecimento é algo milenar. Essa questão sobre o que podemos ou não conhecer, tem seu marco em Platão e seu pupilo Aristóteles. Nesta época, originam-se duas teorias: o Racionalismo e o Empirismo. O criticismo kantiano é a resposta do filósofo ao debate entre racionalistas e empiristas, a chamada Revolução Copernicana da Filosofia.

platão e aristóteles
Figura 3. Platão (a esquerda) aponta para cima em referência ao mundo das ideias (racionalismo) e Aristóteles (a direita) aponta para baixo em referência ao mundo sensível (empirismo)

 

O Racionalismo

Os racionalistas sustentam a ideia de que o conhecimento origina-se inteiramente da razão. Eles consideram que as ideias são inatas, isto é, não decorrem da experiência, muito pelo contrário, estão em nós desde o nascimento.

Ora, se o Racionalismo afirma que o conhecimento não decorre da experiência, mas se dá pela razão, então, isso vai resultar em uma desconfiança das percepções sensoriais.  Afinal se todo o conhecimento seguro só pode vir da razão tudo aquilo que vem de fora (não na minha cabeça) é duvidoso?

O Empirismo

A outra gangue da nossa história, que fez frente aos racionalistas, são os chamados empiristas. Segundo o próprio Kant, uma de suas maiores influências surgiu da leitura dos empiristas ingleses, sobretudo de David Hume. Como ele próprio sugere, foi Hume quem o acordou do sono dogmático que se encontrava. Os empiristas aceitavam a ideia de que a experiência era a única fonte segura de todo conhecimento, ou seja, é através da nossa capacidade de conhecer o mundo a partir dos sentidos que os objetos se estabelecem em nós.

Para tanto, os empiristas se valiam de um método chamado de indutivo, tal método era utilizado para obter enunciados universais através de enunciados particulares. Para entender melhor, imagine o exemplo com a situação hipotética abaixo:

Você observa que os unicórnios que você viu ultimamente usam laço rosa e pensa: “todo o unicórnio usa laço cor rosa”. Para ter certeza disso, você realiza essa experiência diversas vezes. Para isso, faz uma expedição de campo para Nárnia afim de observar esses cavalinhos fálicos. Daí, se em tuas observações você vê que todos os unicórnios observados têm laços, você chegar a mesma conclusão e pode determinar que todo unicórnio usa laço rosa. Assim, você obteve enunciados universais através de enunciados particulares. Isto é, você aplica o método indutivo.

método indutivo
Figura 5. O Método Indutivo.

Em suma, a questão então é a seguinte: De onde vem o conhecimento? Da razão, isto é, das ideias que eu tenho desde que nasci, ou, do mundo à minha volta (que conheço por meio dos meus sentidos).

Na tentativa de resolver esse problema (de onde vem o conhecimento?) Kant formulou a sua epistemologia. Embora o conhecimento venha da experiência, existem outros fatores anteriores a ela. Portanto, apesar de afirmar que o conhecimento advém da experiência, ou seja, é empírico, ele não resulta única e exclusivamente dela. Existe então outra fonte de conhecimento que não a experiência, tal fonte tem sua origem na razão (Daí o Racionalismo, Sacou?).

Portanto, Kant vai demostrar que as teorias de seu tempo, apesar de parecerem antagônicas, podem vir a convergir. Dessa forma ele criou uma solução intermediaria para essa dicotomia entre empirismo e racionalismo, o qual chamou-se conhecimento transcendental.

Por fim, existe na constituição do pensamento kantiano uma similaridade com o próprio processo pelo qual o século XVIII se constitui. Da mesma forma que Kant é influenciado pelo empirismo e pelo racionalismo, o século XVII é representado por duas vertentes: o empirismo inglês e o racionalismo francês. Ambos irão avançar paralelamente pelo século XVIII servindo de pano de fundo para composição do pensamento kantiano.

Agora que você já revisou as principais ideias de Kant, que tal ampliar suas ideias sobre o filósofo assistindo um vídeo?

Para finalizar suas revisão, que tal testar seus conhecimentos resolvendo as questões que selecionei para você?

1) (Enem 2013) até hoje admitia-se que nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir, mediante conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento.

KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Calouste-Guibenkian, 1994 (adaptado).

O trecho em questão é uma referência ao que ficou conhecido como revolução copernicana da filosofia. Nele, confrontam-se duas posições filosóficas que
A) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza do conhecimento.
B) defendem que o conhecimento é impossível, restando-nos somente o ceticismo.
C) revelam a relação de interdependência entre os dados da experiência e a reflexão filosófica.
D) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na primazia das ideias em relação aos objetos.
E) refutam-se mutuamente quanto à natureza do nosso conhecimento e são ambas recusadas por Kant.

2) Na perspectiva do conhecimento, Immanuel Kant pretende superar a dicotomia racionalismo-empirismo. Entre as alternativas abaixo, a única que contém informações corretas sobre o criticismo kantiano é:  a) A razão estabelece as condições de possibilidade do conhecimento; por isso independe da matéria do conhecimento.

A) O homem conhece pela razão a realidade fenomênica porque Deus é quem afinal determina este processo.

B) O conhecimento é constituído de matéria e forma. Para termos conhecimento das coisas, temos de organizá-las a partir da forma a priori do espaço e do tempo.

C) O conhecimento é constituído de matéria, forma e pensamento. Para termos conhecimento das coisas temos de pensá-las a partir do tempo cronológico.

D) A razão enquanto determinante nos conhecimentos fenomênicos e noumênicos (transcendentais) atesta a capacidade do ser humano.

3) (UFU 1/1999) Na obra Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant, examinando o problema do conhecimento humano, distinguiu duas formas básicas do ato de conhecer. Assinale a alternativa CORRETA.

A) O conhecimento religioso e o conhecimento ateu.

B) O conhecimento mítico e o conhecimento cético.

C) O conhecimento sofístico e o conhecimento ideológico.

D) O conhecimento empírico e o conhecimento racional.

E) O conhecimento fanático e o conhecimento tolerante.

Gabarito
1.A 2.B 3.D

 

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva