O lixo que produzimos e sua influência nos seres vivos

Você sabe o que é obsolescência programada? Sabe a diferença entre aterro e lixão? Conhece o que é processo de produção linear? Entenda mais sobre o consumo e a produção de lixo e o impacto desses hábitos no ambiente. É Biologia para o Enem e para a vida!

Na era da praticidade, da efemeridade e da obsolescência programada, vemos um problema crescer assustadoramente: o lixo. Estamos acostumados à praticidade dos descartáveis e às mudanças tecnológicas. Quais as consequências do uso despreocupado destes produtos? Quais os impactos nas nossas vidas e na de outros seres vivos? Saiba mais sobre o lixo e nossa relação com ele neste post de Biologia para o Enem!

Lixo na era dos descartáveis

Quando eu era pequena, minha avó fazia picolés caseiros para agradar os netos. Lembro de amar chegar a casa dela e encontrar o freezer cheinho de picolés no verão. Mas, lembro também de reparar em um fato curioso: minha avó embrulhava os picolés em saquinhos de leite, que ela lavava e reutilizava para embalar os doces. Eu (na minha simplicidade de criança) achava que a vó era muito “muquirana”, querendo economizar em saquinho de picolé.

O que eu não compreendia e hoje uso aqui para ilustrar a nossa aula, é que minha avó viveu em uma época em que o acesso aos descartáveis era quase inexistente. As pessoas compravam coisas a granel nas feiras, usando sacolas próprias. Sendo assim, precisavam conservar suas embalagens, lavá-las e reutilizá-las. Por isso minha avó reutilizava os saquinhos: ela aprendeu a ser responsável no seu consumo.

Porém, eu e (provavelmente você), nascemos em uma outra época: a era dos descartáveis. Eles estão por todo o lado. Da embalagem do arroz à sacolinha do supermercado, praticamente tudo o que compramos e consumimos vem embalado ou carregado em um descartável de uso curto.

Mas, qual o problema disso? Vários! Vamos pensar em um exemplo? Provavelmente você deve ter acompanhado a recente luta contra o uso de canudinhos plásticos. E, talvez, você tenha achado que isso é coisa de “ecochato”! Porém, o novo “inimigo número 1” do meio ambiente não ganhou esse título à toa. Os canudos, assim como as sacolas plásticas, são artefatos plásticos que trazem consigo uma série de problemas.

Primeiramente, você precisa entender que os canudinhos (e todos os outros descartáveis) são objetos de uso muito efêmero. Eles consomem bastantes recursos para serem produzidos (plástico – geralmente derivado do petróleo, energia, água…) e são usados por pouquíssimo tempo, virando lixo em seguida.

Além disso, os canudinhos não são realmente “necessários” para a maioria das pessoas. Você pode muito bem tomar seu refrigerante sem ter que recorrer à sucção em um canudinho, não é mesmo? Sem falar que muitos canudos são feitos com componentes que podem ser cancerígenos, configurando um risco à nossa saúde. Ah! E ainda não podemos esquecer que hoje a maioria deles vêm embalado individualmente em outro plástico! É muito lixo supérfluo!

o lixo dos canudos plasticos
Canudos plásticos embalados individualmente aumentam ainda mais o lixo produzido por esse tipo de produto.

Consumo de recursos

Tudo o que produzimos e consumimos é feito a partir de recursos naturais. Estes são extraídos da natureza e passam por inúmeros processos para que se transformem nos produtos finais que chegam às nossas casas. Porém, não observamos esse processo acontecer.

Acontece que os processos de extração de recursos naturais geralmente são extremamente danosos ao ambiente e aos seres vivos que vivem ali, incluindo os seres humanos.

Por exemplo, se você está utilizando celular para ler esta aula, provavelmente você tem em suas mãos uma porção de tântalo, que é um metal utilizado na produção de vários produtos eletrônicos. Esse metal vem principalmente de minas da República Democrática do Congo.

Várias entidades de direitos humanos denunciam a exploração de crianças nessas minas, onde elas chegam a trabalhar mais de 12 horas por dia, em um regime de trabalho análogo ao escravo. Isso sem falar nos efluentes contaminantes provenientes dessa exploração que contaminam o ambiente, destroem ecossistemas e ameaçam com câncer as gerações futuras.

Além disso, muitos dos materiais descartáveis são feitos a partir de recursos naturais não renováveis, ou seja, aqueles que a natureza não consegue renovar ou levaria milhões de anos para fazê-los novamente. Os plásticos, por exemplo, são derivados do valioso petróleo que se torna cada vez mais escasso – um problema gigantesco para uma sociedade cuja matriz energética é baseada no óleo negro.

Mesmo os descartáveis feitos a partir de recursos renováveis são também problemáticos em relação à origem de sua matéria-prima. A celulose, por exemplo, utilizada para o papel, muitas vezes é proveniente de plantações de eucalipto e pinos que ocupam áreas de florestas desmatadas para este fim.

Consumo de água

“Mas gastamos muita água para lavar copos depois da festa. Com os descartáveis é só jogar fora.” Você já ouviu esse discurso? Eu já ouvi essas palavras para justificar o uso de fraldas descartáveis, talheres, pratos… Muita gente, por não saber como esses materiais são produzidos, acreditam que eles consomem menos água por não precisarem serem lavados. O problema é que muita água está escondida na produção desses materiais. Chamamos essa água embutida de “água virtual”.

Água virtual é, portanto, toda a água utilizada direta ou indiretamente na produção de algum produto. Para produzir cada copinho plástico são gastos mais de 500ml de água, por exemplo. Já para lavar seu copo na pia, você gasta metade disso. E o melhor: o copo durável não vira lixo depois de uma utilização.

Nas fraldas descartáveis, por exemplo, o consumo de água é ainda maior. Boa parte das fraldas são compostas por papel especial. Para produzir somente os derivados de celulose de um pacote de fraldas (que dariam para uma semana) são gastos mais de 1500 litros de água.

Blogs especializados em fraldas de pano dizem que se gasta aproximadamente 800 litros por mês para lavrar as fraldas de pano de um bebê. Ou seja, um consumo de água consideravelmente menor.

água virtual e lixo
Infográfico sobre a água virtual de alguns produtos. Disponível em: https://www.revistaplaneta.com.br/o-custo-oculto-da-agua/

É importante ressaltar aqui que nos exemplos acima não citei a água virtual gasta para produzir os produtos reutilizáveis. Estes também são valores a serem considerados. Porém, você precisa sempre ter em mente que os produtos duráveis são utilizados várias vezes, compensando o custo de água utilizada e sua produção. Já os descartáveis são jogados no lixo, inutilizando toda a matéria prima, água e energia gastos para a sua produção.

Dica: O problema do lixo tem tudo a ver com as cadeias alimentares. Para revisar este assunto, veja esta aula.

Obsolescência programada

Talvez você já tenha ouvido alguém falar: “Porcaria de máquina de lavar (ou geladeira, ou ferro de passar, ou computador, ou celular…)! O antigo era muito mais durável e dava menos problema!”, não é mesmo? Você pode até achar que é coisa de gente saudosista. Mas, não é.

O fato é que os produtos hoje são muito menos duráveis do que os similares produzidos em um passado não muito distante. Os eletrodomésticos, chamados de bens de consumo duráveis, estão cada vez menos “duráveis”. Isso porque são construídos de modo que durem o suficiente para não deixar o consumido muito indignado, mas não duram tanto tempo, fazendo com que o consumidor tenha que voltar a comprar novamente.

Essa questão é chamada pelos especialistas de “obsolescência programada”. Esse termo quer dizer que os bens duráveis são construídos de forma que se deteriorem e obriguem o consumidor a comprar novamente, mantendo o nível de consumo daquele produto. Afinal, você compraria uma geladeira nova se a antiga estivesse funcionando perfeitamente?

Talvez! Porque temos outra técnica utilizada pelos empresários: a obsolescência estética. As coisas entram e saem da moda. Em um ano é super legal ter uma geladeira amarela que combina com a decoração. No outro, ela é brega. Isso pode ser ainda mais gritante em bens de consumo semiduráveis, como as roupas e calçados. Você lembra da moda das roupas com cores berrantes em neon? Pois é. Talvez você tenha uma blusa amarelo marca-texto escondida no guarda-roupas (que você não usaria novamente de jeito nenhum) para provar que estou certa.

Além disso, temos visto também as novas revoluções tecnológicas tornando os produtos obsoletos cada vez mais rápido. Você mal terminou de pagar seu smartphone em 10x e já saíram dois outros modelos novos que deixam o seu “no chinelo”. Isso induz o consumo, pois incita as pessoas a almejarem e consumirem novos produtos, de maneira supérfula.

Dica: Revise também as relações ecológicas, pois elas podem ser extremamente influenciadas pelos resíduos produzidos pelos seres humanos.

Destinação do lixo

O que você faz com seu lixo? Onde ele vai parar? A maior parte das pessoas não saberia responder. Ou, no máximo, diria: o caminhão de lixo leva! Esse caminhão parece um veículo mágico, que faz com que todo o lixo desapareça da face da Terra. Mas, não é bem assim.

Todos os dias eu, você e cada um dos 220 milhões de brasileiros produzimos em média cerca de 1,5kg de lixo. Esse lixo é composto pelos mais diversos materiais: restos de comida, cascas de frutas, papel higiênico, embalagens, lixo eletrônico… Todo esse resíduo recebe diversos destinos. Atualmente a solução mais utilizada para o lixo produzido nas grandes cidades brasileiras é transferi-lo para depósitos, como lixões e aterros sanitários.

Os lixões são depósitos a céu aberto, onde montanhas de lixo são despejadas diretamente sobre o solo, onde se acumulam. Hoje os lixões são proibidos no Brasil, pois são extremamente danosos para o ambiente e para a saúde humana.

Entre os principais problemas dos lixões está a poluição do solo gerada pelo chorume (líquido fedido proveniente dos processos de decomposição da matéria orgânica), que inutiliza solos e pode até mesmo poluir lençóis freáticos. Além disso, existe a enorme proliferação de animais nocivos e transmissão de doenças.

Já os aterros sanitários são uma maneira “menos pior” de armazenagem de lixo. Nos aterros, o lixo é depositado em buracos impermeabilizados no chão, impedindo que o chorume vaze e contamine o solo. Dentro do buraco, o lixo é depositado, alternando camadas de resíduos e terra ou entulho de construções.

Apesar de evitar alguns tipos de poluição, o gás emitido pela decomposição do lixo ainda é um potencial poluidor do ar, contribuindo para o aumento do efeito estufa. Além disso, o espaço para a armazenagem do lixo é finito e muitas grandes cidades já convivem com o esgotamento de espaço nos aterros. Ainda, podemos citar a inutilização dos materiais que são descartados dessa maneira.

Porém, muito do lixo produzido não tem nem ao menos essa destinação. Boa parte acaba indo parar na natureza, sem qualquer tratamento. Estima-se, por exemplo, que existam mais de 150 milhões de toneladas de plásticos (alô, canudinhos!) nos oceanos.

Pesquisadores estimam que em 2050 existam mais resíduos plásticos nos mares do que peixes. Com isso, estamos não somente destruindo os ecossistemas aquáticos, mas também destruindo a enorme fonte de alimentos (e também de oxigênio) que são os oceanos.

tartaruga presa no lixo
Tartaruga que revê seu corpo deformado ao longo do seu crescimento por embalagem plástica.
Veja no vídeo a seguir uma equipe de pesquisadores tentando retirar um canudo da narina de uma tartaruga:

Processos de produção, consequências e possíveis alternativas

Como você viu no início do texto, nós temos pouco contato com os processos de produção do que consumimos. Porém, conhecê-los é fundamental para entendermos o problema global que é o lixo.

Atualmente, em geral, os processos produtivos são lineares: começam com a extração de matéria prima e terminam com o lixo. Ao contrário do que ocorre na natureza, onde encontramos processos cíclicos (a matéria presente um ser vivo, retorna ao ciclo de vida através da sua decomposição).

Em um processo linear de produção como o que temos realizado, acabamos perdendo nas duas pontas: precisamos impactar o meio ambiente retirando matéria prima (que pode se esgotar, pois muitas vezes se tratam de recursos não renováveis) e impactá-lo novamente produzindo lixo (e desperdiçando matéria-prima, fazendo com que haja a necessidade de retirá-la novamente).

Veja o exemplo do alumínio: este metal é extraído de um minério chamado bauxita. Para produzir um quilo de alumínio são necessários aproximadamente quatro quilos de bauxita. Ou seja, sobram três quilos de dejetos. Além disso, por ser um minério, sua extração geralmente exige que florestas sejam retiradas para a exploração dos solos.

É necessário, portanto, que nossos processos de produção imitem os processos naturais. Precisamos fazer com que os processos sejam cíclicos, permitindo que materiais já utilizados sejam reincorporados na cadeia produtiva, através da reciclagem, por exemplo.

Porém, é necessário também entender que temos um consumo exagerado na sociedade atual, que pode levar a um esgotamento dos recursos naturais. Este consumo, incentivado das mais diferentes maneiras (crescimento populacional, novas tecnologias em trocas constantes, utilização exagerada de materiais descartáveis, incentivo midiático) precisa também ser reduzido. E, isso é meu papel, seu também e de cada um de nós.

Para finalizar sua revisão e aprender mais sobre a contaminação dos mares com plástico, veja o documentário “Um Oceano de plástico” (ative as legendas):

 

Sobre o(a) autor(a):

Juliana é bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e cursa o Mestrado em Educação na mesma instituição. Ministra aulas de Ciências e Biologia em escolas da Grande Florianópolis desde 2007 e é coordenadora pedagógica do Blog do Enem.