Poesia Marginal

Veja esta revisão sobre os autores da chamada Poesia Marginal, ou Geração Mimeógrafo. Esse movimento atuou no Brasil no final da década de setenta e, durante a ditadura envolveu, estrategicamente, diferentes veículos de comunicação, sobretudo, a música.

O principal problema da geração que você verá aqui é a mudança no paradigma de produção e distribuição da obra de arte. A razão, nesse caso, também se dá por conta de uma situação histórica extrema, que foi a ditadura militar brasileira, que vigorou entre os anos de 1964 a 1983.

Muita gente que hoje está prestando o Enem não faz idéia do que seja um “mimeógrafo”, mas foi um instrumento utilizado, sobretudo, por professores, para fazer cópias de textos e provas para seus alunos (como minha mãe fazia). O fato é que esse tipo de registro era então o mais simples e precário, formas artesanais de fazer publicações e romper com o mercado editorial e a censura.

Conheça melhor agora o contexto e autores dessa geração. Em especial, Ana Cristina César, poetiza carioca que é presença constante em exames de vestibulares e no Enem.

Contexto da poesia Marginal

Historicamente, este período ficaria marcado pelo recrudescimento da Ditadura Militar e pela promulgação do Ato Institucional nº-5, que instaurava a censura prévia a qualquer referência que pudesse representar um indício de subversão ao regime.

Da condição da cultura pós-AI-5, aponta-se uma discussão forte que fora colocada pelo jornalista Zuenir Ventura, ainda no início dos anos 70, e que demonstrou um olhar, uma perspectiva sobre o estado das coisas e da expectativa sobre a arte de então: o vazio cultural. A poesia criada na década de 70 sentia ainda o punho forte da ditadura militar, que só daria fim a sua censura em 76. Editoras chegaram a ser invadidas e os seus donos presos, e havia uma vigilância agressiva em torno do setor editorial. Neste contexto conturbado, uma geração de poetas surgiu distribuindo a sua poesia nas ruas, distribuída na porta de bares e esquinas.

Ao lado, a obra “Seja Marginal, Seja Herói” (1968), de Hélio Oiticica, artista plástico ligado ao movimento Tropicalista e à poesia Marginal. A foto é da captura e morte de Cara de Cavalo, bandido conhecido no Rio de Janeiro por matar um policial. Fonte: http://portugues.uol.com.br/literatura/poesia-marginal.htm

Surge a Poesia Marginal como Movimento de Vanguarda

Para Heloísa Buarque de Holanda, organizadora da célebre antologia 26 poetas hoje, a poesia marginal pode ser definida como um acontecimento cultural do início da década de setenta que conseguiu reunir em torno da poesia um grande público jovem, até então ligado mais à música, ao cinema, shows e cartoons. Além disso, ela obteve um impacto significativo neste ambiente repressivo, buscando outras alternativas àquele mercado engessado pelos modos de produção e distribuição controlados pela censura. Essa poesia era dotada também, muitas vezes, de um composto gráfico, plástico e performático, que oferecia obras biodegradáveis, desincumbidas de uma produção convencional e perene ou do reconhecimento da crítica informada pelos padrões canônicos.

Segundo Ana Cristina César, é por essa época que começa a chegar ao país a informação da contracultura, que questiona os valores culturais estabelecidos, “colocando em debate as questões do uso das drogas, a psicanálise, o rock, os circuitos alternativos, jornais underground, discos piratas, etc.” (CÉSAR, 1993, p. 125)*

A ausência de hierarquização do espaço nobre da poesia (tanto em seus aspectos materiais gráficos quanto no plano do discurso) faz lembrar a entrada em cena, nos anos 60, de um gênero de música que, fazendo apelo tanto ao gosto culto quanto ao popular, conquistou a juventude universitária e ganhou seu lugar no quadro cultural. Esta foi a época dos Festivais da Canção e do Tropicalismo, do aparecimento de Caetano, Gil e Chico, enfim, daquele que se convencionou a chamar de MPB:

Paulo Leminski, Ana Cristina César e Torquato Neto. Fonte: http://portugues.uol.com.br/literatura/poesia-marginal.htm

Ana Cristina César (1965-1983)

Ana Cristina César começou a publicar os seus poemas no final da década de setenta, e, posteriormente, em 1983, ano de sua morte, seria publicadoo seu primeiro livro intitulado A teus pés.

A poetiza foi a criadora de poemas profundamente sensíveis à realidade da mulher moderna, que juntamente com suas traduções, artigos em revistas e jornais compuseram uma obra muitas vezes feminista, sensual e influente. Sua formação e família culta permitiram que a autora construísse uma obra importante em uma vida curta e rica em consideração vários aspectos.

O primeiro deles é talvez a forma de sua poesia, que se apresenta tanto em forma de versos como em prosa poética, em forma de diários com datas confusas e não lineares, portanto, é difícil determinar um padrão pelo qual a poetiza teve preferência, apesar do uso recorrente de alguns recursos poéticos. O conteúdo versado pela autora passa muito pelo mundo existencial da mulher, com algumas poesias sentimentalistas, amorosas e sensuais, sobre o cotidiano e com muitas referencias culturais.

Enquadrada na geração dos poetas marginais da década de 1970, suas obras possuem características peculiares, as quais demonstram o quanto Ana Cristina Cesar contribuiu para a literatura brasileira. Seus poemas e prosas que misturam páginas de diário, impressões do cotidiano, correspondências, reflexões existenciais e metalinguísticas, revelam o tom de intimidade com o leitor. Suas obras são intimistas, quase autobiográficas. São recorrentes os temas como amor, paixão, desejo, as incertezas da vida, as impressões do cotidiano e da vida urbana em uma poesia dolorosa e ao mesmo tempo, delicada. Seus traços literários são marcados pelo tom coloquial, pela experiência imediata e cotidiana, prioridade e gosto pelo semântico, misto de pessoa e personagem, textos quase sempre na primeira pessoa, confessionais e dialógicos: pessoa e personagem, ficção e realidade.

Ana criou uma dicção que conjuga prosa e poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino – pois a mulher moderna é livre, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época. Ainda segundo Serpa:

Ana Cristina Cesar suicidou-se em 29 de outubro de 1983, aos 30 anos, atirando-se da janela do 13º andar do apartamento de seus pais, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Veja agora alguns exercícios sobre a poeta e a Poesia Marginal:

(Exercício do professor)

Samba-canção
Ana Cristina Cesar
Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

1. Identifique marcas da cultura popular no poema e explique a sua presença.
2. A este poema poderia ser atribuído um viés confessional? Justifique sua resposta.
3. Explique de que modo se concretiza a regularidade rítmica deste poema.
Resposta:
1. Surgindo de forma espontânea, com calculada naturalidade, temos expressões extraídas do universo da música popular, como o título “Samba-canção” e o verso da letra de uma marchinha de carnaval interpretada por Carmen Miranda: “Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim”. Afim de dar um caráter coloquial ao poema, há também um linguajar corriqueiro, que desmistifica a linguagem sublimada da poesia erudita e aproxima o poema do leitor comum.
2. Na medida em que a poeta intensifica um diálogo auto-analítico“embora um pouco burra, / porque inteligente me punha/ logo rubra, ou ao contrário, cara”, que expõe as sua intimidade e inseguranças, haverá um poema que apropria-se deste estilo confessional, o qual se desloca sem hesitação para questões particulares da autora, como a sua relação com o próprio corpo.
3. O ritmo do poema marginal, indo da prosa à poesia, adere à linguagem irregular da fala e dá vazão ao estilo descontínuo dos versos. O uso de enjambements, que sugerem a fragmentação da fala, reforça este efeito.

(Enem- 2016)
Primeira lição

Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro.
O gênero lírico compreende o lirismo.
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal.
É a linguagem do coração, do amor.
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os versos sentimentais eram declamados ao som da lira.
O lirismo pode ser:
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a morte.
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres.
c) Erótico, quando versa sobre o amor.
O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio.
Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes.
Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta.
Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado.
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração.
Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares.
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma pessoa morta.
CESAR, A. C. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
No poema de Ana Cristina Cesar, a relação entre as definições apresentadas e o processo de construção do texto indica que o(a)
a) caráter descritivo dos versos assinala uma concepção irônica de lirismo.
b) tom explicativo e contido constitui uma forma peculiar de expressão poética.
c) seleção e o recorte do tema revelam uma visão pessimista da criação artística.
d) enumeração de distintas manifestações líricas produz um efeito de impessoalidade.
e) referência a gêneros poéticos clássicos expressa a adesão do eu lírico às tradições literárias.

Resposta: Alternativa “b”. O diário e seu tom confessional são comuns na poesia de Ana Cristina César.

(ENEM – 2016)

Sem acessórios nem som

Escrever só p ara me livrar

de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto cor to os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura d e jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de r ato.

FREITAS FI LHO, A. Máquina da escrever : poesia re unida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta para uma concepção de atividade poética que põe em evidência o(a)

a) angustiante necessidade de produção, presente em “Escrever só para
me livrar/ de escrever”.
b) imprevisível percurso da composição, presente em “no atalho aberto a
talhe de foice/ no caminho de rato”.
c) agressivo trabalho de supressão, presente em “corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega e bruta”.
d) inevitável frustração diante do poema, presente e m “Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo”.
e) conflituosa relação com a inspiração, presente e m “ sentindo falta d os acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão”.

Resposta: Alternativa”c”.

(Enem – 2012)

Logia e mitologia
Meu coração
de mil e novecentos e setenta e dois
já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras
que há cabras malignas que há
cardumes de hienas infiltradas
no vão da unha na alma
um porco belicoso de radar
e que sangra e ri
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória
centuriões sentinelas
do Oiapoque ao Chuí.
CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
O título do poema explora a expressividade de termos que representam o conflito do momento histórico vivido pelo poeta na década de 1970. Nesse contexto, é correto afirmar que
a) o poeta utiliza uma série de metáforas zoológicas com significado impreciso.
b) “morcegos”, “cabras” e “hienas” metaforizam as vítimas do regime militar vigente.
c) o “porco”, animal difícil de domesticar, representa os movimentos de resistência.
d) o poeta caracteriza o momento de opressão através de alegorias de forte poder de impacto.
e) “centuriões” e “sentinelas” simbolizam os agentes que garantem a paz social experimentada.

Resposta: Alternativa “d”.

Dicas: CÉSAR, A. Escritos no Rio. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Brasiliense, 1993.
HOLLANDA, H. Impressões de viagem. CPC, vanguarda e desbunde: 1960/70. São Paulo: Brasiliense, 1980.
____. 26 poetas hoje. Antologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
SCHWARZ, R. Cultura e política, 1964-1969: alguns esquemas. In:____. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978

Assista ao vídeo sobre Poesia Marginal para complementar a aula escrita:

Confira também esse pequeno documentário sobre a poeta Ana Cristina Cesar do canal Futura: