René Descartes e o Racionalismo

Você consegue diferenciar um sonho da realidade? Como você consegue provar que realmente existe? Essas foram indagações que o filósofo francês René Descartes fez séculos atrás e que o Enem adora colocar em suas questões. Vamos descobrir as respostas?

Como é possível ter certeza das coisas? Em que devemos acreditar? Foram essas inquietações que levaram o filosofo francês René Descartes a meditar por muito tempo em busca de respostas.

rené descartes
Figura 1: René Descartes, foi um filósofo, físico e matemático francês, também era conhecido por seu nome latino Renatus Cartesius.

Descartes viveu durante o Século XVII, uma época de forte ceticismo oriundo da Filosofia do Renascimento que gerou rápidos avanços na ciência e culminou no declínio da Filosofia Escolástica. Nessa época, a autonomia do sujeito pensante estava em alta por causa do crescente movimento humanista. Esses elementos deixaram as pessoas um tanto quanto descrentes das certezas de outrora.

Nessa onda de incertezas, Descartes inspirou-se nas ideias de Francis Bacon, que havia constituído um novo método para conduzir experimentos científicos por meio da observação e do raciocínio dedutivo. O francês partilhava dessa empolgação em relação ao fim do ceticismo. Isto é, Descartes pôde vislumbrar a possibilidade de trazer de volta as certezas em relação ao mundo que foram abaladas pela Filosofia do Renascimento.

Em sua obra intitulada Meditações, Descartes vai se aventurar nos domínios da Metafísica a fim de comprovar a possibilidade de um conhecimento verdadeiro, ainda que partindo das mais céticas posições.

 

René Descartes
Figura 2: Frase de René Descartes: “Devemos investigar que tipo de conhecimento a razão humana é capaz de atingir, antes que comecemos a adquirir conhecimento sobre as coisas em particular”.

Curiosamente, essa obra é escrita em primeira pessoa, isso porque Descartes queria que seus interlocutores trilhassem o mesmo caminho que ele havia percorrido ao escrever a obra. Desta maneira, o leitor seria coagido a assumir o ponto de vista do filosofo francês. Aliás, isso lembra bastante o método utilizado por Sócrates quando convencia seus interlocutores.

A dúvida metódica de René Descartes

Para obter sucesso nessa empreitada em busca da verdade, Descartes fez uso de uma ferramenta que chamamos de Dúvida Metódica. Ela parte do pressuposto de que tudo que existe e pode ser contestado deve ser deixado de lado. Ou seja, qualquer dúvida que possa surgir em relação à veracidade de algo significa que deve ser ignorado.

Basicamente, esse processo funcionava assim: Descartes sujeitava suas certezas a uma porção de questionamentos céticos. Em outras palavras, ele fazia várias perguntas acerca das coisas e tentava respondê-las.  Ele levou tão a sério essa linha de pensamento que acabou por duvidar da sua própria existência!

Algumas de suas reflexões a respeito do mundo ganharam bastante notoriedade, dentre as contestações mais famosas temos:

“Como é que eu posso saber que o mundo não passa de uma ilusão?”

“Como eu posso saber se não estou sonhando?”

Esses temas são bem recorrentes e abordados ainda hoje, alguns exemplos disso são os filmes Matrix (1999) e A Origem (2010).

René Descartes
Figura 3: Em um mundo onde é possível entrar nos sonhos das pessoas, Cobb (Leonardo DiCaprio) está entre os melhores na arte de roubar segredos valiosos do inconsciente. Durante o desenrolar da trama as personagens lutam para diferenciar o que real e o que é sonho.

Essa incerteza vem da ideia de que nós contamos com nossos sentidos para conhecer o mundo. Ora, esses sentidos podem nos enganar. Logo, não posso confiar em meus sentidos. Essa alegação é fundamental para entendermos o Racionalismo Cartesiano, uma vez que ele faz frente ao Empirismo.

O Empirismo é a corrente filosófica que se baseia nos sentidos (na observação do mundo por meio deles) para conhecer o mundo. Todavia, se eu (assim como fez Descartes) perceber que os sentidos podem me enganar, então todo o meu conhecimento de mundo é uma enganação.

Gênio Maligno

Para ajudar em sua busca pela verdade e eliminar os conhecimentos falsos, René Descartes criou uma ferramenta que ele batizou de Gênio Maligno. Imagine que exista um gênio que está constantemente ao seu lado tentando te enganar. Assim sendo, sempre que estava em dúvida a respeito de algo, Descartes se indagava: será que o gênio pode estar me enganando a respeito disso?

Sempre que a resposta fosse sim, o francês deixava de lado essa crença pois ela era duvidosa. Não podendo ter certeza a respeito de nada ele caiu numa espiral cética infinita que quase pôs fim a sua Meditação em busca da verdade.

Contudo, é de Descartes que estamos falando. O filósofo vai, então, se apegar em algo que não poderia ser duvidoso, um fato solitário que deveria ser verdade: sua existência. Vamos lá descobrir se a gente existe mesmo?

Já sabemos que um Gênio Maligno me faz acreditar em coisas falsas, então não há nada que eu possa ter certeza. Todavia, quando eu afirmo que eu existo, não posso estar errado a respeito disso. Ainda que o Gênio esteja me enganando eu preciso existir para que ele me engane. Portanto, se eu penso na possibilidade de ser enganado, logo eu existo!

Essa reviravolta é bem bacana de ser lida na obra, visto que Descartes narra todo drama e até um leve desespero que ele passou até conseguir uma reles certeza.

René Descartes e o Racionalismo

Pode parecer estranho um único argumento ser tão importante assim. Mas, é sobre essa certeza que Descartes, ao longo de suas Meditações, constrói seu raciocínio. Ele é o alicerce do Racionalismo Cartesiano.

Bom, se considerarmos que os sentidos nos enganam, daí para você chegar a uma conclusão verdadeira é preciso algo a mais que os sentidos. O Racionalismo Cartesiano é justamente esse processo que você acompanhou até agora. Isto é, por meio da razão a gente criou todo uma Lógica para elucidação de um problema sem contar com nossos sentidos, mas nos apoiando na Razão.

René Descartes
Figura 4: Na imagem acima as linhas horizontais parecem estar inclinadas, mas não estão. Não é porque percebemos elas assim que isso é verdade. Nossos sentidos podem nos enganar.

Racionalismo é, então, a corrente filosófica que se apoia na razão em detrimento dos sentidos na busca pela verdade. Assim sendo, a razão é a fonte de todo do conhecimento verdadeiro e autônomo aos sentidos.

Agora que você já conhece René Descartes, tem algo que pode lhe deixar com a pulga atrás da orelha. Dentro dessa lógica de Descartes, a ideia do “Penso, Logo Existo” contém uma premissa oculta: algo que está pensando, existe.

Imagina só alguém que pensa bastante, tipo o Bruce Wayne, o Macaco Louco, o Tony Stark ou mesmo o Cebolinha com seus planos infalíveis. Essa galera toda aí existe? Essa é uma das críticas feitas ao Racionalismo Cartesiano.

Por fim, René Descartes foi um filósofo que pregava a autonomia do sujeito, como era comum em sua época. A partir do pensamento dedutivo, ele conseguiu provar a nossa existência. Depois disso, todo o mundo, quero dizer, todo o pensamento foi influenciado por suas ideias. O Iluminismo, principal corrente filosófica do século XVIII, foi fortemente influenciada por Descartes.

Ah! Ainda quer saber mais sobre o assunto? Então confira esse vídeo que eu separei para você:

Exercícios:

 

1- (Enem 2013)

TEXTO I

“Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto. Era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente a fim de estabelecer um saber firme e inabalável.”

(DESCARTES, R. Meditações concernentes à Primeira Filosofia. São Paulo: Abril Cultural, 1973) (adaptado).

TEXTO II

“É o caráter radical do que se procura que exige a radicalização do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente varridas por essa mesma dúvida.”

(SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: Moderna, 2001). (adaptado).

A exposição e a análise do projeto cartesiano indicam que, para viabilizar a reconstrução radical do conhecimento, deve-se:

(A) retomar o método da tradição para edificar a ciência com legitimidade.

(B) questionar de forma ampla e profunda as antigas ideias e concepções.

(C) investigar os conteúdos da consciência dos homens menos esclarecidos.

(D) buscar uma via para eliminar da memória saberes antigos e ultrapassados.

(E) encontrar ideias e pensamentos evidentes que dispensam ser questionados.

 

2- (Fepese – SC– 2012) René Descartes tornou-se famoso pela frase “Cogito, ergo sum” (penso logo existo), pilar fundamental da filosofia:

(A) Racionalista.

(B) Fenomenológica.

(C) Teocêntrica.

(D) Empirista.

(E) Liberal.

3- (ENEM 2016)  Nunca nos tornaremos matemáticos, por exemplo, embora nossa memória possua todas as demonstrações feitas por outros, se nosso espírito não for capaz de resolver toda espécie de problemas; não nos tornaríamos filósofos, por ter lido todos os raciocínios de Platão e Aristóteles, sem poder formular um juízo sólido sobre o que nos é proposto. Assim, de fato, pareceríamos ter aprendido, não ciências, mas histórias.

Descartes, R. Regras para a orientação do espírito.

Em sua busca pelo saber verdadeiro, o autor considera o conhecimento, de modo crítico, como resultado da

(A) Investigação de natureza empírica

(B) Retomada da tradição intelectual

(C) Imposição de valores ortodoxos

(D) Autonomia do sujeito pensante

(E) Liberdade do agente moral

Gabarito:

1- B

2- A

3- D.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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