Formas de resistência dos escravos indígenas e africanos na América

Durante toda a história da América colonial, indígenas e africanos foram escravizados. Porém, veremos que esta não é apenas uma história de opressão, mas também de resistência.

Não podemos entender a escravização indígena e africana no território americano, sobretudo no período colonial, sem considerar as formas de resistência por parte desses grupos. Durante muito tempo, indígenas e pretos (o termo negro ainda não era utilizado) foram considerados apenas vítimas da ação colonizadora.

Esta visão provoca uma distorção histórica: leva muitas pessoas a entender esses sujeitos como pessoas sem ação e até como grupos homogêneos. Além disso, ela não possibilita compreender como aqueles seres humanos poderiam resistir tanto fisicamente como culturalmente à imposição do processo colonial que existiu desde o norte da América do Norte até o sul do nosso continente.

Conquista da América, escravidão e resistência indígena

Os povos nativos do continente americano foram a primeira opção de colonizadores europeus já no século XVI para o trabalho escravo. Essa noção é inconcebível fora da mentalidade mercantilista que forma o início do capitalismo no mundo ocidental.

Os europeus haviam se lançado ao mar no século XV não só para encontrar novas rotas comerciais com o Oriente, mas também procurando terras, metais e pedras preciosas, e povos para catequizar. Todas os meios para aumentar o acúmulo de riquezas eram bem-vindos ao leque de possibilidades. Dessa forma, de acordo com a lógica europeia do período, era necessário que se cortasse custos escravizando outros povos para o trabalho.

Os espanhóis foram os primeiros europeus a chegar no continente. Poucos anos depois os portugueses chegaram a essas terras, mas decidiram investir na colonização apenas a partir de 1530, pois o comércio com as Índias parecia mais promissor. O primeiro impulso dos invasores foi descobrir jazidas de ouro e outros metais preciosos e, para isso, não hesitaram em travar guerra contra os nativos.

Desde esse primeiro momento já podemos considerar que houve resistência às intenções europeias. Porém, com arcabuzes e doenças desconhecidas, os espanhóis logo foram conquistando grandes impérios como os astecas e incas.

formas de resistência
Imagem 1: Guerrilhas, por Johann Moritz Rugendas, 1835. Representação de indígenas lutando contra a tentativa de escravização dos colonizadores. Fonte: http://twixar.me/n6L1

Outro elemento que permite entender o processo colonizador é a convivência dos europeus com alguns líderes indígenas. Para cooptar um maior número de trabalhadores escravizados, os colonizadores prometiam recompensas para as autoridades nativas em troca da mobilização da mão de obra de seus semelhantes.

A posição desses sujeitos era complexa: não se tratava só de receber vantagens, mas também de colocar sua vida e a de seus semelhantes em risco caso resistissem ao invasor. Porém, nunca deixaram de existir grupos indígenas que se revoltavam contra a presença do homem branco, não apenas resistindo à escravização, mas também atacando engenhos e aldeamentos. Também era comum as alianças com europeus de outras nacionalidades que buscavam concorrer com portugueses e espanhóis.

A escravidão indígena, contudo, encontrou uma barreira entre os próprios europeus: os sacerdotes da Companhia de Jesus, mais conhecidos como jesuítas. Os jesuítas fundaram reduções e missões pela América Ibérica com o intuito de catequizar os indígenas, o que também é uma forma de colonização.

Porém, como cristãos, em tese, eles não deveriam ser escravizados. Na prática, o trabalho forçado ocorreu de outras maneiras: muitos colonos afirmavam que poderiam catequizar indígenas se eles trabalhassem em suas fazendas. Essa situação não era considerada escravidão, por mais que hoje tenhamos um entendimento diferente.

A escravidão indígena foi proibida no Brasil somente em 1750, com as medidas do Marquês de Pombal. Isso não significa que esse regime acabou, apenas tornou-se menor e ficou mais restrito a regiões remotas. De lá para cá, os indígenas continuaram defendendo seu território, atacando vilarejos e negociando tréguas com os homens brancos.

A resistência também era cultural, quando as tradições e a língua eram passadas de geração para geração apesar da imposição da fé católica e proibição de outros idiomas que não aqueles vindos da Europa.

Confira essa conversa entre Lilia Schwarcz e Drauzio Varella sobre o silenciamento dos indígenas na história

Colonização e escravidão negra

Encontrando entraves na escravidão indígena (diminuição daquela população, fugas constantes, resistência mais organizada e intervenção da igreja), os colonizadores europeus acabaram optando por escravizar povos de origem africana.

Apesar de os portugueses serem o povo europeu que dominava a maior faixa do litoral africano, espanhóis, holandeses, franceses e britânicos não ficaram para trás no comércio de escravizados. A justificativa moral encontrada para tamanha atrocidade vinha da religião: os africanos, cujo símbolo da escravidão passou a ser a cor da pele, eram tidos como descentes amaldiçoados de Cam, filho de Noé.

É verdade que a escravidão já existia entre os diversos povos africanos, mas ela se diferenciava em muito daquela exercida pelos europeus e não pode, em hipótese nenhuma, ser justificativa para esta segunda situação. Entre as nações africanas, como durante boa parte da história humana, o principal meio de escravização era por meio da guerra.

Contudo, como os povos africanos não viviam em uma sociedade mercantilista (pré-capitalista), não havia a necessidade de submeter os escravizados ao trabalho compulsório. Eles eram tidos mais como auxiliares na produção de outros povos, e podiam, inclusive, galgar altos postos na nova sociedade. Não ocorriam situações semelhantes, pelo menos com a mesma frequência, do outro lado do Atlântico.

Porém, assim como os indígenas, desde o primeiro impulso colonizador, diferentes africanos não se deixaram submeter tão facilmente à escravidão. Diferentes porque eles vinham de diversas regiões do continente, e era comum que não falassem a mesma língua e até que entrassem em conflito entre si. Eles não se viam como uma unidade de povos africanos, mas sim como malês, iorubás, moçambicanos. O europeu moderno que os denominou “negros” de forma genérica.

Desde sua captura em terras africanas até a vinda nos navios negreiros, aquelas pessoas resistiram ao seu sequestro, fosse lutando ou até mesmo cometendo suicídio. Ao desembarcarem na América, logo eram afastados de suas famílias e submetidos ao trabalho compulsório em lavouras, cidades ou na extração de minérios. Eram proibidos de portar armas, mas sempre era possível furtar lâminas e ferramentas para planejar fugas ou vinganças.

Amaldiçoar e cuspir na comida de seus senhores e inimigos também era prática comum. No silêncio da senzala, contar as velhas histórias, usar os velhos nomes e conversar na sua língua materna eram formas de resistir à colonização. Talvez o grande símbolo da resistência africana no Brasil seja a capoeira Angola, que durante a maior parte de nossa história foi proibida, tanto por fazer parte da cultura negra como por ser utilizada como resistência contra os brancos.

formas de resistência
Imagem 2: Representação do Quilombo dos Palmares.

Os quilombos foram os principais meios de resistência dos africanos neste continente. Eram redutos que formados por pretos e pretas fugidos do cativeiro, onde podiam recriar suas tradições e viver fora da dominação colonial. Zumbi dos Palmares (grande quilombo em Pernambuco) é o líder quilombola mais conhecido na história do nosso território. Ele fez oposição ao seu tio Ganga Zumba quando este planejava negociar com os brancos.

Zumbi acabou preso e condenado ao suplício (morte exemplar) para desestimular os negros a se rebelarem. Apesar disso, sua figura continuou sendo utilizada como símbolo de resistência de movimentos negros até hoje. A data da sua morte, celebrada no dia 20 de novembro, foi escolhida pelo Movimento Unificado como o dia da consciência negra.

Durante o período imperial do Brasil, a luta contra a escravidão ganhou novos aspectos para além da formação de quilombos e do confronto físico. É nesse período que ficaram conhecidas as irmandades dos homens pretos, associações de auxílio mútuo entre escravizados e ex-escravizados. Uma das mais conhecidas era a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

Além disso, a luta abolicionista ganhava mais força: seus adeptos preocupavam-se em acolher ex-escravizados e juntavam recursos para comprar a liberdade daqueles que ainda eram cativos. O Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão negra, em 13 de maio de 1888.

Confira com o Felipe Figueiredo, do canal Nerdologia, esta aula super elaborada sobre escravidão no Brasil

Exercícios:

Questão 01 – (FPS PE)

A escravidão marcou socialmente o Brasil, fomentando preconceitos e desigualdades. Na atualidade, o Brasil:

a) conseguiu estabelecer a harmonia inter-racial e a diversidade cultural.

b) mecanizou sua produção e superou os problemas do passado.

c) democratizou a sociedade e garantiu condições iguais para os cidadãos.

d) fortaleceu os partidos políticos, os debates e as ideias polêmicas.

e) mantém uma desigualdade que é produtora de miséria e epidemias.

 

Questão 02 – (UFT TO)

As afirmativas a seguir abordam sobre os quilombos e quilombolas na formação territorial do Brasil.

I. Os negros lutando pela liberdade nunca aceitaram passivamente a escravidão. Muitos fugiram e formaram quilombos que são espécies de vila onde os refugiados, os quilombolas, tinham autonomia.

II. São considerados quilombolas os remanescentes das comunidades que mantém certas tradições culturais ao longo do tempo.

III. O quilombo dos Palmares localizado na serra da Barriga no estado de Alagoas teve como principal líder de resistência e escravidão Zumbi dos Palmares.

IV. Os quilombos estão distribuídos e reconhecidos nas regiões Norte e Nordeste, não havendo registros em outras regiões do Brasil.

Considerando-se as afirmativas assinale a alternativa CORRETA.

a) Apenas as afirmativas I e IV estão corretas

b) Apenas as afirmativas II e III estão corretas

c) Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas

d) Apenas as afirmativas I, III e IV estão corretas

 

Questão 03 – (PUC GO)

Para o historiador Yuval Noah Harari, a noção de igualdade entre os seres humanos foi proclamada de maneira enfática no século XVIII, mas permaneceu cheia de contradições. Em seu best-seller Sapiens – uma breve história da humanidade, ele escreveu:

Apesar de sua proclamação da igualdade entre todos os homens, a ordem imaginada constituída pelos norte-americanos em 1776 também estabeleceu uma divisão. Criou uma hierarquia entre homens, que se beneficiavam dela, e mulheres, que ficaram desprovidas de autoridade. Criou uma hierarquia entre brancos, que desfrutavam de liberdade, e negros e indígenas, considerados humanos de uma espécie inferior, não compartilhando, assim, dos direitos igualitários dos homens. Muitos dos que assinaram a Declaração da Independência eram senhores de escravos. Eles não libertaram escravos depois que assinaram a Declaração nem se consideraram hipócritas. Em sua visão, os direitos dos homens pouco tinham a ver com os negros.

(HARARI, Yuval Noah. Sapiens uma breve história da humanidade.

Porto Alegre: L & PM, 2015, p. 141.)

Sobre a política contraditória dos Estados Unidos da América em relação à população negra, assinale a alternativa correta:

a) Essa política contraditória foi solucionada com a conquista do “velho oeste”, que incluiu territórios conquistados militarmente do México. Com a igualdade reconhecida, muitas famílias negras puderam se estabelecer nas terras abundantes da região, dedicar-se à pecuária e comercializar seus produtos livremente.

b) Essa política contraditória levou o país a comprar o Alasca, no extremo norte do continente, e a Libéria, no oeste do Continente Africano, para exportar os afrodescendentes insatisfeitos com o cerceamento dos direitos políticos.

c) Essa politica contraditória levou os Estados Unidos da América a uma guerra interna na segunda metade do século XIX, já que muitos estados não aceitavam a abolição da escravidão.

d) Essa política contraditória foi solucionada com a política radical do presidente Lincoln que, por descender de ex-escravos, forneceu crédito fácil a quem quisesse adquirir sua liberdade e ter a igualdade reconhecida.

 

01 – Gab: E

02 – Gab: C

03 – Gab: C

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.