Pandemia: Covid-19 e outras doenças históricas

Com o novo coronavírus atingindo a categoria de pandemia, muito tem se falado de outras doenças que assolaram a humanidade em diferentes momentos históricos. Conheça um pouco mais sobre este assunto nesta aula de História do Curso Enem Gratuito!

Em primeiro lugar, vamos entender o que significa o termo “pandemia”, bastante associado ao Covid-19, doença causada pelo coronavírus (SARS-CoV-2). Lembrando que essa doença passou a ser considerada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde em 11 de Março de 2020.

O conceito de pandemia corresponde a uma doença que assola as pessoas em diferentes partes do mundo num mesmo momento. Um mundo globalizado, onde os continentes mantêm fluxo diário de pessoas e mercadorias, torna-se mais propenso ao surgimento de pandemias.

Dessa forma, há uma dimensão histórica na propagação da Covid-19 e de outras doenças que já impactaram diferentes sociedades. Por exemplo: a peste bubônica e a gripe espanhola.

O contexto social, histórico, político e econômico de uma pandemia

Antes de mais nada, vamos falar de contextos. Além de nos encontrarmos em um mundo globalizado, outros aspectos influenciam o modo como nos relacionamos com as doenças. Esses aspectos podem ser políticos, sociais, culturais e econômicos.

Entre estes fatores está a possibilidade de acesso a tratamentos de saúde e as condições e qualidade de vida das pessoas. Da mesma forma, as relações que os indivíduos estabelecem com a natureza e seu meio. Por fim, as implicações religiosas, hábitos e costumes, a concepção de saúde e doença.

Tudo isso produz características próprias a surtos de doenças em diferentes sociedades em diferentes contextos. Além disso, a posição social que as diferentes pessoas ocupam num mesmo grupo também é histórica. Essa posição social produz efeito no modo como os sujeitos se comportam diante deste tipo de situação.

Ainda um pouco sobre história e saúde, é importante ressaltar o surgimento do tratamento dos feridos e doentes. Tal prática é realizada em diferentes sociedades há milhares de anos.

Atribui-se a origem da medicina ocidental, em uma visão possivelmente eurocêntrica, à Hipócrates. Na Grécia Antiga, ele teria modificado o paradigma das doenças. Ele fez isso procurando causas e tratamentos na natureza, ao invés de relacioná-los aos desígnios dos deuses. Além de Hipócrates, Galeno e Paracelso são outros nomes que entraram para a história da medicina ocidental.

Peste bubônica (peste negra)

pandemia doutor da praga
Figura 1: Gravura de médico utilizando vestes para evitar a contaminação da peste. Porém, tal traje teria surgido apenas no século XVII. Disponível em <http://twixar.me/5t2T>. Acessado em 17 de Abril de 2020.

Primeiramente, é importante compreender o contexto histórico dessa pandemia. A relação entre viagens, comércio e propagação de doenças está longe de ser algo atual. O caso da hecatombe indígena durante a conquista da América é um exemplo disto. Nessa época, europeus trouxeram doenças como a gripe, que dizimaram milhares de nativo americanos.

Todavia, antes mesmo da chegada de Colombo a este continente, outra doença havia entrado para a história. Isso porque dizimou milhões de europeus na Idade Média: a peste negra. Ela foi uma pandemia bastante conhecida por sua devastação.

Estima-se que um terço dos habitantes da Europa tenham sucumbido à peste no século XIV, na Idade Média. Este século ainda teria sido assolado pela Grande Fome e pela Guerra dos Cem Anos. Além disso, foi marcado por diversas revoltas camponesas, especialmente na França, onde ficaram conhecidas como jacquerries. Contudo, é importante destacar que ela não surgiu no medievo, sendo conhecida desde a Antiguidade.

A peste bubônica ficou mais conhecida como peste negra (provavelmente por conta dos tumores escuros que produzia nos sujeitos infectados). Diferente do coronavírus, a peste negra é uma doença bacteriana causada pela bactéria Yersinia pestis.

Além disso, ela provocava febre alta, dores e outros sintomas. O indivíduo infectado falecia em questão de poucos dias após a manifestação dos primeiros sintomas.

Isolamento social e quarentena na Idade Média

No século XIV, a doutrina católica dominava a mentalidade europeia de uma maneira mais ampla que nos dias atuais. Nessa época, era comum atribuir-se a causa da doença ao castigo divino. Todavia, hoje sabe-se que a doença é causada por uma bactéria que teria infectado pulgas que se propagaram através de ratos. Esses ratos, por sua vez, se multiplicavam através das insalubres cidades europeias.

Logo depois da infecção, os próprios doentes tornavam-se vetores da doença, o que provocou um isolamento social dos infectados. Existem várias teorias da vinda da doença para a Europa. Uma delas é a de que os ratos que carregavam as pulgas tenham vindo em navios com mercadorias do oriente.

Inclusive, o termo quarentena advém da prática adotada pelos portos italianos. Eles faziam as tripulações das embarcações esperarem quarenta dias antes de desembarcarem. Dessa forma, era possível combater a disseminação da peste. Mesmo após o século XIV, outros surtos de peste ocorreram por diversos períodos históricos.

Gripe espanhola

pandemia gripe espanhola
Figura 2: enfermos atingidos pela gripe espanhola. Disponível em < http://twixar.me/pt2T>. Acessado em 17 de Abril de 2020.

A gripe espanhola foi uma pandemia (portanto, atingiu sociedades em várias partes do planeta) que se disseminou pelo mundo no contexto do fim da Primeira Guerra Mundial.

A doença era provocada por uma mutação do vírus Influenza. O número de mortos varia, mas é calculado entre vinte e cinquenta milhões. Além disso, calcula-se entre quinhentos e seiscentos milhões de infectados.

Atribui-se parte considerável do ônus da propagação da doença ao contexto da guerra. Isso porque muitos conflitos ao longo da história foram vetores de propagação de doenças. A prática de utilizar cadáveres portadores de doenças em combates para enfraquecer inimigos foi registrada em diversos combates. Além disso, o contexto insalubre, a escassez de alimentos e a movimentação de tropas e suprimentos ajudaram na disseminação da gripe.

O termo gripe espanhola está atrelado ao fato dos jornais espanhóis terem divulgado amplamente notícias relacionadas a enfermidade. Em contrapartida a outros países, que preferiam censurar informações sobre a doença, na Espanha eram noticiadas. A gripe espanhola também foi motivo da adoção de isolamento social.

No Brasil, acredita-se que a doença chegou através de cidades com grandes portos como Salvador, Recife e Rio de Janeiro. O fato de tratamentos de saúde serem restritos a quem podia bancar agravou o impacto da doença. Justamente com o fenômeno da gripe espanhola, passa-se a discutir a criação de um sistema de saúde público. Contudo, o SUS (Sistema Único de Saúde) como o conhecemos, só veio a ser criado com a Constituição de 1988.

Por fim, veja o vídeo a seguir para entender melhor as diferenças entre a pandemia do Covid-19 e a da gripe espanhola:

Em seguida, resolva os seguintes exercícios sobre pandemias e doenças históricas:

Questão 01 – (FATEC SP) Observe o gráfico.

A leitura do gráfico permite concluir, corretamente, que o período de queda demográfica mais acentuada na Europa ocorreu

a) na primeira metade do século XI, devido ao período de secas que comprometeu as colheitas e provocou fome generalizada em toda a porção ocidental do Continente.

b) na primeira metade do século XII, quando a introdução de técnicas agrícolas não-sustentáveis provocou o esgotamento dos pastos e a diminuição pronunciada dos rebanhos bovinos.

c) na segunda metade do século XIII, devido à perseguição promovida pela Igreja Católica contra judeus, muçulmanos e praticantes de religiões pagãs, acusados de bruxaria.

d) na primeira metade do século XIV, quando o número de infectados pela peste negra atingiu seu ápice, provocando a morte de pouco menos de um terço da população europeia.

e) na segunda metade do século XV, devido à migração de milhões de europeus em direção aos continentes recém-descobertos no processo das Grandes Navegações.

Questão 02 – (Fac. Israelita de C. da Saúde Albert Einstein SP) Em 1919, o presidente eleito Rodrigues Alves foi uma das vítimas da epidemia que matou por volta de 35 mil pessoas no Brasil e cerca de 50 milhões, entre 1918 e 1920, em todo o mundo.

Assinale a alternativa que apresenta corretamente a doença mortal e seus impactos na cidade do Rio de Janeiro:

a) A peste bubônica, que se alastrou entre os combatentes da 1ª Guerra mundial, atingiu os grupos de brasileiros ligados ao exército e à política na capital do país, o que implicou o isolamento de partes da cidade para impedir a disseminação.

b) O sarampo, uma doença comum entre as crianças, tornou-se mortal entre os adultos, mesmo com o fechamento das escolas da capital e o rápido atendimento das crianças, o que a médio prazo erradicou a doença infectocontagiosa da cidade.

c) A tuberculose, conhecida como o “mal do século”, alastrou-se no Rio de Janeiro em função das más condições de alimentação e pobreza da população, e foi enfrentada pelos governantes com a quarentena dos infectados em cidades como Petrópolis.

d) A gripe espanhola, doença que assolou os países europeus durante a 1ª Guerra, atingiu também a população brasileira, levando o governo da capital a contratar um grupo de higienistas para combater a disseminação da doença.

Questão 03 – (PUC RS) Considere o texto abaixo, do medievalista Georges Duby.

“Nos cinquenta, sessenta anos que se seguiram à pandemia de 1348, e que foram sacudidos pelos ressurgimentos da peste, situa-se uma das grandes rupturas da história da nossa civilização. Dessa prova a Europa saiu aliviada. Ela era superpovoada. Restabeleceu-se o equilíbrio demográfico. A atmosfera de naturalidade que se instalou explica por que a criação artística não perdeu sua vitalidade. Mas, como tudo o mais, ela mudou de tom”.

DUBY, Georges. A Europa na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p. 113.

A afirmação “ela mudou de tom”, com que o autor conclui sua análise, constitui uma referência

a) ao Iluminismo.

b) ao Romantismo.

c) ao Renascimento.

d) à Escolástica.

e) à Fisiocracia.

Gabarito: 1. D, 2. D, 3. C.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.