Platão, Política e Justiça.

Ah! A Política. Se você se curte esse assunto que é trend topic tanto no Twitter quanto no Enem, vem comigo embarcar nessa jornada filosófica para desvendar as ideias de Platão acerca do assunto.

Um dos temas mais polêmicos tratados pela Filosofia é a Política. Sempre em altas nos jornais, nas rodas de amigos, nas reuniões de família e naquele grupo chato de WhatsApp que você quer sair ou não pode. Já na Grécia antiga as pessoas discutiam e brigavam por conta dessa disciplina filosófica. E um dos filósofos gregos mais famosos, Platão, estudou muito sobre este tema. Nesta aula de filosofia para o Enem, você vai entender a visão da Justiça e da Política em.

Arístocles, o famosos Platão

Das diversas coisas que os filósofos se dedicam a estudar, o convívio em sociedade é um dos pontos mais esmiuçados. E, esse tema foi uma das coisas que mais chamou a atenção de um filosofo em especial, Arístocles. Esse sujeito barbudo que vivia em Atenas, entre 428 e 348 a.C, dedicou seu tempo a estudar a Política, o Estado e todos os seus desdobramentos.

Não é à toa que a palavra Política vem do Grego. Foi lá nas cidades-estados, conhecidas como Polis, que se iniciou o estudo dessa disciplina filosófica. Assim sendo, os filósofos gregos questionaram-se a respeito dos seus governantes, das leis, da origem da organização social dentre outras coisas.

a polis na grécia
Figura 1. Polis é a Cidade, entendida como a comunidade organizada, formada pelos cidadãos (no grego “politikos”). Isto é, pelos homens nascidos no solo da Cidade, livres e iguais.

 

Ora, em Atenas, o famoso Arístocles, mais conhecido como Platão (que você provavelmente já deve ter ouvido falar por conta de seu mestre Sócrates ou mesmo por ser um dos filósofos preferidos do Enem), vai se revoltar com o governo de sua polis e sistematizar uma ideia política.

a politica em Platão
Figura 2. Platão era de uma família rica, e, diga-se de passagem nobre, pois dizia-se que seu pai Ariston descendia do rei Codro, o último rei de Atenas. Era também descendente de Sólon, um dos legisladores e estadistas de maior destaque da política ateniense.

 

A Política em Platão

A trajetória de Platão é marcada por vários acontecimentos políticos importantes. Ele lutou na Guerra do Peloponeso, vivenciou a Tirania dos 30, viu seu mestre Sócrates morrer e foi conselheiro do governante da Sicília que o vendeu como escravo.

Essa agitada vida política o levou a perceber a desigualdade de conhecimento entre as pessoas. Platão passou então a valorizar o conhecimento como algo importantíssimo para a vida política. E, a partir disso, desenvolveu um projeto governamental.

Mais tarde, esse projeto foi integrado ao restante de suas obras que, por fim, culminou na fundação de sua escola. Essa escola posteriormente tornou-se a famosa Academia de Atenas.

Platão pensava que as pessoas comuns eram vítimas da falta de conhecimento (que ele chamava de opinião). Por conta disso, havia então a necessidade de serem governados por aqueles que eram mais sábios. Essa é uma das ideias principais da Política em Platão. É nessa ideia que encontramos o ponto de partida para o desenvolvimento de sua Política.

Platão compara a Polis e seus habitantes, dizendo que ambos possuem uma estrutura muita parecida, quiçá igual. Pois, para Platão, tantos as pessoas quanto a Polis podem ser divididas em três categorias, listadas a seguir.

Corpo e Alma

Segundo Platão, o pupilo de Sócrates, as pessoas possuem corpo e alma. Nossa alma estava num tal de “mundos das ideias”. Mas, acabou virando prisioneira do corpo, que se encontra no mundo sensível e por isso esqueceu todo o seu conhecimento.

aula de politica em platão
Figura 3. Platão era dualista, acreditava que as pessoas se dividiam em corpo e alma. Ideia está que será apropriada por muitos outros filósofos e servirá de base para o cristianismo.

 

Sendo assim, a alma das pessoas teria uma capacidade inata que cabe a cada um buscar. Platão vai então dividir a sociedade em grupos, de acordo com as suas almas.

Alma concupiscível

A menos ilustre das categorias é a classificada como alma apetitiva (Concupiscível). Essa é responsável pelos desejos carnais de sobrevivência. Buscando a satisfação dos apetites do corpo, tanto os necessários à sobrevivência como os que apenas causam prazer.

Alma emotiva

No meio caminho, entre a mais e menos ilustre das almas temos a alma emotiva (Irascível). Como o nome sugere ela é a responsável pelas emoções. Ela é uma espécie de alma da “treta”, defendendo o corpo das agressões. Sempre reagindo à dor, as vezes colérica e violenta a fim de garantir a nossa existência.

problemas abordados por socrates
Figura 4. Um problema abordado por Sócrates nos diálogos platônicos é o paradoxo de quem iria fiscalizar os guardiões? Problema que fica famoso na frase do poeta romano Juvenal: sed quis custodiet ipsos custodes? (quem vigia os vigilantes?) Retratando assim os abusos dos guardiões. Hoje essa discussão se faz muito atual dado o colossal número de abusos policiais.

 

Alma racional

Por fim, a mais ilustre delas, a alma racional. Essa aí é a imortal “cereja do bolo”. Segundo Platão, ela é responsável pela racionalidade e sabedoria humana. A alma racional deve estar no controle sobre as outras duas, pois, o homem deve pautar a sua vida com base na razão. A razão permitiria ao homem reconhecer o bem e o mal, por isso ela deve moderar as outras duas.

aula de politica em platao
Figura 5. Para Arístocles a alma tinha até um lugar específico no corpo, bem como seus vícios.

 

A trindade da Polis

Quanto à Polis, ela também terá uma trindade política. Platão a dividiu em três tipos de grupos. Os produtores (agricultores, artesões, comerciantes, a galera do trabalho braçal) que cuidam da subsistência e garantem a sobrevivência material da pólis.

Os guardiões, que são os responsáveis pela defesa e manutenção da ordem na cidade. E, por fim, os governantes, que legislam e administram a Polis.

Agora, vamos juntar as duas coisas para que a Polis seja próspera. Assim sendo, Platão dividiu os habitantes nesses três grupos, cada habitante se encaixa na cidade numa função que condiz com a sua alma.

Ao praticar suas virtudes, a população iria exercer uma ação na sociedade. Cada um nas suas funções, colaborando para o bom funcionamento da Polis.

A justiça segundo Platão

E a justiça como fica? Para Platão, o Estado deveria dar educação aos cidadãos. As pessoas iriam passar um tempo da vida sendo preparado para sua função de acordo com seu tipo de alma.

O barbudo de ombros largos (Platão), afirmava que a justiça é idealizada a partir da ideia de que as pessoas seriam altruístas. Assim sendo, numa situação em que uma pessoa levaria vantagem sobre a Polis, isto é, todo o resto dos habitantes seriam prejudicados, o cidadão optaria sempre pela sociedade, ao invés de escolher o benefício próprio. Já disse que Platão era um idealista? Então!

Dica: confira mais sobre Justiça, teoria das Almas e outras coisas do livro A Republica de Platão nesse vídeo:

Enfim, numa sociedade justa quem deve governar são aqueles dotados de sabedoria, aqueles cuja alma é a mais ilustre, aqueles que passam suas vidas estudando e aprimorando suas ideias para se aproximar do mundo perfeito (o mundo das ideias), os filósofos (conveniente não?).

Se uma pessoa (ou um seleto grupo de pessoas) está no poder, ora, fica implícito que o poder (o Kratos em grego) não é exercido por todos, logo não é uma democracia. Platão não curtia muito a ideia de democracia, afinal de contas ela matou Sócrates, seu mestre.

Ele afirmava que a democracia era um tipo de governo fadado ao fracasso visto que a maioria das pessoas carece de conhecimento, deste modo, os filósofos seriam as pessoas ideias para ocuparem os postos de comando.

v de vingança e a filosofia em platao
Figura 6. A obra V for Vendetta de Allan Moore, retrata a deturpação da justiça em algo tirânico. Nela é possível enxergar a frase atribuída a Platão: O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior.

 

Do mesmo modo, uma sociedade injusta seria então aquela onde as pessoas sábias, estariam sendo governadas por pessoas que não tem toda essa sabedoria e sagacidade para governar (parece familiar?).

Por fim, para Platão, para haver justiça precisamos usar toda a capacidade de nossas almas para fazer aquilo que nos é destinado a fazer. Pois quem não  tem a alma em harmonia com a Polis e consigo mesmo, tem seus desejos voltados ao corpo e não a razão.

Questões sobre a Justiça e Política em Platão

1 Universidade do Estado do Pará (UEPA) 2015

Platão: A massa popular é assimilável por natureza a um animal escravo de suas paixões e de seus interesses passageiros, sensível à lisonja, inconstante em seus amores e seus ódios; confiar-lhe o poder é aceitar a tirania de um ser incapaz da menor reflexão e do menor rigor.

Quanto às pretensas discussões na Assembleia, são apenas disputas contrapondo opiniões subjetivas, inconsistentes, cujas contradições e lacunas traduzem bastante bem o seu caráter insuficiente.

CHATELET, F. História das Ideias Políticas. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, p. 17

Os argumentos de Platão, filósofo grego da antiguidade, evidenciam uma forte crítica à:

A) Oligarquia

B) República

C) Democracia

D) Monarquia

E) plutocracia

Universidade Estadual de Goiás (UEG) 2010

O mundo grego no século IV a. C. era marcado por uma estrutura de cidades-Estado dispersas pelo território helênico. Essa fragmentação política levou os filósofos a procurarem estabelecer uma ideia sobre as formas de governo que fossem as mais adequadas. Entre essas ideias, pode-se destacar

A) a democracia racional, defendida por Demócrito

B) a oligarquia comercial, defendida por Sócrates

C) a aristocracia rural, defendida por Heráclito

D) o governo de filósofos, defendido por Platão

E) a tirania dos militares, defendida por tolos

 

(Uenp 2011) Platão foi um dos filósofos que mais influenciaram a cultura ocidental. Para ele, a filosofia tem um fim prático e é capaz de resolver os grandes problemas da vida. Considera a alma humana prisioneira do corpo, vivendo como se fosse um peregrino em busca do caminho de casa. Para tanto, deveria transpor os limites do corpo e contemplar o inteligível. Assinale a alternativa correta.

A) A teoria das ideias não pode ser considerada uma chave de leitura aplicável a todo pensamento platônico.

B) Como Sócrates, Platão desenvolveu uma ética racionalista que desconsiderava a vontade como elemento fundamental entre os motivadores da ação. Ele acreditava que o conhecimento do bem era suficiente para motivar a conduta de acordo com essa ideia (agir bem).

C) Platão propõe um modelo de organização política da sociedade que pode ser considerado estamental e antidemocrático. Para ele, o governo não deveria se pautar pelo princípio da maioria. As almas têm natureza diversa, de acordo com sua composição, isso faz com que os homens devam ser distribuídos de acordo com essa natureza, divididos em grupos encarregados do governo, do controle e do abastecimento da polis.

D) Platão chamava o conhecimento da verdade de doxa e o contrapõe a uma outra forma de conhecimento (inferior) denominada episteme.

E) Para Platão, a essência das coisas é dada a partir da análise de suas causas material e final.

Gabarito

1.C,2.D,3.C.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva