A questão de gênero

Entenda o conceito de gênero e por que ele nos ajuda a compreender as desigualdades presentes na nossa sociedade!

Todos sabem que as vidas de homens e mulheres são diferentes em muitos aspectos: comportamento, carreira, vida pessoal e por aí vai. Muitos acreditam que essas diferenças entre homens e mulheres são inatas, ou seja, naturais: homens são de um jeito, mulheres de outro, e ponto final. A teoria de gênero busca derrubar essa concepção.

Para a Sociologia o conceito de gênero refere-se à construção social do sexo biológico. Em outras palavras, significa que a maneira de ser homem e de ser mulher é orientada pela cultura de determinada sociedade, ou seja, que homens e mulheres são moldados de uma determinada forma desde crianças de acordo com o ambiente em que estão inseridos.

Por exemplo, existem diferenças de comportamento entre mulheres de diferentes países. Do mesmo modo, os homens de séculos atrás não se expressavam da mesma maneira que hoje. Tais diferenças seriam impossíveis se o comportamento de homens e mulheres fosse uma característica inata.

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”

A maneira como homens e mulheres se comportam em sociedade corresponde a um intenso aprendizado sociocultural que nos ensina a agir conforme as prescrições de cada gênero. Desde cedo, as crianças aprendem que há comportamentos e brincadeiras diferentes de meninos e meninas.

Há uma grande expectativa social em relação à maneira como mulheres e homens devem agir, andar, falar, sentar, mostrar seu corpo, brincar, dançar, namorar, ter relações sexuais, cuidar do outro, amar etc.

Em decorrência do gênero, há também modos e locais específicos de trabalho e de circulação, além de expectativas sobre quais atividades devem ser desempenhadas.

Por exemplo, ainda são raros homens que trabalham como empregados domésticos, cuidadores de crianças, manicure, etc. Do mesmo modo, ainda são minoria as mulheres caminhoneiras, trabalhadoras da construção civil, pescadoras, políticas, etc.

Com a frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, a pensadora francesa Simone de Beauvoir não está se referindo ao sexo biológico, mas à construção social do gênero: não existe nenhum fator natural que determine os papéis sociais que a mulher deve representar.

Pelo contrário, a mulher é ensinada desde pequena que deve agir conforme as expectativas de gênero importas pela sociedade.

Gênero, sexo e orientação sexual

Enquanto o sexo de uma pessoa está relacionado às suas características físicas e biológicas (como a genitália), a identidade de gênero tem a ver com a maneira que ela se percebe: pode ser homem, mulher ou transgênero / transexual.

Já a orientação sexual se refere a qual(is) gênero(s) uma pessoa sente atração sexual e/ou romântica. Uma pessoa homossexual sente atração por pessoas do mesmo gênero; heterossexual, por pessoas do gênero oposto; e bissexual por ambos os gêneros.

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O infográfico acima explica direitinho a diferença entre sexo, orientação sexual, identidade de gênero e papel de gênero!

Homofobia e transfobia

O maior desafio das pessoas que possuem uma identidade de gênero ou orientação sexual diferente da dominante é vencer o preconceito e reconhecer seus direitos.

Fobia é uma palavra grega que significa aversão e ódio. Logo, homofobia significa discriminação aos homossexuais. Podemos falar também de transfobia (contra transsexuais, transgêneras ou travestis), bifobia (contra bissexuais) e lesbofobia (contra lésbicas).

O patriarcado e a desigualdade de gênero

As sociedades ocidentais foram historicamente construídas sob a lógica do patriarcado. O patriarcado é a naturalização do predomínio da dominação masculina na estrutura social. A dominação masculina nasce na esfera privada, no seio da família, e se expande para toda a vida pública, nas esferas da economia, política, cultura.

O papel da mulher numa sociedade patriarcal está restrito à esfera doméstica e por isso há uma distribuição desigual de poder. Quantas mulheres que se consagraram como figuras históricas você consegue se lembrar? Pensemos na composição da Câmara Federal: 90% dos deputados são homens!

Até 1930, as mulheres brasileiras não podiam votar em seus representantes políticos. Nas últimas décadas, as mulheres têm conseguido importantes avanços. Entretanto, ainda estamos longe de alcançar a igualdade entre os gêneros.

feminismo, gênero
Feministas protestam contra desigualdades de gênero

Um obstáculo que as mulheres enfrentam – e que muitas vezes permanece invisível – é a dupla jornada de trabalho. Ou seja, além do emprego formal, a maioria das mulheres tem que realizar ainda trabalhos domésticos, como limpar a casa, fazer comida e cuidar dos filhos.

Outro problema vivenciado diariamente pelas mulheres é a violência. Além de não poderem andar tranquilas nas ruas sem serem assediadas, infelizmente é muito comum a violência doméstica, ou seja, quando as mulheres são violentadas dentro de casa, pelos seus próprios maridos ou namorados.

A proximidade do agressor, que muitas vezes exerce um domínio social, financeiro ou familiar sobre as vítimas é um obstáculo para que as mulheres façam denúncias e para que o assunto seja tratado de forma mais aberta.

Quer saber mais sobre desigualdade de gênero? Assista ao nosso vídeo sobre a divisão do trabalho doméstico, que tem tudo a ver com o assunto!

Confira também a videoaula do canal “Hydra – cabeças pensantes” sobre desigualdade de gênero

Exercícios

1 – (ENEM/2015) Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.

BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Na década de 1960, a proposição de Simone de Beauvoir contribuiu para estruturar um movimento social que teve como marca o(a)

a) ação do Poder Judiciário para criminalizar a violência sexual.

b) pressão do Poder Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho.

c) organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero.

d) oposição de grupos religiosos para impedir os casamentos homoafetivos.

e) estabelecimento de políticas governamentais para promover ações afirmativas.

2 – (ENEM/2010) “Pecado nefando” era expressão correntemente utilizada pelos inquisidores para a sodomia. Nefandus: o que não pode ser dito. A Assembleia de clérigos reunida em Salvador, em 1707, considerou a sodomia “tão péssimo e horrendo crime”, tao contrário à lei da natureza, que “era indigno de ser nomeado” e, por isso mesmo, nefando.

OVAIS, F.; MELLO E SOUZA L. História da vida privada no Brasil. V. 1. São Paulo: Companhia das Letras. 1997 (adaptado).

O número de homossexuais assassinados no Brasil bateu o recorde histórico em 2009. De acordo com o Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais (LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis), nesse ano foram registrados 195 mortos por motivação homofóbica no País. Disponível em: www.alemdanoticia.com.br/utimas_noticias.php?codnoticia=3871. Acesso em: 29 abr. 2010 (adaptado).

A homofobia é a rejeição e menosprezo à orientação sexual do outro e, muitas vezes, expressa-se sob a forma de comportamentos violentos. Os textos indicam que as condenações públicas, perseguições e assassinatos de homossexuais no país estão associadas

a) à baixa representatividade política de grupos organizados que defendem os direitos de cidadania dos homossexuais.

b) à falência da democracia no país, que torna impeditiva a divulgação de estatísticas relacionadas à violência contra homossexuais.

c) à Constituição de 1988, que exclui do tecido social os homossexuais, além de impedi-los de exercer seus direitos políticos.

d) a um passado histórico marcado pela demonização do corpo e por formas recorrentes de tabus e intolerância.

e) a uma política eugênica desenvolvida pelo Estado, justificada a partir dos posicionamentos de correntes filosófico-científicas.

3 – (ENEM, 2013)

TEXTO I – Ela acorda tarde depois de ter ido ao teatro e à dança; ela lê romances, além de desperdiçar o tempo a olhar para a rua da sua janela ou da sua varanda; passa horas no toucador a arrumar o seu complicado penteado; um número igual de horas praticando piano e mais outras na sua aula de francês ou de dança Comentário do Padre Lopes da Gama acerca dos costumes femininos [1839] apud SILVA, T. V. Z. Mulheres, cultura e literatura brasileira. Ipotesi — Revista de Estudos Literários, Juiz de Fora, v. 2. n. 2, 1998.

TEXTO II As janelas e portas gradeadas com treliças não eram cadeias confessas, positivas; mas eram, pelo aspecto e pelo seu destino, grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam, sonegadas à sociedade, as filhas e as esposas. MACEDO, J. M. Memórias da Rua do Ouvidor [1878]. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 20 maio 2013 (adaptado)

A representação social do feminino comum aos dois textos é o(a):

a) submissão de gênero, apoiada pela concepção patriarcal de família.

b) acesso aos produtos de beleza, decorrência da abertura dos portos.

c) ampliação do espaço de entretenimento, voltado às distintas classes sociais.

d) proteção da honra, mediada pela disputa masculina em relação às damas da corte.

e) valorização do casamento cristão, respaldado pelos interesses vinculados à herança.

4 – (UFU, 2013) A sociedade contemporânea abriga inúmeros e diversificados movimentos sociais, dentre eles, os movimentos feministas que visam à transformação da situação feminina e das relações entre mulheres e homens na sociedade, em diversos aspectos. A despeito de suas diversas configurações ─ liberal, socialista, radical, pós-moderna, etc., são bandeiras comuns às diversas agendas feministas

a) a luta contra a discriminação sexual no trabalho, o combate à violência de gênero e a elaboração de uma grande teoria capaz de aglutinar as mulheres e unificá-las no bojo da categoria universal “mulher”.

b) a luta contra as desigualdades assentadas sobre as diferenças sexuais dos sujeitos sociais; a igualdade de oportunidades para mulheres e homens; o combate à violência de gênero.

c) o combate à violência de gênero; a luta pela preservação de guetos ocupacionais femininos e masculinos; a defesa de direitos sexuais e reprodutivos.

d) o combate à propriedade privada como mecanismo de opressão de gênero; a defesa de direitos sexuais e reprodutivos; a luta contra a discriminação no trabalho.

Gabarito:

1 – C

2 – D

3 – A

4 – B

Sobre o(a) autor(a):

Luiz Antonio é formado em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em Sociologia também pela UnB. Atualmente é doutorando em Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).