Consolidação morfossintática

Aprenda o que é Consolidação Morfossintática e como ela se dá na língua falada e posteriormente na língua escrita. Estude gratuitamente para o Enem e os vestibulares!

Os processos de consolidação morfossintática que ocorrem na língua falada são múltiplos e podem demorar séculos para consolidar-se na língua escrita. Vamos conversar um pouquinho sobre eles? 

Consolidação morfossintática parece um nome desconfortável para qualquer vestibulando. Na verdade, é um processo recorrente na Língua Falada e que faz parte da Variação Linguística

Já reparou que muita gente, quando vai aprender um idioma estrangeiro, fala: “Mas eu nem sei falar português direito!”. Sabe, amigo. Sabe sim.

Se você aprendeu uma língua durante a sua primeira infância, dos 0 aos 6 anos, é muito provável que você venha a adquirir as habilidades de um falante nativo, que é aquele cuja fisiologia cerebral adquiriu de forma inata as estruturas de uma língua e suas possíveis variações. Ok, vamos com calma.

Quando as pessoas recorrem a esse tipo de afirmação “eu nem sei falar português direito”, na verdade, elas não estão se referindo à sua capacidade como falantes – que vai muito bem obrigado, mas às suas habilidades escritas de produzir um texto aplicando as regras gramaticais.

Talvez para você, que já ouviu falar que a Língua Falada tem propriedades diferentes das Língua Escrita, isso seja mais claro, mas na prática, nós ainda misturamos bastante os dois conceitos (L. F. e L. E.), gerando o preconceito linguístico.

Por exemplo, você compreende bem que as regiões do Brasil possuem formas diferentes de se referir ao mesmo objeto: o clássico biscoito x bolacha, certo? Geralmente, essa variante regional de vocabulário não desenvolve – ou não deveria – grandes disputas sobre quem está correto.

O mesmo não acontece quando se ouve alguém pronunciar “brusinha” ou “os menino”. Automaticamente, a noção de Variação Linguística parece substituída por um comportamento de superioridade intelectual e deboche. O que não tem fundamento linguístico nenhum, só social.

O português brasileiro, assim como o português de Portugal, tem origem no Latim. Se as línguas não sofressem alteração nenhuma, todo o Império Romano falaria o mesmo Latim que nós atualmente. O que não acontece por duas razões: existe uma Variante Histórica – a qual gerou a língua que falamos hoje e uma Variante Social, que fazia com que o Latim falado por líderes governamentais não fosse exatamente o mesmo que aquele utilizado pelos soldados responsáveis pela expansão do Império Romano e da língua.

Espera um minuto: se as Variantes Sociais não são as mesmas, isso quer dizer que pessoas de classes sociais diferentes não falam exatamente a mesma língua? Calma, não é por aí.

Falamos a mesma língua, mas cada brasileiro tem a sua própria configuração de variantes, pois nasceu em uma região (Variante Geográfica), em uma determinada época (Variante Histórica), possui idade (Variante Etária), gênero (Variante de Gênero) e classe social (Variante Social) específicos. Ou seja, cada “ser humaninho” tem uma combinação bem específica de variantes que muda com o tempo.

Certo, se a Variação Linguística é tão ampla, como as pessoas se entendem? É aí que está a beleza de toda a consolidação morfossintática. A língua tem como uma de suas funções a comunicação. Para que isso ocorra, ela não pode variar livremente – até porque a sua estrutura interna não o permite.

Cada língua possui uma espécie de sistema interno que determina as suas possibilidades de construção. E adivinha quem sabe isso melhor do que ninguém? O falante nativo! Isso mesmo, aquele cara do “Nem sei falar português direito”.

Lembra que no começo do texto eu mencionei que se você aprende uma língua durante a sua primeira infância, isso seleciona uma estrutura fisiológica cerebral, gerando as habilidades de um falante nativo? Então, você pode não ter consciência desse processo, mas quando alguém produz uma sentença agramatical na sua língua, como “*menino o bonita jogar bola a” você sabe que não faz sentido. Nesse caso, as palavras até existem no português brasileiro, mas a ordem sintática não. Logo, a variação existe, mas não é completamente livre.

Agora, finalmente, vamos chegar ao ponto que interesse a todo mundo: então pode falar “brusinha”? A palavra “brusinha” sofre um tipo de variação frequente do Latim ao Português. O mesmo aconteceu com a palavra “ecclesia”, que hoje utilizamos como “igreja”.

Ou seja, essa troca do “l” pelo “r” é um processo linguístico válido, que acontece com outras palavras e não é um privilégio de classes social ou da atualidade. O que incomoda nessa forma de expressão não é a sua legitimidade linguística, mas a questão social.

Muita gente acredita que língua é gramática, mas na verdade, língua é poder. Você nunca se perguntou o que define as regras da gramática? Por que elas podem ser tão complicadas e contraditórias? Então, na verdade, a gramática não é perfeita, ela é uma teoria de uso da língua feita para a sua conservação histórica e padronização da escrita. Mas uma teoria de uso baseada no uso de quem, se a Língua Falada varia? É aí que está.

A gramática representa uma convenção de opção de uso entre as várias estruturas possíveis e lógicas oferecidas pelo sistema linguístico. Logo, saber utilizar a gramática não te faz melhor que ninguém, só te dá mais acesso a instâncias sociais em que o uso da língua escrita e de uma expressão falada muito próxima a ela são exigidas. E infelizmente, esse acesso ainda é pautado por um escasso acesso à educação de qualidade.

Mas então, o que é consolidação morfossintática?

Consolidação morfossintática acontece quando uma Variação Linguística a nível morfológico e sintático é assimilada pela Língua Falada e posteriormente, num processo mais longo, pela Língua Escrita. Por exemplo: lembra que eu mencionei “os menino”? Nesse caso, a marcação do plural é feita apenas no artigo “os” e não no substantivo “menino”.

Esse processo já é bastante frequente na fala de brasileiros, mas não foi assimilado formalmente. Diferente do Francês, que apesar de manter o plural no substantivo, já não pronuncia essa marcação inclusive em ambientes formais: “Les garçons”, havendo a marcação de plural falada apenas no artigo. Ou seja, francês falando “os menino” é bonito, mas brasileiro não?

exemplos de consolidação morfossintática
Para finalizar sua revisão, assista ao vídeo da professora Jéssica, do nosso canal no youtube:

Para praticar, faça os exercícios abaixo:

1) (ENEM 2012)
Entrevista com Marcos Bagno
Pode parecer inacreditável, mas muitas das
prescrições da pedagogia tradicional da língua até hoje se baseiam nos usos que os escritores portugueses do século XIX faziam da língua. Se tantas pessoas condenam, por exemplo, o uso do verbo “ter” no lugar de “haver”, como em “hoje tem feijoada”, é simplesmente porque os portugueses, em dado momento da história de sua língua, deixaram de fazer esse uso existencial do verbo “ter”. No entanto, temos registros escritos da época medieval em que aparecem centenas desses usos. Se nós, brasileiros, assim como os falantes africanos de português, usamos até hoje o verbo “ter” como existencial é porque recebemos esses usos de nossos excolonizadores. Não faz sentido imaginar que brasileiros, angolanos e moçambicanos decidiram se juntar para
“errar” na mesma coisa. E assim acontece com muitas outras coisas: regências verbais, colocação pronominal, concordâncias nominais e verbais etc. Temos uma língua própria, mas ainda somos obrigados a seguir uma gramática normativa de outra língua diferente. Às vésperas de comemorarmos nosso bicentenário de independência, não faz sentido continuar rejeitando o que é nosso para só aceitar o que vem de fora.
Não faz sentido rejeitar a língua de 190 milhões de brasileiros para só considerar certo o que é usado por menos de dez milhões de portugueses. Só na cidade de São Paulo temos mais falantes de português que em toda a Europa!
Informativo Parábola Editorial, s/d.

Na entrevista, o autor defende o uso de formas linguísticas coloquiais e faz uso da norma padrão em toda a extensão do texto. Isso pode ser explicado pelo fato de que ele

A) adapta o nível de linguagem à situação comunicativa, uma vez que o gênero entrevista requer o uso da norma padrão.
B) apresenta argumentos carentes de comprovação científica e, por isso, defende um ponto de vista difícil de ser verificado na materialidade do texto.
C) propõe que o padrão normativo deve ser usado por falantes escolarizados como ele, enquanto a norma coloquial deve ser usada por falantes não escolarizados.
D) acredita que a língua genuinamente brasileira está em construção, o que o obriga a incorporar em seu cotidiano a gramática normativa do português europeu.
E) defende que a quantidade de falantes do português brasileiro ainda é insuficiente para acabar com a hegemonia do antigo colonizador.

RESPOSTA A

2) (ENEM 2012)
O léxico e a cultura
Potencialmente, todas as línguas de todos os tempos podem candidatar-se a expressar qualquer conteúdo. A pesquisa linguística do século XX demonstrou que não há diferença qualitativa entre os idiomas do mundo — ou seja, não há idiomas gramaticalmente mais primitivos ou mais desenvolvidos. Entretanto, para que possa ser efetivamente utilizada, essa igualdade potencial precisa realizar-se na prática histórica do idioma, o que nem sempre acontece. Teoricamente, uma língua com pouca tradição escrita (como as línguas indígenas brasileiras) ou uma língua já extinta (como o latim ou o grego clássicos) podem ser empregadas para falar sobre qualquer assunto, como, digamos, física quântica ou biologia molecular. Na prática, contudo, não é possível, de uma hora para outra, expressar tais conteúdos em camaiurá ou latim, simplesmente porque não haveria vocabulário próprio para esses conteúdos. É perfeitamente possível desenvolver esse vocabulário específico, seja por meio de empréstimos de outras línguas, seja por meio da criação de novos termos na língua em questão, mas tal tarefa não se realizaria em pouco tempo nem com pouco esforço.
BEARZOTI FILHO, P. Miniaurélio: o dicionário da língua portuguesa. Manual do professor.
Curitiba: Positivo, 2004 (fragmento).

Estudos contemporâneos mostram que cada língua possui sua própria complexidade e dinâmica de funcionamento. O texto ressalta essa dinâmica, na medida em que enfatiza

A) a inexistência de conteúdo comum a todas as línguas, pois o léxico contempla visão de mundo particular específica de uma cultura.
B) a existência de línguas limitadas por não permitirem ao falante nativo se comunicar perfeitamente a respeito de qualquer conteúdo.
C) a tendência a serem mais restritos o vocabulário e a gramática de línguas indígenas, se comparados com outras línguas de origem europeia.
D) a existência de diferenças vocabulares entre os idiomas, especificidades relacionadas à própria cultura dos falantes de uma comunidade.
E) a atribuição de maior importância sociocultural às línguas contemporâneas, pois permitem que sejam abordadas quaisquer temáticas, sem dificuldades.

RESPOSTA D