A arte literária e suas funções

A função da literatura pode ser incitar a reflexão, mas também pode ser instrumento de divertimento, de construção de identidade e até de crítica social. Acompanhe esta aula para entender melhor e resolva os exercícios do final para testar seus conhecimentos!

A função da literatura e da arte

Em todos os tempos e em todos os lugares, pessoas de diferentes culturas produziram arte e literatura. O que será que explica isso? Nesta revisão abordaremos a função da literartura para desvendar a resposta dessa pergunta e gabaritar no Enem! 

O que é arte? 

Antes de compreendermos o as funções da literatura, é importante pensarmos sobre a arte em si. O vídeo a seguir vai nos ajudar a pensar sobre essa questão. Nele, Ferreira Gullar, um dos fundadores do Neoconcretismo no Brasil, traz uma definição sobre a importância da arte.

Como você pode ver no vídeo, Ferreira Gullar diz claramente que “A arte é feita porque a vida não basta”. Olha aí! Se o tema de redação for sobre arte, já temos uma boa reflexão, né? Mas, o que isso quer dizer? Talvez o principal significado dessa célebre frase seja o fato de que as pessoas produzem arte por um anseio quase inexplicável. É como se fosse uma forma de completar a vida. 

Sendo assim, ao pensarmos sobre o que é arte, podemos imaginar que as respostas podem ser muitas. Uma definição comumente usada diz que a arte é a representação do belo. Só que esta definição também nos leva a uma outra pergunta que, provavelmente, você acabou de se fazer: o que é o belo? 

Durante os séculos, a definição de belo foi sendo modificada. Na Antiguidade, o belo estava ligado ao ideal de beleza entre o povo grego, tendo o ser humano como um modelo de perfeição. 

Já no século XIX, durante o Romantismo, os sentimentos e o idealismo eram os pilares da manifestação de arte. Do século XX em diante é que o belo passa a expressar outras formas de artes como o movimento, a luz e até o inconsciente humano.  

Por ora, façamos o seguinte combinado: a arte pode ser entendida como uma recriação de uma linguagem. A arte traz uma reflexão, um debate e ainda uma inquietação ou provocação. 

A literatura como arte

Nosso recorte nesta revisão é sobre arte literária, beleza? Se uma das definições da literatura é “arte com palavras” e de arte como “a representação do Belo”, já podemos conversar sobre a função da literatura.  

Outro combinado agora. A definição de função aqui será entendida como a importância que a literatura teve e tem nas diferentes sociedades ao longo do tempo. Sendo assim, fica fácil compreender quem foram as pessoas, leitores e leitoras que reconheceram o papel da Literatura.  

Podemos afirmar com tranquilidade que a literatura consegue nos emocionar, seja causando tristeza, alegria e até nos divertir. Por meio da leitura, podemos “viver” outras vidas, quase que sentir outras emoções e sensações.  

A literatura nos desliga de nossos problemas e nos relaxa 

Desde os tempos mais remotos, a pessoas gostam de ouvir histórias, mesmo em povos mais antigos, a ficção sempre esteve presente nas narrativas. É só pensarmos em Esopo, com suas fábulas, ou Homero, com suas epopeias.  

Homero - função da literatura
Imagem 1: Homero.

Desde então, as narrativas estão presentes em nossas vidas para que possamos aprender com personagens e situações fictícias. Também podemos nos desligar do mundo real, de nossos problemas, para “descansar” indo ao mundo de sonhos e fantasias. Essa também é uma função da literatura.

esopo - função da literatura
Imagem 2: Esopo.
A literatura nos faz refletir 

É claro que a literatura não pode mudar o mundo, mas pode fazer com que as pessoas reflitam sobre determinadas questões e mudem o seu comportamento. Com essa atitude, num “efeito dominó”, o mundo pode ser mudado.  

A literatura não vai mudar a realidade como está, mas quem lê pode reavaliar sua própria existência e, assim, mudar a sua realidade. O texto literário também tem a função de provocar essa reflexão e por meio da ficção, por exemplo, trazer as respostas às perguntas que nos inquietam.  

Lembra do Esopo, citado antes aqui mesmo? O que as crianças aprendem quando ouvem alguma fábula? Algo de cunho pedagógico, algo que as faça refletir sobre amizade ou honestidade, por exemplo. 

A função da literatura na construção de nossa personalidade 

Ler um romance, uma novela ou um poema nos faz ter contato com sentimentos que são humanos. Isso nos ajuda a compreender melhor o mundo real à nossa volta. 

Você já deve ter sido “tocado” por um poema ou personagem de alguma obra. Depois disso, foi além, entendendo as atitudes desse personagem, chegando até concordar com elas ou não. Portanto, essa experiência ajuda, de certa forma, a compreender que interagimos com o que lemos.  

Nesse momento é que somos obrigados, no mínimo tentados, a refletir sobre essas vivências. Fazendo isso, estamos pensando e revendo nossas crenças e atitudes, moldando nossa personalidade.  

Literatura como arma de combate

Outra função da literatura é ser uma arma de combate, pois podemos fazer uma denúncia da realidade atual. É sabido que na época da ditadura militar no Brasil, alguns escritores e escritoras, como Chico Buarque, Rubem Fonseca e Cassandra Rios, arriscaram a própria vida para denunciar o que ocorria no país em suas obras. 

E o que nos mostram essas obras hoje? A importância, por exemplo, de um país democrático. Quando lemos essas obras, temos contato direto com o que ocorreu, olhando nosso passado. Com isso, procuramos buscar um mundo em que esse período não volte mais. 

Um exemplo de texto literário que faz uma crítica à sociedade é o poema de Ferreira Gullar, publicado em 1963, chamado Não há vagas 

Não há vagas

O preço do feijão 

não cabe no poema.  

O preço 

do arroz 

não cabe no poema. 

Não cabem no poema o gás 

a luz o telefone 

a sonegação 

do leite 

da carne 

do açúcar 

do pão 

O funcionário público 

não cabe no poema 

com seu salário de fome 

sua vida fechada 

em arquivos. 

Como não cabe no poema 

o operário 

que esmerila seu dia de aço 

e carvão 

nas oficinas escuras 

– porque o poema, senhores, 

está fechado: 

“não há vagas” 

Só cabe no poema 

o homem sem estômago 

a mulher de nuvens 

a fruta sem preço 

O poema, senhores, 

não fede 

nem cheira 

Nesse texto literário, temos bem clara a ideia de denúncia, uma crítica social ao momento vivido pelo poeta naquela época. Note: o que não “cabe” no poema?  

Não “cabe” no poema “o preço” de itens básicos e importantíssimos para a sobrevivência de qualquer cidadão comum.  

Um contrato com quem lê 

Quando estamos com um texto literário em mãos, alguns “acordos” precisam ser feitos, sem que nos demos conta disso. Por exemplo: ao iniciar a leitura de uma obra de fantasia, aceitamos que um bruxo possa voar em uma vassoura.  Isso ocorre porque a literatura precisa ter liberdade ficcional.  

Esse contrato entre leitor e obra possibilita que a história narrada possa ganhar vida, entreter e atiçar a curiosidade de quem lê. E por que isso é importante? Você, a esta altura sabe a resposta. É importante para que o leitor possa se abrir para as experiências que a obra pode lhe proporcionar. 

Como foi visto, as funções da literatura podem ser muitas, desde entretenimento até uma crítica social. Mas para que esses objetivos sejam atingidos, é necessário que obra, leitor e concepção de mundo estejam em harmonia. A literatura evidencia disfarçadamente o que se disfarça de fato. 

Para finalizar sua revisão, estude um pouco mais sobre a função da literatura com esta videoaula da professora Camila:

Exercícios sobre a função da literatura

 1- (ENEM 2010 – Segunda Aplicação) 

Açúcar  

O branco açúcar que adoçará meu café 

Nesta manhã de Ipanema 

Não foi produzido por mim 

Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. 

[…] 

Em lugares distantes, 

Onde não há hospital, 

Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome 

Aos 27 anos 

Plantaram e colheram a cana 

Que viraria açúcar. 

Em usinas escuras, homens de vida amarga 

E dura 

Produziram este açúcar 

Branco e puro 

Com que adoço meu café esta manhã 

Em Ipanema. 

GULLAR, F. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1980 (fragmento) 

A Literatura Brasileira desempenha papel importante ao suscitar a reflexão sobre desigualdades sociais. No fragmento, essa reflexão ocorre porque o eu lírico. 

a) descreve as propriedades do açúcar 

b) se revela mero consumidor de açúcar. 

c) destaca o modo de produção do açúcar. 

d) exalta o trabalho dos cortadores de cana. 

e) explicita a exploração dos trabalhadores. 

GABARITO: E

O eu lírico reflete sobre o açúcar que adoçará o café. Depois, percebe que o açúcar – branco e doce – é bem diferente da realidade – escura e amarga – de quem o produziu.  

2- (Enem 2019)  

Menina 

A máquina de costura avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mãe era, com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos, enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura. Interrompia às vezes seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido da mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita chamava-a de ( ) como quem diz ( ).

Tentava não pensar as palavras, mas sabia que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome depressa depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e – Mamãe, o que é desquitada? – atirou rápida com uma voz sem timbre. Tudo ficou suspenso, se alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia – sentia Ana Lúcia.

Era muito forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mãe parada com a tesoura no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina avançando desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz luz. 

 ÂNGELO. I. Menina. In: A face horrível. São Paulo: Lazuli, 2017. 

Escrita na década de 1960, a narrativa põe em evidência uma dramaticidade centrada na  

a)insinuação da lacuna familiar gerada pela ausência da figura paterna.  

b)associação entre a angústia da menina e a reação intempestiva da mãe.  

c)relação conflituosa entre o trabalho doméstico e a emancipação feminina.  

d)representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança.  

e)expressão de dúvidas existenciais intensificadas pela percepção do abandono.

GABARITO: D 

 A narrativa traz uma cena ocorrida na década de 60, época em que havia uma visão negativa sobre a condição da mulher separada do marido. Essa situação fez com que a pergunta da criança sobre o que significa “desquitada” tivesse deixado a mãe assustada. 

 3- (Enem 2019) 

Ed Mort só vai 

Mort. Ed Mort. Detetive particular. Está na plaqueta. Tenho um escritório numa galeria de Copacabana entre um fliperama e uma loja de carimbos. Dá só para o essencial, um telefone mudo e um cinzeiro. Mas insisto numa mesa e numa cadeira. Apesar do protesto das baratas. Elas não vencerão. Comprei um jogo de máscaras. No meu trabalho o disfarce é essencial. Para escapar dos credores. Outro dia entrei na sala e vi a cara do King Kong andando pelo chão. As baratas estavam roubando as máscaras. Espisoteei meia dúzia. As outras atacaram a mesa. Consegui salvar a minha Bic e o jornal. O jornal era novo, tinha só uma semana. Mas elas levaram a agenda. Saí ganhando. A agenda estava em branco. Meu último caso fora com a funcionária do Erótica, a primeira ótica da cidade com balconista topless. Acabara mal. Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.  

VERISSIMO, L. F. Ed Mort: todas as histórias. Porto Alegre: L&PM, 1997 (adaptado). 

 Nessa crônica, o efeito de humor é basicamente construído por uma  

a)segmentação de enunciados baseada na descrição dos hábitos do personagem.  

b)ordenação dos constituintes oracionais na qual se destaca o núcleo verbal.  

c)estrutura composicional caracterizada pelo arranjo singular dos períodos.  

d)sequenciação narrativa na qual se articulam eventos absurdos.  

e)seleção lexical na qual predominam informações redundantes.  

GABARITO: D

O uso de prosopopeia para ilustrar situações caricatas, como as que baratas se transformam em inimigos quase invencíveis, assim como a referência à “balconista topless” da Erótica, ajuda na construção de uma narrativa inverossímil e ridícula, o que confere humor ao texto.  Assim, é correta a opção D. 

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.