Condições históricas para o surgimento da filosofia ocidental

Quais foram os ingredientes para o surgimento da Filosofia? Vem comigo ficar expert nos fundamentos da Filosofia mais cobrados no Enem!

Há aproximadamente 2600 anos, surgiu no mediterrâneo uma forma revolucionária de encarar o mundo, a Filosofia. Guiada por uma insaciável curiosidade pela maneira que as coisas eram explicadas, ela transformou toda a civilização ocidental. Mas quais foram as condições para o surgimento da filosofia?

Em um lugar chamado de Península Balcânica, alguns povos começaram a se organizar em sociedades maiores e mais complexas. Concomitante a isso, houve algumas invasões a essa região (por exemplo os Dórios, que invadiram a região do Peloponeso).

Como a geografia da Península Balcânica era bastante irregular, essas sociedades recém organizadas não possuíam unicidade entre si. No entanto, por suas características semelhantes, denominamos o conjunto dessas sociedades de Grécia Antiga. Foi esse local que proporcionou as condições históricas para o surgimento da filosofia ocidental.

cidades-estados - surgimento da filosofia
Imagem 1: As cidades-estados eram organizadas de forma autônoma. Essa autonomia permitiu o surgimento de organizações políticas distintas entre si, bem como sociedades distintas.

A necessidade faz a desmistificação

As sociedades estabelecidas na península balcânica eram baseadas em histórias míticas acerca do mundo. Por isso, a organização social dessas cidades era muito influenciada por lendas e costumes religiosos, que poderiam variar de cidade para cidade.

Como o solo da região não era muito fértil, o comércio foi umas das maneiras encontradas pelas cidades de suprirem suas necessidades. Ao passo que os poetas narravam a existência de feras míticas nos confins do mundo, a crescente necessidade de alimento e outros insumos fazia com que os habitantes das pólis viajassem cada vez mais longe em busca desses suprimentos.

Com o passar do tempo, houve a descrença nas histórias mitológicas, visto que comerciantes viajavam por toda a região e não encontravam nada fora do ordinário (nem cachorros de três cabeças, nem mulheres com serpentes nos cabelos e tampouco unicórnios saltitantes). Esse lance fez com que os maiores sábios colocassem em xeque tudo o que sabiam sobre o mundo.

A consternação pela desmistificação do mundo está entre as principais condições para o surgimento da filosofia, que, por sua vez nasceu contrapondo-se ao mito.

navegação - surgimento da filosofia
Imagem 2: Embora a maioria dos gregos se dedicasse a agricultura, o solo seco e rochoso não produzia tanto assim. A maior parte das riquezas vinha do comércio marítimo com outras regiões.

Da abstração do real

Juntamente com a desmistificação do mundo, outro fator crucial para o surgimento da filosofia foi a ideia de abstração. Os gregos faziam o uso da moeda para realizar as barganhas mercantis. Ou seja, em vez do escambo, na Grécia já rolava dinheiro. O uso dessa grana vem do fato de agregar valor aos produtos negociados, o que requer uma capacidade de abstração e uma noção do conceito de valor, ambos capitais para a filosofia.

Além da grana, a constituição do calendário deu competência para os habitantes das pólis medirem tempo. Embora ainda de maneira arcaica se compararmos com a nossa vida hoje em dia, essa habilidade fez com que o tempo deixasse de ser uma força divina e passasse a fazer parte dos domínios mortais. Em outras palavras, ao criar um calendário, os gregos refinaram suas noções de abstração do pensamento.

Somado ao calendário e à moeda, a escrita e o desenvolvimento de um alfabeto revelaram o potencial da capacidade de abstração dos habitantes da península balcânica. Diferente dos hieróglifos utilizados pelos egípcios, o alfabeto grego não representava uma imagem da coisa a que se refere, mas a ideia da coisa. Assim, o que pensamos a respeito de algo passava a ser transcrito, condição fundamental para o surgimento da filosofia.

alfabeto grego
Imagem 3: O alfabeto grego teve origem com a adaptação da escrita utilizada pelos fenícios.

Do crescimento da pólis ao florescer da política

A outra parte da receita que possibilitou o surgimento da filosofia foi a política. Conforme as cidades-estados cresciam, novas necessidades emergiam e, muitas vezes, tornavam as deliberações administrativas de outrora obsoletas. Assim sendo, uma crescente ânsia por novas leis que atendessem a demanda de crescimento se tornou imperativa.

Bom, a gente falou antes sobre a organização da pólis vir de uma concepção mitológica, lembra? Aquela “parada” de sacerdote, aedo, adivinho ou qualquer outra via de contato com o divino que recebia um WhatsApp dos deuses dizendo aos homens (a mulher não fazia parte dessas deliberações até então) quais eram as leis e as deliberações administrativas que eles deveriam obedecer, já não estava mais colando.

Ora, isso levou ao gradual abandono da mitologia e cada cidadão passou a emitir seu juízo acerca da administração da pólis publicamente. Essa aí foi a origem daquelas discussões sobre política no bar, algo tão comum hoje em dia. Discutir com os demais cidadãos e convence-los a concordar com sua visão sobre assuntos políticos fez emergir a ideia de discurso.

As discussões racionais e compartilhadas que deliberavam sobre a vida na pólis foram umas das bases para o surgimento da filosofia. Isso porque a política instiga uma reflexão crítica que busca compartilhar com todos os demais cidadãos a busca por uma pólis melhor.

surgimento da filosofia ocidental
Imagem 4: O conceito de política consistiu na ideia de que os cidadãos seriam capazes de contribuir para o bem-comum.

Por fim, quando juntamos esses ingredientes: desmitificação do mundo, capacidade de abstração, criação de uma linguagem escrita, rigor lógico argumentativo e uma discussão racional compartilhada temos as meninas superpoderosas condições históricas para o surgimento da filosofia ocidental.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula sobre o surgimento da filosofia ocidental:

Exercícios sobre o surgimento da filosofia:

1- (UNESPAR, 2018)

De forma geral, admitimos que a filosofia ocidental surgiu na Grécia antiga, no período que compreende do século VI ao século V a.C., e que uma série de fatores contribuiu para esse surgimento. Mesmo considerando que a diversidade dos fatores que promoveram o início da reflexão filosófica nos leva à conclusão de que seria muito difícil apontar o que exatamente determina o início da filosofia, podemos afirmar que:

a) Os primeiros filósofos se preocuparam inicialmente em negar a existência de Deus;

b) As primeiras especulações se dirigiam às questões de ordem natural, especialmente em relação ao cosmos;

c) Os primeiros filósofos optaram por escrever em forma de poema por entender que seria a escrita mais científica disponível na época;

d) A ética foi o primeiro grande tema da filosofia a ser abordado;

e) Sócrates foi o primeiro filósofo de que se tem notícia, seguido por Platão, seu discípulo.

2- (FEPESE, 2014)

Com relação à origem da filosofia ocidental, é correto afirmar:

a) Seus fundamentos foram estabelecidos durante o Renascimento, quando na Europa se conseguiu realizar uma separação entre os campos da ciência e da crenças.

b) Nasceu quando os pensadores gregos realizaram a passagem de um pensamento mítico para uma visão racional do mundo, da sociedade e dos seres humanos.

c) Tem sua origem ligada ao pensamento aristotélico e a harmonização entre o pensamento intelectivo e a experimentação.

d) Foi gestada pelos pensadores pré-socráticos, que superaram as fronteiras entre o mundo das aparências e da existência concreta.

e) Surgiu com os pensadores iluministas, que superaram os limites do pensamento intelectivo e estabeleceram as bases da filosofia como ciência da verdade.

3- (Unesp 2012)

Aedo e adivinho têm em comum um mesmo dom de “vidência”, privilégio que tiveram de pagar pelo preço dos seus olhos. Cegos para a luz, eles veem o invisível. O deus que os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as realidades que escapam ao olhar humano. Sua visão particular age sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas mortais: o que aconteceu outrora, o que ainda não é.

 (Jean-Pierre Vernant. Mito e pensamento entre os gregos, 1990. Adaptado.)

O texto refere-se à cultura grega antiga e menciona, entre outros aspectos,

a) o papel exercido pelos aedos, responsáveis pela transmissão oral das tradições, dos mitos e da memória.

b) a prática da feitiçaria, estimulada especialmente nos períodos de seca ou de infertilidade da terra.

c) o caráter monoteísta da sociedade, que impedia a difusão dos cultos aos deuses da tradição clássica.

d) a forma como a história era escrita e lida entre os povos da península balcânica.

e) o esforço de diferenciar as cidades-estados e reforçar o isolamento e a autonomia em que viviam.

Gabarito

1- B

2- B

3- A

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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