Fábula: o que é, características, exemplos e exercícios

A fábula é um texto curto, com animais agindo como humanos e sempre tem uma lição de moral no final. Veja exemplos, vídeos e exercícios sobre fábulas!

“Era uma vez…” Quem nunca ouviu ou leu uma história começando com essa frase? Esse tradicional início de texto é comum em um tipo de narrativa muito específico: a fábula.

Mas, o que são fábulas? Para você começar a entender um pouco da estrutura desse tipo de texto, tente lembrar de exemplos de fábulas. E aí? Conseguiu? Vou te ajudar! Lembra da história da formiga e da cigarra? E a história da lebre e da tartaruga? É claro que você conhece essas histórias, né? Então, por meio delas, você já tem algumas pistas das principais características das fábulas.

O que é fábula

As fábulas podem ser vistas como um ótimo exercício de reflexão acerca do comportamento das pessoas e das mudanças que a vida pode trazer.

Você já deve ter lido – ou até ouvido – várias fábulas. Elas são, em sua maioria, histórias curtas em que as personagens são representadas por animais que falam, sentem paixões, ou seja, têm atitudes humanas.

Além de serem narrativas curtas e de fácil compreensão, as fábulas possibilitam uma análise crítica em relação à humanidade. Criticam seus valores, defeitos, vícios e comportamentos.

A estrutura do gênero fábula tem servido de base para muitas versões e reescritas. Várias dessas fábulas têm objetivo humorístico e apresentam em seu enredo ensinamentos, moral e alerta sobre acontecimentos da vida real que ironizam ou criticam comportamentos humanos.

Portanto, o gênero textual fábula pode ser utilizado como maneira a permitir esclarecer uma verdade. Dessa forma, tem a finalidade de ensinar com a moral implícita e de contribuir para a formação do caráter do leitor.

Sendo assim, vamos partir do princípio de que você, estudante ligado/a, já entendeu as características mais importantes das fábulas. E, para melhorar o seu conhecimento sobre esse gênero textual, mais à frente utilizaremos os famosos textos “A raposa e as uvas”, de Esopo e de Millôr Fernandes. Por meio deles, vamos comparar fábulas de um autor clássico e um contemporâneo, do jeitinho que o Enem gosta. Vamos lá!

Esopo e Millôr Fernandes

Esopo e, claro, a produção de suas fábulas, vêm lá da Grécia, por volta dos séculos VI ou V a.C. Segundo alguns estudos baseados em históricos, Esopo possuía uma posição social nada agradável, marginalizada na sociedade. Esopo era um sujeito escravizado.

Ser escravizado, talvez, tenha sido o que justamente lhe incentivou a criar suas fábulas. Dessa forma, as narrativas desse autor criticavam, obviamente, as imperfeições da sociedade de sua época de maneira disfarçada, por assim dizer.

As fábulas de Esopo, ao contrário do que se pensa, não se dirigiam a crianças. Seu público alvo era o povo em geral, principalmente os adultos, fossem alfabetizados ou não, já que as fábulas eram orais.

Já Millôr Fernandes nasceu cerca de 25 séculos depois de Esopo, já na segunda década do século XX, no estado do Rio de Janeiro. Millôr se dirige a leitores, em geral adultos, hábeis o suficiente para apreender os significados presentes em seus trocadilhos, ironias, sátiras e paródias.

Millôr Fernandes - fábula
Millôr Fernandes.

Também utiliza a fábula como arma para a denúncia e protesto contra o regime autoritário da época da ditadura no Brasil. E, ainda, para pôr em debate as fraquezas e defeitos do homem.

Diferentemente de Esopo, Millôr tem seu alvo não nas pessoas mais simples. Ele escrevia pensando nos poderosos, nos comportamentos e nas atitudes daqueles que, de alguma maneira, se destacam no contexto socioeconômico e político pois país.

Por isso, essa sua “perseguição linguística” aos que eram donos do poder, na época da ditadura, trouxe-lhe severas consequências, como a prisão e o exílio.

Assim, como você pode ver, as fábulas têm função crítica ao longo de diferentes épocas. Apesar de muitas vezes parecerem textos infantilizados por usarem animais como personagens, buscam questionar as ações da sociedade.

As características da fábula

Como vimos anteriormente nesta aula, a fábula caracteriza-se por ser um texto curto com um conteúdo moral. Nesses textos predominam personagens que são animais e que possuem atitudes e comportamentos humanos.

As narrativas fabulosas eram tradicionalmente orais e é difícil saber com precisão quem as criou. No entanto, podemos afirmar que sempre acompanharam as pessoas em sua evolução social, estimulando, assim, sua imaginação.

Além disso, criavam um imaginário coletivo povoado por pessoas, lugares e situações fictícios que as levavam para um mundo onírico. Então, por meio da fala, concretizou-se a transmissão e aquisição de conhecimentos e, por assim dizer, a aquisição da cultura.

O gênero narrativo fábula é facilmente encontrado em praticamente todos os períodos históricos e, ao contrário do que se imagina, não são historinhas para crianças.

Sua fama se deve a sua ligação com a sabedoria popular, servindo para criticar vícios ou ressaltar virtudes terminando sempre com uma lição de moral.

Características da fábula

Estrutura da Fábula

Não é comum que os vestibulares costumem cobrar fábulas em suas redações, apesar de já ter acontecido em alguns concursos pelo país afora. Porém, reconhecer a estrutura textual das fábulas é importante para a prova de linguagens do Enem.

Como pertence ao gênero narrativo, uma fábula precisa conter:

  • Narrador

Pode ser tanto em primeira pessoa ou em terceira pessoa, mas é muito mais comum que apareça em terceira pessoa. Não há a necessidade de que o narrador explique muito detalhes sobre a vida das personagens.

  • Personagens

São animais e têm características antropomórficas, ou seja, agem como seres humanos.

  • Tempo e espaço

O tempo é cronológico na maioria das fábulas e, portanto, nossa sugestão que é você opte por ele. Geralmente, o ambiente é a floresta, um bosque ou algo do tipo.

A moral nas fábulas

A fábula pode ser tanto escrita em prosa como em versos. Entretanto, precisa obrigatoriamente apresentar uma moral, seja de maneira explícita ou implícita.

Para isso, geralmente se usa o recurso de um personagem aparentar ter uma vantagem sobre os demais – e essa vantagem acaba por ser tornar o seu problema da história. Assim, a moral da fábula geralmente é uma reflexão acerca dessa vantagem e traz um ensinamento pedagógico.

Ah! Essa moral trabalha com virtudes e defeitos da humanidade: soberba e humildade, verdade e mentira ou crueldade e benevolência.

Veja, agora, “A raposa e as uvas”, inspirada na fábula de Esopo:

Agora, leia o texto de Millôr Fernandes, baseado na fábula de Esopo.

A RAPOSA E AS UVAS

De repente a raposa, esfomeada e gulosa, fome de quatro dias e gula de todos os tempos, saiu do areal do deserto e caiu na sombra deliciosa do parreiral que descia por um precipício a perder de vista.

Olhou e viu, além de tudo, à altura de um salto, cachos de uva maravilhosos, uvas grandes, tentadoras. Armou o salto, retesou o corpo, saltou, o focinho passou a um palmo das uvas.

Caiu, tentou de novo, não conseguiu. Descansou, encolheu mais o corpo, deu tudo o que tinha, não conseguiu nem roçar as uvas gordas e redondas. Desistiu, dizendo entre dentes, com raiva:

―Ah, também não tem importância. Estão muito verdes.

E foi descendo, com cuidado, quando viu à sua frente uma pedra enorme. Com esforço empurrou a pedra até o local em que estavam os cachos de uva, trepou na pedra, perigosamente, pois o terreno era irregular, e havia o risco de despencar, esticou a pata e… conseguiu!

Com avidez, colocou na boca quase o cacho inteiro. E cuspiu. Realmente as uvas estavam muito verdes!

Moral: a frustração é uma forma de julgamento como qualquer outra.

(Millôr Fernandes. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1991. p. 118.)

Você notou que as fábulas de Millôr são construídas – em sua maioria – primordialmente no contexto das críticas. O objetivo do humor é a crítica e a denúncia.

Assim, as fábulas do Millôr não revelam a atitude ingênua ou desastrada do homem por meios das ações das personagens, mas atitudes sem um pingo de humanidade, o que nos leva humor diferente, que não busca o riso.

É isso, estudante! Espero que tenha curtido essa revisão com esse toque contemporâneo.

Por fim, assista à esta videoaula do canal Esquema e resolva as questões sobre o conteúdo.

Exercícios
1- (FAMEMA SP/2019)   

Leia a fábula “A tartaruga e a águia” do escritor grego Esopo (620 a.C.?-564 a.C.?).

Uma tartaruga pediu a uma águia que a ensinasse a voar. A ave tentou dissuadi-la:

– Voar é completamente contrário à sua natureza.

Mas a tartaruga suplicou e insistiu ainda mais. Então a águia pegou a tartaruga com suas garras, levou-a até bem alto no céu e depois a soltou. A tartaruga caiu nos rochedos e se espatifou.

(Fábulas, 2013.)

Depreende-se leitura da fábula a seguinte moral:

a) Os artifícios dos maus não escapam à perspicácia dos mais sensatos.

b) Muitas vezes o esforço vence o talento natural, quando este se torna indiferença.

c) Quem concebe armadilhas para os outros se torna o causador de seus próprios males.

d) Muitos se recusam a ouvir os bons conselhos que lhes são dados: azar o deles.

e) Aqueles que têm uma natureza má prejudicam até mesmo quem os ajuda.

2- (UNIRG TO/2017)   

A cabra e o asno

Viviam no mesmo quintal. A cabra ficou com ciúme, porque o asno recebia mais comida. Fingindo estar preocupada, disse:

– Que vida a sua! Quando não está no moinho, está carregando fardo. Quer um conselho? Finja um mal-estar e caia num buraco.

O asno concordou, mas, ao se jogar no buraco, quebrou uma porção de ossos. O dono procurou socorro.

– Se lhe der um bom chá de pulmão de cabra, logo estará bom – disse o veterinário.

A cabra foi sacrificada e o asno ficou curado.

QUEM CONSPIRA CONTRA OS OUTROS TERMINA FAZENDO MAL A SI PRÓPRIO.

(Fonte: Almanaque do Brasil de cultura popular,
ano 5, n.55, out. 2003, p-29.)

Reconhecemos no texto o gênero textual:

a) crônica.

b) apólogo.

c) fábula.

d) conto

3- (UNINORTE AC/2017)

Uma casa é muito pouco para um homem; sua verdadeira casa é a cidade. E os homens não amam as cidades que os humilham e sufocam, mas aquelas que parecem amoldadas às suas necessidades e desejos, humanizadas e oferecidas ‒ uma cidade deve ter a medida do homem.

É possível que, pouco a pouco, os lugares cordiais da cidade estejam desaparecendo, desfigurados pelo progresso e pela técnica, tornados monstruosos pela conspiração dos elementos que obrigam as criaturas a viver como se estivessem lutando, jungidas a um certo número de rituais que as impedem de parar no meio de uma calçada para ver uma criança ou as levam a atravessar uma rua como se estivessem fugindo da morte.

Em cidades assim, a criatura humana pouco ou nada vale, porque não existe entre ela e a paisagem a harmonia necessária que torna a vida uma coisa digna. E o habitante, escravizado pelo monstro, vai-se repetindo diariamente, correndo para as filas dos alimentos, dos transportes, do trabalho e das diversões, proibido de fazer algo que lhe dê a certeza da própria existência.

Para que se ame uma cidade, é preciso que ela se amolde à imagem e semelhança dos seus munícipes, possua a dimensão das criaturas humanas.

O habitante deve sentir-se livre e solidário, e não um guerreiro sozinho, um terrorista em silêncio. Deve encontrar na paisagem os motivos que o entranham à vida e ao tempo. E ele não quer a paisagem dos turistas, onde se consegue a beleza infensa dos postais monumentalizados; reclama somente os lugares que lhe estimulem a fome de viver, sonegando-o aos cansaços e desencantos.

IVO, Lêdo. A fábula da cidade. Disponível em: <http://
biucsproject.org>. Acesso em: abr. 2017. Adaptado.

A crônica trata da importância da cidade na vida dos homens, revelando que é preciso que ela se ajuste às necessidades de seus habitantes, para que eles sintam “fome de viver”.

Tendo em vista os aspetos morfossintáticos que contribuem para a organização do texto, é correto afirmar:

a) O pronome demonstrativo “aquelas”, na oração “mas aquelas que parecem amoldadas às suas necessidades e desejos, humanizadas”, retoma, catafórica e contextualmente, o substantivo “cidades”.

b) O conectivo “que”, em “É possível que, pouco a pouco, os lugares cordiais da cidade estejam desaparecendo,” e em “tornados monstruosos pela conspiração dos elementos que obrigam as criaturas a viver”, restringe, nos dois contextos, o sentido dos termos anteriores.

c) O elemento coesivo “como”, em “obrigam as criaturas a viver como se estivessem lutando,”, apresenta uma relação circunstancial de causa.

d) A partícula “lhe” e a expressão “da própria existência”, em “lhe dê a certeza da própria existência.”, exercem funções distintas, pois o pronome completa o sentido de um verbo, e a locução, de um nome.

e) A palavra “‘se”, em “O habitante deve sentir-se livre e solidário” e em “a paisagem dos turistas, onde se consegue a beleza infensa dos postais”, funciona, nas duas ocorrências, como pronome apassivador.

Gabarito
  1. D
  2. C
  3. D

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.

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