Ao longo da história, fraudes e desinformação influenciaram guerras, manipularam a política e atrasaram avanços científicos.
O Dia da Mentira, celebrado em 1º de abril, costuma ser associado a brincadeiras inocentes. Mas a história mostra que o engano é uma força poderosa: mentiras monumentais já alteraram o curso de guerras, fraudaram a ciência e alimentaram ódios milenares.
Os Protocolos dos Sábios de Sião
No início do século XX, uma fraude literária alimentou um dos mais duradouros e mortais preconceitos da humanidade: o antissemitismo.
Os Protocolos dos Sábios de Sião, fabricados na Rússia czarista, alegavam ser atas secretas de uma conspiração judaica para dominar o mundo. Plagiando uma sátira francesa do século XIX, o texto foi amplamente divulgado por grupos antissemitas, encontrando terreno fértil em sociedades marcadas por crises econômicas e instabilidade política.
Figuras como Henry Ford, nos EUA, e o regime nazista na Alemanha, instrumentalizaram os Protocolos para legitimar perseguições. Hitler, em particular, citou o documento em discursos, usando-o como justificativa para o Holocausto. Apesar de expostos como fraude já em 1921, os Protocolos sobrevivem na era digital, ressurgindo em fóruns online e alimentando teorias da conspiração contemporâneas.
Sua persistência ilustra como narrativas falsas se alimentam de medos coletivos e preconceitos arraigados, transformando-se em ferramentas de poder.
O Homem de Piltdown
Enquanto os Protocolos semeavam ódio, outra fraude confundia o campo da ciência. Em 1912, o “Homem de Piltdown”, suposto elo perdido entre macacos e humanos, foi anunciado como uma descoberta revolucionária.
O fóssil, uma combinação de crânio humano e mandíbula de orangotango, enganou a comunidade científica por quatro décadas. A fraude, provavelmente arquitetada por Charles Dawson, explorou o nacionalismo britânico e o desejo de validar a teoria da evolução com um “ancestral europeu”. Enquanto o Homem de Piltdown era celebrado, fósseis genuínos, como o Australopithecus africanus descoberto na África, eram rejeitados — um erro que atrasou a compreensão da origem humana.
Sua exposição em 1953, através de técnicas modernas de datação, revelou não apenas uma mentira, mas a vulnerabilidade da ciência a vieses cognitivos e ao desejo de confirmar hipóteses preconcebidas.
“A Guerra dos Mundos”
Em 30 de outubro de 1938, a rádio CBS interrompeu sua programação para transmitir uma dramatização de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, dirigida por Orson Welles. Apresentado no formato de boletins jornalísticos, o programa convenceu milhares de ouvintes de que os Estados Unidos estavam sendo invadidos por alienígenas, gerando pânico em várias cidades, especialmente em Nova Jersey, onde a história foi ambientada. Muitas pessoas saíram às ruas em desespero, congestionaram linhas telefônicas e tentaram fugir do suposto ataque.
O impacto foi amplificado pelo realismo da transmissão, que simulava reportagens ao vivo, entrevistas com “testemunhas” e efeitos sonoros imersivos. Estima-se que cerca de 1,2 milhão de ouvintes acreditaram na invasão e meio milhão entrou em pânico. O episódio expôs o poder da mídia e sua influência sobre o público, tornando-se um dos eventos mais marcantes da história da comunicação.

Além de alavancar a carreira de Welles, o caso serviu como um alerta sobre a credibilidade do rádio e o risco da desinformação. A adaptação de A Guerra dos Mundos não apenas se tornou um marco na mídia do século XX, mas também antecipou debates sobre o impacto das fake news e da manipulação midiática.
O jornalismo amarelo e a explosão do USS Maine
No final do século XIX, a imprensa dos EUA travava sua própria guerra: a batalha por leitores entre Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst.

O “jornalismo amarelo”, marcado por manchetes sensacionalistas e notícias fabricadas, transformou a crise cubana em espetáculo. Relatos exagerados de atrocidades espanholas em Cuba — muitos deles fictícios — inflamaram a opinião pública.
O episódio mais emblemático ocorreu em fevereiro de 1898, quando a explosão do navio USS Maine no porto de Havana foi imediatamente atribuída a um ataque espanhol, apesar da falta de provas. O New York Journal inflamou a narrativa com manchetes como “A destruição do Maine foi obra de um inimigo”, intensificando a pressão pela guerra.
O tom agressivo da imprensa gerou um clima de histeria nacional, influenciando até jornais mais tradicionais. Em abril de 1898, o Congresso dos EUA declarou guerra à Espanha, consolidando o papel do jornalismo sensacionalista como um fator de mobilização popular.
A rivalidade entre Hearst e Pulitzer transformou a imprensa americana, popularizando a abordagem focada em títulos chamativos e histórias emocionantes. Embora tenha impulsionado grandes tiragens e ampliado o acesso à informação, o jornalismo amarelo também mostrou os riscos da manipulação midiática, estabelecendo um precedente para o impacto da imprensa na política e nos conflitos internacionais.
A fotografia de Tancredo Neves e a ditadura brasileira

Em abril de 1985, uma fotografia de Tancredo Neves no hospital, cercado por políticos, gerou grande repercussão no Brasil.
Eleito presidente após 21 anos de regime militar, Tancredo foi internado antes da posse devido a problemas de saúde e passou por diversas cirurgias. Seu estado se agravou, e ele faleceu em 21 de abril, sem assumir o cargo. A imagem, que mostrava o presidente eleito inconsciente e extremamente debilitado, tornou-se um dos registros mais marcantes da transição política no país.
A fotografia também deu origem a questionamentos sobre o real estado de Tancredo Neves no momento em que foi tirada. Muitos especulavam que ele já estaria morto na ocasião e que a cena teria sido montada para assegurar uma transição política sem tumultos. Apesar das afirmações de médicos e familiares de que Tancredo ainda estava vivo naquele instante, a falta de transparência sobre seu quadro de saúde alimentou dúvidas entre a população. Esse boato se espalhou e permaneceu por anos no imaginário popular.
A repercussão da fotografia reflete o contexto de desconfiança da época, já que o Brasil saía de um longo período de ditadura e a sociedade questionava informações vindas das autoridades. O registro de Tancredo Neves no hospital se tornou um símbolo desse momento histórico, não apenas como documento visual, mas também como ponto de partida para especulações sobre os bastidores da política brasileira naquele período de transição.
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