Wittgenstein e os limites da linguagem

Venha conferir como o filósofo Wittgenstein interpretou a Lógica de uma maneira ímpar que resolveria todos os problemas da Filosofia (egocêntrico? Imagina!) Vamos embarcar nessa jornada filosófica, é conteúdo do Enem.

Durante o século XX ocorreram algumas mudanças marcantes na Filosofia, dentre as mais importantes está a virada linguística. Tendo como seu protagonista Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, autor da famosa obra Tractatus Logico-Philosophicus.

retrato Wittgenstein
Figura 1. O filosofo Austríaco Ludwig Joseph Johann Wittgenstein nasceu em 26 de Abril de 1889, sendo naturalizado britânico depois. Foi um dos principais autores da virada linguística na filosofia do século XX.

Composto por singelas setenta páginas, o Tratado é uma obra desafiadora e bastante técnica. Apesar de parecer estranho falar de uma obra técnica em Filosofia, isto se dá por conta da Lógica, área responsável pelo estudo das relações linguísticas.

Os limites da Linguagem para Wittgenstein

Alguns anos antes de Wittgenstein (aproximadamente uns cento e oito) o filosofo Immanuel Kant refletia a respeito dos limites de nosso conhecimento, em sua obra Crítica da Razão Pura. Nessa obra Kant divagou sobre o que nós podemos saber e o que permanecerá para sempre fora do alcance de nosso conhecimento.

Por sua vez, Wittgenstein, em uma linha parecida com a de Kant e o Criticismo, falava bastante dos limites da linguagem e se propunha a enfrentar um desafio bastante semelhante ao kantiano. Wittgenstein acreditava que grande parte dos problemas filosóficos (e das tretas entres filósofos) ocorreram por conta dos erros na maneira em que lidamos com a linguagem.

Segundo o austríaco, o mundo é estruturado e possui uma lógica de funcionamento. Assim também o é a linguagem que faz usos de estruturas lógicas para seu devido funcionamento.

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Figura 2. Segundo Wittgenstein, é necessário se livrar de tudo que é desnecessário na linguagem, deixando apenas aquilo que é essencial.

Ora, o mundo em que vivemos e a nossa linguagem são ambos rigorosamente estruturados. E as estruturas dessas coisas podem ser fracionadas em outros arranjos e partes menores. Analisando essas partes, os arranjos e estruturas da linguagem e do mundo, Wittgenstein buscou entender como é que eles se relacionam.

Para entender melhor essa ideia, vamos analisar a máxima:

“Os limites da minha linguagem são os limites do mundo.”

Essa frase representa bem o que Wittgenstein quis nos dizer. Devemos entender a linguagem como uma totalidade de proposições. Isto é, ela é como um emaranhado de coisas que se relacionam intrinsecamente, pois se separadas, essas coisas (as palavras) perdem seu sentido.

Quando escreveu a “Crítica da Razão Pura”, Kant deu a entender que tudo que existe o faz em um determinado espaço/tempo. De maneira muito similar, Wittgenstein postulou que não conseguimos pensar em algo fora da sua relação com outra coisa.

Segundo o Wittgenstein, as coisas só têm significado quando as pensamos inseridas em uma relação com outras coisas, com um contexto. Da mesma maneira, as palavras só adquirem significado ao empregá-las em uma relação estruturada, ou seja, é somente dentro de um contexto que podemos dizer se um enunciado é verdadeiro, falso ou mesmo válido.

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Figura 3. Um problema que ocorre cotidianamente é expressarmos uma proposição analítica que permanece sempre verdadeira, uma vez que o atributo dela é uma repetição do sujeito, isto é, infinitesimal é aquilo que é infinitamente pequeno.

Cara, então quando eu digo: “Cataplófe” essa palavra carece de um complemento para que tenha significado e se torne algo significativo. Quando eu a introduzo num contexto com outras palavras, aí é possível que eu enuncie algo a respeito do mundo e esse algo pode ser verdadeiro ou não. Por exemplo:

“Meu unicórnio Felizberto estava correndo quando de repente, cataplófe! Tropeçou escada abaixo. É por isso que não se deve correr em escadas. ”

Apesar de agora a palavra parecer fazer sentido, “cataplófe” não faz referência a nenhuma estrutura concreta no mundo, logo não é possível saber se ela é verdadeira ou falsa. A palavra só tem sentido enquanto onomatopeia (formação de uma palavra a partir da reprodução aproximada de um som a ela associado) e nada além disso.

Da Linguagem e da Lógica

Dado os estranhos recursos que a Linguagem pode empregar, como por exemplo as onomatopeias, Wittgenstein entendia a Lógica como uma maneira de traduzir a Linguagem do dia a dia para algo mais formal, exato e passível de uma análise para além do ordinário.

Assim sendo, a Lógica deveria se ocupar de tudo o que é conhecido pela Filosofia. Ou seja, à Lógica caberia encarregar-se das proposições acerca do mundo, de todos os enunciados que dizem algo – que pode ou não ser verdadeiro – sobre alguma coisa. Então, o que uma Linguagem compartilha com aquilo que ela representa é uma forma Lógica.

Tendo isso tudo como pano de fundo, fica o questionamento, quais são os limites da Linguagem? Vamos pensar em um exemplo. Quando eu digo: “Abortar é errado”, essa fala não retrata algo de concreto sobre o mundo, pois, o conceito de errado é algo abstrato.

Daí caímos numa situação parecida com a da palavra “cataplófe”. Todavia, ela ainda retrata (se colocada em um contexto) algo sobre o mundo, visto que é uma onomatopeia. Já o enunciado “Abortar é errado” não consegue retratar qualquer coisa, ao menos na visão de Wittgenstein, visto como o a proposição de certo e errado não possui uma imagem no mundo sensível.

Assim sendo, trocar uma ideia sobre a Ética de maneira geral, é para o filosofo austríaco Vitinho algo sem sentido, pois quando falamos sobre Ética, religião e sexualidade, os conceitos envolvidos em tais conversas são demasiadamente vagos. Portanto, não há no mundo algo que represente tais conceitos enquanto imagem perfeita.

Quando eu falo torre, por exemplo, você provavelmente imaginou uma no mundo real. Não importa se tu és mochileiro e imaginou a torre Eiffel ou se é italiano e imaginou a torre de Pisa, ou menos se é um enxadrista e visualizou a torre do xadrez. Enfim. Ainda que você seja um excêntrico amante da fantasia medieval e imaginou a torre de um castelo guardado por um dragão, você em todas as ocasiões imaginou uma representação da torre no mundo.

Assim, as palavras estão conectadas em algo no mundo. Forçando a barra, mesmo que eu diga algo aleatório e sem sentido (e extremamente fofo) como um panda-córnio, você vai tentar criar uma imagem mental disso, associando os conceitos panda e unicórnio, ainda que um deles não exista no mundo sensível.

Os limites da Linguagem

Embora as áreas mais abstratas não possam ser temas da Lógica, já que a discussão seria algo sem sentido, Wittgenstein afirmava que discutir tais problemas era algo fundamental. Ou seja, não podemos colocar tais “tretas” em proposições, o que nos leva a indagar a respeito de um limite da Linguagem.

Sendo assim, segundo o autor, é possível concluir essencialmente duas coisas importantes: a primeira é que existe um limite para a Linguagem; a segunda é que a Linguagem só consegue expressar aquilo cuja representação exista no mundo.

Por fim, para o filósofo, a Linguagem é algo que não consegue representar bem o mundo, uma vez que o limite da Linguagem acaba sendo os limites do mundo. Com a intenção de resolver essa problemática a Lógica então representaria o mundo.

Curiosamente, aquilo que o próprio Wittgenstein escreveu em seu Tratado, o que diga-se de passagem resolveria todos os problemas da Filosofia, tampouco é algo cujas representações existam no mundo. Falar de Lógica é falar de algo abstrato, como a Ética ou a beleza, mas segundo o filósofo, a obra é como um elevador, ela nos leva a para além dos problemas da Filosofia, sendo descartável assim que entendermos do que que ela se trata e o que ela nos diz.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula do canal Ibsen Sobre Som e Filosofia:

Agora é hora de conferir se você subiu nesse elevador, teste seus conhecimentos com as questões abaixo:

1) (UFFS – FEPESE – 2010 – Universidade Federal Fronteira Sul)
No Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein trata, dentre outros assuntos, da relação entre o mundo e a linguagem. Assinale a alternativa que reflete essa relação.

(A) Posso afirmar o que o mundo é.

(B) O mundo é a totalidade das coisas, não dos fatos.

(C) Dizer algo do mundo é mostrar algo no mundo.

(D) Posso descrever o mundo dentro dos limites da minha linguagem, e esta por sua vez é limitada pelo mundo.

(E) Na linguagem, a significação de uma expressão qualquer sobre o mundo deve repousar na verdade.

2) (CespeUnb – 2009) Ludwig Wittgenstein influenciou decisivamente a Filosofia da Linguagem contemporânea, também identificada como Filosofia Analítica. Da obra “Tratado lógico-filosófico”, uma das afirmações mais célebres é: “Sobre aquilo de que não se pode falar, devemos calar”. Sobre tal argumento, está INCORRETO concluir que

(A) a análise da linguagem é a mais eficiente para resolver os problemas filosóficos.

(B) a tarefa da Filosofia consiste mais em construir teorias metafísicas do que em elaborar métodos de análise.

(C) o problema da Filosofia tem sido o desconhecimento das regras ocultas nos jogos de linguagem.

(D) as proposições da metafísica, da estética, da religião e da ética representam absurdos lógicos.

(E) os problemas filosóficos não são necessariamente falsos, mas, em grande parte, são desprovidos de significado lógico e liguistico.

3) (CESPE – 2003) Um dos mais importantes acontecimentos da filosofia contemporânea foi a chamada virada linguística (linguistic turn), que definiu como eixo fundamental da discussão filosófica questões ligadas à linguagem, considerada uma das mais importantes ferramentas do trabalho dos filósofos. A propósito das discussões sobre a filosofia da linguagem contemporânea, julgue os próximos itens.

Wittgenstein, no Tractatus Logico Philosophicus, afirma que muitos dos problemas em filosofia são pseudoproblemas e que, portanto, uma análise correta da linguagem seria capaz de elucidá-los, mostrando como eles não seriam problemas de fato.

(   ) Verdadeiro     (   ) Falso

Gabarito

1.D, 2.B, 3.V.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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