Coesão e coerência – Redação Enem

Veja exemplos positivos de coesão e coerência que vão fortalecer a sua visão sobre o assunto e, consequentemente, a sua redação do Enem.

Acreditamos que você já esteja familiarizado com os termos coesão e coerência, um dos principais critérios de análise de uma dissertação. Contudo, você sabe realmente o que isso significa?

Coesão é a propriedade de se organizar um texto de modo a garantir a progressão do raciocínio e sua objetividade. Assim, um texto coeso evita repetições, frases muito longas e acrescenta uma informação nova referente ao tema a cada parágrafo, fazendo com que a produção seja também coerente, isto é, com que tenha progressão argumentativa.

Vamos observar um texto que possua elementos de coesão e coerência. Note que seus efeitos são perceptíveis tanto na microestrutura (parágrafo ou período) quanto na macro (texto).

Introdução:

Inicialmente, o autor contextualiza o tema: “Alunas(1) do Ensino Médio e Fundamental do Colégio(2) Anchieta, em Porto Alegre, organizaram um protesto(3) contra a proibição do uso de “shortinhos”(4)no ambiente escolar.”

Depois, inicia uma reflexão que apresentará a tese: “Mais do que um movimento(3) a favor da liberação do uso de roupa(4), o ato revela a consciência crítica das estudantes(1) frente a entrada de preconceitos sociais nas instituições de ensino”(2). Perceba que o autor evita a repetição de vários termos por meio de sinônimos, o que torna o texto mais objetivo. Grifamos com cores diferentes os termos retomados de um período para o outro.

Então, ele finalmente apresenta a tese: “Desse modo, em uma sociedade ainda tão machista, a permissão do uso de “shortinho”, nas escolas, é uma medida socioeducacional positiva contra o assédio às mulheres e contra a objetificação e sexualização do corpo feminino.” Note que o conectivo “desse modo” deixa claro para o leitor que a tese é uma conclusão proveniente da delimitação do tema e de uma reflexão anterior, tornando o raciocínio evidente.

Outro ponto importante é a escolha de léxico, isto é, de vocabulário. Ao evitar a repetição de palavras e escolher sinônimos, o autor também fez uma escolha em relação à argumentação. Quando utiliza as palavras: sociedade machista, medida socioeducacional, assédio, objetificação, sexualização; ele não apenas apresenta um ponto de vista, como também o enfatiza. Isso ocorre, pois a relação entre “proibição do uso de shortinhos” e “objetificação e sexualização do corpo feminino” fica óbvia, tornando claro o posicionamento do autor.

Parágrafo do Desenvolvimento:

Nesse parágrafo, gostaríamos de enfatizar o uso de conectivos, o que torna a lógica interna muito mais clara, tanto para o leitor quanto para a banca que corrigirá o texto.

O autor inicia o raciocínio com uma explicação, deixando claro que a partir dela haverá uma conclusão, a qual aparece como tópico frasal: “Visto que o pensamento machista sobrevive em diversos espaços da sociedade, como em publicidades e em famílias com tradições patriarcais, não demora muito para que reflexos(5) apareçam nas escolas.”. Assim, o conectivo “visto que” evidencia o sentido explicativo, da mesma forma que “como”, a comparação.

Posteriormente, o vestibulando utiliza o conectivo “segundo”, o qual indica que uma autoridade provavelmente será citada, o que confere credibilidade à argumentação. É a partir da citação que ele constrói o raciocínio base para a crítica desse parágrafo: “Segundo o sociólogo ÉmileDurkeim, aliás, a educação é, na sua base, a imagem da concepção social dominante. Nesse(7) contexto, adolescentes meninas, quando privadas(5) do direito de usarem as roupas que desejam(5) por causa de uma possível ‘vulgaridade’, são tratadas(5) como objetos que precisam se reprimir em sinal de respeito aos outros.”.

Após a argumentação, há a crítica que encerra o raciocínio. Para inseri-la, observe que o conectivo “por causa de” é utilizado, deixando clara a relação entre fato apresentado e conclusão do parágrafo: “Por causadessa(7) repressão, estimula-se a sexualização do corpo das mulheres e, como consequência, o assédio àquelas(7) que expressam o seu direito natural de vestirem tudo aquilo que desejam. O resultado, conforme o blog “Think Olga”, é que meninas de até mesmo nove anos de idade já sofrem alguma intimidação, seja oral, psicológica ou física.”. Além disso, há também a indicação de um especialista no assunto por meio do conectivo “conforme”.

Gostaríamos de ressaltar também o uso de pronomes demonstrativos e omissões para evitar a repetição de palavras, grifamos em cores diferentes para que você possa identificar esse mecanismo com facilidade. Apenas lembre-se: nenhum recurso coesivo deve ser usado de forma exagerada. O Uso excessivo de pronomes demonstrativos também é um problema de coesão.

Outro do Desenvolvimento:

Agora, observe que para retomar o parágrafo anterior e apresentar um objetivo, o autor utiliza tanto o conectivo “para” quanto a expressão “esse cenário”: “Para a reversão desse cenário, a liberação do uso dos “shortinhos” pode ser uma incrível ferramenta pedagógica, que estimula a tolerância à exposição do físico feminino.

Muito mais eficiente do que a imposição proibitiva, dogmática e irracional, a concessão de liberdade ao vestuário das alunas retoma a função de vanguarda das escolas. Meninos e meninas, por exemplo, que durante o ensino fundamental e médio, períodos indispensáveis na formação de um bom caráter, encarem com naturalidade a autonomia da mulher sobre o que tem vontade de vestir, serão indivíduos mais críticos com atitudes machistas.

Além disso, eles entenderão que um shortinho nunca representa meninas ‘provocantes’, mas mulheres confiantes e autônomas.”. Perceba também o uso de “por exemplo” para ilustrar o raciocínio e de “além disso” para somar informações. Todos esses mecanismos contribuem para a construção de um texto coeso e coerente.

Conclusão:

Já na conclusão, o autor reafirma a tese e a justifica retomando os pontos chave da argumentação. Observe que ele poderia utilizar um conectivo conclusivo no início do parágrafo de modo a enfatizar a ideia de fechamento. Contudo, houve apenas o uso de conectivo aditivo, o qual para evitar a repetição, poderia ser substituído por “fora combater o machismo”. “(Logo) A concessão de liberdade às alunas, no caso do uso de shortinho, é a melhor solução a ser adotada pelas escolas. Além de combater o machismo, que leva ao assédio sexual, a tolerância forma jovens críticas quanto aobjetificação da figura feminina”.

Finalmente, vamos observar como os mecanismos de coesão e coerência contribuem para a análise do texto como um todo: Além de observar o uso de conectivos, sinônimos e pronomes, é interessante notar a progressão de críticas evidenciada por esses mecanismos.

A primeira parte do raciocínio diz respeito ao posicionamento crítico dos jovens frente a atitude da escola, considerando-a machista. Para embasar esse posicionamento, o vestibulando apresenta no primeiro parágrafo do desenvolvimento a teoria de Durkheim, o que embasa a crítica de que instituições, como a escola, assimilam comportamentos sociais, no caso, o machismo. Já no segundo parágrafo do desenvolvimento, ele defende que a liberdade é uma medida educacional mais válida que o dogma. Para, então, na conclusão, reafirma a liberação como medida educativa que combate a objetificação feminina.

Depois, a medida escolar é apresentada como uma forma de opressão misógina. O que é comprovado no primeiro parágrafo por meio dos dados do blog “Think Olga”, o que corrobora a ideia de hipersexualização da mulher. No segundo parágrafo do desenvolvimento, esse aspecto também é enfatizado ao demostrar a necessidade um geração futura que encare com naturalidade a autonomia feminina em relação ao seu corpo e roupas. Logo, na conclusão, o raciocínio é reafirmado, mostrando que a liberação do uso de shortinhos combateria o machismo e consequente abuso sexual.

Assim, fica claro que cada parte do texto trouxe argumentação nova, a qual fortalece o posicionamento inicial, fazendo com que o texto seja coerente e progressivo.

Para reforçar, assista agora a videoaula da prof. Dani:

https://youtu.be/axc35-lJhWY

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.