Descubra parasitas reais que transformam animais em “zumbis” e como de The Last of Us se inspira na natureza. Ciência e curiosidades!
Se você é fã de séries como “The Walking Dead” e “The Last of Us”, com certeza já se pegou pensando: “E se o apocalipse zumbi rolasse de verdade?”. Dá um frio na espinha, né? E se eu te disser que existem “zumbis” no mundo real? Pode parecer coisa de filme, mas acredite, existem vários parasitas por aí que transformam animais em verdadeiros “mortos-vivos”.
Bizarro, né? Para saber mais sobre esses zumbificadores da vida real, se liga nesta revisão para mandar bem no vestibular e no Enem!

Fonte: HBO/divulgação
Parasitas zumbificadores
Em “The Last of Us”, tanto no jogo quanto na série, os fungos parasitas do gênero Cordyceps assumem o controle dos humanos, transformando-os em hospedeiros sem vontade própria. A doença rapidamente se alastra e no início da primeira temporada vemos uma cena em que a cientista especialista nesse grupo de fungos sugere explodir a cidade para conter a epidemia. É de arrepiar!

Fonte: HBO/divulgação
Mas calma, estudante! Pode relaxar os nervos, porque até o momento não há evidências de Cordyceps ou qualquer outro parasita zumbificador que ataque humanos.
Apesar do susto da ficção, a TLOU não é assim tão deslocada da realidade e acerta em um ponto: existem sim parasitas que manipulam o comportamento de seus hospedeiros, usando-os como meros veículos de reprodução. E sim, o Cordyceps é real e transforma artrópodes em “zumbis”!
Fungos Cordyceps
Os fungos do gênero Cordyceps são predominantemente endoparasitas de artrópodes (como insetos e aracnídeos), caracterizando-se por seu desenvolvimento no interior dos hospedeiros invertebrados.
A infecção por esse tipo de fungo ocorre pela dispersão de seus esporos, que estabelecem-se no organismo do artrópode, alastrando-se e, muitas vezes, afetando o sistema nervoso do animal. O fungo geralmente mantém o hospedeiro viável, utilizando-o como substrato para a produção de corpos reprodutivos – os ascomas e ascósporos.
A alteração do comportamento dos hospedeiros geralmente os leva para ambientes mais expostos e altos (como o topo de uma planta), diferente do comportamento habitual do animal, facilitando a dispersão dos esporos do fungo. Além disso, os tecidos do hospedeiro vão pouco a pouco sendo consumidos pelo fungo que cresce. A conclusão da fase sexuada do ciclo reprodutivo fúngico culmina na morte do hospedeiro.
Atualmente, o gênero Cordyceps compreende aproximadamente 400 espécies descritas e cada uma delas é adaptada a parasitar uma espécie de artrópode. Contudo, análises filogenéticas moleculares recentes revelaram que o grupo de fungos Cordyceps configura um grupo polifilético, caracterizado pela origem de suas espécies a partir de múltiplos ancestrais distintos, em detrimento de um ancestral comum único.
Consequentemente, Cordyceps sensu lato (no sentido amplo) está em processo de reclassificação, sendo segregado em quatro gêneros distintos (Cordyceps sensu stricto, Elaphocordyceps, Metacordyceps e Ophiocordyceps), os quais se distribuem por três famílias taxonômicas distintas.
Uma das espécies desse grupo que ocorrem no Brasil é a Ophiocordyceps unilateral – um fungo “zumbificador” de formigas amazônicas.

O ciclo dessa espécie de formiga acontece seguinte maneira:
Após entrar em contato com os esporos do fungo (que são carregados pelo vento), a formiga hospedeira exibe uma alteração comportamental significativa, caracterizada pela manipulação exercida pelo patógeno. Isso porque o fungo libera substâncias neurotóxicas que alteram o funcionamento do sistema nervoso da formiga, deixando-a totalmente desnorteada.
Assim, o fungo induz a formiga a abandonar o ninho e buscar microambientes específicos em locais úmidos, que oferecem condições ideais para o seu desenvolvimento. Em seguida, a formiga fixa-se em uma folha em um local alto e exposto, mordendo-a com força e entrando em estado de paralisia. O fungo, então, inicia a digestão dos tecidos internos da formiga, resultando em sua morte. Após a morte do hospedeiro, o fungo desenvolve estruturas reprodutivas, completando seu ciclo vital.

Se você ainda estiver curioso sobre esses fungos, veja o vídeo a seguir:
Leucochloridium paradoxum – verme zumbificador de caracóis
Apesar de os Cordyceps terem ficado super famosos por conta da série The Last of Us, eles não são os únicos “parasitas zumbificadores” que encontramos na natureza. O nematelminto Leucochloridium paradoxum é outro exemplo super interessante desse tipo de estratégia ecológica.
Esse verme induz alterações comportamentais em seus hospedeiros, caracóis, transformando-os em vetores para a sua disseminação. Após a ingestão de ovos presentes nas fezes de aves, as larvas eclodem e penetram nos tecidos do caracol. Essas larvas então migram para os tentáculos oculares do hospedeiro, onde se desenvolvem e exercem controle sobre o sistema nervoso do caracol, modulando seu comportamento. Além disso, as larvas ficam em constante movimento no interior do caracol, fazendo com que seus tentáculos fiquem inchados e vibrantes, transformando o discreto caracol em um chamariz ambulante.

Assim, caracóis que normalmente adotam hábitos crípticos na serapilheira, são induzidos a subir na vegetação, tornando-se mais visíveis às aves, seus predadores naturais. A presença pulsátil dos vermes nos tentáculos oculares do caracol intensifica a atração visual para as aves. Essas, por sua vez, ao ingerir os caracóis infectados, tornam-se hospedeiros definitivos do parasita, permitindo a reprodução sexuada e a subsequente liberação de ovos em suas fezes, reiniciando o ciclo vital do Leucochloridium paradoxum.
Para saber mais sobre esse verme parasita e visualizar suas larvas em ação, veja esse pequeno vídeo do canal Nat Geo Animals:
Ribeiroia ondatrae – verme zumbificador de rãs
O platelminto Ribeiroia ondatrae, é mais um exemplo interessante de parasitas que alteram profundamente o comportamento de seus hospedeiros e, nesse caso, também a sua anatomia.
Endêmico de ecossistemas lacustres da Califórnia, o verme apresenta um ciclo de vida complexo, envolvendo três hospedeiros distintos: caracóis, rãs-touro e aves aquáticas, como garças.
O ciclo inicia-se com a infecção de caracóis por larvas do verme, que se alojam nos órgãos reprodutivos do molusco. Nestes hospedeiros intermediários, as larvas reproduzem-se assexuadamente, liberando um grande número de indivíduos.

Posteriormente, as larvas buscam e infectam girinos de rã-touro-americana, alojando-se nos membros em desenvolvimento e formando cistos. Estes cistos induzem alterações morfológicas nos membros dos anfíbios, resultando em polimelia (membros adicionais) ou dismelia (membros reduzidos ou deformados).

Rãs adultas com estas anomalias apresentam mobilidade reduzida, tornando-se presas vulneráveis para aves aquáticas. Ao ingerir as rãs infectadas, as aves tornam-se hospedeiros definitivos, permitindo a reprodução sexuada do parasita no trato intestinal. Os ovos resultantes são excretados nas fezes das aves, contaminando os corpos d’água e reiniciando o ciclo vital do Ribeiroia ondatrae.

Para saber mais sobre o ciclo do verme zumbificador de rãs, veja esse vídeo do Canal Nathional Geographic:
Dinocampus coccinellae – vespa zumbificadora de joaninhas
A vespa parasitoide Dinocampus coccinellae emprega uma estratégia de parasitismo complexa, capturando joaninhas e depositando um único ovo no interior do hospedeiro.
Em seguida, a larva eclodida inicia seu desenvolvimento endoparasítico, consumindo os tecidos internos da joaninha. Ao atingir a fase larval final, a larva sai do hospedeiro e constrói um casulo entre as patas da joaninha.
Por incrível que pareça, nesta fase a joaninha ainda está viva e está presa ao casulo sob suas patinhas, totalmente imobilizada. Isso faz com que o corpo dela acabe por proteger o casulo durante o desenvolvimento da vespa. A maioria das joaninhas nessa situação acabam por morrer de inanição, porém, algumas conseguem sobreviver à provação.

Veja no vídeo a seguir uma joaninha tentando se desvencilhar do casulo do parasita:
Toxoplasma gondii
Para finalizar nossos exemplos de parasitas zumbificadores temos o Toxoplasma gondii, que causa toxoplasmose em humanos. Mas, fiquei tranquilo! No ciclo desse parasita, não somos nós os hospedeiros zumbificados.
Acontece que o protozoário Toxoplasma gondii induz alterações comportamentais em roedores, seus hospedeiros intermediários. A hipótese predominante sugere que o parasita modula os níveis de dopamina no sistema nervoso central do roedor, fazendo com que o rato deixe de ter seu medo inato em relação ao cheiro da urina de gatos. Esse comportamento alterado aumenta a vulnerabilidade do roedor à predação por felinos, facilitando a transmissão do parasita.
Isso porque a reprodução sexuada do Toxoplasma gondii ocorre exclusivamente no epitélio intestinal de felinos, seus hospedeiros definitivos. Mas, o parasita não exerce controle comportamental significativo sobre felinos.
Contudo, como dito acima, a infecção por Toxoplasma gondii também acomete humanos, com estimativas indicando que aproximadamente um quarto da população global já foi exposta ao parasita. Em indivíduos imunocompetentes, a toxoplasmose geralmente manifesta-se com sintomas semelhantes à gripe (influenza). Já em indivíduos imunocomprometidos, o parasita pode invadir o sistema nervoso central, resultando em convulsões, confusão mental, ataxia e distúrbios visuais.
A transmissão congênita da toxoplasmose também representa um risco significativo. Uma vez que caso uma gestante seja infectada durante a gravidez, a infecção por Toxoplasma gondii pode atingir o feto, muitas vezes resultando em complicações pulmonares e oculares em recém-nascidos.

Referências:
FREIRE, Fernando Mafalda. Aspectos taxonômicos de fungos entomopatógenos da Mata Atlântica Catarinense. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/132645 Acesso em 25 de março de 2025.
FUNGO DE THE LAST OF US NÃO É PERIGOSO NA VIDA REAL E ALGUNS DO MESMO GÊNERO SÃO REMÉDIOS. Notícias Butantan, São Paulo, março 2023. Disponível em: https://butantan.gov.br/noticias/fungo-de-the-last-of-us-nao-e-perigoso-na-vida-real-e-alguns-do-mesmo-genero-sao-remedios Acesso em 25 de março de 2025.
JOHNSON P. T. J.; LUNDE K. B.; THURMAN E. M.; RITCHIE E. G.;. WRAY S. N.; SUTHERLAND D.R.; KAPFER J.M.; FREST T.J.; BOWERMAN J.; BLAUSTEIN A.R.; Parasite (Ribeiroia ondatrae) infection linked to amphibian malformations in the western United States. Ecological Monographs, Vol. 72 n2, pág. 151–168, 2002.
SILVA, R. B.; CRUZ, I.; FIGUEIREDO, M. L. C.; PENTEADO-DIAS, A. M. Ocorrência e biologia de Dinocampus coccinellae (Schrank, 1802) (Hymenoptera; Braconidae: Euphorinae) em diferentes espécies de Coccinellidae (Coleoptera). In: Congresso de Ecologia do Brasil, 9., 2009, São Lourenço. Anais… São Lourenço: Sociedade de Ecologia do Brasil, 2009. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/45504012.pdf acesso em 25 de março de 2025.