Clonagem e suas promessas terapêuticas

Você sabe o que é clonagem? Conhece suas possíveis aplicações terapêuticas? Não? Então estude biologia nesta aula para você arrebentar nas questões de Ciências da Natureza do Enem.

Em 1997, a notícia de um experimento realizado na Escócia revolucionou a ciência e levantou discussões éticas na sociedade: a primeira clonagem de mamífero bem-sucedida do mundo – a ovelha Dolly. A mídia do mundo noticiou a nova técnica fervorosamente e a população vibrou com as possíveis promessas de novos tratamentos médicos que a clonagem poderia possibilitar.

Após Dolly, muitos outros animais foram clonados, e a possibilidade de fazer isso também com seres humanos foi debatida acaloradamente por cientistas, políticos e cidadãos comuns. Foi até tema de novela! A novela “O clone”, da Rede Globo, teceu uma história cheia de questionamentos morais e éticos sobre essa técnica aplicada à população humana.

Mais de 20 anos depois do pontapé inicial dado pelos criadores de Dolly, quais foram os avanços em torno da clonagem? Revise nesta aula esta polêmica biotecnologia, pois ela pode aparecer nas questões de biologia do Enem e dos vestibulares.

novela o clone aborda clonagem
O Clone, novela veiculada pela Globo entre 2001 e 2002, tratava dos problema éticos gerados por uma clonagem humana.

O que é clonagem?

A ovelha Dolly não foi o primeiro ser vivo “clonado do mundo”. Na verdade, a clonagem já existe na Terra desde o surgimento dos primeiros seres vivos. Clonar um ser vivo significa fazer cópias geneticamente iguais a ele, como vemos nos processos de reprodução assexuada.

Quando uma bactéria se divide ao meio em uma cissiparidade, formando dois novos indivíduos, temos como resultado dois clones, pois são duas células geneticamente iguais.

Processo extremamente comum para unicelulares e até mesmo em alguns grupos de pluricelulares (como as plantas), a clonagem em seres vivos pluricelulares mais complexos, como em animais vertebrados, não é assim tão frequente. Porém, se partirmos do princípio de que clones são indivíduos geneticamente iguais, gêmeos idênticos (univitelinos) também são considerados clones.

dolly e a clonagem
Professor Ian Wilmut criador da Dolly, o primeiro animal clonado em laboratório a partir da célula de um adulto.

A clonagem reprodutiva aplicada para produzir Dolly

Mas, se a clonagem já existia naturalmente na história evolutiva, por que Dolly fez tanto estardalhaço? Acontece que a famosa ovelha foi clonada a partir da célula de uma outra ovelha já adulta. Ou seja, de uma célula adulta somática já diferenciada de um animal bastante complexo e com proximidade filogenética com a espécie humana: um mamífero.

Na técnica utilizada para produzir Dolly, cientistas retiraram o núcleo de uma célula da glândula mamária de uma ovelha de 6 anos. Posteriormente esse núcleo foi colocado no interior de um óvulo cujo núcleo havia previamente sido retirado.

Correntes elétricas fizeram com que as partes das duas células se fundissem. Ao fazer isso, o óvulo com núcleo de adulto passou a se comportar como um zigoto e se desenvolveu em um embrião. Assim, o embrião que deu origem à Dolly foi implantando em uma ovelha “barriga de aluguel” que gerou o clone mais famoso do mundo.

A técnica utilizada em Dolly causa um grande stress nas duas células que são fundidas. Isso gera uma enorme mortalidade das células resultantes. Este é um dos principais impedimentos éticos de se aplicar a clonagem em seres humanos.

Muitos embriões formados a partir da técnica logo morreriam e os cientistas correriam um risco grande de gerarem embriões humanos com más formações gravíssimas. Sendo assim, muitos países elaboraram leis de biossegurança (incluindo o Brasil), onde a clonagem reprodutiva (em que se clona um animal adulto visando produzir um clone) humana foi totalmente proibida.

grafico sobre clonagem

Veja a reportagem do Fantástico de 1997 sobre a criação de Dolly:

Clonagem terapêutica

Dolly foi um experimento que permitiu o desenvolvimento de várias outras técnicas, entre elas, a mais famosa é a clonagem terapêutica. A técnica se inicia de maneira muito semelhante à clonagem reprodutiva.

A principal diferença é que o embrião desenvolvido a partir da clonagem não será aplicado em uma barriga de aluguel para se desenvolver, mas será cultivado em laboratório. A ideia, portanto, não é desenvolver um novo indivíduo, mas sim tecidos e órgãos com o código genético do indivíduo que doou o núcleo.

Você deve lembrar aqui que as células de um embrião são chamadas de células-tronco totipotentes, uma vez que são capazes de se diferenciarem em qualquer célula do corpo de um animal. Já uma célula somática, como a retirada da glândula mamária da ovelha da qual Dolly foi clonada, já não consegue se diferenciar. Assim, as células de um embrião poderiam ser utilizadas para produzir novos tecidos e órgãos, coisa que não seria possível a partir de células adultas.

Dica: Você não lembra exatamente o que são células-tronco e como podem ser utilizadas? Então, dê uma pausa nos estudos sobre clonagem e revise as células-tronco com este post.

Sendo assim, o principal uso da clonagem terapêutica seria a sua aplicação em transplantes. Sendo o tecido gerado neste processo geneticamente igual às células do indivíduo que fez a doação, a taxa de rejeição a um órgão ou tecido transplantado praticamente chegaria a zero.

Isso aumentaria em muito a expectativa de vida das pessoas transplantadas, além de melhorar a sua qualidade de vida, uma vez que a ingestão de medicamentos anti-rejeição não seria necessária. Teoricamente, a técnica também poderia diminuir ou até mesmo acabar com as filas de transplantes de órgãos, uma vez que eles seriam produzidos em laboratório.

Porém, apesar de mais de 20 anos terem se passado desde Dolly e de a engenharia genética ter se aprimorado consideravelmente, os tratamentos sonhados a partir da clonagem terapêutica ainda estão longe de serem viáveis para a aplicação médica.

Dica: Revise também os Transgênicos, outra biotecnologia que envolve engenharia genética e que pode aparecer no Enem e nos vestibulares!

O destino de Dolly

Dolly, infelizmente, morreu mais jovem do que a maioria das ovelhas. Enquanto a maioria vive aproximadamente 12 anos, Dolly viveu apenas 6. Seus criadores levantaram várias hipóteses, porém nenhuma foi confirmada.

Uma das mais discutidas é a de que os cromossomos de Dolly, que já tinham mais de 6 anos no seu nascimento, provocaram um envelhecimento precoce da ovelha. Por conta de sua origem em uma ovelha adulta, provavelmente era como se todas as células de Dolly já tivessem 6 anos ao nascerem e continuassem envelhecendo a partir daí.

Esta é uma ideia bastante provável, já que um dos processos que nos leva a envelhecer é a quebra de pequenos pedacinhos das pontas dos nossos cromossomos (telômeros) a cada vez que nossas células se dividem. As células de Dolly já surgiram com essas partes mais gastas do que de um bebê-ovelha comum, uma vez que seus cromossomos vieram de uma célula já adulta.

Para finalizar sua revisão, veja esta aula do professor Kennedy Ramos sobre clonagem terapêutica:

 

 

 

Sobre o(a) autor(a):

Juliana é bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, ministra aulas de Ciências e Biologia em escolas da Grande Florianópolis desde 2007 e é coordenadora pedagógica do Blog do Enem.