O teatro de Nelson Rodrigues

Conheça a inovadora peça Vestido de Noiva e as características da obra de Nelson Rodrigues. Revise Literatura para o Enem!

Um dos maiores ícones do teatro e jornalismo brasileiro, Nelson Rodrigues possui uma obra de popular e atual. Você conhece o escritor? Não? Então estude Literatura brasileira com esta aula sobre Nelson Rodrigues e mande bem no Enem e nos vestibulares!

Nelson Rodrigues nasceu no Recife, em 1912. No entanto, foi no Rio de Janeiro, para onde se mudou com a família aos quatro anos de idade, que o escritor viveu toda a sua vida. Nelson cresceu entre exemplares de jornais, numa conhecida família de jornalistas. Tornou-se um jornalista prolífico, de intensa produtividade, que compreendia conto, crônicas e o teatro.

Sua primeira peça foi “A mulher Sem Pecado”, de 1941. A história de Lídia e Olegário gira em torno do ciúme absurdo que o marido tem da esposa. A obsessão de Olegário cresce a tal ponto que a esposa já não consegue mais ter paz, até as suspeitas do marido acabam tornando-se realidade.

A mulher sem pecado estreou pela Comédia Brasileira e não significou muita coisa ao público no pouco tempo que ficou em cartaz. Porém, rendeu a Nelson alguns bons elogios na imprensa, entre os maiores, o do poeta Manuel Bandeira.

Vestido de Noiva

Escrita em 1943, “Vestido de Noiva” é a peça teatral mais aclamada de Nelson. A trama mostra a protagonista, Alaíde, que logo no início é atropelada por um carro e submetida a uma cirurgia. Inconsciente, em estado de coma, ela devaneia e revive os conflitos com sua irmã Lucia, de quem roubara o amor de Pedro. Enquanto está casada com Pedro, este protagoniza um caso adúltero com Lúcia, personagem com quem primeiro ia se casar.

Somado a tudo isso, a estranha figura de uma cafetina, assassinada em 1905, Madame Clessi, cujo diário Alaíde encontrara no sótão de casa. São as interações surreais entre as duas que vão revelando ao público suas histórias prévias e o desenrolar da trama. Contudo, há vínculos conflitantes entre todos os personagens, cujas relações de desejo são também de ódio.

A ação se desenrola ao longo de três atos. Os diálogos são ágeis, entrecortados e sugestivos, e incorpora-se ao real, por meio da representação, o imaginário e o alucinatório. Com a direção do polônes Zbigniew Marian Ziembiński, a peça estreou no Municipal em 28 de Dezembro de 1943, marcando o início da moderna dramaturgia brasileira.

Estrutura da obra

A representação é dividida em três planos: da alucinação, da memória e da realidade, há no palco também duas escadas laterais. Com alterações rápidas de ambiente – que mostram Alaíde ora vestida de noiva, ora na maca do hospital – somam-se 140 mudanças de cena, 132 efeitos de luz, além de mesas e cadeiras movimentadas por fios invisíveis para alterar o cenário com rapidez.

A estrutura física é fundamental na peça. A ação se desenrola em três atos, cuja relação não é exatamente cronológica, a não ser no plano da realidade, o qual acompanha a degradação do estado de saúde de Alaíde. A perspectiva da peça foge à linearidade – os planos ocorrem, no tempo da história, concomitantemente – e é quase aparentemente caótica. Como referido, são três planos, divididos pelo cenário:

1) Plano da realidade – Alaíde é atropelada e levada ao hospital. Enquanto os médicos tentam recuperá-la, a imprensa divulga a notícia do trágico acidente. Não resistindo aos ferimentos, Alaíde morre.

2) Plano da alucinação – Alaíde está em busca de uma mulher misteriosa, Madame Clessi, prostituta que fora assassinada pelo namorado de dezessete anos. Os diálogos entre ambas são esclarecedores e convergem para a resolução dos dramas da personagem central.

3) Plano da memória – as lembranças do passado de Alaíde vêm à tona e se tornam em imagens do plano da alucinação.

Nelson Rodrigues - 1
Nelson Rodrigues. Fonte: https://bit.ly/2T7Bi4l

Divisão em Atos

Primeiro Ato

No primeiro ato ocorre o acidente com Alaíde, seguido dos delírios sobre Madame Clessi e a conversa entre os repórteres sobre o ocorrido. Inicia-se uma profunda jornada psíquica, que resgata o passado e a sua constituição.

Alaíde vê em Clessi uma espécie de modelo de liberdade e de transgressão dos valores sociais, ambas assumem personalidades opostas aos papeis sociais que representam. Vejamos um trecho desse ato, que inicia com o acidente de Alaíde, perceba como a mudança de cenário altera também os “planos” onde os diálogos ocorrem:

“(Apaga-se o plano da alucinação. Luz no plano da realidade. Sala de operação.)

1° MÉDICO – Pulso?
2° MÉDICO – 160.
1° MÉDICO – Rugina.
2° MÉDICO – Como está isso!
1° MÉDICO – Tenta-se uma osteossíntese!
3° MÉDICO – Olha aqui.
1° MÉDICO – Fios de bronze. (Pausa.)
1° MÉDICO – O osso! 3°
MÉDICO – Agora é ir até o fim.
1° MÉDICO – Se não der certo, faz-se a amputação. (Rumor de ferros cirúrgicos)
1° MÉDICO – Depressa!
(Apaga-se a sala de operação. Luz no plano da alucinação.)

(Nelson Rodrigues.Vestido de Noiva. p. 5. Fonte: http://semac.piracicaba.sp.gov.br/ceta/vestidodenoiva.pdf)

Segundo Ato

No segundo ato, no plano da realidade, ainda na mesa de cirurgia, o diálogo dos médicos sobre a saúde de Alaíde não é animador. No plano da alucinação, segue com o diálogo entre Alaíde e Clessi, intercalado pelos planos da memória.

Surge, de forma sugestiva, a Mulher de Véu (véu de noiva) que participa da interação entre as duas personagens. O apelo da morte surge sempre que um personagem se mostra obstáculo às vontades egoístas do outro.

“ALAÍDE – Você quer dizer talvez que me mata?
MULHER DE VÉU (mais a sério) – Quem sabe? (noutro tom) (baixo) Você acha que eu não posso matar você? (Luz no plano da alucinação onde já está uma mulher, espartilhada, com vestido à 1905, e f az o sinal da cruz ante o invisível ataúde. A referida senhora, depois de cumprimentar os dois cavalheiros presentes, tira da bolsa um lencinho e chora em silêncio. Luz no plano da memória.)
ALAÍDE (afirmativa) – Você não teria coragem. Duvido!
MULHER DE VÉU – Talvez não tenha coragem para matar. Mas para isso tenho!
(Esbofeteia Alaíde. Esta recua, levando a mão à face. Luz sobre Clessi e o namorado. Clessi numa recamier. Namorado, uniforme colegial cáqui. O rapaz tem a mesma cara de Pedro. Plano da memória.)
CLESSI (carinhosa e maternal) – Eu gosto de você porque você é criança! Tão criança!
FULANO (suplicante) – Vai? Vamos ao piquenique, amanhã?
CLESSI (negligente) – Onde é?
FULANO – Paquetá. Todo o mundo vai na barca das dez…
CLESSI – Não.
FULANO (suplicante) – Amanhã é domingo!
CLESSI (sem Ihe dar atenção) – Tão branco – 17 anos! As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos!”

(Nelson Rodrigues.Vestido de Noiva. p. 12. Fonte: http://semac.piracicaba.sp.gov.br/ceta/vestidodenoiva.pdf)

Outras figuras enigmáticas surgem em torno da cena: Mulher Inatural, Rapaz de Barba, Rapaz Romântico. O ato termina com Pedro, no plano da realidade, inquirindo os médicos sobre as circunstâncias do acidente e o estado de Alaíde.

Terceiro Ato

O terceiro e último ato tem como desfecho a morte da protagonista Alaíde, o seu último diálogo, com Lúcia, e a fala dos personagens do plano da realidade entre si. Também traz a avaliação final de médicos e repórteres sobre a tragédia.

“(No plano da realidade.)
PEDRO (em voz baixa) – Lúcia!
LÚCIA (tomando um choque, levantando-se) – Que é? Que horas são?
PEDRO – 3 horas.
LÚCIA – Fique longe de mim! Não se aproxime!
PEDRO – Mas que é isso?
LÚCIA (com ódio concentrado) – Nunca mais! Nunca mais quero nada com você! Juro!
PEDRO – Você enlouqueceu? O que é que eu fiz?
LÚCIA (obstinada) – Jurei diante do corpo de Alaíde!
PEDRO (chocado) – Você fez isso?”
(..)
“LÚCIA (impressionadíssima, agora para Pedro) – Agora, quando penso em Alaíde, só consigo vê-la de noiva.”

(Nelson Rodrigues.Vestido de Noiva. p. 23. Fonte: http://semac.piracicaba.sp.gov.br/ceta/vestidodenoiva.pdf)

Após a morte de Alaíde, Pedro e Lúcia, que viam na protagonista um obstáculo para o seu amor, rompem. Pois a culpa leva Lúcia a prometer, diante do cadáver da irmã, jamais ficar com Pedro.

O desfecho trágico, o conflito e o drama familiar acompanham quase todas as obras de Nelson, tanto no teatro quanto no conto e na crônica. Sábato Magaldi, importante crítico do teatro nacional, dividiu a obra de Nelson Rodrigues em três grupos, de acordo com suas características: “Peças psicológicas”, “Peças míticas” e “Tragédias cariocas”.

Estes termos reafirmam a abordagem e os temas principais do autor, bem como o seu estilo realista, voltado às contradições morais da classe média carioca e de suas instituições, sobretudo, o casamento. O erotismo, por esse motivo, é também um elemento recorrente nas peças de Nelson.

É notável, portanto, como a produção teatral de Nelson Rodrigues é vasta e bastante desenvolvida, contando ainda com obras como: A mulher sem pecado; Valsa nº 6; Viúva, porém honesta; Anti-Nélson Rodrigues; Álbum de família; Anjo negro; Senhora dos Afogados; Doroteia; A falecida; Perdoa-me por me traíres; Os sete gatinhos; Boca de ouro; O beijo no asfalto; Bonitinha, mas Ordinária; Toda Nudez Será Castigada e A serpente.

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Nelson Rodrigues. Fonte: https://bit.ly/2SgfM9c
Para finalizar sua revisão sobre Nelson Rodrigues, veja este vídeo do canal TdM 08:

Vestido de Noiva – Nelson Rodrigues

Exercícios:

1. (PUC-SP) De Vestido de Noiva, peça de teatro de Nelson Rodrigues, considerando o tema desenvolvido, NÃO se pode dizer que aborda:

a) o passado e o destino de Alaíde por meio de suas lembranças desregradas.

b) o delírio de Alaíde caracterizado pela desordem da memória e confusão entre a realidade e o sonho.

c) o mistério da imaginação e da crise subconsciente identificada na superposição das figuras de Alaíde e de Madame (Clessi.

d) o embate entre Alaíde, com suas obsessões e Lúcia, a mulher-de-véu, antagonista e um dos móveis da ação.

e) a vida passada de Alaíde revelada no casual achado de um velho diário e de um maço de fotografias.

2. (PUC-SP) Lúcia (estendendo o braço) — O bouquet.

(Crescendo da música funeral e festiva. Quando Lúcia pede o bouquet, Alaíde, como um fantasma, avança em direção da irmã, por uma das escadas laterais, numa atitude de quem vai entregar o bouquet. Clessi sobe a outra escada. Uma luz vertical acompanha Alaíde e Clessi. Todos imóveis em pleno gesto. Apaga-se, então, toda a cena, só ficando iluminado, sob uma luz lunar, o túmulo de Alaíde. Crescendo da Marcha Fúnebre. Trevas)

Essa marcação da cena final da peça destaca o caráter extremamente sugestivo de Vestido de Noiva, qual seja, o da relação entre o:

a) amor e a morte.

b) crime e o castigo.

c) trágico e o cômico.

d) sexo e o desejo.

e) ciúme e a vingança.

3. (PUC-SP) A respeito da obra Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, é INCORRETO afirmar que:

a) apresenta um enredo que se apóia na ação de uma moça que roubou o namorado da irmã.

b) tem como verdadeiro núcleo e ponto de apoio de construção do texto o interesse de Alaíde por Madame Clessi, despertado pelos pormenores do diário e pelas fotografias encontradas no sótão.

c) se constrói a partir de três planos diferentes, dos quais o da alucinação se caracteriza como espaço de encontro de (laíde e Madame Clessi.

d) se desenvolve na faixa de tempo explicitada no plano da realidade, que vai do momento do acidente à morte de Alaíde.

e) está centrada na figura da mulher-de-véu, antagonista e móvel da ação e que provoca o desfecho trágico do assassinato de Pedro.

4. (PUC – CAMP) Quando se pensa numa peça como Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, a expressão separar o “joio do trigo” revela-se

a) adequada, ao se pensar na clara distinção que o autor estabelece entre os vícios e as virtudes.

b) adequada, ao se pensar no esforço que faz o autor para privilegiar o que é real e desprezar o que é imaginário.

c) adequada, ao se pensar que esse dramaturgo põe em cenas tipos bem definidos de heróis e de vilões.

d) inadequada, ao se pensar que esse dramaturgo só se interessa pelos bons sentimentos de suas personagens.

e) inadequada, ao se pensar na ambigüidade dos valores que se representam no plano real ou imaginário.

5. (UFAC) Em Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, observa-se a instauração de 3 planos distintos de ações. Considerando essa afirmativa, marque a alternativa que se relaciona corretamente com a obra.

a) Não há nenhuma relação evidente entre esses planos.

b) No plano da realidade, os conflitos familiares da protagonista são expostos.

c) No plano do delírio, a protagonista revela toda sua verdadeira natureza.

d) No plano da realidade, a protagonista encontra as repostas que busca.

e) Na plano da memória, a protagonista resgata aspectos de sua vida.

Gabarito:

1) e

2) a

3) e

4) e

5) e

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.