Palavras denotativas

As classes gramaticais em Língua Portuguesa são dez. Todavia, isso não quer dizer que todas as palavras pertencem a uma dessas classes. Nesta aula, vamos conhecer o que são palavras denotativas.

Talvez possa ser surpresa para alguns, mas existem, na língua, várias palavras que não fazem parte de uma classe morfológica específica. Essas palavras são erroneamente classificadas como advérbios. Isso porque não se encaixam nos critérios morfológicos e sintáticos que definem essas classes. Tais termos são chamados de palavras denotativas.

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Imagem 1: Fonte na imagem.

Na tirinha acima, durante a conversa entre Felipe e Mafalda, a palavra também foi utilizada várias vezes com o sentido de inclusão. Note que esse termo é fundamental para a construção do humor da tira.

Esse humor surge a partir constatação de que inúmeros objetos recebem o mesmo selo “made in Japan”. Mafalda, após examinar o próprio umbigo, percebe, mais tranquila, que ela não foi fabricada no Japão.

“Também” é uma palavra denotativa. Em seguida, vamos entender porquê.

Classificação das palavras denotativas

Primeiramente, vamos estudar como as palavras denotativas são classificadas. Elas podem ser classificadas a partir do sentido que trazem ao enunciado.

Por exemplo:

Palavras denotativas de inclusão: até, inclusive, mesmo, até mesmo, também.

Todos saíram correndo quando as portas se abriram, até mesmo aquela senhora!

Palavras denotativas de exclusão: apenas, senão, salvo, só, somente.

Dos vestibulandos que se inscreveram no concurso, só um será escolhido para receber a redação comentada.

Palavras denotativas de designação: eis.

Eis o campeão dos campeões!

Palavras denotativas de realce: cá, lá, só, é que.

Eu lá tenho tempo pra revisar tudo isso!

Rodrigo é que não vai ser ingênuo a ponto de não se defender!

Palavras denotativas de retificação: aliás, ou melhor, ou antes, isto é, melhor dizendo.

Eu tinha certeza, aliás, tinha quase certeza de que ela não iria à festa comigo.

Palavras denotativas de situação: afinal, agora, então, mas, e aí.

Afinal, quem vai me encarar no Fifa 20 hoje?

Mas quando é mesmo o dia da prova?

Como as palavras denotativas funcionam na fala?

Algumas palavras denotativas de situação são comumente utilizadas para indicar o início da fala num contexto de conversa. Posso apostar que você, estudante, ou já começou sua fala com algumas dessas expressões ou conhece alguém.

E então? Vamos revisar tudo ou não?

Usos dos advérbios e palavras denotativas

Em textos expositivos – como o ensaio, por exemplo – os advérbios têm uma função importante na construção de um sistema de referências para o leitor. Além disso, introduzem informações sobre as circunstâncias associadas a acontecimentos mencionados no texto. Isso permite ao autor intensificar o sentido de adjetivos por meio dos quais caracteriza aspectos do tema abordado.

Em seguida, usaremos o texto do antropólogo Darcy Ribeiro, pelo qual todas essas funções são exemplificadas, para ilustrar esta revisão:

“Confrontos

Que é o Brasil entre os povos contemporâneos? Que são os brasileiros? […]

Nós, brasileiros, […] somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade.

Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na dura busca de seu destino. […]

É de assinalar que, apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas, os brasileiros são, hoje, um dos povos mais homogêneos linguística e culturalmente e também um dos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma língua, sem dialetos. Não abrigam nenhum contingente reivindicativo de autonomia, nem se apegam a nenhum passado. Estamos abertos é para o futuro. […]

Nosso destino é nos unificarmos com todos os latino-americanos por nossa oposição comum ao mesmo antagonista, que é a América anglo-saxônica, para fundarmos, tal como ocorre na comunidade europeia, a Nação Latino-Americana sonhada por Bolívar. Hoje, somos 500 milhões, amanhã seremos 1 bilhão. Vale dizer, um contingente humano com magnitude suficiente para encarnar a latinidade em face dos blocos chineses, eslavos, árabes e neobritânicos na humanidade futura.

Somos povos novos ainda na luta para nos fazermos a nós mesmos como um gênero humano novo que nunca existiu antes. Tarefa muito mais difícil e penosa, mas também muito mais bela e desafiante. […]

O Brasil é a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso autossustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.”

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 409-411. (Coleção Companhia de Bolso). (Fragmento).

Análise do texto

Em seguida, vamos estudar a função dos advérbios, das locuções adverbiais e das palavras denotativas presentes no texto. Colorimos as palavras para ficar mais fácil reconhecê-las. Além disso, elas vêm na ordem em que aparecem no texto.

aqui: referência de lugar (Brasil).

jamais: referência de tempo associada à negação de um fato.

ainda: referência de tempo (algo que teve início como descobrimento e continua a acontecer atualmente).

por séculos: referência temporal (duração de um acontecimento).

assim: referência ao modo como viveram os mestiços brasileiros.

até hoje: referência temporal (ideia de limite: do início até hoje).

tão: intensificador do adjetivo (diferenciadas).

hoje: referência temporal.

mais: intensificador do adjetivo (homogêneos).

linguística e culturalmente: referência ao modo de integração dos brasileiros.

também: palavra denotativa de inclusão (referência ao próximo modo de integração dos brasileiros).

mais: intensificador do adjetivo (integrados).

socialmente: referência ao modo de integração dos brasileiros.

não: negação de algo.

hojeamanhã: referências temporais que, no texto, criam um contraponto entre o número de habitantes da América Latina no presente – 1995, no caso – e em uma projeção para o futuro.

ainda: referência temporal (a ação teve início no passado e continua até hoje).

nuncaantes: referências temporais que negam a existência anterior de um povo como o brasileiro.

muito: intensificador do advérbio (mais).

mais: intensificador de adjetivos (difícil, penosa).

também: palavra denotativa de inclusão (o texto evidenciará mais uma característica da tarefa realizada pelos brasileiros).

muito: intensificador do advérbio (mais).

mais: intensificador de adjetivos (bela, desafiante).

: referência temporal.

também: palavra denotativa de inclusão (o texto denotará mais uma característica do tamanho do Brasil).

agora: referência temporal.

amanhã: referência temporal.

mais: intensificador de adjetivos (alegre, sofrida, generosa, bela, luminosa).

O papel dos advérbios e das locuções adverbiais no texto

Primeiramente, observe que a repetição do advérbio de intensidade, nessa passagem, cria efeito estilístico ao construir um paralelismo sintático. Esse paralelismo demonstrando no texto acima está entre estruturas que se equivalem, todas enaltecedoras de características que fazem do povo brasileiro um povo singular.

Em seguida, repare como os advérbios auxiliam o autor a explicar o seu ponto de vista sobre a construção da identidade da nação brasileira. Como o assunto abordado foi a constituição brasileira, era necessário fazer várias referências a diferentes momentos do tempo em que aconteceram fatos marcantes no processo de definição desse povo. Portanto, sem os advérbios e as locuções adverbiais de tempo, seria impossível criar essas referências.

Além disso, os advérbios de modo e de intensidade ajudam a caracterizar melhor o que está sendo dito.

Ademais, a presença importante de palavras denotativas de inclusão. Ao longo do texto, elas auxiliam na construção de ligações coesivas. Isso porque informam ao leitor que ele está diante da enumeração de diferentes características, todas associadas a uma mesma questão.

Gostou da revisão? Esperamos muito que sim, estudante. Por fim, faça esses exercícios e assista a uma videoaula da professora Jaqueline, do canal Aula Top, sobre o assunto:

Em seguida, faça os exercícios que separei para você:

TEXTO: 1 – Comum à questão: 1    

palavras-denotativas-tirinha-armandinho
ARMANDINHO. sem titulo. Disponivel em: https://www.facebook.com/tirasarmandinho/
01 – (UNIRG TO/2019)

“Nesse não voto mais!” A palavra “mais”, nesse contexto, indica:

a) Adição;

b) Negação;

c) Ordem;

d) Tempo.

TEXTO: 2 – Comum à questão: 2    

tirinha-coffee-break
Disponível em: http://maisum.altervista.
org/2012/08/melhores-tiras-de-humor-2/
02 – (IFMT/2018)

No terceiro quadrinho, a personagem afirma “O acesso às redes sociais é totalmente liberado durante o expediente”. Nesta frase, a palavra destacada desempenha a função de:

a) Substantivo, porque vem acompanhado da expressão liberado.

b) Adjetivo, porque caracteriza o substantivo liberado.

c) Pronome, porque substitui o nome da empresa.

d) Advérbio, porque intensifica o termo liberado.

e) Verbo de ligação.

03 – (ESPM SP/2017)

Quando se perde o grau de investimento, corre-se o risco de uma debandada dos capitais estrangeiros, é preciso tomar medidas mais drásticas do que se desejaria

(Joaquim Levy).

O vocábulo grifado é:

a) advérbio, expressando a ideia de “nesse lugar”.

b) interjeição, traduzindo ideia de apoio, animação.

c) palavra expletiva (dispensável) ou de realce.

d) advérbio, expressando ideia de conclusão “então”.

e) substantivo, traduzindo ideia de “por outro lado”.

Gabarito: 1. D; 2. D; 3. D.

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.