Ética, cidadania e as relações interpessoais

Geralmente nossas ações cotidianas são realizadas de forma automática, sem maiores reflexões ou questionamentos. Mas quando paramos para pensar nos fundamentos de nossas ações e, que definem as relações interpessoais estabelecidas, os princípios da ética e da cidadania vêm à tona e revelam-se fundamentais no processo de decisão e ação.

Entenda como a ética tem influência nas ações cotidianas e qual sua relação com a cidadania e nossas relações interpessoais. Revise Sociologia para o Enem!

Você já parou para pensar por que agimos de uma determinada maneira – e não de outra – quando nos deparamos com uma certa situação? No decorrer de nosso dia a dia, diante da correria da vida e dos diversos compromissos e afazeres que temos que cumprir, não paramos para pensar o que conduz nossas ações e decisões cotidianas. Geralmente agimos e pronto.

Para além de nossa ação individual diante de diversas situações, é possível perceber, também, um certo padrão ou tendência na maneira de agir das pessoas que pertencem a um grupo e/ou sociedade.

Como quando uma carteira de dinheiro e documentos é encontrada e sabe-se que devemos procurar seu dono(a) para devolvê-la, por exemplo. Ou quando cedemos nosso lugar no ônibus para uma pessoa idosa sentar.

Ou, até mesmo, quando temos interesse em uma determinada pessoa e desistimos daquela paquera ao descobrir que ele/ela tem namorado(a). Será apenas coincidência que estes comportamentos se repitam por parte de diferentes pessoas?

A ética

Quando paramos para refletir e questionar o por que de nossas ações, é possível perceber que grande parte delas são guiadas por certos valores e predisposições que definem nossa maneira de ser, agir, enxergar e nos relacionarmos com o mundo.

Estes valores e predisposições são influenciados por diversos fatores. Um deles é a ética. Neste sentido, pode-se dizer que o princípio ético das ações é um senso comum que permeia as relações interpessoais em nossa sociedade, que são aquelas relações estabelecidas entre duas ou mais pessoas em diversos contextos como a escola, o trabalho, a família ou a própria comunidade.

A ética é um conceito da Filosofia que reflete sobre as noções e princípios que fundamentam a vida moral. Reflete sobre as ações humanas em relação à vida em coletividade e à vida de cada um. A origem do termo vem da palavra grega êthos que significa caráter ou índole e, por isso, refere-se à maneira de ser de uma pessoa ou de uma sociedade.

O princípio ético exerce forte influência sobre nós e em nossa forma de agir, ainda que ele não seja determinante da ação final realizada. Isto significa dizer que, mesmo que existam expectativas para que se aja de maneira ética nas situações e relações cotidianas, nem sempre esse princípio pode ser identificado na atitude final que foi tomada. Ou seja, também é possível identificar ações e decisões antiéticas diante de um determinado fato ou situação.

Tal princípio ético é esperado não apenas pelas pessoas com os quais nos relacionamos diretamente em nosso cotidiano, como também é estabelecido e cobrado pelo Estado-nação através dos direitos e deveres do cidadão que, por sua vez, são expressos através das regras e leis estabelecidas.

Isso significa dizer que tais regras e leis vigentes também guiam nossas ações e estabelecem valores e predisposições que definem nossa maneira de ser, agir, enxergar e nos relacionarmos com o mundo.

Assim, pode-se considerar que as leis servem para manter a ética de/em nossas ações e, portanto, garantir que, no âmbito do Estado-nação, as relações interpessoais sejam justas, seguras e que mantenham a ordem social.

 

Marcadores: cidadania; relações interpessoais; direitos humanos

Cidadania

Podemos perceber, portanto, que ética e cidadania estão inter-relacionadas, uma vez que para ser considerado(a) um bom cidadão ou cidadã é necessário agir em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pelo Estado-nação através das leis.

Quando falamos em cidadania na Sociologia, um dos principais autores de referência é o sociólogo britânico Thomas Humphrey Marshall, mais conhecido como T. H. Marshall. Na concepção de Marshall, um cidadão ou cidadã pleno(a) é aquele(a) que exerce seus direitos civis, políticos e sociais de maneira efetiva.

Os direitos civis são aqueles que garantem as liberdades individuais, como o direito de pensar e se expressar, o direito de ir e vir, ou o acesso à propriedade privada, por exemplo.

Já os direitos políticos são aqueles que garantem a participação nas relações de poder da sociedade, seja através da possibilidade de escolher seus representantes (ou seja, votar), de se candidatar a um cargo, ou de se organizar politicamente, como no caso dos partidos políticos, sindicatos ou movimentos sociais.

Enquanto que os direitos sociais são aqueles considerados essenciais para a construção de uma vida digna e para o estabelecimento do bem-estar social, como a educação, a saúde, o lazer e a moradia, por exemplo.

Por fim, é importante ressaltar que a humanidade está em permanente processo de construção e aprimoramento e, portanto, a busca por mais direitos e melhores garantias individuais e coletivas é constante, sempre permeadas pelo princípio ético.

Ao longo deste processo, alguns marcos históricos foram determinantes como é o caso da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789 durante a Revolução Francesa para divulgar e estabelecer os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade humanas.

E, mais recentemente, a Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH) elaborada por representantes de diferentes origens jurídicas e culturais de todas as regiões do mundo, e promulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, delineando os direitos humanos básicos e oferecendo as principais diretrizes para a definição dos princípios éticos que devem ser estabelecidos nas relações interpessoais da humanidade.

Para continuar estudando, veja videoaula sobre o papel do Estado na formação da cidadania:

E esta sobre ética e liberdade:

Questões sobre ética e cidadania:

1) (Enem-2013) Tenho 44 anos e presenciei uma transformação impressionante na condição de homens e mulheres gays nos Estados Unidos. Quando nasci, relações homossexuais eram ilegais em todos os Estados Unidos, menos Illinois. Gays e lésbicas não podiam trabalhar no governo federal. Não havia nenhum político abertamente gay. Alguns homossexuais não assumidos ocupavam posições de poder, mas a tendência era eles tornarem as coisas ainda piores para seus semelhantes.

(ROSS, A. “Na máquina do tempo”. Época, ed. 766, 28 jan. 2013).

A dimensão política da transformação sugerida no texto teve como condição necessária a

a) ampliação da noção de cidadania.

b) reformulação de concepções religiosas.

c) manutenção de ideologias conservadoras.

d) implantação de cotas nas listas partidárias.

e) alteração da composição étnica da população.

2) (Enem-2010) A ética precisa ser compreendida como um empreendimento coletivo a ser constantemente retomado e rediscutido, porque é produto da relação interpessoal e social. A ética supõe ainda que cada grupo social se organize sentindo-se responsável por todos e que crie condições para o exercício de um pensar e agir autônomos. A relação entre ética e política é também uma questão de educação e luta pela soberania dos povos. É necessária uma ética renovada, que se construa a partir da natureza dos valores sociais para organizar também uma nova prática política.

(CORDI et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007 – adaptado).

O Século XX teve de repensar a ética para enfrentar novos problemas oriundos de diferentes crises sociais, conflitos ideológicos e contradições da realidade. Sob esse enfoque e a partir do texto, a ética pode ser compreendida como

a) instrumento de garantia da cidadania, porque através dela os cidadãos passam a pensar e agir de acordo com valores coletivos.

b) mecanismo de criação de direitos humanos, porque é da natureza do homem ser ético e virtuoso.

c) meio para resolver os conflitos sociais no cenário da globalização, pois a partir do entendimento do que é efetivamente a ética, a política internacional se realiza.

d) parâmetro para assegurar o exercício político primando pelos interesses e ação privada dos cidadãos.

e) aceitação de valores universais implícitos numa sociedade que busca dimensionar sua vinculação à outras sociedades.

3) (UFSC-2017) Leia os trechos a seguir.

Constituição dos Estados Unidos da América (1787)

Nós, o povo dos Estados Unidos, a fim de formar uma União mais perfeita, estabelecer a justiça, assegurar a tranquilidade interna, prover a defesa comum, promover o bem-estar geral, e garantir para nós e para os nossos descendentes os benefícios da Liberdade, promulgamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América.

Disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7 %C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html>. Acesso em: 6 set. 2016.

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

I. Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser baseadas senão na utilidade comum.

IV. A liberdade consiste em poder fazer tudo aquilo que não prejudique a outrem. Assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem outros limites senão os que assegurem aos membros da sociedade o gozo desses mesmos direitos; esses limites não podem ser determinados senão pela lei.

PELLEGRINI, Marco; DIAS, Adriana Machado; GRINBERG, Keila. Novo olhar – História. 2. ed. São Paulo: FTD, 2013, p. 190.

Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)

Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948

Art. 1º. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf>. Acesso em: 6 set. 2016.

Constituição da República Federativa do Brasil (1988)

Capítulo I

Dos direitos e deveres individuais e coletivos

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade […].

ALVES, Alexandra; OLIVEIRA, Letícia Fagundes de. Conexões com a História. v. 3. São Paulo: Moderna, 2010, p. 272.

Sobre os trechos apresentados e sobre a construção/constituição dos Direitos Humanos, é correto afirmar que:

01) embora defenda a ideia de igualdade entre os estadunidenses, a Constituição do país manteve em vigor a escravidão, que só seria abolida na década de 1860.
02) a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, redigida no contexto da Revolução Francesa (1789-1799), foi inspirada em princípios liberais e iluministas e tornou constitucional o direito à cidadania de todos os franceses, sem distinção de gênero, raça ou condição social.
04) a Constituição brasileira de 1988, promulgada em plena ditadura civil-militar, foi uma tentativa do governo brasileiro de reduzir as pressões do Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) pelo restabelecimento da democracia no país.
08) o lema “liberdade, igualdade e fraternidade”, disseminado pelos revolucionários franceses, também foi incorporado na política externa, como no apoio do governo da França ao processo de independência da colônia de Santo Domingo (Haiti).
16) a Constituição brasileira de 1988 reconheceu e assegurou aos remanescentes de quilombos o direito às terras tradicionalmente ocupadas.
32) os ideais democráticos estabelecidos pela Constituição estadunidense foram determinantes para garantir que a expansão territorial em direção à costa oeste durante o século XIX tivesse ocorrido de forma pacífica e democrática entre os diferentes povos envolvidos.

 

GABARITO

  1. A
  2. A
  3. Alternativas corretas: 1 e 16 (Somatória = 17)

 

 

Sobre o(a) autor(a):

O texto acima foi escrito por Natália Lima para o Curso Enem Gratuito. Natália é formada em Ciência Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina, e mestre em Sociologia Política pela mesma instituição. Atualmente, trabalha como professora de Sociologia na rede estadual de educação.

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