Primeira Fase Modernista no Brasil

Fique por dentro de tudo que aconteceu na Primeira Fase do Modernismo Brasileiro: as características, os escritores e suas obras, os intelectuais e demais artistas envolvidos, os movimentos e as famosas revistas. É um conteúdo contemplado pela prova de Linguagens do Enem!

Nesta aula de Literatura você vai aprofundar o conteúdo referente à Primeira Fase Modernista no Brasil e sua repercussão no cenário político e artístico do país. Trata-se de um período iniciado em 1922, junto à Semana de Arte de Moderna, e que se estendeu até o ano de 1930. Além da apresentação de suas características peculiares, seus escritores e suas respectivas obras, bem como de outros intelectuais e artistas envolvidos, o texto também apresentará o contexto histórico e as revistas e movimentos lançados à sua época.

Primeira fase modernista
Menino com lagartixas (1924), de Lasar Segall.

O movimento modernista

O Modernismo é a escola literária que se inicia em 1922, depois da Semana de Arte Moderna, e se estende até o final dos anos 1970. Didaticamente, é dividido em três fases ou gerações e cada uma desenvolve temas, gêneros e autores diversos.

Ainda que tenha elementos muito diferentes, o termo “Modernismo” abarca as manifestações artísticas que foram fortemente influenciadas pelas vanguardas europeias. Além disso, essas manifestações se valem da liberdade formal e temática alcançada no começo do século XX.

Primeira Fase Modernista

A Primeira Fase Modernista Brasileira está compreendida no período de 1922 (Semana de Arte Moderna) a 1930. Seu projeto e discurso estéticos são radicais. Isso porque os artistas dessa fase estavam preocupados em romper com as regras do passado e produzir uma arte que fosse mais condizente com a realidade nacional.

Os mesmos artistas que organizaram a Semana de Arte Moderna deram continuidade às propostas do evento. Esse grupo ansiava por uma nova produção nacional que fosse mais condizente com a realidade local. Além disso, esses artistas e intelectuais estavam em busca de uma definição, de uma identidade. Por isso defendiam o desligamento com qualquer manifestação que se ligasse ao passado, especialmente com o Parnasianismo.

Nessa fase, o projeto inicial de ruptura com os modelos tradicionais é posto em evidência. A tradição neste momento pode ser sintetizada na estética do Parnasianismo. A linguagem e as formas cultuadas como verdades absolutas são violentamente questionadas. Há também a necessidade de chocar o público, daí o radicalismo que permeia o movimento.

Do ponto de vista formal, propunham o antiacademicismo, o uso da oralidade e do verso livre, a instantaneidade e a paródia. Desenvolvia-se um nacionalismo crítico e ufanista que se voltava para o passado procurando rever seus pontos de vista. Foi feita uma releitura crítica do nosso passado, denunciando diversas situações e, ao mesmo tempo, exaltando o local e a produção dos artistas locais.

Estude mais sobre a Semana de Arte Moderna com o vídeo do nosso canal!

Revistas e manifestos da Primeira Fase Modernista

A Primeira Fase Modernista também ficou conhecida pelas suas revistas e manifestos.  Nessa fase, a produção literária teve sua maior representatividade no campo da poesia, embora a prosa também tenha sido desenvolvida em menor escala. Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira são os principais escritores do período. Alcântara Machado, Raul Bopp, Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo também compõem o grupo de escritores dessa época.

Artistas de outras áreas também se destacam nessa primeira fase. É o caso de Heitor Villa-Lobos, maestro e compositor brasileiro; de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Lasar Segall, artistas plásticos; e do escultor Victor Brecheret.

Como mencionado anteriormente, essa fase ficou conhecida pelas revistas e pelos manifestos. Veremos agora os principais.

Revista Klaxon
primeira fase modernista
Capa da primeira edição da Revista Klaxon (1922)

Publicada em 1922 e 1923, surgiu como uma extensão da Semana de Arte Moderna. Seu nome faz referência às buzinas de carros, exaltando os tempos modernos e a tecnologia. Seu design era inovador, e ela contemplava publicações inéditas de artistas nacionais e estrangeiros que estivessem de acordo com os ideais modernistas.

Seu projeto gráfico era diferente, com fontes inusitadas e disposição das páginas pouco usuais para os padrões da época. Até os anúncios publicados nessa revista deviam seguir a estética modernista, como podemos ver na propaganda abaixo:

Propaganda da Lacta, fabricante de chocolates, veiculada na Revista Klaxon: disposição gráfica totalmente inovadora para os padrões da época.
Confira mais detalhes sobre a Revista Klaxon assistindo ao vídeo produzido pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Manifesto Pau-Brasil
primeira fase modernista
Capa da primeira edição do livro Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, ilustrado por Tarsila do Amaral

Trata-se de um artigo em defesa de uma arte essencialmente nacional, que se volta para a realidade local, funcionando como um redescobrimento da terra brasileira. O autor, Oswald de Andrade, acreditava que a poesia deveria se renovar, recriar o local, valendo-se de uma escrita cheia de oralidade e de temas nacionais, desde o descobrimento até a vida cotidiana da época.

Esse manifesto foi publicado, primeiramente, no Correio da Manhã, jornal de grande circulação no Rio de Janeiro.  Somente depois Oswald de Andrade lança o livro homônimo, em 1925, que continua a síntese das ideias defendidas.

A pequena publicação tem capa e ilustrações de Tarsila do Amaral, esposa de Oswald e grande representante do Modernismo nas artes plásticas. Além disso, apresenta um prefácio de Paulo Prado, que serve até hoje para os estudos modernistas.

Verde-Amarelismo

Como reação ao nacionalismo “afrancesado” de Oswald de Andrade e da Poesia Pau-Brasil, Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia, Plínio Salgado, entre outros artistas da época, decidiram lançar o movimento Verde-Amarelista (1926). Trata-se de um movimento que defende uma produção de caráter ainda mais ufanista e primitivista. O nome faz alusão às cores da bandeira como maneira de ressaltar os elementos patrióticos na sua forma mais ideal.

Esse grupo entendia que as ideias de Oswald de Andrade ainda estavam muito contaminadas por um ponto de vista estrangeiro. Neste momento, observa-se uma cisão do movimento modernista. De um lado os artistas de esquerda, ligados à burguesia e às mudanças sociais de caráter mais democrático, como Oswald de Andrade. De outro lado, os artistas de direita, em especial Plínio Salgado, que radicalizavam o ponto de vista, com propostas de caráter fascista.

Saiba mais sobre Oswald de Andrade assistindo ao documentário:

Depois de algumas manifestações de Oswald ironizando a postura do grupo, surge, em 1927, o Grupo Anta, cujo nome é uma referência ao animal venerado pela tribo tupi. Na verdade, trata-se de uma facção do próprio movimento Verde-Amarelista, composta por Plínio Salgado e Raul Bopp. Esses ideais culminam no integralismo, doutrina ultraconservadora, que prega a ordem e a paz durante o governo de Getúlio Vargas.

Revista de Antropofagia

Em 1928, Oswald de Andrade reage aos ataques do Grupo Anta e publica o Manifesto Antropófago na primeira edição da Revista de Antropofagia, organizada pelo próprio Oswald, por Alcântara Machado e Raul Bopp.

O nome surge por conta de uma tela pintada por Tarsila do Amaral para presentear Oswald: Abaporu, que em tupi significa “homem que come”.

Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral: a síntese dos ideais do Movimento Antropofágico

Do ponto de vista teórico, trata-se de uma continuação do movimento Pau-Brasil. Propunha uma revisão da dependência cultural do Brasil diante das produções estrangeiras, em especial europeias.

Capa da edição fac-similar com os 16 números da Revista Antropofagia.

Assim, nasce a ideia de “deglutição” dos elementos estrangeiros, isto é, acreditavam que a cultura brasileira poderia se valer dos repertórios de fora. No entanto, essas a cultura nacional deveria adaptar, transformar, ingerir essas informações de fora de tal forma que elas se tornassem locais.

Aprenda mais sobre os movimentos da Primeira Fase Modernista do Brasil assistindo ao vídeo do nosso canal!

Exercícios

 

01) (Enem-2012)

O trovador

 

Sentimentos em mim do asperamente

dos homens das primeiras eras…

As primaveras do sarcasmo

intermitentemente no meu coração arlequinal…

Intermitentemente…

Outras vezes é um doente, um frio

na minha alma doente como um longo som redondo…

Cantabona! Cantabona!

Dlorom…

Sou um tupi tangendo um alaúde!

ANDRADE, M. In: MANFIO, D. Z. (Org.) Poesias completas de Mário de Andrade. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.

Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é:

a) abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, remete à brasilidade.

b) verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.

c) lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom” (v. 9).

d) problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.

e) exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.

 

02) (Enem-2013)

O poema de Oswald de Andrade remonta à ideia de que a brasilidade está relacionada ao futebol. Quanto à questão da identidade nacional, as anotações em torno dos versos constituem:

a) direcionamentos possíveis para uma leitura crítica de dados histórico-culturais.

b) forma clássica da construção poética brasileira.

c) rejeição à ideia do Brasil como o país do futebol.

d) intervenções de um leitor estrangeiro no exercício de leitura poética

e) lembretes de palavras tipicamente brasileiras substitutivas das originais.

 

Questão 3 (Enem-2014)

Camelôs

Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:

O que vende balõezinhos de cor

O macaquinho que trepa no coqueiro

O cachorrinho que bate com o rabo

Os homenzinhos que jogam boxe

A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado

E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa

[alguma.

Alegria das calçadas

Uns falam pelos cotovelos:

— “O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai

buscar um pedaço de banana para eu acender o charuto.

Naturalmente o menino pensará: Papai está malu …”

Outros, coitados, têm a língua atada.

Todos porém sabem mexer nos cordéis como o tino

[ingênuo de demiurgos de inutilidades.

E ensinam no tumulto das ruas os mitos heroicos da

[meninice …

E dão aos homens que passam preocupados ou tristes

[uma lição de infância.

BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

Uma das diretrizes do Modernismo foi a percepção de elementos do cotidiano como matéria de inspiração poética. O poema de Manuel Bandeira exemplifica essa tendência e alcança expressividade porque:

a) realiza um inventário dos elementos lúdicos tradicionais da criança brasileira.

b) promove uma reflexão sobre a realidade de pobreza dos centros urbanos.

c) traduz em linguagem lírica o mosaico de elementos de significação corriqueira.

d) introduz a interlocução como mecanismo de construção de uma poética nova.

e) constata a condição melancólica dos homens distantes da simplicidade infantil.

 

01) Gab: D

02) Gab: A

03) Gab: C

Sobre o(a) autor(a):

Texto produzido pelo Professor João Paulo Prilla para o Curso Enem Gratuito. JP é licenciado em Letras- Português, Inglês e respectivas Literaturas (2010) pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ministra aulas de Literatura, Língua Portuguesa e Redação em escolas da Grande Florianópolis desde 2011.